Cristas temporárias (como um relógio de Dali)

Nos anos 1990 meus pais trouxeram de Portugal um daqueles galos do tempo — que a revista Ípsilon chamara de «objecto (quase) obsoleto». O nosso também ficava em cima da televisão. Papai gostava de deixar a janela aberta para que o bondoso galo avisasse possíveis tempestades. Muitas vezes mudava-se de cor, mas não acertava na meteorologia. Minha mãe, que aprendera a admirar as façanhas do galito del tiempo, metia a culpa nos filhos. Pelos vistos, os nossos dedinhos oleosos a tocar na escama sensível do meteorologista afetavam sobremaneira a capacidade do galo de prever se chuva ou sol.

* * *

Quem passeia à tardinha pela Quadra Interna 28, mais especificamente ao conjunto 2, consegue observar monsieur Dimanche trabalhando em alguma pintura impressionista. O ateliê do belga naturalizado brasileiro fica ao rés da rua e uma enorme fachada de vidro oferece aos transeuntes um honesto espetáculo pictórico: Dimanche a mover cores com tanto à vontade e confiança. A claridade opaca do entardecer realça o cenário, além de emprestar um estilo descompromissado às pinturas. Dir-se-ia ainda que os pincéis fazem parte da companhia de dança do teatro Bolshoi, tamanha a leveza de toda a operação. Certa feita tomei coragem e aproximei-me da vidraça. O pintor descansara os óculos arredondados no compartimento do cavalete e ofereceu-me uma chávena de café. Madame Dimanche trouxe-nos também uns docinhos apetitosos. O pintor sorrira e tirara da estante empoeirada o meu Paraquedas – um ensaio filosófico: livro taciturno, mas um bom livro, ele disse. A biblioteca contava ainda com edições raras de Charles Dickens, Ovídio e Sêneca. Enquanto tomávamos silenciosamente o café, olhei em redor: uma data de telas com pontilhados milimetricamente dispostos, como se o ateliê fosse uma espécie de alucinação onírica. Sobre a escrivaninha de Dimanche, que (um pouco como Man Ray) escreve o que não deseja pintar e pinta o que não pode escrever, havia um desgastado galo do tempo português. Dimanche tocara nos meus ombros e num tom divertido dissera: às vezes funciona, outras tantas vezes não funciona.

— P. R. Cunha

Como guardar imagens chilenas apropriadamente

Nestes meus quase 34 anos de planeta Terra jamais cogitei a possibilidade de não levar o aparato fotográfico às viagens. Desta vez estou a fazê-lo.

(Ainda não é a viagem, mas o início, o começo despretensioso — prévias [previsões].)

Defender a ideia de que o nosso cérebro também é um mecanismo imprevisível que captura os tais momentos do tempo perdido. Caixa craniana/câmera escura registram, arquivam, revelam mensagens do passado.

Minhas últimas duas viagens: Niterói & Portugal (de Lisboa até Aveiro) — contaminado pela quantidade absurda de gentes a tirar fotografias; a mais delicada de todas as atividades predatórias, como diria Susan Sontag. A culpa, o remorso: eu, com a minha Canon, também fazia parte do grupo voyeurístico.

Ir aos concertos e não conseguir prestar atenção, porque os telemóveis luminosos e as câmeras tomaram conta de tudo.

A lente da máquina e o olho humano precisam de luz. E aqui começo as minhas reflexões propriamente ditas.

Acontece que o universo no qual vivemos possui um limite de velocidade: 299,792 km/s; a chamada velocidade da luz. Habitamos este espaço físico com regras específicas onde nada pode ultrapassar esses 299,792 km/s. 

Estamos constantemente em viagem: as informações do nosso corpo percorrem o espaço até chegar aos outros receptores.

Duas pessoas estão a um metro de distância e conversam sobre, digamos, os negócios de determinada empresa. A título ilustrativo, podemos chamá-las de Marcos e Luana. Por causa do limite de velocidade da luz, Marcos está a ver Luana com um atraso (delay) de 3,3 nanossegundos.* Pode parece um simples bate-papo comercial que supostamente ocorre no presente, mas Marcos e Luana estão sempre um bocadinho no passado. O cérebro a captar fótons espectrais.

*0.000000003 (em segundos).

Tudo o que vemos em redor é como foi, não como é. O agora absoluto, para a luz, não existe. Vivemos a observar atrasos, à espera de um presente que nunca chega.

Os corpos celestes podem esclarecer. A Lua brilhosa que aparece elegante numa noite sem nuvens está a cerca de 380 mil quilômetros de distância — de forma que a luz demora quase dois segundos para chegar até nós. O Sol, a 149.6 milhões de quilômetros, ilumina a nossa atmosfera com oito minutos de atraso.

Ao que tudo indica, mandaremos humanos para Marte — 227.9 milhões de quilômetros da Terra. E aqui o arranjo torna-se um tanto macabro. Se algum astronauta morrer em solo marciano, os terráqueos só saberiam 14 minutos depois.

Agora, voltemos às comparações olho-humano/lente-fotográfica; captação de luz, de imagens, das informações que se mostram atrasadas. O fotógrafo que mira a própria câmera a fim de preservar a história, o acontecimento. Viu algo que lhe interessou imenso, apertou o botão. Crê conservar uma cena que de outra forma desapareceria. 

Armazenamento de memórias, falhas. Uma fotografia minha em que estou a brincar no parquinho com os meus irmãos (1988), o papel está a perder a cor, as bordas dilaceram-se. Se imagem digital, a instabilidade dos servidores eletrônicos — hoje, estão a operar, amanhã, não se sabe ao certo (quedas repentinas do sistema de grandes corporações [motivos desconhecidos], dados irrecuperáveis). O cérebro humano que também se deteriora (Alzheimer).

Tudo se perde.

Existir num passado constante e a angústia de não conseguir capturá-lo adequadamente. A fotografia como extensão da incapacidade cerebral de manter-nos ao presente, a fotografia (Sontag, de novo) como criação de um mundo em duplicata, de uma realidade de segundo grau. Uma busca dramática para interceptar a velocidade da luz.

No cenário vertiginoso de um agora ausente, tirar a câmera da mochila e apontá-la outra vez para o que já foi. Eis a sina de quem se apaixona por fantasmas. 

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

Metaimagem, constrangimento: câmera apontada para outra.

Realidade paralela

Um coveiro de Niterói que durante mais de quarenta anos enterrou os mortos da cidade e era conhecido por toda a gente como «Raimundo, aquele que enterra os nossos mortos» faleceu de forma súbita na noite passada enquanto lia, segundo testemunhas, o romance Paraquedas – um ensaio filosófico de P. R. Cunha. Certo colega de profissão, que fora escalado pelo cemitério para preparar a cova do notável coveiro apreciador de literaturas, dissera aos repórteres que poucas vezes sentiu-se tão perturbado: amanhã, este coveiro enterrará um amigo coveiro, dor terrível. Autoridades locais investigam o caso e não descartam a possibilidade de proibir as vendas do supracitado romance até que os detalhes sejam devidamente esclarecidos. Raimundo deixa uma viúva inconsolável e duas filhas.

— P. R. Cunha

Uma paz particular

Certo ator brasileiro, depois de ganhar todos os prêmios que a Companhia Internacional de Teatro poderia oferecer, dizem os jornais, voltou ao Brasil com a merecida reputação de um dos maiores atores do mundo. Assim que aterrara em São Paulo, foi recebido por um grupo de empresários que prometera ao talentoso ator brasileiro o que ele desejasse: qualquer coisa, basta pedir — disseram os empresários. Ao que o ator brasileiro, tentando se fazer entender enquanto uma multidão de fãs gritava o seu nome, teria dito que só queria ser deixado em paz. Como mesmo depois de três meses o ator ainda não havia conseguido o tão desejado sossego, contratara um duplo para representá-lo, pagando inclusive quantias consideráveis (praticamente toda a premiação em dinheiro oferecida pela Companhia Internacional de Teatro) para que o sósia se submetesse a uma cirurgia plástica a título de retocar possíveis diferenças comprometedoras. Além de ter que ficar à janela acenando para os curiosos que permaneciam ao portão da casa do ator brasileiro, um talento mundial, repetem os jornais, o dublê também ficara encarregado de se encontrar periodicamente com todo e qualquer grupo de empresários que demonstrasse interesse pela carreira do célebre artista. Os empresários nunca notaram qualquer diferença; são muito estúpidos.

— P. R. Cunha

«Guru está estressado» seguido de «Breve nota aos leitores da União Europeia»

Isto foi em 2017. O Harold apareceu da forma que costumava aparecer, ou seja, do nada, sem aviso, tal comboio descarrilhado — o que me fez lembrar das palavras da mamã dele, que não está mais entre nós (foi morar na Turquia com um sujeito que é bem a lata do Orhan Pamuk). A mamã do Harold costumava me dizer que é bem coisa do Harold soar e agir como um comboio descarrilhado. Então Harold apareceu e disse: tu escreves de mais, tu ficas aí sentado e escreves e escreves e escreves, enquanto lá fora há um mundo de possibilidades. Expliquei inutilmente que tinha acabado de voltar das praias de Pipa-RN, que precisava mesmo de escrever, enquanto o Harold insistia: escreves, escreves, tac-tac na máquina de escrever, escreves. E aqui ele me puxa da cadeira e diz que vamos ter com Guru. Entramos no automóvel do Harold, um Lada Niva 4×4, e seguimos para a quinta onde Guru, pelos vistos, gosta de passar as férias. O Harold dirige feito um louco, ou um condenado à prisão perpétua. Não vais ficar enjoadinho justo na altura em que vamos ter com Guru — diz o Harold, num tom incisivo, patriarcal. Pergunto a ele se Guru é aquele sujeito laranja com cara de quem ingeriu doses inapropriadas de Ritalina® e o Harold fica possesso com essa comparação disparatada, talvez a pensar que ter me tirado do meu habitat, ter me tirado da minha escrivaninha não tenha sido mesmo grande ideia. De certeza que agora apetece ao Harold, ou pelo menos passa pela cabeça do Harold, levar-me de volta a casa, mas isto não é mais possível, estamos longe. O rádio do Niva toca uma canção foleira dos 1980 com bateria eletrônica afogada num Gated Reverb que a coisa toda faz os altifalantes do automóvel quererem sair pelas portas. Meu comentário leviano sobre Guru enfurecera o Harold, isto é certinho. Quando chegamos ao reduto de Guru — com aqueles tipos de árvores perfeitas para se esvaziar a bexiga, dar uma generosa mijada depois de beber litros da Sagres Pilsen «como se não houvesse o amanhã» (cito uma canção folclórica) — percebemos que Guru está a tomar o pequeno-almoço na varanda com uma loura esbelta à moda Claudia Schiffer e o Harold logo me cutuca, apertando-me o braço com força para que eu mantivesse o bico calado, pois a loura é bem a esposa de Guru, ele diz, a loura é outra coisa, para que eu não cobiçasse a mulher alheia e etiquetas relacionadas. Guru, vestido mais como um Oberleutnant zur See (oficial de primeira classe) do que um líder espiritual propriamente dito, levanta a embalagem de cornflakes e depois entorna o conteúdo numa tigela com motivos do rato Mickey. A cena é tão absurda e tão hilária que preciso de conter um riso em estado de ebulição. Não comento nada sobre a cena, muito menos sobre a vestimenta tipo Kriegsmarine, por respeito ao Harold. Guru nos convida para comer o pequeno-almoço com ele, apontando com dedos nodosos às cadeiras vazias ao redor da mesa. Percebo que a loura está a ler qualquer coisa vulgar, uma edição vintage da Playboy. A mulher da capa da revista lembra um pouco a própria loura, a senhora esposa de Guru, poder-se-ia dizer até que eram irmãs, ou primas. O Harold começa a falar sobre uns assuntos transcendentais com Guru. A loura altera o olhar da seguinte forma: espia a Playboy vintage e flerta comigo enquanto não espia a Playboy vintage. O Harold meio que percebe tudo, percebe que há qualquer namorico entre mim e a loura. Mas Guru come cornflakes, Guru não percebe nada. A loura então se levante e diz que vai dar um passeio. Eu preciso de ficar sentadinho a ouvir o papo trance de Guru e Harold. Guru começa a falar que recentemente perseguira um homem de uns quarenta anos que invadira a quinta dele para mijar numa das árvores (apenas confirmando as minhas observações iniciais de que me parecem excelentes árvores para descarregar-se), Guru teria então perseguido o homem, Guru segurando uma espécie de machadinha, Guru tresloucado, forçando o homem a deitar-se na relva e, ainda segundo Guru, quase matando o invasor com a machadinha. Harold tem o rosto perplexo, de quem abrira a porta da casa de banho errada, pergunta os porquês de tanta animosidade ao que Guru apenas responde na terceira pessoa do singular: Guru está estressado, acrescentando logo a seguir (ainda na terceira pessoa do singular) que hoje é aniversário de Guru, mas que, infelizmente, o clima não está para festa.

— P. R. Cunha


Os leitores de Europa que porventura queiram adquirir Paraquedas – um ensaio filosófico já podem fazê-lo através do sítio web da UA Editora. Ou, se estiverem a visitar os canais aveirenses, podem também ler a minha criatura nas confortáveis cadeiras da Biblioteca da Universidade de Aveiro. À guisa de celebração, compus este tema musical com inclinações marítimas. Portanto, adeus!

O blogue «Ludo e Vico» está a falar do meu paraquedas

Quando fui receber o Prémio Aldónio Gomes à Universidade de Aveiro e depois entregaram-me um par de caixas pesadas com exemplares de Paraquedas – um ensaio filosófico comentei com mamã que aqueles livrinhos não me seriam fonte de renda, mas um meio para alcançar novos leitores. Não me importo de vender três ou trezentas unidades, disse eu à mamã, trata-se de uma empreitada qualitativa. E, felizmente, posso dizer-vos que aos poucos o meu objetivo tem se concretizado. Hoje de manhã, o blogue Ludo e Vico – livros, passeios, e brincadeiras de bolso também publicou a respeito da minha criatura. É deveras gratificante saber que este paraquedas abre-se em casa de gentes tão admiráveis.

— P. R. Cunha


Paraquedas em si mesmo
Mãe do Ludo e do Vico

Cair em si é uma expressão idiomática que significa tomar consciência.

Existem membros respeitados da sociedade que não têm consciência da sua ignorância; parentes que se julgam bons ao criticar em vez de amar; pessoas que vivem para impressionar e não se impressionam com os outros…

Há dois dias encontrei na caixa do correio o livro que encomendei: Paraquedas – um ensaio filosófico do escritor P. R.Cunha, com delicada dedicatória e uma história surpreendente.

Comprei o livro porque adoro os posts do autor, mas não sabia o que esperar até começar a leitura.

Em alguns momentos pensei no personagem esquizofrênico da série Maniac, desagregado de uma família artificial e cruel.

O personagem de Paraquedas – um ensaio filosófico não é esquizofrênico, mas a família o trata como se fosse o louco inconveniente.

Ele foge dessa dolorosa realidade para a realidade de outros livros, de outros personagens, de outros escritores, de outras formas de arte, enquanto constrói a própria história, com coragem para seguir seus instintos e amor pela fazenda literária.

Em outros momentos, eu parei a leitura para compartilhar com meu marido, que se viu em certas agruras do personagem, assim como compartilho a indicação do livro do P. R. Cunha a quem ainda não conhece esse talentoso e premiado escritor.

Boa Semana e Boas Leituras!

À guisa de mudança (outras ondas)

No mês passado a câmera de segurança de determinado estabelecimento comercial capturara a luta de um jovem estudante contra 2 (dois) bandidos perigosamente armados. A luta portanto desse estudante contra os dois (2) sujeitos peçonhentos que tentavam roubar-lhe a mochila, mas o jovem estudante não queria de forma alguma ceder, isto é: desfazer-se da supracitada mochila, pois dentro dela estava um raro tratado escrito por Giacomo Casanova — coisa que os bandidos não tinham como saber, nem ao menos faziam a ideia de quem seria o tal Casanova. Apenas insistiram (os bandidos) em puxar a mochila do estudante precisando recorrer finalmente à força e à faca que um deles enfiara no dorso do gajo sem demonstrar qualquer sinal de remorso. Os jornais comentam que o sacrifício do escolar que poder-se-ia dizer arriscara a própria vida para defender Casanova inflamara/reanimara o mercado editorial (i.e. livresco) durante um par de semanas, até tudo voltar às chamadas normalidades — jovem estudante, Giacomo Casanova & obsessão pelos livros esquecidos novamente.

intrigazinha

Que o Chico Buarque tenha lá recebido o Prémio Camões antes de Gonçalo M. Tavares / walter hugo mãe / Dulce Maria Cardoso & outros parece-me um imperdoável disparate — à moda Bob Dylan Nobel da Literatura.

(…)

fechas a cortina
do teu quarto de hotel
e sentes
num repente
que poderias estar em
qualquer outro sítio.

(Anotado em dezembro de 2018 num quarto de hotel / Lisboa [ou teria sido Aveiro{?}] )

P. R. Cunha abandona momentaneamente a literatura arquitecto-construtivista da capital federal para entregar-se outras vezes às influências marítimas da sempre inspiradora cidade de Niterói, Rio de Janeiro, na América do Sul. Ocasiões em que o autor compreende que como o Caldo Primordial de compostos orgânicos, os crustáceos e os moluscos (Cephalopoda) também a sua percepção de mundo + próprio tacto com os verbos nasceram das profundezas oceânicas. Uns minutinhos de tréguas do betão/concreto armado. A aeronave nestas alturas voa já para os portos cariocas, enquanto a alma sente aos poucos o gosto salgado das imensas possibilidades náuticas — como diz P. R. Cunha pro domo sua.

— P. R. Cunha