devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

Brasília-DF

Nasci em Brasília, um fim do mundo mais jovem do que meus pais cariocas. Hoje, às portas da trigésima terceira volta ao redor do Sol, consigo compreender melhor que faz parte da minha «essência ambivalente» (na falta de outros termos) ser um bocado ríspido quando falo/escrevo sobre esta quinta de concreto e árvores com troncos tortuosos. Esta cidade com um futuro que nunca chega, que sempre foi minha e que nunca será completamente minha. Mas se você estiver atento o bastante, Brasília pode até lhe transformar num poeta de seis andares, a modificar as cores do asfalto — cinza.

Dedico este poema à Thaysminy Marques Coelho, que melhor compreende a capital federal.

ASFALTO VOLTADO PARA O CÉU
(Inverno de 2018)

Penso em Brasília
o automóvel a chegar
sempre antes de toda a gente

Duas asas —
eixo monumental
asfalto voltado para o céu

Penso em Brasília
nas feridas
que já não saram

N’um dia nublado
sem saber se lá estão nuvens
ou lamentos triviais

Pois em Brasília
queria encontrar-me
E com mais ninguém.

— P. R. Cunha

Departamento de trânsito

Depois da morte do pai do Nestor — meu amigo dos tempos de escola — a mãe dele que, bem me lembro, costumava nos preparar deliciosas tortas de framboesa, a mãe dele, estava eu a dizer, passou a dirigir o automóvel que pertencia ao esposo falecido, um Honda ano 2016. Acontece de por vezes a mãe do Nestor, que mete-se nos copos todas as sextas-feiras, passar dos limites de velocidade. Quando chegam os avisos de multa, os envelopes levam ainda o nome do pai do Nestor, e não o da mãe do Nestor. O Nestor comenta, num tom que nunca sei se de brincadeira ou de malevolência, que, pelo menos para o departamento de trânsito, o pai dele ainda está vivo e dirige por aí como um desvairado. O departamento de trânsito não tomara conhecimento, portanto, do suicídio do pai do Nestor.

— P. R. Cunha

Para-choques

Depois de cinco anos a trabalhar numa empresa detestável, Casimiro conseguiu finalmente comprar o próprio sedan. Não chega a ser um automóvel conservado: dois donos, para-choque dianteiro desigual, uma das lanternas traseiras parou de funcionar e a porta do motorista possui um arranhão visível a uns bons metros de distância. Casimiro está sentado ao volante. O cheiro no interior do veículo é um pouco enjoativo, ele tem de confessar. Como se alguma perfumaria desleixada tivesse jogado ali uma qualquer fragrância à base de petróleo que ainda não passara pelo departamento de qualidade. Segundo o vendedor, o carro pode ir de zero a sessenta quilómetros em dez segundos, velocidade máxima de cento e oitenta, sem direção hidráulica. Está a comprar um automóvel forte, robusto — dissera o vendedor cuja gravata possuía resquícios de bolo de chocolate —, não vai se arrepender. Casimiro liga o sedan e fica a escutar o barulho desengonçado do motor a benzina. Algumas peças desencaixadas trepidam, ele se sente dentro de uma discoteca dos 1970. Desliga o carro. Tira a chave da ignição. O sedan que Casimiro comprou é verde.

— P. R. Cunha