devaneios da própria máquina de escrever (episódio #11)

algumas pessoas descobrem que eu escrevo, & pensam que eu devo ler imenso, & de aí me pedem sugestões de leitura. acanhado, mas de boa vontade, dou-lhes sugestões de leitura. passa um tempo & não escuto mais nada dessas pessoas. até que a gente meio que se esbarra ocasionalmente num restaurante, num bar, ou na festa da prima-de-algum-conhecido-em-comum, & então eu pergunto: fulano/fulana, o que achara das minhas sugestões?, leu?, & fulano/fulana diz que leu, & que não achou grande coisa. é de partir o coração.

— p. r. cunha

Rumo às cordilheiras («y la medida de mi amor viajero»*)

Há duas coisas que realmente dão-me cabo da cabeça quando viajo: carregar mala e esperar meios de locomoção (aeronaves, comboios, autocarros, táxis etc.). As esperas até que podem ser preenchidas com literatura passageira, jogo de xadrez para telemóveis (obrigadíssimo, Chess.com), lanche, café, anotações sobre «odiar esperar», aquele sentimento de vazio, de inutilidade, tempo perdido. Mas a mala, não. Da mala ninguém escapa. É preciso carregá-la, arrastá-la, amassá-la, aturá-la, não importa o sítio ao qual se vai. Se posso dizer que aprendi alguma filosofia das minhas jornadas anteriores foi isto: concisão. Levar na bagagem apenas o necessário, o imprescindível — quase como se eu estivesse a ir de férias para as trincheiras de um campo de batalha. Comento orgulhosamente com a Jéssica a respeito do tamanho da minha mala (sem dúvida um belíssimo exemplo de optimização espacial) mas ela faz cara de desconfiada: não quero que fiques repetindo as mesmas roupas, hein, vê lá… Oh!, minha adorável criatura, a título de evitar um estágio desnecessário de carregador de bagagens, digo-te que certas repetições mostrar-se-ão inevitáveis. 

AVISO PRÉVIO: pelos vistos este que vos escreve pretende permitir-se momentos de errância andina durante as próximas semanas. O blogue, portanto, hiberna-se até à volta. 

¡Adiós!

— P. R. Cunha


*Trecho do soneto No te quiero sino porque te quiero, Pablo Neruda.

Cristas temporárias (como um relógio de Dali)

Nos anos 1990 meus pais trouxeram de Portugal um daqueles galos do tempo — que a revista Ípsilon chamara de «objecto (quase) obsoleto». O nosso também ficava em cima da televisão. Papai gostava de deixar a janela aberta para que o bondoso galo avisasse possíveis tempestades. Muitas vezes mudava-se de cor, mas não acertava na meteorologia. Minha mãe, que aprendera a admirar as façanhas do galito del tiempo, metia a culpa nos filhos. Pelos vistos, os nossos dedinhos oleosos a tocar na escama sensível do meteorologista afetavam sobremaneira a capacidade do galo de prever se chuva ou sol.

* * *

Quem passeia à tardinha pela Quadra Interna 28, mais especificamente ao conjunto 2, consegue observar monsieur Dimanche trabalhando em alguma pintura impressionista. O ateliê do belga naturalizado brasileiro fica ao rés da rua e uma enorme fachada de vidro oferece aos transeuntes um honesto espetáculo pictórico: Dimanche a mover cores com tanto à vontade e confiança. A claridade opaca do entardecer realça o cenário, além de emprestar um estilo descompromissado às pinturas. Dir-se-ia ainda que os pincéis fazem parte da companhia de dança do teatro Bolshoi, tamanha a leveza de toda a operação. Certa feita tomei coragem e aproximei-me da vidraça. O pintor descansara os óculos arredondados no compartimento do cavalete e ofereceu-me uma chávena de café. Madame Dimanche trouxe-nos também uns docinhos apetitosos. O pintor sorrira e tirara da estante empoeirada o meu Paraquedas – um ensaio filosófico: livro taciturno, mas um bom livro, ele disse. A biblioteca contava ainda com edições raras de Charles Dickens, Ovídio e Sêneca. Enquanto tomávamos silenciosamente o café, olhei em redor: uma data de telas com pontilhados milimetricamente dispostos, como se o ateliê fosse uma espécie de alucinação onírica. Sobre a escrivaninha de Dimanche, que (um pouco como Man Ray) escreve o que não deseja pintar e pinta o que não pode escrever, havia um desgastado galo do tempo português. Dimanche tocara nos meus ombros e num tom divertido dissera: às vezes funciona, outras tantas vezes não funciona.

— P. R. Cunha

Realidade paralela

Um coveiro de Niterói que durante mais de quarenta anos enterrou os mortos da cidade e era conhecido por toda a gente como «Raimundo, aquele que enterra os nossos mortos» faleceu de forma súbita na noite passada enquanto lia, segundo testemunhas, o romance Paraquedas – um ensaio filosófico de P. R. Cunha. Certo colega de profissão, que fora escalado pelo cemitério para preparar a cova do notável coveiro apreciador de literaturas, dissera aos repórteres que poucas vezes sentiu-se tão perturbado: amanhã, este coveiro enterrará um amigo coveiro, dor terrível. Autoridades locais investigam o caso e não descartam a possibilidade de proibir as vendas do supracitado romance até que os detalhes sejam devidamente esclarecidos. Raimundo deixa uma viúva inconsolável e duas filhas.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte II

A miragem da felicidade

Os matemáticos gostam de dizer que nossas vidas são reguladas pelo acaso, que aquilo a que muitos chamam de «destino» não passa de um amontoado de coincidências aleatórias. O Universo, em uma palavra, joga o pôquer enquanto cérebros humanos tentam analisar dados, fazer sentido, criar sentidos. Mas sequer compreendemos adequadamente de que material são feitas as cartas do jogo, ou como se abre a fechadura desse gigantesco cassino cósmico que não para de se expandir lá fora. Daí a imagem — adequada, por sinal — do pária em busca do saber: figura desengonçada a tatear no escuro, entregue à frustração de tarefas que, se não se mostram inatingíveis, andam ali bem perto. 

Diante do túmulo do meu pai, imaginando se estava sendo observado ou não, dediquei-me a esses absurdos com certo afinco. Por exemplo. A última vez em que conversamos, ele me disse: ficarei ausente por uns meses. Ausente. Então ele entrou na própria camioneta marca Mitsubishi e partiu para o Rio Grande do Sul. No município de São José dos Ausentes, meu pai perdeu o controle do automóvel e caiu da ponte sobre o rio Silveira — sobrenome do meu avô materno, cuja lápide, como disse, não consegui encontrar no cemitério Campo da Esperança por motivos tecnológicos. Rio Silveira, São José dos Ausentes, coincidências que já bastariam para inquietar coração inclinado ao ocultismo, o que, importante que isso seja esclarecido o quanto antes, não é o meu caso — embora eu tenha me surpreendido sobremaneira com o fato de o veículo do meu pai ter sido registrado com a placa JHU-2407, números que de modo particularmente assustador coincidem com a data exata do desastre fatal (24/07).

Enquanto refletia sobre essas ocorrências caóticas sentia uma espécie de abatimento profundo, perguntando-me se eu mesmo continuava a existir. Lembrei-me que, duas semanas após a cerimônia de sepultamento do meu pai, li na versão inglesa do periódico «Aftenbladet» — cortesia de uma colega que à época trabalhava no consulado da Noruega — reportagem que mostrava através de gráficos estatísticos que boa parte das catástrofes automobilísticas na capital Oslo seria em verdade ato suicida dos motoristas envolvidos. Algumas tentativas, destacava de forma soturna o repórter do «Aftenbladet», eram mais bem encenadas do que outras. 

O médico legista iluminou os pálidos olhos do meu pai com uma pequena lanterna. As pupilas não se contraíram. Depois, verificou a artéria carótida no pescoço. Não pulsava. Aproximou-se do tórax, colocou o estetoscópio sobre o peito do cadáver: o coração, definitivamente, deixara de bater — papai morreu. Ao longo de três décadas meu pai ocupara-se de evitar a morte alheia, e, até onde sei, jamais imaginou a si mesmo deitado em cima da maca gelada do necrotério. Parece ser próprio da condição do médico não pensar nessas coisas. Afinal, médico resgata, não quer ser resgatado.

Das dezenas, centenas de telefonemas que atendi à medida que as pessoas recebiam a notícia do acidente, um deles ainda hoje me desassossega. Minha tia a dizer que aquilo tudo era difícil de engolir. Meu pai, segundo ela, era invencível, imortal. De início, reconheço, estas manifestações de pesar e condolência trouxeram-me certo alívio, mas isso durou pouco. No dia seguinte já me sentia invadido, saturado, aborrecido, cansado, enraivecido, queria que parassem de ligar, de dizer o quanto estavam tristes, enlutados, alguns soluçavam copiosamente, e tive mesmo de consolá-los, explicar-lhes que ficaria tudo bem. Depois eu desligava, tremendo, desejando fugir para nenhures.

Lembro de querer apenas uma cama, dormir durante meses. 

A cerimônia fúnebre é apenas o cimo do icebergue de uma conjuntura infinitamente mais complexa, hoje posso demonstrar isso com propriedade: reconhecimento do cadáver, transferência do corpo, escrever obituário para os jornais, tipo/tamanho do caixão, coroas de flores, cemitério, lidar com os parentes mais sensíveis, inventário, pendências de toda a natureza, herança, dívidas deixadas pelo morto, contas bancárias, advogados etcétera etcétera. 

Há pouco compareci ao funeral do primo de um grande amigo meu e, enquanto observava a família aos prantos perto do defunto, confesso com certa perversidade que a mim aquele choro não era apenas por conta da morte em si, mas também por tudo o que eles ainda teriam de passar depois dessa estranha etapa em que colocamos embaixo da terra um ser humano de nosso mais profundo apreço.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: decides anestesiar (alguns dos) teus pensamentos

Não viajas —
corres atrás
de ti mesmo.

Pode-se dizer que uma cidade desconhecida é como um planeta distante — podemos compreender melhor se observarmos. A primeira vez que viste Marte através das lentes arredondadas do teu telescópio, e Marte de súbito ganhara novos significados para ti. Do mesmo modo, a primeira vez que estiveste em Portugal, e Portugal agora mostra aspectos diferentes, outras paletas cromáticas, outras realidades, outras dimensões.

(Tornar visível o que antes era invisível.)

Alguns viajam
para fugir às dores —
que já tinham.

Enrique Vila-Matas numa altura escrevera que viajava antes mesmo de viajar; lia tudo a respeito do país ao qual estava prestes a ir, arriscava-se mesmo a fazer pequenos (e grandes) esboços sobre esses sítios que ainda seriam visitados — roteiro previamente estipulado, viver aquilo que anotara, de certa forma confirmar algumas expectativas, remodelar previsões: eu já cá estive?

Lisboa: em dezembro, quando as nuvens permitem, e o céu se faz presente, e o forte azul do infinito, azul-turquesa, azul-glaciar, e tu queres agarrar-te à cidade, do mesmo modo como agarras aos braços de alguém por quem estás perdidamente apaixonado.

Constataras que a viagem, por mais «real» e experimentada que ela seja, é altamente ficcionável. Qual era mesmo a temperatura daquele dia?, que roupa usavas?, era mesmo dia?, foi num táxi?, comboio? o nome dela era Antonina?, era ela?, era ele?, era Macedo?, Jorge?, era Lisboa? era Óbidos?, era-te a ti mesmo? Tu não sabes muito claramente como distinguir.

As lembranças da viagem — como as lembranças da tua infância — também são ingênuas, vulneráveis, oníricas. Tu batalhas contra a amnésia, queres ainda sugar o último sumo daquelas memórias. São, por vezes, representações, abstrações. Estás a construir um estranho edifício com tijolos verdadeiros, vigas imaginárias, um terraço ao cimo com vidro de fantasia.

Falar sobre uma viagem que não exija qualquer pré-requisito.

Longos dias de tranquilidade em Portugal, e de imperturbadas caminhadas. Para onde voltaste? Para os campos esverdeados do Alentejo com vaquinhas e carneirinhos a pastar, para o trator que corta os corredores de uma vinícola em Bacalhôa Buddha Eden, para o cavalo a descer uma encosta aveirense, para os estudantes flutuando no pátio perto da capela de S. Miguel (Universidade de Coimbra), não muito distante do Penedo da Saudade.

Uma brisa que atravessa os cabos da ponte 25 de Abril, cujo despretensioso balançar reanima as tuas inclinações introspectivas. Não pensas em contas, boletos, em prazos, em compras, não pensas no mundo, não pensas em absolutamente nada.

Brisas que trazem consigo a esperança de tempos melhores. Mostras o teu coração aberto — percebes que és também um bocadinho de Portugal, terra do teu bisavô. Tens, assim como o velho poeta, uma alegre confiança na vida, no porvir, em ti mesmo. Etc.

Efeito libertador da viagem: jornadas que salvam vidas, que dão norte e propósito a existências por vezes desnorteadas e despropositadas.

E, por enquanto, fez-se o silêncio total.

— P. R. Cunha

As vozes de uma família que já não existe + contexto da fazenda literária (intimidade[s])

Ao folhear um velho álbum com retratos dos meus familiares, escreve Batista, verifico que muitos foram figuras distintas: médicos, administradores, arquitetos, políticos, advogados. A grande maioria morrera cedo demais, como se diz vulgarmente. Aqueles que pregavam o comedimento, morreram de alcoolismo; os que pediam paciência e prudência, morreram numa autoestrada, excesso de velocidade; aqueles que diziam: não fume, isto vai lhe matar!, morreram de cancro de pulmão porque fumavam quatro maços de cigarro por dia. Em criança, continua Batista, em criança não nos damos conta dessas contradições. Os adultos eram os meus heróis. Acontece que também crescemos, amadurecemos, lemos um bocadinho, e aos poucos a coisa toda começa a nos dar nos nervos, percebemos que aqueles a quem escutávamos com tamanha devoção em busca de ensinamentos eram tão humanos e tão falhados como qualquer outro. Um deles chegou mesmo a cometer o suicídio.


Brasília, 27 de novembro, 8h44

A chuva, a neblina, as nuvens cinzas que vêm ter comigo à janela, insônias, o chuveiro que parou de funcionar. Arrumar a mala, comprar caderninho de anotações para a viagem. Portugal, Lisboa, Aveiro. O cabelo a crescer demasiadamente, a «atmosfera intelectual», artificialidade. O violão sem a corda dó. Ir ao centro. O café literário. O café forte. A soneca vespertina. O pão com manteiga. Os livros. A calma. O desaparecer. À noite.

Processed with RNI Films. Preset 'Fuji FP 100C'

— P. R. Cunha