Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens

Escrever livro é como se preparar para uma longa viagem a um país estrangeiro sobre o qual pouco sabemos — porque, em verdade, busca-se apenas conhecer algo mais de si mesmo. A jornada é um pretexto. Quando o Escritor não está a trabalhar em algum manuscrito, sente-se prostrado, observa a lenta aproximação do vazio, mostra-se incapaz de se concentrar em algum propósito. Precisa de traduzir esse estado melancólico em alguma nova forma de escrita, fugir do momento-Roland-Barthes, aquele instante em que tudo parece terminado, o mundo silencioso em que dorme um sono leve, o Escritor.

Dissidência em relação ao Brasil, aos amigos, à realidade.

A morte é algo que acontece alhures, até acontecer consigo, dentro da própria casa. A morte, como toda a gente sabe, não pede licença. A morte não bate à porta, prefere arrombá-la. A morte é uma estrela enorme, pesada, supergigante. A morte não se deixa ver, tocar, ouvir, nem respirar. A morte tem algo de invisível. A morte acaba.

É sobre as próprias ansiedades que o Escritor está a falar, sobre a ansiedade moderna, ansiedade de todos nós, pois não. 

Escrever serve, portanto, para resgatar. O Escritor constrói outros universos porque luta contra a própria finitude, pretende afastar-se desse fim. É um cabo de guerra do qual sabe não poder sair vencedor, mas esforça-se para adiar a derrota. Que pelo menos o depois da escrita seja diferente do antes da escrita etcétera.

E o que ocorre quando a garantia de segurança é retirada do menino, a garantia do «tudo está sob controle»? Quando os fatos reais começam a demonstrar que as regalias infantis foram apenas miragens, ilusões passageiras? Quando um acidente automobilístico destrói todas as pretensões de grandeza do menino? A existência não é mais um lugar confortável.

Disponibilidade para as catástrofes, uma vida boa que nunca chega.

Escritor aparentemente (só aparentemente) fazendo-se de bobo.

— P. R. Cunha

Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

Pergunta # 4 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Percebe-se de imediato que a sua escrita navega naquele vasto oceano a que costumam chamar de autoficção. Como você lida com a expectativa dos leitores em relação a isso?

[P. R.] Outro dia a minha avó leu trechos dum manuscrito em que estou a trabalhar e ficou assustadíssima: não sabia que meu neto era lá um rapaz tão sorumbático; céus!, quanto pessimismo. Ou mesmo este amigo com quem mantenho pouco contato. Mandou-me um e-correio repleto de azedume que falava mais ou menos o seguinte: não me lembro de você me pedir autorização para escrever sobre a minha vida privada num livro filosófico tão ruim. Ilusório aspecto documental. Meu gênero sempre foi a mentira. Eu reinvento tudo. Por isso tive de largar o jornalismo, aquela postura terrível de imparcialidade diante dos fatos. Veja bem: largo o jornalismo para finalmente poder contar as minhas mentiras em paz e toda a gente a ler-me como se eu fosse um repórter de economia… Há qualquer coisa de irônico nisso. Mas me parece inevitável que seja assim, uma vez que esses seres humanos me conhecem, e costumo escrever em primeira pessoa, o capcioso «eu». Não estou com isto a sugerir que não há nada de autobiográfico. Mas achar que tudo é um espelho da vida real (o que quer que isso signifique) é de uma tremenda ingenuidade. Percebi também que de pouco adianta dizer que são narrativas ficcionais. O sujeito sorri com ares de conspiração, como se dissesse: ah, meu amigo, a mim você não engana. Desconfio que nunca mudarão de ideia. E isso já não me dá cabo da cabeça. Há muito que deixei de me inquietar com esses pormenores — era o que eu estava querendo dizer desde o princípio, mas não o disse porque se o fizesse você teria ficado um bocado aborrecido com a brevidade da resposta.