Aproximar-se um bocadinho de si mesmo em tempos de guerra e paz

IMG_6337.jpg

Certas ocasiões parecem mesmo exigir do escritor uma total mudança de perspectiva. É altura de reler — e finalmente compreender — Schopenhauer, a quem o mundo dos homens se mostrava o reino do acaso, onde o que há de melhor entre aqueles que criam só aparece após grandes esforços. A morte de alguém próximo, ou mesmo o lidar com o luto tardio dessa perda, um acontecimento notável (separação conjugal, velho emprego, novos empregos, outros amores etc.), uma viagem ao estrangeiro. A viagem, especialmente, porque dividida em etapas: 1) preparação; 2) partida; 3) a jornada em si; 4) despedir-se; 5) retornar; 6) descrevê-la. Deslocamento físico, geográfico, a mostrar que poucas coisas são fixas na vida, nem dor infinita, nem alegria eterna, nem moradas permanentes. O escritor viaja, e volta, e chega à conclusão de que o presente é agora outro animal, outra bossa, outro jazz. Pode ser que durante alguns dias o silêncio lhe apeteça. Afinal, esteve alhures e faz agora a digestão de sentidos: o que viu, ouviu, leu, provou, falou, riu, chorou, mudou, permaneceu. Almeja esclarecer que qualquer criatura que surja dessas reflexões será algo diferente dos floreados relatos turísticos da praxe. Noutros termos schopenhauerianos: uma viagem criativa não se apresenta apenas como um mimo, um adocicado cocktail à beira-mar, mas também como uma tarefa introspectiva, por vezes penosa, imprevisível — qual o confuso pássaro em um bosque num dia soalheiro, cujo belíssimo canto não é resultado de espírito alegre, mas antes de um momento tenso e revelador. Os objetivos surgem sem filtros. Fluxos. Longe de serem um leviano exercício de melancolia descartável, pretendem primeiro livrar-se das maquilagens artificias que a incessante busca contemporânea por uma felicidade completa parece exigir.

— P. R. Cunha

Outras tentativas (um bocadinho frustradas) de esgotamento de uns locais niteroienses

Ir a um café em Niterói ——
entra no café
faz postura de quem vai
escrever trechos edificantes
de um romance inovador
e não escreve nada
escutar [somente] e fazer postura
de quem vai escrever.

Música aleatória;
Café aleatório;
Cidade aleatória;
Isto não é um poema.

Toda a sorte de ruídos: máquinas de café espresso, o choro de uma bebezinha, dois adolescentes que pretendem ir ao McDonald’s na sexta-feira, a pensionista que faz as palavras cruzadas em voz alta (os lábios da pensionista movem as possíveis respostas), os talheres, os copos, as teclas do computador de um executivo apressado.

Algumas vezes tu escreves num café, noutras ——— não.

Aqui (i.e.: nível do oceano) a manteiga é diferente. MOTIVOS/HIPÓTESES: maresia; as coisas que provamos longe de casa sempre têm outros gostos etcétera.

Use o assento para flutuar (seat bottom cushion [for flotation]): reflexões atmosféricas

Havia época —— penso em 1924 —— em que as pessoas viajavam maioritariamente de navio. Hoje, as pessoas preferem as aeronaves [airbus].

Não se agitam mais os braços de despedida. Viajar tornou-se tão banal quanto o dobrar de uma esquina. Alguém diz: vou viajar ———— e pensa-se na imagem de quem vai ali comprar o pão.

Quem poderia dar nomes às naves aéreas sucateadas do século XXI? Os navios tinham/têm nomes, eram/são batizados por reis e rainhas e gentes notáveis. Se algum afundava/afunda, os jornais escreviam/escrevem: Martha afundara, o Santa Catarina naufragou-se no irascível Atlântico. Os aviões têm números —— são números.

Se o avião cai, há poucos sobreviventes [não é bem o medo de morrer, mas o medo de desesperar-se antes de morrer]. Toda a gente perde a dignidade quando despenca das nuvens. Isto é certinho.

P.S.:

Nomes, cores, e outros aspectos relevantes dos autocarros de Niterói; enquanto sentado à mesa da «Atlântica – padaria & confeitaria» [desde 1957]. Transoceânico, Pendotiba, 2.1.014, Miramar, Jurujuba/Cachoeira, verde-limão, outra linha observável: 2.3.032. Viação 1001, azul-claro e branco (os números [1001] pintados de vermelho, borda branca). Expresso Garcia, suspensão a ar, azul (tons marítimos) e branco. Transnit, Araçatuba/Brasília, três tons de vermelho. Brasolisboa first class, cor de laranja. O que se comeu: misto preparado na hora (pão francês), um cafezinho — carioquinha, obviamente. Acompanhamentos: biscoitinho de natas + copo de água com gás. 16h38. Clima ameno. 

(o que há ao lado da atlântica – padaria & confeitaria uma banca de jornais e revistas tipicamente niteroiense [cinza com faixas amarelas nas laterais] em destaque uma revista sobre o poder do pensamento positivo e a edição vespertina do jornal extra uma motorizada barulhenta buzina ao atravessar o cruzamento.)

— P. R. Cunha

90 centavos e o valor da dignidade humana

A coisa é até bem simples, disse Miranda, você veste esta fantasia, faz lá umas dancinhas engraçadas durante quatro horas, volta e recebe o cheque de 120 dinheiros.

Agora estou vestido com uma fantasia com formato de número zero e tento fazer dancinhas engraçadas para os automóveis que param ao semáforo. Minha colega de trabalho, digamos assim, está vestida de número nove — o nome dela é Diana. Nossa tarefa é chamar a atenção dos motoristas para determinada oferta de determinado supermercado de Brasília: parece que o quilo de alguma coisa está a custar 90 centavos.

A nossa fantasia é felpuda, grossa, lembra a pele de um urso com excesso de peso. O termômetro urbano indica temperatura de 32ºC, mas aqui dentro — e Diana concorda — parece mais uma fornalha industrial em ebulição.

Noutros termos: sinto-me como um chocolate esquecido dentro do porta-luvas de um Fusca num dia assustadoramente quente em Copacabana.

Diana está suando e diz que nunca fizera nada tão indigno, vergonhoso, subalterno na vida. Um automóvel passa raspando e o motorista me chama de «cuzão», sem mais nem menos.

Tento me sentar na grama à espera do próximo sinal vermelho e logo percebo que isso não foi boa ideia. O peso da fantasia me joga para trás e fico deitado balançando as perninhas. Então é assim que as baratas de cabeça para baixo se sentem. Diana me ajuda a levantar.

Nossas fantasias numéricas exalam um cheiro asfixiante de autocarros velhos cujo óleo nunca fora trocado. 

As quatro horas se passaram. Vou com Diana até ao escritório da Miranda, e ficamos a saber que Miranda não está, Miranda saiu para lanchar com o dono do supermercado, Miranda só volta amanhã, Miranda levara consigo os nossos cheques etc.

Sinto pena da Diana… e a Diana, de certeza, sente pena de mim também.

— P. R. Cunha