O alienígena

Pensem na quantidade de insetos que vocês já mataram, consciente ou inconscientemente — disse o professor, que a muito custo procurava manter a vista num ponto invisível, a dois palmos da tomada do ar condicionado. Nos últimos anos a universidade teve de lidar com uma série de casos de assédio envolvendo docentes e alunas; todo cuidado, como se diz, era pouco. O fio do ar condicionado, notara o professor, estava desencapado. Então, pensem na quantidade de insetos mortos, ele continuara, esses seres estúpidos e insignificantes. Os olhos do professor fizeram uma breve varredura na sala: os alunos pareciam apreensivos, uns confusos, outros com sono, se calhar até um pouco ansiosos para saberem a que conclusão o professor chegaria com essa ladainha de insetos estúpidos e insignificantes. Agora pensemos o seguinte, ele prosseguira, pensemos na possibilidade de vida alienígena inteligente, e todos nós sabemos que estamos à procura disso, oh!, sim, não medimos esforços para alertar ao Cosmos a nossa localização, não somos nada, nada discretos. Aqui o professor encosta-se na própria mesa, cruza os braços: as formigas também não são nada discretas quando saem do formigueiro. O que nos faz pensar, ele continua, o que nos faz pensar, em sã consciência, que nós não seríamos insetos inconvenientes para essas criaturas extraterrestres?

— P. R. Cunha

Turma de filosofia

Para Aguarela de Viagens

7h42 da manhã. Max entra na sala de aula. Com passos inquietos dirige-se ao quadro de ardósia e coloca sobre a mesa a própria maleta marrom que poderia ter pertencido a um qualquer espião búlgaro durante a Guerra Fria. Sem dizer bons-dias aos alunos e com os olhos fixos num horizonte invisível, o professor parafraseia Irvin D. Yalom: porque não podemos viver congelados pelo medo, criamos subterfúgios para amenizar o terror da morte. 

Os alunos permanecem em silêncio. Max continua:

Um curioso exercício filosófico consiste em nomear ao menos cinco pessoas que viveram durante o século XVI. Obviamente, o propósito da empreitada perderá todo o sentido se algum espertinho utilizar-se dos recursos Google e que tais relacionados. 

Vamos… Cinco nomes de pessoas que viveram no século XVI, assim, de cabeça.

A ironia, continua Max, é que estamos a viver na era das tecnologias midiáticas, numa altura em que raramente ficamos alguns minutos sem receber notícias de alguém ou de alguma coisa, e, mesmo assim, muitos não conseguem se lembrar de cinco, apenas cinco dos milhares de humanos que viveram há cerca de quinhentos anos.

É de se pensar nisto, diz Max, será que as pessoas de 2500 lembrar-se-ão de nós? Ou, num tom menos egotista, mais abrangente (aqui Max adota certa postura teatral, distante, está a desempenhar o papel dramático que tanto lhe apetece): qual será o legado desta época de abundâncias, de quantidades, dos planos de saúde, mas também de negligências memoráveis?

Um aluno tosse, outra aluna leva o dedo em riste aos lábios e faz shhhh!

Talvez até lá, prossegue Max, seres humanos e robôs tenham se fundido, transformaram-se num organismo inclassificável. Ciborgue que não dá a mínima para as instabilidades cronológicas e psicológicas do ultrapassado e emotivo Homo sapiens. O próprio interesse em fazer perguntas perderia um bocadinho o sentido, pois as respostas, se levarmos o Elon Musk a sério, estariam embutidas na programação da «placa-mãe» (Max faz as aspas aéreas), o famigerado cérebro de silício atualizável.

— P. R. Cunha