Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Este electro-sítio, enfim, transformara-se num confortável armazém para as «notas que não estou a utilizar nas minhas obras com fins de sobrevivência». Noutros termos: há um excesso de produção que desemboca nestas represas etc. É porque o engenheiro constrói prédios, o médico receita medicamentos, o confeiteiro faz doces, o piloto de fórmula um pilota o fórmula um, e o escritor… Bem, o escritor precisa de escrever.

Costumo almoçar sozinho, em silêncio. Não chega a ser um silêncio de morte, como se diz, silêncio absoluto (como o da câmara anecoica dos Laboratórios Orfield*) — nunca é. Pois consigo ouvir os passos dos vizinhos, a conversa do eletricista ao telemóvel, o barulho da motocicleta, o som da minha mastigação, o tique-taque do relógio. Os relógios sempre me fascinaram, e entre uma e outra garfada fico a pensar no tempo que eles me mostram. Procuro me lembrar o que almocei ontem, um almoço que não é mais. Amanhã, um novo almoço, que ainda não é. Olho então para o meu prato quase vazio — tique-taque-tique-taque —, este almoço também já passou. De todos os tempos, o que eu mais aprecio é o cosmológico. Aquele breve infinito que nos transporta até às partículas elementares, através do qual viajamos bilhões e trilhões de anos enquanto aqui na Terra a noite mal começara. Um tempo que se assemelha àquele em que vive o escritor: tempo que isola, que suspende. Tempo a levar tempo. Tique-taque. Tempo que passa, que está a nos consumir a cada voltinha do ponteiro vermelho. Tique-taque. Tempo que um dia também nos levará para sempre. Tique-…

— P. R. Cunha


*A câmara anecoica (sem eco) dos Laboratórios Orfield em Minnesota é considerada o lugar mais silencioso do mundo, com um ruído de fundo negativo de -9.4 dBA. Steven Orfield, responsável pelo projeto, costuma desafiar os visitantes a ficarem mais de 45 minutos dentro da sala, no escuro: «Quanto mais silencioso o local, mais a nossa audição tenta se adaptar. A pessoa então começa a ouvir o batimento cardíaco, a atividade pulmonar, o estômago trabalhando. Dentro da câmara anecoica, você se torna o som».