A fuga

Durante mais de quarenta e cinco anos o sr. Fukushima montou réplicas em miniatura de automóveis clássicos. Quase todos os dias, por volta das 17h, ele descia ao porão onde havia improvisado para si um ateliê de dimensões consideráveis. O sr. Fukushima dizia que quando estava no próprio ateliê a montar os carrinhos era como se de súbito ele fosse transportado para algum outro universo, algum tecido-espaço-tempo em que as leis de física não operavam da mesma maneira. Até que certa tarde de outono, quando as folhas das árvores começavam a cair na relva do jardim, um dos netos do sr. Fukushima desceu ao porão para fazer-lhe visita e deparou-se com quantidade absurda de réplicas em miniatura de automóveis clássicos. O neto, que tinha acabado de frequentar o curso de marketing numa renomada universidade da região, sugeriu ao avô que começasse a vender aqueles brinquedos que, fora o tamanho, em tudo se assemelhavam aos carros de verdade. E, como era de se esperar, os carrinhos do sr. Fukushima foram mesmo um grande sucesso comercial. Mas desde então o sr. Fukushima não desce mais ao próprio ateliê para montar as réplicas. A fuga, segundo ele, perdera completamente o sentido.

— P. R. Cunha

Cristas temporárias (como um relógio de Dali)

Nos anos 1990 meus pais trouxeram de Portugal um daqueles galos do tempo — que a revista Ípsilon chamara de «objecto (quase) obsoleto». O nosso também ficava em cima da televisão. Papai gostava de deixar a janela aberta para que o bondoso galo avisasse possíveis tempestades. Muitas vezes mudava-se de cor, mas não acertava na meteorologia. Minha mãe, que aprendera a admirar as façanhas do galito del tiempo, metia a culpa nos filhos. Pelos vistos, os nossos dedinhos oleosos a tocar na escama sensível do meteorologista afetavam sobremaneira a capacidade do galo de prever se chuva ou sol.

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Quem passeia à tardinha pela Quadra Interna 28, mais especificamente ao conjunto 2, consegue observar monsieur Dimanche trabalhando em alguma pintura impressionista. O ateliê do belga naturalizado brasileiro fica ao rés da rua e uma enorme fachada de vidro oferece aos transeuntes um honesto espetáculo pictórico: Dimanche a mover cores com tanto à vontade e confiança. A claridade opaca do entardecer realça o cenário, além de emprestar um estilo descompromissado às pinturas. Dir-se-ia ainda que os pincéis fazem parte da companhia de dança do teatro Bolshoi, tamanha a leveza de toda a operação. Certa feita tomei coragem e aproximei-me da vidraça. O pintor descansara os óculos arredondados no compartimento do cavalete e ofereceu-me uma chávena de café. Madame Dimanche trouxe-nos também uns docinhos apetitosos. O pintor sorrira e tirara da estante empoeirada o meu Paraquedas – um ensaio filosófico: livro taciturno, mas um bom livro, ele disse. A biblioteca contava ainda com edições raras de Charles Dickens, Ovídio e Sêneca. Enquanto tomávamos silenciosamente o café, olhei em redor: uma data de telas com pontilhados milimetricamente dispostos, como se o ateliê fosse uma espécie de alucinação onírica. Sobre a escrivaninha de Dimanche, que (um pouco como Man Ray) escreve o que não deseja pintar e pinta o que não pode escrever, havia um desgastado galo do tempo português. Dimanche tocara nos meus ombros e num tom divertido dissera: às vezes funciona, outras tantas vezes não funciona.

— P. R. Cunha