Predestinação/tensão aventurosa &tc.

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breve verão —
nesta casa invernal.

O Schopenhauer costumava dizer que a falta de sentido existe numa escala cósmica. Bastaria analisar as grandezas deste universo que pode até não ser infinito, mas anda ali bem perto. Quando nascemos, somos tirados do conforto térmico da barriga da mamã e obviamente choramos. De aí para diante, lidamos com sofrimentos — taxas que pagamos pela jornada da vida. Tiram de nós os brinquedos, a previsibilidade da infância, a ingenuidade juvenil, nossos parentes começam a morrer, nosso corpo deteriora, você era um velocista competente nos tempos de escola, até ganhara medalhas, vencera competições, você corria à beça e agora precisa da ajuda da Marluce para trocar as fraldas geriátricas. Vive-se, portanto, com a cabeça ao futuro, cabeça aluada, contorcendo-se feito uma lagartixa sem rabo. Procuram-se propósitos, porém, ao fim e ao cabo, tudo parece um grande amontoado de distrações e dores mitigadas.

— P. R. Cunha

Arthur S., seguido de: aniversário da capital federal

(Sumária crônica sobre a influência de Schopenhauer na minha fazenda literária. Para o Vittorazze — este teu amigo cordial te saúda.)

Em dois mil & sete, o Schopenhauer adotou-me para ser o seu discípulo brasileiro. Ele estava a comer um Apfelstrudel e eu lhe disse: cuida bem do meu cérebro que não deixo faltar-te o Apfelstrudel. Apertamos as mãos com confiança, como dois cavalheiros satisfeitos com as possibilidades do acordo.

Uma das imagens mais reproduzidas do Schopenhauer é aquela pintada por Jules Lunteschütz. O velho filósofo ameaça um sorriso indecoroso, os cabelos estão desgrenhados, parece querer matar alguém. É o retrato de um homem ambíguo, pessimista, infeliz, resignado.

O Schopenhauer é um remédio insalubre:

TÔNICO
ESTOMACAL
FORTIFICANTE
ANTI-ESPASMÓDICO
ANTI-DISPÉTICO
ANTI-NERVOSO

Pode-se tomá-lo com bebidas alcoólicas.

Aconselha-se ler o Schopenhauer com luvas de boxe. O leitor é, portanto, um pugilista. O Schopenhauer descarrega-lhe duas cacetadas. Felizmente o precavido leitor usava também um elmo, porque, do contrário, ter-se-ia de lamentar alguma desgraça.

O lado positivo da ira de Schopenhauer — efeitos colaterais. Para o escritor, o pessimismo de Schopenhauer pode bem levá-lo a querer criar vários outros mundos: bom para a imaginação. Um escritor assim seria um tipo muito feliz, porque jamais se entediaria. Constrói um castelo para si, coloca ali reis, rainhas, condes, príncipes, vassalos. Observa as intrigas dos habitantes do castelo. Depois derruba o castelo para construir um hotel em Budapeste, ou uma penitenciária em Frankfurt, ou uma quinta no Brasil.

Experimenta o Schopenhauer.


» 58ª volta ao redor do sol

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