devaneios da própria máquina de escrever (episódio #45)

«vive-se de modo tão apressado, tão expansivo & fragmentário, tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que não dou conta de tudo.»

por estranho que possa parecer, essa frase foi escrita por hofmannsthal numa carta para o amigo edgar karg… em 1892.

sim, 1892.

hofmannsthal comentava sobre as miudezas do dia a dia, pouco interessantes, dos pequenos projetos insignificantes & mais isso, & mais aquilo outro. tudo que uma pessoa é obrigada a fazer quando não tem diante de si o azul do mar cristalino, belo, puro, livre, filosófico.

o que pensar, então, destes «tempos vertiginosos» do século vinte & um? se hofmannsthal andasse por aqui talvez parasse na primeira esquina de viena, atordoado diante de tanta balbúrdia, diante da velocidade dos transeuntes com os seus dispositivos móveis, colocaria as mãos no peito, cairia no chão a sofrer de enfarte agudo do miocárdio.

é uma anedota. 

precisa-se tomar o devido cuidado para não escorregar no looping apocalíptico. pois cada época parece ter ouvidos aguçados à espera das sete trombetas tocadas pelos tais anjos que trazem mui péssimas notícias aos habitantes da terra.

em adaptação livre das palavras de tom stoppard: todos os períodos acham que são o fim dos tempos, mas o nosso é de verdade.

o fim dos livros, o fim da cultura, da música, do teatro, de tudo. 

é claro que em algum momento a previsão pode concretizar-se. como naquela fábula dos irmãos grimm em que o pastor entediado queria se divertir & durante muitos dias tirou com a cara dos aldeões gritando: lá vem o lobo!, lá vem o lobo! tudo de brincadeirinha. até que numa altura o lobo realmente sai da floresta, o pastor grita por ajuda, implora, esperneia. os camponeses, cansados de tantas ladainhas, não dão a mínima. & o lobo, de barriga cheia, agradece.

— p. r. cunha

O dia em que a Terra parou (parcialmente)

Ontem os servidores de Facebook e Instagram escangalharam. A pane afetou inúmeras contas em diversos países. Houve quem achasse que o mundo fosse acabar. Bom, pelo menos para aqueles que se agarram com mãos firmes nas bóias das redes sociais, foi uma espécie de ensaio geral do apocalipse.

Ironicamente, a vulnerabilidade dos produtos oferecidos pelo senhor Zuckerberg veio à tona pouco depois de o Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida — ISPA — divulgar dados de uma investigação portuguesa sobre a solitude online. O instituto lisboeta acredita que quem passa muito tempo conectado à Internet se sente mais só.

O sentimento de solidão entre os jovens mantém-se, diz o estudo, mesmo quando o tempo que passam online não interfere (tanto [grifo meu]) com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa, o ISPA acrescenta ainda, pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas mediadas pelos aplicativos eletrônicos.

Com a inoperância parcial de Facebook e Instagram, muitos tiveram de recorrer aos caracteres do Twitter para compartilhar a própria fúria, o desespero, o tédio, o abandono — a solidão¹. Tinham perdido, mesmo que momentaneamente, as plataformas (os palcos de areia da pós-modernidade, como diria Jean Serroy) para se sentirem conectados. Perderam o norte.

Aqueles que respiraram fundo e preferiram aproveitar o caos para dar uma voltinha algures — e notaram que lá fora é onde tudo realmente acontece —, aqueles que depois de alguns minutos de inquietação perceberam que não é assim tão mal conversar com a vovó sobre «os velhos tempos», brincar com o Rex no jardim, ligar para um conhecido de longa data, marcar um café com o conhecido de longa data, de repente até refletir se é realmente necessário ter tantas redes sociais, aqueles que, por fim, esqueceram-se da coisa toda, esses podem ficar sossegadinhos: conseguirão sobreviver caso a sociedade como a conhecemos seja obrigada a se desconectar da Internet².

Ontem, foram apenas algumas horas de abstinência. Mas o suficiente para perceber que muitos não ficarão assim tão sossegadinhos quando a coisa for realmente séria³.

— P. R. Cunha


¹Os próprios técnicos de Facebook e Instagram tiveram de se pronunciar formalmente no Twitter.

²Penso, «grosso modo», nas erupções solares — que podem destruir satélites, danificar a infraestrutura energética e causar um apagão sem prazo de validade.

³A Bárbara Reis de Público, por exemplo, fartara-se do Facebook e escrevera um Coffee break muito pertinente a respeito. Pode-se lê-lo aqui.