Pasternak: notas provisórias

Personagem chamado Pasternak — como o poeta/novelista/tradutor russo; motivo: o pai vivera para a União Soviética nos anos 1960. As cinco etapas do luto (luto que por vezes é desencadeado por: morte de parente/amigo, decepção amorosa, inadequações sociais [a definir]): negação, raiva, barganha, período melancólico, aceitação. Pasternak não admite, Pasternak furioso, controla-se, tenta mudar de ideia («e se eu [Pasternak] pudesse consertar as coisas» etc.), tristeza de Pasternak, depois de tantas batalhas, eis a resignação, o cansaço. Frase a martelar a cabeça deste excêntrico personagem: História se repete; a primeira vez como tragédia e depois como farsa. A frase, muito atual diga-se de passagem, é do Karl Marx. Tentativa de fuga, mas as pernas de Pasternak não se movem (figurativo/paralisia/eterno exilado/assim por diante). Pois observai o mundo e vereis que na mor parte os humanos não têm para onde ir. Manter a linguagem rebuscada numa espécie de jaula, aterrada; Pasternak não é 1) pedante; 2) estimado por seus bens; 3) muito menos julga a própria felicidade na medida da riqueza. Período antes do luto/melancolia, características gerais — até àquele momento Pasternak fora senhor de seus demônios, capaz de direcioná-los de acordo com seus caprichos, mas lá no fundo, como já escreveram numa importante obra filosófica, no mais recôndito de seu coração (a figura romântica do coração como casa dos nossos sentimentos), havia um poço infinito (bonita imagem: poço infinito, poço profundo), poço que reagia completamente alheio às vontades de Pasternak, fora de seu controle, e a tampa desse poço acabara de ser aberta. Pasternak não se reconhece.

— P. R. Cunha

Breves notas [semi] [auto] biográficas // ou «expor-se com ressalvas» &tc

com tantos computadores
armazenamentos
o que será do nosso
direito de esquecer?
[marchinha humana]

Então que podemos sim enterrar os vivos pelo menos ao cemitério das lembranças:
—— de certeza que ela continua a viver a própria vida acorda ducha trabalho trânsito casa cama enquanto essa coisa esponjosa & rosada que se espreme dentro do meu crânio // ceifa embalsama soterra incinera até sobrar [no more intercourse]
————— um qualquer vestígio {ALGO COMO UMA ENFADONHA CÓCEGA QUE SE SENTE QUANDO SE PISA A RELVA COM OS PÉS}
descalços

estes e outros tantos absurdos (à tarde canta o passarinho não de alegria mas de saudade)*

*a vaidade é um
combustível às criações [revista feminina de Helsinki | maio de 1978]
querer que se lembrem de mim
mesmo que eu não esteja mais aqui
para ter
consciência
de que estão a lembrar-se
a vaidade releva esses
e outros
tantos absurdos

«Die Nichtigkeiten werden zunichte werden»
[as nulidades serão reduzidas a nada]

CITAR PETER COMO SE FOSSE MEU — Weissagung // peças faladas

Durante quase uma década podemos acreditar…

que determinado ser humano nos significa TUDO para depois perceber que basta um parzinho de meses e tudo como se diz cai por água abaixo

poucas
coisas
são
mais
terríveis
do que a desconstrução de um ser humano que num dia é caríssimo no outro estranhíssimo

uma lembrança
um vestígio
dois nadas

— P. R. Cunha