Gênese crítica

Walter Benjamin costumava dizer que para alguém analisar as coisas em redor de forma adequada bastava-lhe saber que dentro da própria cabeça há pensamentos próprios. É quase um trabalho de tradução. O sujeito de repente observa uma árvore que lhe agrada imenso, ele pensa na árvore, está a sentir aprazíveis sensações e gostava de comentar a respeito da árvore. Organiza as ideias, senta-se à mesa, começa a tomar notas dos acontecimentos, transcreve.

Troquemos a árvore por um artista, ou mesmo por alguma criatura deste artista, e veremos o surgimento da crítica moderna, atividade caríssima a Benjamin. Os produtos da mente humana — romances, filmes, pinturas, danças, teatros etc. — estariam em constante formação, cada um à espera de certo olhar externo que subverte, recria, acrescenta. O crítico, segundo Benjamin, seria aquele que produz também uma espécie de obra de arte ao mergulhar na arte alheia. É mais uma travessia de dois náufragos do que um duelo à Alexander Pushkin.

Neste aspecto, aquele que critica precisa de saber que tem também responsabilidades. Para exercer o ofício com moderação e elegância, terá de adquirir aquilo a que costumam chamar de bagagem cultural. São as ferramentas do crítico, pelo menos daquele que pretende levar a empreitada a sério: ir aos museus, aos concertos, assistir aos filmes, ler os romances, rechear o próprio cérebro para que ele não se mostre errante no momento de dialogar com o contexto do objeto criticado.

Tudo pode começar, à laia de exemplo, com uma despretensiosa observação acerca dos acordes fúnebres de Danse macabre do compositor Charles-Camille Saint-Saëns. Notas que soam como um melancólico presságio, como o destino sempre incerto deste gênero musical que hoje é mais admirado do que escutado propriamente — e aqui evito escrever música clássica, pois, como bem explicou Alex Ross: o clássico é um termo que aprisiona a arte viva num zoológico do passado. Mas Saint-Saëns compreendia a inconstância do cenário em que estava inserido, que à tarde uma determinada sinfonia podia ser considerada a maior de todos os tempos, para, à noite, tudo cair em trevas novamente. O que lhe restava, então? Dançar com a morte do próprio gênero, aceitar a mutabilidade das coisas: Danse macabre.

— P. R. Cunha


Yevgeny_Onegin_by_Repin

Os gentlemen Eugene Onegin e Vladimir Lensky resolvem pendências num duelo. A cena foi pintada por Ilya Repin.

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte IV

O Paul Auster certa vez escreveu que mais do que ver o caixão ser baixado na terra, foi o ato de jogar fora as gravatas do pai que personificou a ideia do sepultamento. Auster livra-se de utensílios do guarda-roupa paterno e afinal compreende que o dono daquele vestuário não voltará a vesti-lo jamais. De minha parte, acreditei que visitar papai ao cemitério após oito anos de negação pudesse ser esta oportunidade simbólica cujo significado permite o processo de luto na consciência humana. Enquanto seguia pelo largo caminho que me levava de volta para o estacionamento, detive-me algumas vezes para observar as nuvens que desde a minha chegada se acumulavam preguiçosamente no horizonte e que agora pareciam prontas para chover.

Abertura

Esse silêncio que antecede a tempestade, a respeito do qual muito já se escreveu, me fez refletir que não seria má ideia montar um escritório ali no meio do Campo da Esperança, onde eu pudesse finalmente reaver meus estudos das narrativas de W. G. Sebald e Robert Walser, tarefa interrompida várias vezes ao longo dos últimos anos por motivos, reconheço, os mais parvos. Há muito eu havia desistido de escrever romances e tinha decidido me devotar em período integral, como se diz, às análises minuciosas desses escritores que influenciaram diretamente a construção do meu caráter, mas pelas mais diversas razões que se possa conceber boicotei cada etapa desse processo.

O facto é que o cenário ideal para criar e/ou pensar literatura não pode ser completamente adaptado aos critérios da realidade, ponderei olhando para as nuvens que se aproximavam. Há sempre qualquer coisa. Mesmo que se tenha muito dinheiro, uma cabana isolada de toda a gente, uma vasta coleção de «livros canônicos», mesmo assim o sujeito ainda será perturbado por vários temores, pensamentos inquietantes: é um empréstimo que ainda não foi pago ao banco, um sócio que tenta lhe enganar, cresce o mato no jardim, a criminalidade assusta, instabilidades políticas, terrorismos, a economia do país está em ruínas, alguém da família está doente, outro morreu, aquele suicidou-se. Pode-se citar como exemplo figurativo o semblante do escritor que tenta se concentrar na fazenda do próprio livro mas se vê incapaz de escrever uma única frase porque o mundo é injusto consigo: as olheiras; o cabelo ralo; o aspecto de um pugilista nocauteado; a roupa desalinhada, que de início fora escolhida de modo a disfarçar a precária situação deste pobre-diabo. Confiantemente aceitam-se esses clichês pré-fabricados da alma atormentada que decide se dedicar à arte, embora «ninguém valorize nem arte, nem artista».

Começou a chover e procurei abrigo embaixo da cobertura de zinco que cobria a pequena entrada da recepção do cemitério, à qual encontrava-se um homem de idade indefinível a pelejar com o chapéu-de-chuva que insistia em não abrir. Sr. Dionísio, como em breve fiquei sabendo, era funcionário do Campo da Esperança desde 1996 e já fazia planos para a aposentadoria, sublinhando particularmente o transtorno que era lidar não com os mortos, como se imaginaria numa situação dessas, mas com os sobreviventes, aqueles que, segundo ele mesmo, tinham o rosto transtornado pelos esforços das perdas. A certa altura, fitou o portão de saída do cemitério de um modo que a mim me pareceu um bocado teatral, completamente absorto, como se julgasse que aquela estrutura gradeada não fosse inteiramente segura, e confessara que também sentia falta de uma pessoa querida, uma amiga a quem em tempos estivera muito ligado, uma amante, ele acrescentara, e que nunca mais na vida se sentiu tão confortável como na companhia dessa enigmática mulher. Quando Joana morreu, disse o Sr. Dionísio, fui até a casa em que ela trabalhava como cozinheira, aliás, invadi a casa, sim, invadi seria o termo adequado, invadi e consumi todas as garrafas de uísque que o patrão dela mantinha num barzinho de mogno. Esvaziei aqueles recipientes cor de caramelo e transformei esse estúpido delito num ritual fúnebre, dá para acreditar?, ele murmurou para si próprio. Enquanto entornava essa quantidade absurda de bebida, continuou o Sr. Dionísio, enquanto eu me embebedava feito um cão raivoso, pensei na influência paralisadora que determinadas pessoas, mesmo depois de mortas, ainda conseguem exercer naqueles que permaneceram. Espiava dentro do gargalo da garrafa vazia e compreendia a idiotice que é estar vivo, correr atrás de tanta coisa sem cabimento. Bom, ele disse após um breve silêncio, pelo menos foi esse o meu caso, e o chapéu-de-chuba, veja você, resolveu cooperar.

Sr. Dionísio despediu-se com uma discreta cortesia, atravessou o portão do cemitério e aos poucos se transformara numa imagem difusa no meio da forte tempestade, estranho prelúdio ao próprio desaparecimento e ao daqueles que ele momentaneamente deixava para trás.

— P. R. Cunha