O gosto pela especulação abstrata

Você a conheceu, digamos, num bar, mas ela prefere chamar de pub, vocês então começam uma despretensiosa conversa sobre passado-presente-futuro-onde-você-se-vê-daqui-a-cinco-anos. A verdade é que vocês já fizeram coisas muito boas para outras pessoas e também coisas muito ruins; vocês já foram o motivo da felicidade de alguém, e já foram o motivo da ruína emocional de alguém. Vocês já disseram «eu te amo», vocês já escutaram «suma da minha frente!». Vocês se conheceram num bar/pub e agora criam desculpas engraçadinhas para serem amigos. Vocês prometem para si mesmos: desta vez não vou estragar tudo com a minha intempestividade, desta vez vai ser diferente, passo a passo, não pretendo cometer os mesmos erros, sem pressa, tudo vai ficar bem, sou uma pessoa melhor, mais madura, etcétera. Você percebe uma marquinha no braço dela, acha a marquinha adorável, você então comenta com ela: ei, essa marquinha aí no seu braço, muito adorável. Ela sorri e diz que nunca ninguém havia reparado naquela marquinha, ela conta que se trata de uma marquinha de nascença, que a marquinha sempre existira. Quando vocês não estão juntos, você pensa nela, depois pensa um pouco mais, até que a sua cabeça basicamente se divide em «preocupações do dia-a-dia» e «Ela», com letra maiúscula. Seu relógio biológico começa a se desregular, seu sono é uma bagunça, você agora se esquece de comer, os filmes lhe fazem lembrar dela (principalmente [e um pouco inexplicavelmente] Les Enfants du paradis, de Marcel Carné), as músicas também, você está a esperar o ônibus e um anúncio aleatório sobre «férias no Caribe» também lhe faz pensar nela. Você começa a fazer planos a curto (daí a médio, daí a longo) prazo, já não consegue conceber um futuro sem ela na sua vida, você quer aprender a cozinhar, a fazer massagem, decorar trechos dos poemas favoritos dela, você quer entrar para as aulas de desenho, aprender a tocar violino, piano, você, em suma, quer impressioná-la, mostrar que ela fizera a escolha certa, que ela não vai se arrepender depois. E ela gosta do jeito que você fala, assim, sem filtros, diretamente, isso transmite confiança, ela diz, uma sensação de tranquilidade, sujeito determinado, que sabe o que quer. Você então sorri, um sorriso bobo, sem motivos. Você acha que está apaixonado — justo você, que nos últimos tempos repetira tantas vezes que jamais se apaixonaria novamente.

— P. R. Cunha

Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

Dama inacessível por quem nutre sentimentos ambivalentes e o trapézio de Kafka

Escrevo
raivoso
amargo.

Você é um cara bom, ela disse, um escritor interessante, leu lá uns autores austríacos obscuros, ela disse, tem estilo, sem dúvida que tem estilo, ela disse, escreve profissionalmente, se eu coloco as coisas que você escreve ao lado das coisas que um escritor profissional escreve, não se nota a diferença, de forma alguma, ela disse, quem é quem, ambos profissionais, ela disse e acendeu um cigarro. Você me ama?, perguntei. Não, ela disse.

» O trapézio de Kafka

Kafka gostava de comparar o próprio ofício de escritor com as manobras arriscadas dos artistas circenses. Tu estás numa corda bamba, és um equilibrista, deslocas de modo instável. Ponto A (saída) até ao ponto B (chegada). O escritor tenta manter-se reto, segura apenas uma cadernetinha, talvez um lápis. Tem, portanto, muito menos que o trapezista do teatro de variedades — e para este ainda esticam uma rede por baixo.

— P. R. Cunha


Trapezistas

Aqui se descansa de todo o resto

Estavam casados há vinte anos e ela se dera conta de que precisavam de umas férias, como se diz, ao sossego do oceano marítimo. Colocaram as malas na traseira de um Volkswagen, ele se acomodou no banco do passageiro, ela se ajeitara ao volante e girou a chave de ligar. Olha para o retrovisor na hora de sair da garagem, pois não — disse ele. Ela conduzia bem devagarzinho, parando sempre quando a luz do sinal estava no amarelo. Você sabe que não precisa disto, ele disse. Do quê?, ela perguntou. De parar no sinal amarelo, ele disse, pode acelerar um tanto, passar antes de ir para o vermelho. Ela continuou a dirigir a seu modo, ou seja, devagar, parando no sinal amarelo. Ele bagunçou os próprios cabelos com as duas mãos, como costumam agir os adolescentes mimados quando são contrariados pelo papai e pela mamãe. Ficou a pensar o que acontecera com aquele relacionamento — afinal, foi justamente pelo modo cuidadoso e precavido que ele um dia a amou. Num dia somos completamente apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido de uma pessoa, no outro, ele pensou, no outro já não somos mais apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido dessa pessoa, em verdade, esse modo cuidadoso e precavido deixa a nossa cabeça à roda. O belo transforma-se em feio, refletiu ele enquanto o automóvel se aproximava de uma pousada isolada junto à frente de mar. Ela estacionou, abriram as portas sem dizer palavra. Tiraram da traseira do Volkswagen as malas e caminharam sem dar as mãos até à porta da pousada. Havia uma placa de madeira com a frase «Aqui se descansa de todo o resto» em tipologia cursiva e ele sentiu vontade de rir. Uma senhora de uns sessenta-setenta anos estava para a recepção e declarara de um modo muito afável: que bom terem vindo, estamos muitíssimos satisfeitos por terem vindo.

— P. R. Cunha

Isto aqui tem que ver com a verdade

fotografiaprcunhablogue
— Fotografia: P. R. Cunha

Muito já se escreveu sobre as dificuldades de homens e mulheres das chamadas «letras» de se relacionarem com outros seres humanos. Escritores, como se sabe, bichos arrogantes e megalomaníacos, que por vezes metem lá nas ideias o desejo de compartilhar o mesmo teto com um certo alguém. Manter, portanto, a lente focada nas intrigas dos relacionamentos amorosos. A ideia de que o escritor só é um verdadeiro artista se for louco dos pés à cabeça, se se entregar totalmente à loucura. Malucos, poços de manias, obsessivos. Esta imagem de fragilidade pode atrair, porque romantizada. — Gosto de você porque você é diferente etc. Um bípede se aproxima com ingênuas pretensões de salvá-lo da insanidade, sem compreender que dessa mazela gramatical não se pode fugir. Teresa e João tiveram um namorico de dois meses e estão agora ajoelhados para o altar; o padre pergunta se eles têm certeza. Ele acena com a cabeça que sim. Teresa hesita, relutante em aceitar, mas acaba por o fazer. Teresa, dos dois, é a que escreve. Na primavera do ano seguinte, João cai em profunda depressão porque Teresa não quer sair do próprio gabinete por nada, nem para um despretensioso amorzinho vespertino. Teresa só escreve, com ausência de afetividade — artificial, fria como um boneco de gelo. Mais tarde João sai amortalhado com o seu casaco preto para fazer compras, e como nunca recebesse da Teresa uma palavra cortês decide não voltar.

— P. R. Cunha