Comboios

Cenário: inverno, 10h48 da manhã, dois amigos jogam pedras na lagoa; árvore retorcida à esquerda — atrás, a fachada de uma pequena estalagem para descansar indo de jornada.

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[…] de início a coisa toda me estimulou muitíssimo, mas fui perdendo o interesse / isto sempre acontece contigo / o quê? / perder o interesse, começas com alvoroço, estás muito animado, e dali a pouco é como se nada te importasse, percebes?, tratas o assunto com aquela odiosa indiferença / [pensativo] pode ser, poder ser… mas a culpa não é minha, digo, não totalmente / e é de quem, então / ora, de vivalma / rá!, «vivalma», estás a falar daquele jeito engraçado de novo / de que jeito? / daquele jeito absurdo, livresco, como se fosses um personagem / [dedo em riste] shhhhhhhhhh!, precisamos de fazer silêncio / silêncio? / é, o poeta está a dormir / a estas horas? / poeta não escolhe hora / [bate o cajado na relva] tem cabimento… / ele acorda é solta uns grunhidos tristes, lamuriosos, ninguém aguenta [aponta para a janela] / e por que diabos aturam-no? / é elegante ter um hóspede poeta, não achas? / não / [furioso] é porque estás ranzinza feito um condutor de comboios! / [levanta-se, faz que vai embora, mas fica] não fazia mesmo a ideia de que condutores de comboios eram ranzinzas / pois nem eu, mas devem ser, ficam lá sentadinhos apenas observando a paisagem, não dirigem o comboio, o comboio apenas segue o carril, deve ser enfadonho / tenho a certeza de que não ficam apenas a observar paisagem / quem? / [suspira de forma impaciente] os condutores de comboios / e fazem mais o quê lá dentro? / diabos, nunca conduzi comboio para sabê-lo / então por que metes as tintas numa atividade que não tens a ideia? / [levanta-se novamente, limpa a grama que se acumulara na parte traseira das calças] disparate!, tu que começaste! / [calmamente] não, não [pausa], não comecei foi nada, estava apenas a explicar que de início a coisa toda me estimulou, e depois perdi o interesse, perdi completamente o interesse, e tu com essas ladainhas de comboio […]

— P. R. Cunha

A camaradagem nos tempos do WhatsApp

Eles vão querer que você seja criativo, sim, com certeza, criativo…, mas criativo dentro de certos limites, e nada de ultrapassar esses certos limites, por favor, nada de hiperprodutividades, e compartilhar todas as hiperprodutividades, todos os fluxos de consciência, o melhor manuscrito desde aquela história lá com o Holden Caulfield, blá-blá-blá, você e suas manias de grandeza, é muita coisa, sem dúvida, imensa coisa, risco de afogamento, eles não dão conta, definitivamente, não dão conta, muita informação, só querem que você seja criativo, é isso, mastigado, sucinto, vá de mansinho, está a perceber?, e numa altura é provável que eles peçam favores, ah, sim, os favores, as ajudas, os auxílios, as emergências e ao final de ajuda-auxílio-emergência-favor eles irão garantir: puxa!, fico lhe devendo essa, mano/nem sei como lhe agradecer/que grande caráter/conte comigo para o que der e vier/viu, falo a sério, conte comigo mesmo, mesmo, mesmo e é bem capaz de serem palavras, como se diz, «da boca pra fora», boas intenções, nada mais do que boas intenções, existe a probabilidade (71%, 85,4%, 92,33% [complicadíssimo calcular esse tipo de tretas]) de você nunca receber ajuda-emergência-auxílio-favor de volta para si, ilusão, fantasia, como foi cair nessa, onde estava com a cabeça, mas eles podem — afinal, nada é certo nesta vida —, veja lá, eles podem comparecer ao seu casamento, que tal?, bom, não é?, de repente mandar algumas fraldinhas tamanhos P & M quando o seu(sua) filho(a) nascer, eles podem também ir ao velório de algum parente que lhe é caro, ou não ir ao velório de algum parente que lhe é caro, pedem as desculpas, dizem que não estavam na cidade na ocasião do velório, mentem que não estavam na cidade, mentem na cara dura, porque em verdade toda a gente percebe que estavam na cidade, a internet sabe que eles estavam na cidade, mas disseram que não estavam na cidade, que estavam fora, no estrangeiro, longe, pois não queriam lidar com o luto, compreende direitinho?, que chatice encarar a própria finitude, que disparate estragar o fim de semana com esses «rendez-vous dos mortos», e depois eles podem desaparecer, claro, há sempre essa chance, desaparecer, sumir, vão-se embora como se jamais tivessem existido ou algo nesses moldes.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #35)

eu havia marcado de encontrar o meu amigo bob, bob flynn, ao café-restaurante da rua noventa às 7h30 da manhã, mas cheguei uma hora antes, ou seja, às 6h30 da manhã, tão cedo que o café-restaurante ainda nem sequer estava aberto, escreve ray. a ideia de chegar com tanta antecedência surgiu-me na noite anterior, quando fui até à cozinha preparar qualquer coisa para comer & deparei-me com duas baratas gigantescas a fazer sexo. eu nunca tinha visto nada parecido. as baratas cruzam de uma maneira completamente despudorada, não fazem questão nenhuma de olhar uma para a antena da outra, & agora que estou analisando a cena retrospectivamente, talvez o ato não seja muito diferente do sexo entre certos casais que estão juntos há, sei lá, vinte, trinta anos. dois simulacros de pessoas que entram embaixo dos lençóis, fazem o que têm de fazer, viram-se cada um para o próprio lado da cama & vida que segue. enquanto as baratas fornicavam num dos quadradinhos 20x20cm do piso esmaltado com borda arredondada da minha cozinha, tentei imaginar, à guisa de entretenimento, um início alternativo para aquele livro «a metamorfose», escrito ao que parece por um tal de kafka, sugestão do meu próprio amigo bob flynn: quando certa manhã a barata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em seu esgoto metamorfoseada num animal humano monstruoso. a ideia, portanto, era conversar a respeito dessas miudezas de barata com o meu bom & velho amigo bob flynn, que chegara ao café-restaurante pontualmente às 7h30 da matina. sempre foi do feitio do bob chegar aos nossos encontros sem atraso. numa ocasião, acho que nos anos noventa ou algo assim, zelda — minha primeira esposa — & eu convidamos bob & aretha para jantar. lembro-me de que estava a cair uma tempestade terrível, as ruas foram interditadas, voos foram cancelados, mas bob tocara a campainha exatamente à hora combinada, abrira a porta para aretha passar & até hoje não sei como ele consegue fazer isso. acho que o bob controla alguma fenda misteriosa no tecido espaço-tempo, só pode ser. a funcionária do café-restaurante entregou-nos o cardápio & perguntou se poderia nos ajudar com alguma coisa. pedimos duas chávenas de café sem açúcar, uma cestinha com torradas. a funcionária rabiscou com a caneta bic azul & retirou-se sem tirar os olhos do bloquinho de anotações. então descrevi a cena pornográfica que se passara na noite anterior sobre os azulejos da minha cozinha. o bob, que havia deixado o chapéu-panamá no encosto da cadeira, levou-me absolutamente a sério, compenetrado, sim, escutara tudo com muita atenção.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #12)

arrumar a escrivaninha para um novo trabalho, nova empreitada, quantas portas serão abertas, escancaradas, outra vida. 

(& era como se minha cabeça estivesse hibernando, até que, de repente: booooom!)

vamos supor que francisco & samir sejam amigos, conheceram-se em criança, na escola. vamos supor também que eles não se encontram há décadas, vinte anos talvez. sabemos que vivem na mesma cidade; francisco é advogado, mora perto da praia; samir é arquiteto, mora ao cimo da serra. ambos estão naquela fase a que chamamos — não sem um comedimento desconfortável — de meia idade. aconteceu de franciso ser contratado para defender o caso de um empresário que, assim como samir, possui residência ao cimo da serra. francisco raramente sobe a serra, não lhe apetece o clima frio das montanhas, de forma que decidira aproveitar-se da ocasião & convidar o longevo amigo para, como se diz, colocar a conversa em dia. samir mostrara-se de facto muito surpreso com a ligação de francisco: eu realmente não esperava, ele disse, & antes de se despedirem ao telefone, combinaram hora (às 15h) & local do encontro (cafeteria da serra). vamos supor que francisco tenha aparecido, vamos supor ainda uma última vez que francisco tenha esperado cerca de duas horas pelo amigo arquiteto — mas samir nunca apareceu.

— p. r. cunha