devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

À guisa de mudança (outras ondas)

No mês passado a câmera de segurança de determinado estabelecimento comercial capturara a luta de um jovem estudante contra 2 (dois) bandidos perigosamente armados. A luta portanto desse estudante contra os dois (2) sujeitos peçonhentos que tentavam roubar-lhe a mochila, mas o jovem estudante não queria de forma alguma ceder, isto é: desfazer-se da supracitada mochila, pois dentro dela estava um raro tratado escrito por Giacomo Casanova — coisa que os bandidos não tinham como saber, nem ao menos faziam a ideia de quem seria o tal Casanova. Apenas insistiram (os bandidos) em puxar a mochila do estudante precisando recorrer finalmente à força e à faca que um deles enfiara no dorso do gajo sem demonstrar qualquer sinal de remorso. Os jornais comentam que o sacrifício do escolar que poder-se-ia dizer arriscara a própria vida para defender Casanova inflamara/reanimara o mercado editorial (i.e. livresco) durante um par de semanas, até tudo voltar às chamadas normalidades — jovem estudante, Giacomo Casanova & obsessão pelos livros esquecidos novamente.

intrigazinha

Que o Chico Buarque tenha lá recebido o Prémio Camões antes de Gonçalo M. Tavares / walter hugo mãe / Dulce Maria Cardoso & outros parece-me um imperdoável disparate — à moda Bob Dylan Nobel da Literatura.

(…)

fechas a cortina
do teu quarto de hotel
e sentes
num repente
que poderias estar em
qualquer outro sítio.

(Anotado em dezembro de 2018 num quarto de hotel / Lisboa [ou teria sido Aveiro{?}] )

P. R. Cunha abandona momentaneamente a literatura arquitecto-construtivista da capital federal para entregar-se outras vezes às influências marítimas da sempre inspiradora cidade de Niterói, Rio de Janeiro, na América do Sul. Ocasiões em que o autor compreende que como o Caldo Primordial de compostos orgânicos, os crustáceos e os moluscos (Cephalopoda) também a sua percepção de mundo + próprio tacto com os verbos nasceram das profundezas oceânicas. Uns minutinhos de tréguas do betão/concreto armado. A aeronave nestas alturas voa já para os portos cariocas, enquanto a alma sente aos poucos o gosto salgado das imensas possibilidades náuticas — como diz P. R. Cunha pro domo sua.

— P. R. Cunha