devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

Tudo se modifica / eventualmente

Agosto de 1997, Paris. Ao tentar fugir do assédio de paparazzi, o motorista que conduzia Lady Di e Dodi Fayed perdeu o controle do automóvel e bateu num dos muros do túnel Pont de l’Alma. O único sobrevivente da tragédia foi Trevor Rees-Jones, segurança pessoal de Fayed.

Junho de 2019, Paris/Rio de Janeiro. O futebolista Neymar Jr. é acusado por Najila Trindade de a ter violado. Para se defender, o atleta utiliza-se das redes sociais e publica vídeos com imagens íntimas, mensagens privadas, e outros esclarecimentos relacionados.

Há vinte anos, uma princesa que só queria ser deixada em paz fugia de bisbilhoteiros e morreu por defender o próprio direito de privacidade. Hoje, muitas celebridades que não admitem ser deixadas em paz sobrevivem num contexto de superexposição, mostram e contam tudo, tin-tin-por-tin-tin, para os voyeurs cibernéticos.

Como diria um sábio estóico: a impermanência das coisas que nos rodeiam, dos valores que nos regem, dos homens; imprevisíveis.

— P. R. Cunha