Para-choques

Depois de cinco anos a trabalhar numa empresa detestável, Casimiro conseguiu finalmente comprar o próprio sedan. Não chega a ser um automóvel conservado: dois donos, para-choque dianteiro desigual, uma das lanternas traseiras parou de funcionar e a porta do motorista possui um arranhão visível a uns bons metros de distância. Casimiro está sentado ao volante. O cheiro no interior do veículo é um pouco enjoativo, ele tem de confessar. Como se alguma perfumaria desleixada tivesse jogado ali uma qualquer fragrância à base de petróleo que ainda não passara pelo departamento de qualidade. Segundo o vendedor, o carro pode ir de zero a sessenta quilómetros em dez segundos, velocidade máxima de cento e oitenta, sem direção hidráulica. Está a comprar um automóvel forte, robusto — dissera o vendedor cuja gravata possuía resquícios de bolo de chocolate —, não vai se arrepender. Casimiro liga o sedan e fica a escutar o barulho desengonçado do motor a benzina. Algumas peças desencaixadas trepidam, ele se sente dentro de uma discoteca dos 1970. Desliga o carro. Tira a chave da ignição. O sedan que Casimiro comprou é verde.

— P. R. Cunha

O homem embaixo da terra

Poucos lugares no mundo são mais desoladores e melancólicos do que a garagem do prédio onde moro às três horas da manhã depois de uma noite de bebedeiras voltadas ao esquecimento total. Quando a única companhia é um hidrante vermelho grudado na parede perto dos elevadores e a trilha sonora se faz do zumbido apático das lâmpadas fluorescentes que, pelos vistos, não são trocadas há anos. O que se passa na minha cabeça: que um homem pode levar a vida inteira obedecendo todas as regras, e aí de súbito já não importa mais nada.

— P. R. Cunha

Mapa

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Estilo de escrita
Teatro
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Quarta nota
Fotografias
Músicas
Vídeos
Короткий рассказ (contos em russo)
Prémio Aldónio Gomes
Lojinha
Conta(c)tos

Deixemos o sr. Hampton descansar em paz junto aos amigos de papel

Durante mais de quatro décadas o sr. Hampton dedicara-se à literatura, como se diz, com afinco. Lia cinquenta, sessenta, às vezes noventa livros por ano. Portanto, não é difícil de perceber que a vida social do sr. Hampton — isto é: estar com outras pessoas algures — sofrera danos irreparáveis por conta dessa predileção por personagens feitos de tinta e celulose. O mecanismo de autodefesa desenvolvido pelo velho Hampton consistia em explicar que, quando abria uma obra literária, viajava ao longe, nunca estava só. E que a única diferença, ele dizia, a única diferença entre o turista livresco e o turista que pavoneia noutros cantos da esfera terrestre é que este corre riscos desnecessários, enquanto aquele escapa sem sair do lugar. Para o sr. Hampton, trancar-se, ler e libertar-se durante o processo era um subterfúgio contra os absurdos da realidade como qualquer outro. Se estamos lá fora — ele escrevera certa vez para um dos sobrinhos —, estamos sempre à mercê da violência, do machismo, do genocídio, do racismo, da tristeza, da dor, da estupidez e ainda podemos levar uma bala no pulmão a qualquer instante. Nenhum ser humano, ele acrescenta ainda, tem condições de encarar essa bagunça toda por muito tempo. Daí cada um criar o próprio esconderijo fantástico, desenvolver rotinas estabilizadas. Há quem prefira mergulhar nas séries detetivescas, outros vão ao cinema a cada dois dias, outros tantos assistem às novelas, ao futebol, fuxicam as crises existenciais dos famosos, empanturram-se de remédios tarja preta, consomem drogas pesadas e assim por diante. Basicamente, resumia o sr. Hampton, andamos por aí afora a viver várias coisas, menos a bendita da realidade.

— P. R. Cunha

Pensou que talvez devesse tomar algumas providências a respeito do modo de se vestir para que o levassem mais a sério

Estar num estado de muita euforia (ou alienação patológica) para se cortejar as musas melancólicas sem correr o risco de perder completamente os botões, etcétera. Só os contentes, como se sabe, anotam para si as poesias taciturnas. Ocorrera qualquer coisa parecida com aquele escritor da miúda Alcalá de Henares, tipo estranho que nascera uns bons cinco séculos antes de o Doktor Freud criar os alicerces da chamada «ciência das almas». Pois que a loucura era freelancer nos campos do fidalgo Miguel de Cervantes Saavedra, pai do Quixote. Flerta com a maligna, dia-e-noite, por anos, instiga, cutuca, tira-a do sério. Até que a jaula se abre e o pobrezinho busca abrigo na casa da vovó, que está enferma, cá não fica por muito tempo. Alguma tia irascível, com rugas de dores & pavor a desenhar-lhe o corpo inteiro, de longe, quase não se escuta a megera: eu bem que avisei — ela diz. E esta constatação (ficou lelé, o sobrinho das letras) pareceu lhe proporcionar um regojizo imenso.

— P. R. Cunha

Café da manhã

Preciso escrever todos os dias, para que o meu cérebro não atrofie. Como aquele maratonista que aos poucos aumenta as próprias quilometragens antes de correr para a Olimpíada.

(…)

Manhã, por volta das sete horas. Ele está sentado à mesa da cozinha, segura uma chávena de café, assopra o líquido quente que libera uma fumaça aromatizada. Ele respira a fumaça e olha para a esposa que está a comer torradas com geleia de amora. Ele não gosta do jeito que ela come as torradas com geleia de amora. Ela tampouco aprova o rosto imbecil do marido a cheirar o café daquela forma. Ela se levanta e finge pegar algo dentro de uma das gavetas embaixo da pia — só o fez porque já não aguentava mais ver as feições estúpidas do marido cheirando o maldito café. «Será que você poderia parar de cheirar o maldito café?», ela diz. Ele levanta o rosto: atordoado, sim, mas não de todo surpreso. Daí coloca lentamente a chávena sobre a mesa, enxuga a boca com um guardanapo, dobra o guardanapo. Ele se levanta sem dizer palavra, pega a chave do carro e sai. No caminho para o trabalho, ele se distrai com as imagens do que acabara de acontecer: o café, a torrada com geleia de amora, a reação intempestiva da esposa, o terrível tédio da inércia matrimonial. Quando finalmente volta as atenções para a pista, uma moça vestida com certa elegância esta a atravessar a rua e ele quase a atropela. A verdade é que ele não sabe, e também não teria como sabê-lo, mas a moça que ele quase atropelara acabou de ser promovida a gerente de vendas de uma montadora de automóveis. E essa é outra história.

— P. R. Cunha

Trecho de romance

Teoremas do fracasso
(P. R. Cunha – Inédito)

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler. Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O fato de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza. O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler. Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências. Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória. Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até mesmo para si), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam. Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro. Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler