Na dissolução do espaço e do tempo de uma partida de xadrez, também o enxadrista se desintegra

Ajeitou as peças com esmero,
e viu-se desaparecer no tabuleiro,
no jogo de xadrez,
num combate glaciar.

Há anos que arquiteto uma fuga do mundo para passar o resto dos meus dias a jogar xadrez. Uma escapada, como se costuma dizer, para apaziguar a angústia que me tolhe, etc. Jogar o jogo de xadrez, ter ao meu lado uma chávena de café — como se essas coisas fossem as derradeiras. AMBIENTE DO JOGO DE XADREZ: cabana alpina à Nietzsche, sem qualquer sinal de vida além do ronronar distante dos aquecedores e o som do nevão que cai alhures. ADVERSÁRIO DE XADREZ: semblante indiferente, como que perdido num labirinto de jogadas mentais que aos poucos se materializam ao tabuleiro; ele-ou-ela inclina a cabeça para trás, na atitude de quem concentra-se com afinco imperturbável. Adversário de xadrez (ele-ou-ela) demonstra, portanto, uma frieza assustadora; e quando me vejo perante essa criatura polar reconheço, em todos os sentidos do termo, o meu íntimo opositor (doppelgänger). Que coisa tão estranha! DURAÇÃO DO JOGO DE XADREZ: tempo indeterminado, um jogo de xadrez sem cronometragem. INÍCIO DA PARTIDA DE XADREZ SEM CRONOMETRAGEM: os enxadristas analisam-se como dois condenados que se dirigem ao cadafalso; têm no rosto aquela vã tentativa de coragem. Resignaram-se. Os enxadristas aguardam o movimento do adversário em absoluto silêncio. Escutam o tamborilar da neve no tejadilho. Os enxadristas agora jogam o xadrez — para dar cor a uma vida que já lhes feriu imenso.

— P. R. Cunha

É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha

Quatro (muito breves) «poemas» sobre construções & destruições anteriores — desmontagens entre maio de dois-mil-e-quinze & fevereiro de dois-mil-e-dezoito

—1.
lembrança
esta maldita
machuca imenso

—2.
o brasileiro
passa o inverno
ao coqueiro

—3.
dever-se à escrita
literatura
desnecessária

—4.
nasci em Brasília
contei mentiras e disparates
morri em Brasília

— P. R. Cunha

Convite tautológico // made in Brasília

Realiza-se na próxima sexta-feira, à Cervejaria Criolina, um lançamento de revista literária. Essa festa é promovida pelos editores Mello Mourão, Nascimento Dias e Pina Viana — que já há tempos publicam Madame Eva com imponente sucesso. Sabe-se que o desempenho dos colaboradores desta edição número seis (de cuja equipe orgulhosamente faço parte) agradou imenso aqueles que, como se diz, deram lá uma espiadela para as páginas de papel reciclado 120g/m² impressas pelo maquinário da ArteGráficaPrêmio, sempre sob a supervisão do Carlos.

O evento contará com as participações do ilustrador Kleverson Mariano e da fotógrafa Clara Molina — havendo também uma animada soirée dançante, durante a qual serei, com agrado, o disc-jockey.

MADAME EVA N6 – LANÇAMENTO

Coração à deriva, a bordo do qual ocorrem os versos a seguir

— Para a Kameni Kuhn

Invente-se poeta
um outro dentro de si
para colocar na pena alheia
o que se sente
intensamente

Poeta louco de verdade
que agita o próprio coração
cujos batimentos
semelhantes às hélices de um navio guerreiro
se ouvem a um oceano de distância

Fala a sós consigo mesmo
não louco a fingir
que vai buscar ao fundo
da alma
as feridas sem razão

Poeta engenhoso
ousado e malévolo
adentro do seu gênero
a espécie mais perigosa
de cometer

— P. R. Cunha

Palhas secas por triste ornamento

Um fazendeiro encavalitado
certa tarde na própria casa de habitação
O Sol cuspia o fogo como de costume
e o espantalho balançava suas garras de palha

No outono de 1989, vovô construiu uma casa de campo para si e, por mera superstição, armou um espantalho à entrada. O aspecto do boneco era em tudo condizente com o temperamento do meu velho: o longo silêncio em lugar de trocar palavras inúteis, pouco caso com a aparência, a camisa xadrez a largar o último fio, o chapéu de palha que sempre levava à cabeça. Por vezes apetecia-lhe tomar assento ao lado do espantalho, abria uma garrafa de Genturret, deitava um pouco em ambos os copos e brindavam com corações de há muito rachados. Ele adorava fazer perguntas ao espantalho. Fazia-as por simples prazer, para demonstrar a discrepância entre as conversas com um espanta-pássaro e a chamada realidade do mundo dos homens. Interrogava o espantalho sobre as suas vidas amorosas com as moças espantalhas, a filosofia do senhor espantalho, time de futebol do senhor espantalho, se gostava mais de Dickens ou de Tolstói, mexericos de toda a natureza. Não raro meu avô se levantava e espanava a poeira do espantalho, para não esquecer que também ele se havia de transformar em pó. Poucos meses depois de mudar-se para o campo, vovô recebera visita de um fazendeiro da região, Moreira em solteiro. Disse o Moreira que toda a gente estava lá um bocado preocupada com o tal espantalho. Contou também que de certa vez um funcionário foi procurá-lo, muitíssimo assustado, a dizer que vira caminhar uma figura de palha, muito parecida com aquele boneco ali — o Moreira apontou para o espantalho que pendia torto à entrada da casa. Segundo as anotações do diário do meu avô, cujas páginas estou aqui a citar, ele teria respondido o seguinte: «Fazendeiro Moreira, há quem afirme que o espantalho não pode se mexer por si, mas isso não passa de uma fábula». O Moreira, visivelmente desgostoso, enxugou a testa com uma flanela vermelha e antes de sair balbuciou: espírito perturbado, isolado no seu embuste, pobre diabo! Naquela mesma tarde, vovô acrescentaria ainda às folhas amareladas: têm o direito de ignorar o que é o Espantalho, posto que o próprio dono da quinta (este que vos escreve), confessa francamente: Nescio qui sit.

— P. R. Cunha

«Un descubrimiento genial, mágico, surrealista. Encuentros que te hacen continuar.»

Quando Conserva de Aspargo e Garrafa de Leite atravessam o Atlântico — y encuentran un corazón gallego

Por el hueco de la escalera

Es un honor, un placer y un privilegio compartir con todxs vosotrxs a un genio de las letras, un colega excepcional: P. R. Cunha

Tuvo la osadía absurda (maravillosa) de dedicarme tamaña pieza teatral que degusté y con la que me reí muchísimo.

Copio y pego:

Esta peça teatral foi escrita à tardinha em 28 de março de 2018, ao Clandestino Café e Música — é dedicada à artista espanholaMarina López Fernández(inconstancias tropicales, locuras del otro lado del mar: «Bienvenida a mi mente»).

Ambiente habitual que precede ao espetáculo de teatro. Murmurinhos na sala. Os funcionários do teatro deverão fechar as portas do teatro pontualmente às 20h32 (vinte horas e trinta e dois minutos [horário de Brasília {UTC–3}]). Depois, uma funcionária do teatro pressionará botão vermelho ao lado da porta do teatro: soará assim a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro. Os espectadores…

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