Marca-passo

bertrandantiga
— Livraria Bertrand, Rua Garrett [s.d.] Fotógrafo não identificado
O leitor curioso entra na Livraria Bertrand em Lisboa e depara-se com a seguinte oração: «Desde 1732 a ler com os portugueses». Eis uma cena que já se tornara clássica entre os bibliófilos que obsessivamente saem mundo afora em busca dos chamados refúgios de papel — inclusive, lembra um bom bocado as primeiras observações de Jorge Carrión sobre certa visita à mesma Bertrand numa altura em que escrevia Livrarias — uma história de paixão comércio e melancolia, publicado pela Quetzal. Na primeira sala, diz Carrión, tudo aponta para esse passado venerável patente na data: a vitrina de livros em destaque; as escadas deslizantes ou o banco-escadote que permite aceder às prateleiras mais altas de umas estantes vetustas — o diploma do Guinness World Records, a certificá-la como a mais antiga do mundo. Interessa-me sobremaneira esse cuidado com o tempo, o desejo de aprisioná-lo, recuperá-lo, repeti-lo, o tempo que legitima. Se dura há tanto, é porque deve servir. Lembrei-me também de uma entrevista cedida pelo Alberto Manguel em que ele comenta sobre determinadas crises de ansiedade que por vezes o assaltam quando dentro de livrarias. A vontade é de derrubar aquela quantidade absurda de livros, ele diz, o ódio e a frustração por não conseguir lê-los todos. Simplesmente não há tempo. O ser humano que se dedica com afinco às leituras conseguirá ler aproximadamente cinco mil livros em vida. Parece um número razoável. Até ser comparado com a sufocante cifra de quase 900 mil obras lançadas apenas no mercado estadunidense em 2017. São as misteriosas negações e proibições às quais a existência se entrega. Então, entra na Bertrand no n.º 73 da Rua Garrett, ou em qualquer outra livraria, e diga para si: não sou ninguém; este universo de celulose e tipologias me é quase todo inexplorável. Mas não se desespere. Porque, como dissera um antigo: só é mesmo possível desejar uma estrela que esteja fora do nosso alcance.

— P. R. Cunha

Pautas ao contrário do que estava igualmente previsto

Faça um balanço para tentar perceber o que correu mal e bem no processo. Causas iniciais: pragas geradas pela bioengenharia, fendas para outras dimensões (não me arriscar ao sci-fi, não sei escrever sci-fi sem soar 1] pedante; 2] estúpido; 3] piegas 4] etc.), experiências nucleares dão errado, outras experiências químicas realizadas inadequadamente. Ameaças: chuva ácida, terremotos, baratas contagiosas, lobos gigantes, piscinas de ácido, falta de recursos. Sobreviventes: 19.6% da população.

— P. R. Cunha

Seu destino também seria o de tombar cedo no combate

Hemingway dizia que fazer literatura era fácil: bastava estar à maquina de escrever e sangrar. A ironia do autor de Adeus às armas — que dera adeus ao mundo com um tiro de fuzil na própria cabeça — incrementa-se com o fato de ele sempre ter trabalhado em pé, postura que, como se sabe, proporciona melhor circulação sanguínea. Literatura autodestrutiva, a do Hemingway. E não raro observa-se nos chamados novos escritores um terrível asco por essas gentes de outros tempos que entregavam-se à boemia, ao sofrimento, às batalhas, ao suicídio. Porque hoje se escreve à base de vitaminas e minerais, água potável no cantil. Há mesmo diversos sítios web que contam lá como/quando/onde deve comer o literato contemporâneo — vestido com o pulôver costurado pela bisavô (que já vive cá um bocado de tempo). Joseph Conrad escreve sobre o livro O emblema vermelho da coragem, do amigo Stephen Crane, edição Penguin: obra espontânea que parece jorrar e fluir como uma nascente das profundezas da alma do autor. Jorrar, fluir, emblema vermelho — eufemismos de sangue. E este grande período de pseudo-paz pelo qual a humanidade está a passar desde o colapso da União Soviética, período obscuro, de indiferenças. Literatura que por vezes se torna o reflexo do status quo; escritores alheados que vestem as máscaras jubilosas e preferem esquecer que o animal humano sobrevive num esforço nascido de dor e morte. Que a arte, e aqui cito o Crane: é filha do padecimento.

— P. R. Cunha

O amante (esboço de cena)

Sala de estar dos Medeiros. Ela — sentadano sofá aler revista de arquitetura. Ele — a preparar uísquepara um trago vespertino.

SRA. MEDEIROS
Belas casas, jardins, pomares, terraços,
automóveis importados na garagem,
gabinetes com muitos livros,
como lê, essa gente, céus!

SR. MEDEIROS
Ele há de ser reputado
como um gracioso
lorde, ou mecenas,
homem afortunado.

SRA. MEDEIROS
Do que fala?
Toma um trago e
perde lá as estribeiras.

SR. MEDEIROS
Do amante.

SRA. MEDEIROS
Amante?

SR. MEDEIROS
Do seu, é claro.
Virtuoso, honesto.
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Enlouqueceu?

SR. MEDEIROS
Fica a ler arquitetura,
mas, a sério, pensa nele,
não pensa?

SRA. MEDEIROS
Em quem?

SR. MEDEIROS
Não se faça de tola,
pode ser?

SRA. MEDEIROS
Não tenho amante
nenhum.

SR. MEDEIROS
Dupla negação.

SRA. MEDEIROS
Como é?

SR. MEDEIROS
Não, nenhum
dupla negação.
Então que há alguém
é que há.
(entorna o copo num só gole,
levanta-se para preparar
outro
)

SRA. MEDEIROS
Bem que a
minha mãe falou.

SR. MEDEIROS
E o que falara,
a mãezinha?

SRA. MEDEIROS
Não se meta
com os escritores,
loucos, todos,
doidos.

SR. MEDEIROS
Bem, vejamos.
Eu cá
(coloca cubos de
gelo no copo
)
Eu cá tenho inclinações
a vilanias, certo
endoidei.
Fico a beber. Fico a escrever.
Depois bebo outra vez.
Escrevo outra vez.
E o amante?
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Sim, veleja.

— P. R. Cunha

Fortunato (excerto [2015])

PRIMEIRA CENA

Sete e quinze da manhã.
Pousada.
Fortunato entra pela direita. Está a segurar 
maleta marrom à moda antiga. O recepcionista fica a observá-lo. Fortunato ergue a mão para cumprimentá-lo.

FORTUNATO
Fortunato.

RECEPCIONISTA
Pois não.

FORTUNATO
Deixei meu automóvel em casa,
percebe? É a esposa.
Não está nada bem.
Vim de Uber.

RECEPCINISTA
Compreendo.

FORTUNATO
As coisas
não estão fáceis.
E se precisamos viajar,
uma viagem realmente
imprescindível, como se diz.
Preciso viajar, eu digo.
E fica para casa a esposa.
E se a esposa anda enferma.
Daí a viagem perde um pouco
o sentido.
E toda a gente lhe pergunta:
Mas vai viajar e deixa ali
a esposa enferma, isso não se faz.
Definitivamente.
(Olha ao redor)

RECEPCIONISTA
Compreendo.

FORTUNATO
A televisão fica ligada
até as tantas ou o quê?
(Ele tira uma brochura do
bolso do paletó)
É que não posso com as
televisões
elas me atrapalham
um bocado mesmo.
(Ele aponta para alguma
coisa específica na brochura)
Veja você mesmo: pousada para
repousos.
Pois, sim, cheguei de longe,
viagem imprescindível,
para descansar.
(O recepcionista chama o Oswaldo)

RECEPCIONISTA
Oswaldo, a TV.
(Oswaldo desliga a TV)

FORTUNATO
Assim está melhor.
(Inspira de forma dramática)
O ar do campo, percebe?

RECEPCIONISTA
Se o senhor diz.

FORTUNATO
Não venho pelo luxo.
Nada disso.
Forma alguma.
Não esbanjo.
Esposa doente.
Quero apenas descansar.
A esposa ficou.
Mas tenho o direito
de descansar, o senhor
não acha?

RECEPCIONISTA
Acho que temos todos lá o
direito de descansar, sr. Fortunato.

FORTUNATO
Um quarto simples, cama bem arrumada,
casa de banho, e é tudo.

RECEPCIONISTA
E quanto tempo pretende
cá ficar, sr. Fortunato?

FORTUNATO
Se a esposa bate as botas,
volto. Se não bate, fico mais um tanto.
Preciso descansar.

RECEPCIONISTA
Sete dias.

FORTUNATO
Justo.
(Recepcionista digita qualquer
coisa ao computador)
Eu costumava cá ficar
em criança.
(Gira a cabeça, um pouco
inconformado)
Está mudado.
Muito mudado.

RECEPCIONISTA
Sete dias.

FORTUNATO
Sete dias.

RECEPCIONISTA
Forma de pagamento?

— P. R. Cunha

Uma vez que temos um encontro marcado com uma amiga

Não é fácil de explicar quando (e como) é que o escritor ultrapassa de fato a fronteira para a chamada maturidade. Isso pode acontecer até bem cedo, depois de uma qualquer tragédia que lhe causa traumas — as chamadas cicatrizes da alma. Ou bem tarde, quando já é tarde demais. A escrita, como repetiram muitas vezes, é lá uma arte solitária, e quem a pratica está quase sempre muito particularmente só consigo mesmo. Daí a dificuldade de se perceber alterações. Há também quem defenda o alastramento da ingenuidade; que o escritor livre das mazelas do mundo adulto (i.e. real [?]) tem mais chances de anotar textos honestos. É a romantização do asceta, do retirado, do melancólico, da eterna criança. Imprescindível lembrar que apesar dos esforços de se permanecer completamente alheado, o monge lida lá com alguns seres humanos — e, como costuma ocorrer, cria laços, mesmo que sem muitas complexidades. Aqui o problema é orgânico: as pessoas simplesmente morrem. E não há antídoto eficaz para curar as dores da saudade. Quer dizer: não importa a fortaleza que se cria, o tamanho da murada, a finitude dará sempre um jeito de invadir o bunker do escritor. Rezam as crônicas que somente depois dessas provas, de lidar com a decadência dos queridos, lidar com a própria morte, com a imprevisibilidade da morte, e sentir o gosto de ferrugem que ela deixa atrás de si, somente depois disso o escritor entraria para a fase madura — fase em que não brinca mais com fadas, mas com fantasmas.

— P. R. Cunha

Do qual mais não se sabe

Há um andarilho solitário que fica a rodear o Conjunto Nacional, centro de Brasília, perto da rodoviária. Quando o observei pela primeira vez, ele caminhava de-um-lado-para-o-outro a dizer que era bonito ver as pessoas se divertirem no oceano, em cima dos barcos, mas num naufrágio — todos vão para o fundo do mar. Imagem terrível, o naufrágio, mas de muito boa feitura narrativa.

— P. R. Cunha