A demonstração

O pacato Gerson entra numa loja de armas e munições chamada MIRAGEM. Trata-se de um desses estabelecimentos com sininho na porta. Abre-se a porta, o sininho toca, Gerson entra e Eduardo — dono da MIRAGEM — observa o potencial cliente se aproximando de um fuzil 762 semi-automático. Eduardo vai até lá fazer-se à disposição: vejo que o senhor está em busca de potência, o dono diz enquanto retira o fuzil do mostruário. Gerson dá de ombros, como se tentasse não se impressionar, como se já tivesse visto armas muito mais mortíferas do que aquela, o que não é necessariamente verdade. A título de demonstração, Eduardo aponta o fuzil 762 na direção da cabeça de Gerson e sem saber que a arma havia sido carregada pelo funcionário do turno da manhã aperta o gatilho.

— P. R. Cunha

A cama

Monteiro acorda muito cedo e sente o peso das pálpebras sobre os olhos castanhos. Ele pensa se não seria melhor simplesmente ficar deitado, na cama, letárgico, em coma. Mas de alguma forma difícil de explicar o subconsciente do Monteiro consegue, como diria um antigo, tomar as rédeas da situação. Afinal, é preciso ter dinheiros para sobreviver etc. Dali a pouco Monteiro meio que desperta com as sacudidas da minivan, bate a cabeça levemente no vidro engordurado da minivan, a caminho de mais um dia de tristezas na firma.

— P. R. Cunha

O perfil

P. R. Cunha é um escritor brasileiro. A comida preferida do P. R. Cunha é paella. O filme predileto dele chama-se The legend of 1900 — com Tim Roth, Bill Nunn, dirigido por Giuseppe Tornatore. P. R. Cunha ainda está vivo. Ele tem dois irmãos mais velhos: Felipe e Marcella. P. R. Cunha é formado em jornalismo. Ele nasceu em 14 de outubro de 1985. P. R. Cunha torce para o Botafogo e costuma lembrar que o Botafogo lhe ensinou imenso sobre as decepções da vida. P. R. Cunha mora em Brasília, Distrito Federal. Ao contrário do que muitos acham, P. R. Cunha nunca foi ao Tibete. Ele não possui televisão e gosta de jogar xadrez sozinho.

— P. R. Cunha

O telefone

Começa assim: você está em casa a resolver tarefas domésticas quando escuta o telefone tocar. Você raramente recebe telefonemas, e não estava de forma alguma a pensar em telefonemas, muito menos na morte, você apenas distraía-se com os afazeres domésticos. No entanto, eis que toca o telefone e alguém do outro lado da linha diz que sente muito, sente muitíssimo, que não queria lhe dar aquela notícia terrível, que nunca é fácil dar notícias desta natureza, mas, infelizmente, é preciso fazê-lo… Você então desaba a chorar e passa a desenvolver um trauma patológico. Você agora tem aversão incontornável ao telefone, e por vezes você escuta o barulho penetrante do toque do telefone às nove da noite, ou mesmo às duas horas da madrugada, e você não atende. O telefone toca durante dias inteiros, você escuta-o tocar, mas não se atreve a atendê-lo. Você sente medo.

— P. R. Cunha

O currículo

Sérgio Retallack, responsável pelo processo seletivo de funcionários da Info&Cie., ajustou a moldura do certificado UMA DAS 100 MELHORES EMPRESAS PARA SE TRABALHAR – 2019. O candidato ao emprego observara a cena sem mover o pescoço. Retallack sentou-se novamente na cadeira executiva giratória, folheou o currículo do candidato uma última vez e disse: impressionante!, realmente impressionante. O candidato até tentou, mas não conseguiu esconder um vaidoso esboço de sorriso. No entanto, prosseguiu Retallack, sinto dizê-lo que não poderemos contratá-lo, senhor… (aqui o responsável pelo processo seletivo de funcionários da Info&Cie. torna a pegar o currículo do candidato) …senhor Boaventura, isto, senhor Augusto Boaventura. O candidato parece confuso. Você vê, a nossa mais nova política de relacionamento preza, antes de mais nada, pela disponibilidade, disse Retallack, e como não pude deixar de notar (aqui Retallack joga desdenhosamente o currículo do candidato sobre a superfície lisa e lustrosa da mesa feita com madeira de sândalo [uma das madeiras mais caras do mundo]), sim, como não pude deixar de notar, o senhor não possui nenhuma rede social, nem ao menos uma conta no Twitter, senhor Boaventura, ao passo que, bem, ao passo que não poderíamos observá-lo, quero dizer!, avaliá-lo da forma que gostaríamos, o senhor compreende, não compreende?

— P. R. Cunha

O café

Há um café ao qual o sr. Vargas vai todas as manhãs para tomar o pequeno-almoço. E isto assim se passa há mais de trinta anos. O sr. Vargas acorda, banha-se, veste-se, vai ao café, toma lá o pequeno-almoço. O café fica perto do apartamento do sr. Vargas, de modo que ele vai caminhando. Essas caminhadas muito agradam ao médico do sr. Vargas, que estava a ficar preocupado com o sedentarismo do velho paciente. Havia uma altura, reflete o sr. Vargas, havia uma altura em que as pessoas íam aos cafés para olhar outras pessoas a tomar o pequeno-almoço, ou a comer a torta de morango, ou apenas para fingir que liam o jornal enquanto observavam as outras pessoas convivendo às mesas — e assim por diante. Acontece que agora os cafés têm Wi-Fi. E por terem Wi-Fi acabam por receber um dos tipos mais capciosos de clientela: o escritor de café. O perfumado escritor de café com o próprio computador, os auscultadores Bluetooth, a cabeça orgulhosamente erguida, como uma girafa ao público, impossível de não se notar. Por todos os cafés há assim um disparate dessa laia, pensa o sr. Vargas. E isso bole-o com os nervos.

— P. R. Cunha