Breves notas [semi] [auto] biográficas // ou «expor-se com ressalvas» &tc

com tantos computadores
armazenamentos
o que será do nosso
direito de esquecer?
[marchinha humana]

Então que podemos sim enterrar os vivos pelo menos ao cemitério das lembranças:
—— de certeza que ela continua a viver a própria vida acorda ducha trabalho trânsito casa cama enquanto essa coisa esponjosa & rosada que se espreme dentro do meu crânio // ceifa embalsama soterra incinera até sobrar [no more intercourse]
————— um qualquer vestígio {ALGO COMO UMA ENFADONHA CÓCEGA QUE SE SENTE QUANDO SE PISA A RELVA COM OS PÉS}
descalços

estes e outros tantos absurdos (à tarde canta o passarinho não de alegria mas de saudade)*

*a vaidade é um
combustível às criações [revista feminina de Helsinki | maio de 1978]
querer que se lembrem de mim
mesmo que eu não esteja mais aqui
para ter
consciência
de que estão a lembrar-se
a vaidade releva esses
e outros
tantos absurdos

«Die Nichtigkeiten werden zunichte werden»
[as nulidades serão reduzidas a nada]

CITAR PETER COMO SE FOSSE MEU — Weissagung // peças faladas

Durante quase uma década podemos acreditar…

que determinado ser humano nos significa TUDO para depois perceber que basta um parzinho de meses e tudo como se diz cai por água abaixo

poucas
coisas
são
mais
terríveis
do que a desconstrução de um ser humano que num dia é caríssimo no outro estranhíssimo

uma lembrança
um vestígio
dois nadas

— P. R. Cunha

Vossa sombra vos seguirá como uma sombra (poema [?] de dois mil e nove)

O ansioso será ansioso
o colapso total do homem
será o colapso
total do homem

Certa fama de exaltado
ou desequilibrado
olhos inesquecíveis
——— como diria uma antiga

«A poesia não é
um jogo
de críquete»
pois não

Em que esfera
do viver poderia
este poema
[realizar-se]

Ao que parece não faz ideia
mas é sabido
obtém licença poética
com propósitos assassinos.

— P. R. Cunha

Pergunta #19 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Criou para si rituais específicos à escrita, ou mesmo um bunker-esconderijo?

[P. R.] Eu escrevo numa cadernetinha cinza. A cor, em verdade, não me importa. As páginas, no entanto, precisam ser pautadas. Trata-se de uma cadernetinha barata, porque se crio qualquer vínculo daí já não escrevo nada. Olha que Moleskine incrível, com capa de couro, celulose creme, que beleza. Quem é que pode danificar uma preciosidade dessas? Tomo o café antes de me sentar à mesa, café sem nada, precisa ser amargo como um cão acometido de sarna — estranho eu gostar do café desse jeito, mas assim são as coisas. Depois, permito-me un regalo, como se diz, caso consiga preencher vinte ou trinta pautas (eis o porquê das pautas, aliás). Un regalo é basicamente: outra chávena de café. Acontece de às vezes a mesa estar uma verdadeira bagunça, e há folhas para todos os cantos com anotações sobre uma suposta tese a respeito das narrativas do senhor W. G. Sebald que dura já cinco anos, e começo a ter cá sérias dúvidas se um dia vou mesmo terminar essa tese. Imagino a cara do António quando receber essas duas-três-mil laudas sobre o Sebald, e você de certeza vai achar aquilo um disparate. P. R., nós não podemos publicar isto aqui. Eu percebo. Há uma janela que dá para os meus vizinhos, e como não sou de lidar com vizinhos nunca me distraio para a janela. Mantenho um violão por perto e dedilho o violão quando angústias. Escrever usurpa. Não é lá sempre muito bonito como imaginam. Pó de almas destroçadas. Mas não me lembro mais da pergunta.

p. r. cunha

Enquanto se vai ao psiquiatra

ver/ouvir/descrever:

o grito do guarda-redes depois do gol;
estrondo metálico da porta do autocarro;
as crianças em rebuliço;
moça que assopra o café quente;
a voz da Maria Callas numa radiola;
anonimato das pessoas que esperam;
e também perder a vontade.

— P. R. Cunha

Pergunta #13 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] No ano passado, neste mesmo café, você comentou por alto a respeito dos escritores que assustam. Estava a querer dizer o quê?

[P. R.] Que é tudo de certo modo inexplicável, ilógico. Thomas Bernhard me assusta, Sebald me assusta muitíssimo, daí temos o Peter Handke, a Dulce Maria Cardoso, o Raymond Carver, a Danuza Leão, a Elizabeth Bishop, o Junichiro Tanizaki, que assustam um bocado, as peças do David Mamet, a poesia do Ernst Herbeck — assustam. A imagem do leitor/observador que nunca dorme porque as reflexões excêntricas o mantêm em constante desassossego, está a perceber? E por vezes é preciso tomar muito cuidado quando nos aproximamos desses autores. Podem levar-nos a um cume onde a vista é absolutamente linda, conseguimos ver tudo lá de cima, e depois, à guisa de diversão, empurram-nos para o abismo, ou esmagam-nos com uma pedra de mármore. Tudo de certo modo ilógico, perturbador mesmo.