Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha

A certeza de que nada será como antes

(Brasília, fevereiro de 2018)

Em miúdo
lá estão papá
e mamã
o sorriso indiscreto
do vovô
a merenda embalada
da vovó

Adolescência
anos de juventude
o primeiro beijo
a primeira música
o primeiro amor
a primeira poesia
as primeiras angústias

Então vêm universidade
mercado de trabalho
temor da morte
fracassos & sucessos
ganhos & perdas
a certeza de que nada
será como antes

Agora os dias
mais lentos
morosos
como um coração anestesiado
que bate por formalidades.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre

As cartas que enviara aos amigos e aos familiares transbordam de obscurantismo. As emoções, nas raras ocasiões em que elas timidamente aparecem, estão como que escondidas sob máscaras de formalidades e distanciamentos. Noutros termos: se lemos o que ele escrevera nessas correspondência íntimas, temos quase a certeza de estarmos a lidar não com um homem real, mas com um personagem de literatura. 

Sob a fumaça, o fogo continua a mover-se sem controle, dia após dia. Estopim, gatilho, combustível para escrever. O Escritor está deitado na rede a observar os pássaros: calado, na dele, não incomoda vivalma. Seria uma péssima ideia aborrecê-lo, levá-lo ao limite, colocar mais complicações na sua cabeça. (Não mexer com quem está quieto etc.) Quanto mais você cutuca o Escritor, que — como se disse — está deitado na rede, calado, quanto mais você bagunça a ociosidade do Escritor, mais provável é que ele se torne irascível, imprudente, tristonho, colérico, ardiloso, macambúzio, desajuizado.

As ondas podem parecer calmas e reconfortantes, mas também elas devem quebrar em algum ponto, o processo precisa terminar em alguma praia, em alguma parede rochosa, na madeira de um cais, na proa de um navio. O Escritor não pode se manter deitado na rede a tempo inteiro.

Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.

Abre um livro, semblante de quem tem algo de extrema importância para compartilhar, e compartilha: aqui, onde as promessas para as gerações vindouras foram armazenadas. Aponta para o livro, rasga uma página, continua: é isso que acontece com as promessas. Rasga outra página: Palavras que se perdem nos resquícios apodrecidos das obras do passado. Rasga ainda outra página. E outra, e outra, e outra…

— P. R. Cunha

O gosto pela especulação abstrata

Você a conheceu, digamos, num bar, mas ela prefere chamar de pub, vocês então começam uma despretensiosa conversa sobre passado-presente-futuro-onde-você-se-vê-daqui-a-cinco-anos. A verdade é que vocês já fizeram coisas muito boas para outras pessoas e também coisas muito ruins; vocês já foram o motivo da felicidade de alguém, e já foram o motivo da ruína emocional de alguém. Vocês já disseram «eu te amo», vocês já escutaram «suma da minha frente!». Vocês se conheceram num bar/pub e agora criam desculpas engraçadinhas para serem amigos. Vocês prometem para si mesmos: desta vez não vou estragar tudo com a minha intempestividade, desta vez vai ser diferente, passo a passo, não pretendo cometer os mesmos erros, sem pressa, tudo vai ficar bem, sou uma pessoa melhor, mais madura, etcétera. Você percebe uma marquinha no braço dela, acha a marquinha adorável, você então comenta com ela: ei, essa marquinha aí no seu braço, muito adorável. Ela sorri e diz que nunca ninguém havia reparado naquela marquinha, ela conta que se trata de uma marquinha de nascença, que a marquinha sempre existira. Quando vocês não estão juntos, você pensa nela, depois pensa um pouco mais, até que a sua cabeça basicamente se divide em «preocupações do dia-a-dia» e «Ela», com letra maiúscula. Seu relógio biológico começa a se desregular, seu sono é uma bagunça, você agora se esquece de comer, os filmes lhe fazem lembrar dela (principalmente [e um pouco inexplicavelmente] Les Enfants du paradis, de Marcel Carné), as músicas também, você está a esperar o ônibus e um anúncio aleatório sobre «férias no Caribe» também lhe faz pensar nela. Você começa a fazer planos a curto (daí a médio, daí a longo) prazo, já não consegue conceber um futuro sem ela na sua vida, você quer aprender a cozinhar, a fazer massagem, decorar trechos dos poemas favoritos dela, você quer entrar para as aulas de desenho, aprender a tocar violino, piano, você, em suma, quer impressioná-la, mostrar que ela fizera a escolha certa, que ela não vai se arrepender depois. E ela gosta do jeito que você fala, assim, sem filtros, diretamente, isso transmite confiança, ela diz, uma sensação de tranquilidade, sujeito determinado, que sabe o que quer. Você então sorri, um sorriso bobo, sem motivos. Você acha que está apaixonado — justo você, que nos últimos tempos repetira tantas vezes que jamais se apaixonaria novamente.

— P. R. Cunha

Irmandade de Escritores de Brasília

Segundo a lenda, o brasão da Irmandade de Escritores de Brasília era uma coruja — a simbolizar mistério, sabedoria, conhecimento intuitivo. Ave de rapina, soberana da noite, cujos olhos enxergam através da escuridão. O desenho é estranho. Parece mais um rabisco feito por escolar indisposto. Escritor que quisesse entrar para a irmandade precisava de obedecer regras disparatadas, tais como: nunca segurar a chávena de café com a mão esquerda, jamais subir ao mirante da Torre de TV, não comprar chocolates suíços, fazer oração ao petróleo antes de dormir (oh, benzina, que move o meu automóvel com destreza…). O presidente da irmandade ficava a descansar numa cave com endereço desconhecido; realizava apenas uma breve aparição por volta do dia 21 de junho, época em que, como sabemos, marca o início do inverno no hemisfério sul. Durante o evento, que durava cerca de quinze minutos, o presidente sentava atrás de uma cortina branca e os participantes só podiam observar a silhueta do excêntrico conviva, como se fantasma escondido atrás dos lençóis. De acordo com testemunhas, ele dizia com voz calma e resoluta: não ser devedor de alguém, não se comprometer com nada, sem promessas, sem favores, a sua responsabilidade com o leitor termina assim que a última frase é escrita.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VI) – saudades

Ler este romance fragmentado é na verdade aumentá-lo e não estar a caminho de algum fim. Romance cujo ponto final não é o ponto gráfico, tipológico, mas sim a própria vida do leitor. Romance, portanto, que nunca acaba. Romance para ser [re]lido — quando (e se) quiseres.

2 (dois) de janeiro de 2015 (dois mil e quinze) / trechos

Um olhar atentivo para essas supostas confusões narrativas permite observar grande contigente de significados. Tais como promessas a cumprir:

» Dirigir o automóvel com mais prudência;
» Diminuir o consumo de sal;
» Passar menos tempo aos websítios pornográficos;
» Assumir que odeia os livros do Tolstói;
» Evitar masturbação antes de dormir;
» Parar de cortar o próprio cabelo (há profissionais para isso);
» Ter relacionamentos saudáveis com seres humanos reais;
» Atentar-se a banhos, higiene íntima (forma geral);
» Exercícios de movimentação;
» Pedalar a bicicleta (fins-de-semana);
» Observações de condições da pele (protetor solar);
» Verificar circulação sanguínea (necessários exames);
» Ir ao hospital, se assim se pode dizer.

Outros trechos (aleatoriamente ordenados [isto não é um diário íntimo {que fique bem claro}])

Escreva depressa antes que alguém morra no meio do caminho. Imediatismo. Amanhã não se sabe etcétera.

Familiares do Escritor simplesmente não estavam preparados para ler/ouvir o que ele tinha a dizer: que o esconderijo deles (familiares), que a fortaleza artificial deles (familiares) não era lá tão ordenada/limpinha como sempre acreditaram que fosse.

De início o efeito é mesmo imperceptível, você não percebe nada, não sente nada, e depois de algum tempo começamos a colher as primeiras mudanças — uma atitude imprevisível, um colapso nervoso, palavras rancorosas, um dos irmãos não desce mais para o jantar. Tudo depende do tempo que dispomos. Se tivermos paciência, encontraremos o ponto de viragem (ponto estequiométrico). O que era calmo e previsível, transforma-se num motor de instabilidades e incertezas. Espera e vê. 

Desqualificarão os livros dele como obra de um louco, produtos de uma mente esquizoide. Escritor indefinido. Sempre insatisfeito consigo mesmo. O coração batendo de pavor, de saudades.

— P. R. Cunha

Quando a Musa visitar, estejam preparados, com os ouvidos atentos — ouçam

Alberto Manguel abre as portas de sua Library at Night dedicando-a para o Craig e a nos contar que o poeta otomano Abdüllatif Çelebi costumava dizer que os livros da biblioteca «são amigos leais e dedicados que afastam todas as preocupações». Muito bonita imagem.

Por vezes para lê-los (ou mesmo até para escrevê-los) a figura humana que lida com os verbos intransitivos precisa também de encontrar um sítio afastado, uma própria biblioteca à noite. 

Gesto de resistência: de dia, sou bombardeado por imagens alheias; agora, aqui, sentadinho num cômodo aprazível, permito-me criar fantasias sem os mediadores publicitários.

Ler e escrever com uma despreocupação que beira a leviandade, nos diz ainda o Manguel.

Enganam-se aqueles que acreditam que tais fugas são unicamente tentativas de abandonar o mundo, viver para o longe e não lidar com os desgostos da realidade. Vemos Montaigne escapulindo para o cume da torre, vemos Montaigne solitário, pensativo, concentrado nas leituras e na fazenda de ensaios. Mas depois observamos Montaigne a descer as escadas de volta para a família, para os amigos, para os afazeres administrativos. Montaigne à procura de si mesmo, recluso, mas sempre a retornar, sempre atento ao nobre objetivo de sair do silêncio um sujeito melhor, mais justo para os seus.

De aí apagamos a luz da escrivaninha, dormimos um sono revigorante e acordamos um bocadinho menos defeituosos. Recompensas dos esconderijos temporários.

— P. R. Cunha