Poucas & boas a respeito do escritor (vaidades &tc.) / anotações carnavalescas

O escritor sabe que é um mundo, microcosmos, uni-verso. Tal-&-qual o viajante de Theroux (i.e.: o próprio Theroux), reconhece que existe dentro dele um cancro indetectável de vaidade, presunção & mitomania a roçar o patológico. O escritor por vezes trata «dos outros» para esconder-se da vergonhosa, da despudorada verdade: que está a tratar, mesmo, é de si. Sempre ele, sempre dele. O pior pesadelo do escritor, então (& aqui ainda agarro-me às imagens de Theroux [pai], que compreende imenso das coisas), o pior pesadelo do escritor, como estava eu a dizer, é a terrível perspectiva de encontrar outro escritor. Dois escritores que porventura se percebessem dentro de um elevador às 7h15 da manhã — um vai para o running matinal, o outro à padaria. Não têm nada a falar. Olham-se, estranham-se, repelem-se… Odeiam-se.

— P. R. Cunha

Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

Filho, ontem me disseste que queres ser escritor também. Comoveste-me com tal decisão. Agora, se me permites, gostava de compartilhar contigo alguns pormenores sobre esta fazenda que, sim, por vezes pode se mostrar ardilosa, mas é também o sítio mais agradável e encantador para criares morada. Suponhamos que tu tenhas uma ideia. Tens uma ideia, um esboço, um embrião, organismo unicelular. É tudo ainda muito cru, muito simples. Então tu tens uma ideia e não sabes se esta ideia transformar-se-á em conto, novela, romance. Estás um bocado esperançoso, entusiasmado, crês que a coisa pode caminhar direitinho. Alguns dias tu acreditas que és grande, magnífico, um escritor de primeira linha, candidato ao Nobel, quiçá o melhor escritor que já caminhara neste planeta; em tantos e tantos outros dias tu chegas à conclusão de que não vales um vintém, de que o que estás a escrever na verdade não caminha direitinho, chegas à conclusão de que perderas tempo, de que há livros de mais no mundo etc. Estás sufocado. Compreendo-te. Essa gangorra é absolutamente normal. A tempestade passa. E a melhor maneira de enfrentá-la é continuares escrevendo. Um relacionamento acaba, continua a escrever; foste demitido do emprego, continua a escrever; alguém morreu no meio do caminho, depressão/melancolia, o teu time não vai bem na NFL, a casa do teu amigo foi hipotecada, a Coreia do Norte declarou guerra à Coreia do Sul — não importa, continua a escrever. Não desistas. Muitas pessoas talentosas deixam de publicar grandes obras porque não têm perseverança, continuidade, porque não terminam. O talento não vale nada se o escritor não consegue colocá-lo em prática. Sejas, portanto, meticuloso, persistente, corajoso, cria rotinas, sai, vê, viaja e, for god’s sake!, termina. Se depois dessas batalhas sangrentas, desses dias/meses/anos agridoces, de algumas paranóias, de inquietações diversas, se depois disso ainda continuares com vontade de escrever, com vontade de começar tudo de novo, de passar por cada uma dessas etapas novamente… então, filho, podes ter a certeza: escolheste o ofício certo para a tua vida. Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

Quarta nota #10 — ironicamente

§ A máquina de gritar desenvolvida pelo Dr. Ludwig consiste em uma caixa (50 x 60 cm) ajustável a qualquer tipo de crânio humano. A pessoa que porventura esteja zangada com o chefe, enfurecida com o cônjuge, irritada com o desfecho de determinado inventário que há anos se arrasta, coloca a cabeça dentro da máquina de gritar do Dr. Ludwig — cujo interior acolchoado evita o vazamento de toda a sorte de ruídos (graves, agudos etc.) — e grita. Paga-se uma módica quantia para se utilizar o aparato. Máquina de gritar.

§ Tenho um amigo que fizera a faculdade de jornalismo e nunca exercera a profissão. Ao passo que esse amigo jamais disse: sou jornalista. Sabe que para ser jornalista é preciso praticar o jornalismo. Da mesma forma, ele às vezes me alerta: para ser escritor é preciso escrever. Se tu não escreves, não és escritor, és apenas um leitor mascarado.

§ Depois da repercussão positiva do manual Como construir um escritor, eis uma breve reflexão sobre Como construir um texto literário. Antes de mais nada, baixa o aplicativo «Faça-me um Texto Literário» (disponível para Android e iOS). Coloca no campo TEMA o assunto a respeito do qual desejas «escrever». Aguarda uns minutinhos, porque agora o aplicativo está a pensar por ti. Passados os minutinhos, tu terás um texto literário.

§ Pausa prolongada.

§ Fica-se muito triste quando alguém admirável morre. Mas a morte de Mark Hollis, vocalista dos Talk Talk, possui peculiaridades que merecem ser levadas em consideração. Hollis morreu-se (livre e espontânea vontade) em 1992, pouco depois das gravações do álbum Laughing Stock. Na altura, dissera que estava farto das pressões da chamada indústria da música, dos mexericos, das expectativas irreais/surreais dos fãs, da necessidade de sempre estar em todos os lados, e que chegara a hora de dedicar-se à família. Viveu desde então ao lado dos seus, retirado do mundo fonográfico — apesar de um propositadamente discreto trabalho solo em 1998. Já não queria mais saber de mostrar-se, e o facto de poucos falarem dele nos últimos tempos é prova de que lograra êxito na fuga. Ontem, foi o Hollis privado — o pai, o marido — que se despedira. Para os que admiravam a sua genialidade, permanecem ainda os mesmos espólios de um luto que há décadas perdura.

— P. R. Cunha


Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha

«Paraquedas – um ensaio filosófico», retornos

A verdade é que não sabemos
não sabemos quando vamos morrer
não sabemos se a entrevista de emprego
sairá como havíamos planejado
se conquistaremos o coração
da pessoa por quem estamos apaixonados
se a nossa carta chegará ao leito
de um amigo enfermo
se vai chover
se vai o sol
não sabemos
não sabemos como reagirão
àquilo que escrevemos
podem gostar, podem odiar
podem dizer que sim
podem dizer que não
podem permanecer
em silêncio…
não sabemos
e talvez seja por isto
que continuamos
que seguimos em frente
— porque queremos saber.

Quatro mui agradáveis damas dão as próprias opiniões a respeito do meu Paraquedas – um ensaio filosófico: 

 

«A forma como os acontecimentos do passado entram em contato com as ações do presente de seu personagem inominável nos dá uma fantástica sensação de viagem no tempo.»

Rejane Leopoldino,editora do blogue Devir

 

«Quando o eu-narrativo se fortalece, ele inventa histórias com todas as alcançáveis possibilidades. E isto atormenta o protagonista — possivelmente alto, magro e careca, mas certamente humano —, que escolhe não agir, mas desabafar conosco. O relato de um momento curto alonga-se no tempo.»

Jéssica Fernandes,pesquisadora do Ipea*

 

«P. R. Cunha é surpreendente em seu ensaio filosófico Paraquedas. Descreve as relações familiares em sua essência mais crua e sem pudores, sem medo de tirar o véu que encobre as chagas da nobreza. Paraquedas é uma obra para ser contemplada aos poucos e, se você tiver sorte — como escreve o nosso querido Escritor —, entenderá o que é a eternidade de um amor grafada nas páginas de um livro. Leitura muito agradável e inteligente.»

Gerlusa Rocha, poetisa responsável pelo blogue Escrita agridoce

 

«Livro merecidamente premiado. Narrativa espontânea, direta, sem rodeios. Não nos apetece parar de ler.»

Maria Cristina Souza, diretora do Hospital Urológico de Brasília

 


*O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha encontra-se disponível à Lojinha deste electro-sítio. Para mais informações, aperta aqui.

Quarta nota #9 — há um bezerrinho chamado Pê Erre (e ele passa bem)

Porque amnésia — e certo descaso involuntário — escrevo estas notas de quarta-feira numa manhã de quinta-feira parcialmente nublada, vista cinzenta, glacial, sol modorrento a aquecer coisa alguma. À tarde, sorvete com a Jéssica.


§ Certa leitora que mora num rancho, na paz dos campos, como se diz, não muito longe da cidade de Pirenópolis, enviara-me agradável electro-carta a dizer que gosta das coisas que escrevo. A leitora acrescenta ainda que o rancho acabara de ganhar um novo bezerrinho e que o animal já tem nome: Pê Erre — singela homenagem a este que vos fala.

§ Aqueles que mexem com robôs sabem que os robôs vieram para ficar, que os robôs não estão para brincadeiras. E aqueles que mexem com robôs estão a dizer também que se queres competir com estas criaturas metálicas é melhor desenvolveres qualificações como o pensamento crítico, a resolução de problemas ardilosos, a criatividade, a comunicação, o espírito colaborativo.

§ Em suma, se queres competir com robôs, não ajas como um robô.

§ Na primária, Miranda divertia-se no parquinho da escola. Era uma pequenina realmente graciosa. Na adolescência, engordara um bocado porque tomava sorvete e comia quantidade absurda de bacon ao pequeno-almoço. Em mulher, entregara-se à cocaína e nunca saía de casa. Numa altura, namoriscou a ideia de se tornar comissária de bordo da TAP Air Portugal.

§ Excelente método para se ver livre da procrastinação (em fazendas artísticas e não só) é ter em mente que o amanhã pode não existir. «E se eu morrer?» Pergunte-se isso várias vezes ao dia, principalmente quando a ociosidade construir moradas. «E se eu morrer?» Preciso de começar um livro, são muitas páginas, mas vou escrevê-lo depois — postura clássica de aqueles que não percebem a imprevisibilidade da ceifa. O desconforto da nossa finitude, como já se disse, ajuda a produzir coisas intensas.

§ Animal humano que vive cheio de ruminações, que passa um tempo considerável a ser vítima de pensamentos insuportáveis, problemas invisíveis, vítima da ansiedade, e da raiva, e da inquietude, atormenta-se por angústias desnecessárias, esperanças vãs, temores absurdos, muitas vezes torna-se vulnerável ao extremo, frágil, prisioneiro de memórias equivocadas, tenta responder a uma realidade que já há muito não tolera — e coisas do gênero.

§ 8/4/2017: o juiz Sérgio Moro diz que crime de caixa dois é pior do que corrupção, um crime contra a democracia, é trapaça, pior do que enriquecimento ilícito. 19/2/2019: o superministro (sic) Sérgio Moro diz que crime de caixa dois não tem gravidade de corrupção, não precisa de estar no projeto anticrime, não há necessidade de incomodar os políticos com temas sensíveis.

§ As pessoas mudam, quer dizer…

— P. R. Cunha

Turfe

Pablo acordou e viu a esposa coçando os olhos. Perguntou-lhe: ainda coçam? A esposa respondera que sim, coçam, muitíssimo. Tu devias procurar um oftalmologista, disse Pablo enquanto desligava o ventilador de teto. Tenho medo, a esposa disse, quando coço sinto uma dorzinha estranha, percebes? Pablo não percebia. Ele foi até à casa de banho. Lavou o rosto. Tomou um duche rápido e vestiu a roupa — uma t-shirt branca, calça jeans, tênis. Notou que havia vazamento numa das paredes da casa de banho. Outro vazamento, ele pensou. Pablo comeu quatro bolachas com manteiga, saiu, fechou a porta dando apenas uma volta à chave. Ao trancar a porta pensou em retornar e dizer novamente para a esposa ir ao oftalmologista. Apertou o botão do elevador fabricado por Atlas Schindler. Schindler. Nome que dava calafrios na espinha de Pablo. A porta do elevador se abriu e lá dentro encontrava-se a zeladora do prédio. A zeladora disse: bons-dias, Pablo. Pablo acenou com a cabeça, sem dizer palavra. Ele não ia muito com a cara da zeladora. Na rua, Pablo ergueu o braço para o táxi e o táxi não parou. Pablo odiava imenso quando isso acontecia. Sentia-se invisível, desprezado. Resolveu ir de autocarro. Quando entrou no autocarro um escolar sombrio ficou encarando Pablo. O escolar escutava rap estrangeiro e a voz do rapper estourava os auscultadores do escolar. Pablo sentou-se num dos bancos ao fundo, longe dos olhares agourentos do escolar. Na poltrona à direita dele, do outro lado do corredor, duas senhoras — sessenta/setenta anos, calculara Pablo — conversavam sem cerimônias, como se diz, a respeito das corridas de cavalos. Pablo nunca foi às corridas de cavalos, mas o avô paterno dele ganhara pequenas fortunas apostando nesse tipo de corrida. Há inclusive uma história curiosa na família de Pablo. Dizem que o nome dele é homenagem a um puro-sangue que se destacara pela velocidade, flexibilidade, dorso largo, reto, cabeça com formato fino, dois olhos bem separados (um metro e cinquenta e oito de altura). O avô paterno de Pablo teria apostado nesse cavalo homônimo, morrendo-se logo em seguida de — atestaram os médicos — ataque cardíaco fulminante. Uma coisa leva a outra. Pablo resolveu prestar atenção à conversa das senhoras. A mais velha disse que os comentaristas e os locutores das corridas de cavalos poderiam pelo menos tentar montar num cavalo antes de zangarem-se com os jóqueis, mesmo que nunca participem de corridas oficiais, ela disse, pelo menos compreenderiam a luta, a guerra, a batalha dos jóqueis ao turfe, entenderiam o quão aterrador é montar num cavalo, a ansiedade, ou melhor, corrigiu-se a senhora, a angústia dessa experiência, para que os comentaristas e os locutores pudessem ter alguma empatia antes de destruir, arruinar a carreira de um jóquei. A outra senhora apenas escutava. O autocarro trepidava. O asfalto não estava em boas condições. A voz da senhora era tão cadenciada, precisa, incisiva, gerava tanta calma aos ouvidos de Pablo que ele acabou por se esquecer de si próprio. A pouco e pouco deixara de se preocupar com o conteúdo da conversa. Percebeu que não gostava mesmo das corridas de cavalos, o assunto lhe aborrecia. Chegou a altura de descer na próxima paragem. Pablo desceu e viu que um rapaz com fato esportivo estava a pedir dinheiro. Pablo refletiu que o fato esportivo do gajo de certeza valia mais do que a t-shirt branca e a calça jeans que ele estava vestindo. Achou aquilo estranho. Ali estava Pablo na berma da avenida. Quando passou por uma padaria notou que o padeiro gritava com alguém. Como Pablo não parou para prestar atenção, nunca soube com quem o padeiro estava a gritar. O cheiro dos pães, no entanto, causara-lhe uma espécie de fome, branda, a ganhar intensidade. Mais adiante havia uma loja colorida que vendia bugigangas orientais. Dentro da loja uma dama com olhinhos puxados assistia ao noticiário matinal. Os olhinhos puxados da dama fizeram com que Pablo voltasse a pensar nos olhos da esposa. A loja cheirava-lhe a qualquer coisa agridoce. Pablo continuou a caminhar. Alguém esbarrou nele. Antes de zangar-se com a pessoa, a mulher abriu os braços para abraçá-lo e disse: Pablo!, ao tempo que não nos víamos… Pablo não se recordava da mulher.

— P. R. Cunha