A bailarina

Comentaram com a bailarina que a apresentação daquela noite, «Noite de Gala», como escreveram os jornais, teria uma plateia repleta de figuras importantes, dentre elas a mais importante sem dúvida era o excelentíssimo Diretor do Teatro. A bailarina, uma talentosa jovem do interior, não queria desperdiçar a oportunidade de impressionar e resolveu dar absolutamente tudo de si. Durante a apresentação, a plateia não podia crer na beleza e na desenvoltura dos movimentos que pairavam diante dos próprios olhos. A bailarina dançava com tanto entusiasmo que aos poucos os pés dilaceraram-se, o sangue a manchar-lhe a saia de tule a cada pirueta. No final do ato, exausta, confusa e desacordada, ela apenas se deixou cair ao palco. A plateia, muito antes de perceber a verdadeira gravidade da situação, aproveitou o momento deveras teatral e no mais profundo êxtase aplaudiu de pé a performance da bailarina.

— P. R. Cunha

O jantar

Os dois estavam dentro do automóvel, ainda muito impressionados com o que acabara de acontecer durante o jantar. Ela talvez um pouco mais do que ele. Ele já tinha visto qualquer coisa parecida na internet, num sítio web pornográfico, relacionamentos ciborgues, ou algo assim. É claro que nunca é a mesma coisa quando acontece com alguém próximo, um amigo de juventude, por exemplo, um tipo que sempre fora admirado — e invejado — por muitos, e que era considerado uma espécie de sedutor congênito, sedutor de moças finas, elegantes, não de bonecas, bonecas com aquela aparência assustadoramente humana, com aquele jeito estranho de mexer o «corpo», um amontoado mecânico com pele sintética. Como diz a música dos Smiths: it’s too close to home. Situações bizarras costumam acontecer longe, nos programas de televisão, naquelas séries extravagantes da National Geographic, Discovery Channel. Mas daí que acontece com um amigo de juventude, um sujeito sério, sem nenhum vestígio de insanidade, um homem saudável, portanto, que resolve casar-se com uma robô sexual e fica-se sem saber ao certo como agir. O dedo indicador dela tocava os lábios, ela olhava pela janela, incrédula, balançava a cabeça de forma irônica, um lado para o outro. Ele às vezes tentava passar a marcha, esquecendo-se de que o automóvel dela tinha câmbio automático. E quando ele fazia isso, não conseguia deixar de perceber brevemente o decote da saia dela. Ele ria-se por dentro. Mesmo depois dos maiores absurdos, a libido humana ainda dava lá um jeito de se intrometer. Que coisa mais esquisita, ela disse para o nada. Ele fez um leve movimento com os braços, rendendo-se, como se quisesse concordar mas sem encontrar palavras para fazê-lo. Eu bem podia esperar isso do Harry, ou do Kevin, mas do George!, ela disse enquanto as luzes dos postes apareciam e desapareciam, justo o George…

— P. R. Cunha

Contra dicções

Em tempos de colégio tínhamos um treinador de futebol muito rigoroso — era o Mr. Bryan. Nunca se mostrava satisfeito. O Mr. Bryan era do Canadá, Québec. Vocês precisam de treinar mais, ele dizia. E mais. E mais. Numa altura chegamos a vencer quatro dos cinco torneios escolares disputados, e o Mr. Bryan ficou possesso porque não vencemos os cinco. Éramos para ter vencido os cinco, ele disse. Anos depois, encontrei-me com o Mr. Bryan num café arborizado. Os cabelos grisalhos, as rugas marcavam vales no rosto do canadiano. Contou-me que pouca gente o visitava em casa, pois onde ele morava havia uma quantidade absurda de mosquitos.

[…]

Imersão em trabalhos criativos, preocupar-se mais com os outros (com os estranhos, especialmente), tirar sarro da condição humana (ri-se na cara do absurdo, como se diz), escrever a respeito das próprias crises, procriar (ter filhos, adotá-los), cuidar da saúde, evitar os comportamentos obsessivos, viver melhor, viver mais, o marinheiro que ganha «uma noite ao bordel do vilarejo» antes de ser enforcado pelos outros marinheiros, viver melhor do que os pais, superar os pais, fazer parte de algum clube (group membership), ser menos intolerante com as religiões, resgatar o álbum de fotografias da família esquecido ao sótão, praticar desportes radicais/perigosos (paraquedismo, escalada em montanhas íngremes [sem o equipamento adequado]), experimentar drogas exóticas, cair ao abismo do álcool, cultivar múltiplas personalidades, negar a morte.

— P. R. Cunha

Condição científica

Cientista da Bulgária descobriu que possuía uma estranha condição: assim que ele aprendia alguma coisa, o cérebro dele crescia um bocadinho.

Era mesmo só um bocadinho, algo quase imperceptível. Mas acontece que cientista é ávido por conhecimentos. E, como toda a gente sabe, quanto mais sabemos, mais queremos saber.

Ciclo vicioso.

Numa altura cientista havia já estudado tanto, aprendido tanto, acumulado tanto que o próprio cérebro ficara pesado demais para que ele conseguisse carregá-lo.

Hoje cientista não sai de casa, fica com a cabeça encostada sobre uma mesa de mogno, a refletir.

— P. R. Cunha

20/20

Wuhan, epidemia, coronavírus, Luanda Leaks, vulcão Taal a encher as Filipinas de cinzas, Roberto Alvim a vestir-se de Goebbels 75 anos depois de Aushchwitz, helicóptero do Kobe Bryant, chuvas em Minas Gerais, economia sem rumo, assessor do Planalto a fazer voos exclusivos numa aeronave da Força Aérea Brasileira, o mundo insatisfeito com a democracia (segundo a Universidade de Cambridge), a crise hídrica, sismo às Caraíbas de 7,7 na escala de Richter, exércitos digitais, quarentenas, Donald Trump a mediar plano para a criação de um Estado palestiniano, Palestina a recusá-lo… 

E janeiro ainda nem se acabou.

— P. R. Cunha