Poetisas loucas

Yorick vai para férias e me convida para uma partida de xadrez.

Sei que tu andas a jogar todos os dias, ele me diz, portanto, pega leve, estou enferrujado.

Jogo contra o telemóvel, eu digo, o cérebro humano é outra coisa.

Sentamos ao tabuleiro que Yorick montara na varanda da própria chácara. Faz um frio aprazível e o céu se mostra tão azul quanto as nuvens do planeta Netuno.

Gosto de estar cá fora, ele diz, traz-me sempre boas recordações.

Acendemos os nossos respectivos cachimbos e ficamos a observar as peças de madeira dispostas sobre a superfície quadriculada.

Uma espessa fumaça sai da extremidade do cachimbo do Yorick: acho que tenho um fraco por poetisas loucas, ele diz, fico alucinado.

Eu faço que sim com a cabeça: compreendo.

Yorick desloca o cavalo branco [Nf3].

— P. R. Cunha

Baileys Irish Cream

Um gole de Baileys
apazigua os pensamentos
em total sossego
escrevo este poema
com caneta do espírito
negra como as sombras
abre-se diante de mim
a infinitude universal
luas prateadas
o vazio entre as estrelas
que há muito já se foram
e enquanto nesta fuga imaginada
eu fixo o olhar no líquido
percebo que não é à toa
Baileys e espaço sideral
possuírem a mesma média de cor
leite cósmico
cosmic latte.

— P. R. Cunha

À janela

As janelas abafam
contradições ao longo
da autoestrada
o efeito Doppler
da motocicleta —
nuvens passageiras
levam consigo
promessas inibidas
e é o fim de
um devaneio.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (considerações finais)

Como é que mostro a minha admiração em relação a um texto? Principalmente ao lê-lo muitas vezes, ao gostar imenso dele enquanto o aprecio, ao citá-lo, remodelá-lo, possuí-lo, etc.

Peguemos emprestada esta ideia: ao lermos um livro que nos agrada fazemos gestos e expressões faciais que seriam aquilo a que se chama de gestos de aprovação. Aprende-se a artimanha, disse Wittgenstein, adquiri-se um juízo cada vez mais refinado. Filtramos.

O público-leitor, podemos repetir quantas vezes quisermos, é, antes de qualquer outro, o próprio-escritor. Escritor que escreve para aproveitar o presente — pois a posteridade, dói admitir, pode não vos dar a mínima. Além disso, estaremos com terra na boca, dentro de um caixão.

«Escrevo para visitar-me: pintar, compôr, escrever, sim, visitar-me», disse Henri Michaux, que se queria nenhures.

Schöpferische Indifferenz, não eram esses os termos que os germanófanos (pensemos em Schnitzler, Jünger, Kleist, Tieck, Kafka) gostavam de utilizar? «Indiferença criadora.»

Se ninguém me leu…, paciência.

Como aquelas mensagens que, no leito de morte, com respiração ofegante, o moribundo ainda teve tempo e forças para exprimir.

Não é propriamente literatura, mas compartilho convosco as últimas palavras de Beethoven, adequadas ao contexto: e a comédia, enfim, acabou. 

Escrever como se a comédia pudesse acabar a qualquer momento.

E nesta cidade do acaso, neste emaranhado de ruas da sorte com que a literatura por vezes se assemelha, talvez alguém decida abrir as páginas da vossa morada, visitar o vosso livro, permanecer um bocadinho aos vossos verbos. Fascinantes possibilidades.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (parte III)

«Nenhum artista é artista vinte e quatro horas por dia.»

Não haverá uma pitada de ironia no fato de que essa frase fora escrita por Stefan Zweig? Justo ele, que nem diante do próprio suicídio deixou de fazer arte — cabelos engomados, gravata impecável, a camisa devidamente abotoada, a última cena montada em Petrópolis-RJ antes de se despedir dos palcos mundanos.

Mas, afinal, o artista — e para os efeitos destas hipóteses vamos tratá-lo logo de escritor —, o escritor precisa de trabalhar a tempo inteiro?

Sim e não (ambiguidade propositadamente calculada).

O escritor consegue produzir o essencial, tudo aquilo que vai perdurar, apenas em alguns raros momentos de inspiração — a ideia geral ainda é do sr. Zweig.

São necessários milhões de pessoas em uma nação até surgir aquele/aquela a que chamaremos de bom escritor/boa escritora, milhões de horas tediosas precisam de passar, milhões de palavras arremessadas ao lixo para, enfim, observarmos uma histórica estrela cadente da literatura que de forma breve iluminará a noite das nossas insignificâncias.

Trata-se, portanto, de ofício que exige disciplina, continuidade. A ideia não é necessariamente «trabalhar» a tempo inteiro, mas manter os canais abertos, manter a luneta virada para o céu. Se estivermos desprevenidos a locomotiva se vai alhures, não embarcamos… 

Manter-se num estado de vigília espontânea, era isso o que eu estava querendo dizer.

Lembremos agora, à guisa de reforço, a quantidade de terra, e lama, e dejetos que o minerador precisa de se ver livre antes de conseguir encontrar pedras preciosas. 

Pois, o bom escritor e a boa escritora nunca deixam de ir ao fundo, de limpar, não desanimam quando se deparam com falsos diamantes. Se estiverem na mina certa, sabem que o aguardado tesouro vai aparecer: questão de tempo.

— P. R. Cunha

Machine learning

As tendências tecnológicas
estão a dizer
tema inevitável
teletrabalho
teleconsultas
streaming
drones de entrega
fim dos pagamentos em notas
e moedas
o controle estatal
monitorizar pessoas
perseguir pessoas
punir pessoas
vacinar pessoas
certificados de imunidade
geolocalização
estado de vigília
enquanto isso
as ruas muito compostas
de silêncios e vazios
ressentimentos angustiados
é para o vosso bem —
gritam os megafones
é para a vossa vida —
repetem os megafones
caminhar desesperadamente
por essas avenidas sem alma
nem amor
baile de máscaras
nada agradável lembrar
esta parte do acordo
o sufoco existencial
os efeitos de curta duração
a desesperança
o jogar-se do oitavo andar
o tiro na têmpora
as overdoses
as despedidas sem holofotes
os presidiários do novo normal
mas os televisores permanecem ligados
o rosto dos telespectadores
leva um azul neon
talvez a face ingrata
do abandono
troca-se o ser
o estar-se
por segurança
fundem-se
anulam-se
para o benefício
de saúde pública
e a vossa pele agora se desfaz
qual metal derretido
o espírito depressa se degrada
percebeis:
sois um robô de silício
há bastante tempo.

— P. R. Cunha