Brasília é a metrópole do futuro que está a acontecer agora

A primeira experiência ciborgue de Frederico foi no mês passado, quando decidiu visitar os pais em Brasília — cidade feita de/&/para automóveis. 

Frederico está dirigindo na larga avenida L4, às margens do lago. Carros velozes ultrapassam o Renault Clio do forasteiro, que não compreende tanta hostilidade no trânsito. Depois de alguns dias, entretanto, o próprio Frederico acostumara-se ao modus operandi da capital: dirigir devagar estava definitivamente fora de cogitação.

Numa cidade em que as pessoas (ainda) prefiram sair às ruas a pé, e há o contato visual, quem sabe um leve esbarrar de ombros na faixa de pedestre acompanhado do discreto «peço-lhe desculpa», pode-se dizer que ali existe qualquer vestígio de humanidade — no sentido mais ingênuo da palavra.

Acontece que em Brasília Frederico estava a experimentar outro tipo de dinâmica. Não eram necessariamente humanos nas autopistas, eram caixas de metal que aceleravam em alta velocidade na direção de outras caixas de metal. 

Um motorista que é fechado por uma dessas bolhas com vidro fumê está a xingar uma pessoa de verdade ou grita feito louco para o estranho objeto pneumático?

É um pouco como ir ao consultório médico e na sala de espera deparar-se com corpos de cabeça baixa, a manusear os telemóveis luminosos, à parte, comunicando-se eletronicamente com outros da própria espécie.

— P. R. Cunha

À cerimônia de casamento — por vezes acontece de o noivo não aparecer

Tudo o que posso falar é o que eu vi. O sentimento interno desta ou daquela pessoa torna-se um exercício de subjetividade, e não é do meu feitio meter-me em especulções. Como definir a alegria alheia, ou a melancolia sentida por um outro alguém, e o que dizer do desespero? 

Ainda que a informática constantemente se manifeste a favor de mecanismos telepáticos, o controle do cérebro humano, leituras de pensamentos (etc. etc. etc.), tal tecnologia ainda não se faz disponível — pelo menos não para mim, este mero mortal que sofre de enxaqueca. 

De modo que, repito, tenho de confiar nesses dois globos oculares e, sem misticismos, na minha intuição. O itálico a sugerir qualquer coisa de ambíguo. 

Estamos a tratar de um casamento. Do casamento do meu Melhor Amigo. Não tenho carta de motorista e meu pai teve de me levar até à cerimônia na carrinha vermelha que o pessoal do nosso rancho costuma utilizar nos dias de chuva. O rancho foi uma espécie de herança que meu pai recebera de certa tia cujo nome não me lembro. A família dele é grande. Antes de desaparecer completamente, minha mãe chegou a levantar sérias questões a respeito dessa «tia» (as aspas também podem sugerir ambiguidade [e não só]: ironia, sarcasmo, deboche). 

Acontece que minha mãe achava, ou melhor, tinha a certeza de que meu pai andava por aí a dar uns amassos numa donzela rica E INGÊNUA (negrito e maiúsculas são de mamã).

A donzela rica teria morrido de causas misteriosas e, à laia de discrição, a família da moça (segundo a hipótese elaborada por mamã) teria oferecido o rancho supracitado ao meu pai, que, em troca, prometeria absoluto sigilo (papai a fazer aquele cômico movimento de fechar a boca com um zíper e depois jogar a chave invisível fora [ainda segundo a cabeça de mamã, por sinal, uma cabeça deveras criativa]).

Não me recordava do quão barulhenta era a carrinha do rancho, mas não havia outra forma de chegar ao casamento do meu Melhor Amigo. Papai de vez em quando soltava uns catarros nojentos do pulmão e cuspia tudo pela janela. Ele fazia umas caretas de decepcionado consigo mesmo, ruminava, depois balbuciava para alguma entidade religiosa «que assim não podia ser, assim não tenho muito tempo, e isto não é justo, sempre fiz tudo certo», de aí ele se acalmava e acendia um cigarro.

Quando chegamos ao local da cerimônia havia este sujeito muito elegante de terno alinhado a nos esperar (manobrista), e ele abriu a porta da carrinha sem esconder o desdém. Dei uma breve espiadela ao redor e logo percebi o porquê. Até àquela altura o sujeito muito elegante tivera apenas de abrir a porta dos automóveis mais luxuosos (Mercedes-Benz, BMW, Porsche, Ferrari). E, assim, de súbito, ele suja a luvinha branca com a maçaneta da carrinha do rancho do meu pai, possivelmente herdado depois de um relacionamento extraconjugal que terminara em tragédia (pelo menos se levarmos em consideração todas as partes envolvidas [moça rica, primordialmente {pois papai parecia bastante satisfeito com o resultado do processo, isso é certinho}]).

A vida tem dessas.

Despedi-me do velho dando duas batidinhas no capô do automóvel e ele saiu à louca com a carrinha. Olhei para o sujeito de terno alinhado, depois apontei para a fumaça criada pelo atrito dos pneus e disse: ele andou bebendo de novo, é triste ver alguém a matar-se dessa maneira, não achas? Não me lembro de ter recebido resposta do manobrista.

Entrei no salão, que já estava repleto de gente. Uma festa de casamento, pensei, é quase a antimatéria de um funeral. Na festa de casamento todos sorriem; no funeral, sem sorrisos / na festa de casamento há dois protagonistas (noivo & noiva); no funeral, apenas um / na festa de casamento há salgadinhos, doces, cadeiras para sentar; no funeral, há poucas cadeiras, sem comidinhas nem nada.

O que uniria esses dois universos: as lágrimas?, o terno do noivo, o terno do morto, o vestido rendado da noiva, o tecido rendado do caixão?, o facto de que quando ambas as cerimônias terminam permanece uma sinistra atmosfera de ruínas?

No canto da grande sala, perto do palco onde aconteceria o concerto musical, estava a noiva. Percebi que ela conversava com o fotógrafo da festa. Ela pedia para ser fotografada sempre de perfil, perfil direito de preferência, pois era o ângulo em que se saia melhor. A noiva deixou cair alguma coisa no chão e ela se agachou para pegar e o fotógrafo ficou olhando para o decote do vestido e depois o fotógrafo virou a cabeça para ver se alguém tinha notado que ele olhara para o decote do vestido da noiva enquanto ela se agachava para pegar alguma coisa no chão e foi aí que ele (o fotógrafo) percebera que eu tinha visto a cena toda e tentei fazer-me de decepcionado como quem diz: isso não se faz, tsc-tsc, que vergonha, que vergonha, que vergonha.

— P. R. Cunha

Telescópio daltônico

O Sr. Block e a Suzanna conheceram-se num bate-papo virtual para solteiros. O Sr. Block escrevia umas coisas esquisitas sobre planetas, teoria das supercordas, liminal spaces, multiversos, e sobre observar Júpiter durante uma noite sem lua, e sobre a atmosfera escaldante de Vênus. Esse tipo de assunto não é nada comum entre os rapazes da idade da Suzanna, de modo que ela se intrigara e começou a conversar com o Sr. Block, sem saber nada do Sr. Block a não ser que ele tinha esse excêntrico interesse astronômico. A bem da verdade os dois passaram bons três/quatro meses a trocar mensagens sem saber muito da vida um do outro. Ela sempre entrava na sala de bate-papo às 17h como Suzanna; ele às 17h30, como Sr. Block. Ela escrevia de um jeito jovial, descontraído, leve; ele com certa afetação, como se fosse mesmo um astrônomo que saíra de perto do telescópio depois de uma temporada de observações e de repente precisasse conviver com outro ser humano. Marcaram um encontro, como se diz, «às cegas». Suzanna estaria com vestido verde, Sr. Block com flor de lapela (parecida com aquelas que os padrinhos utilizam durante o casamento do melhor amigo). O Sr. Block chegara cedinho ao café da Rua 15, vez ou outra ajeitava para o lado os cabelos grisalhos, alinhava o paletó, mexia na flor de lapela, fazia concha com os dedos e averiguava se o hálito ainda estava com o agradável cheiro da balinha de hortelã. Passaram-se trinta minutos, uma hora, duas horas, depois três e nada de Suzanna. Aquilo começava a beirar o constrangimento. A atendente perguntara mais uma vez ao Sr. Block se ele não queria ver o menu do almoço, o prato especial do dia (risoto de tomate seco + vinho do Porto). O Sr. Block disse que não, que não era preciso trazer o menu do almoço, que já estava de saída etc. A atendente trouxe-lhe a conta. Ele voltou para o apartamento, abriu o laptop, a tela iluminou o rosto do Sr. Block enquanto ele registrava-se à sala de bate-papo virtual.

— P. R. Cunha

Asas do morcego

Se ainda prestamos atenção em Lichtenberger: que não conseguia desfazer-se da ideia de que estava morto antes de nascer, e que pela morte tornaria a voltar a esse mesmo estado ausente. 

Morrer e acordar com as lembranças da última existência, a isso chamamos desmaiar, escreve Lichtenberger. Porém, ao despertarmos sem memória, num outro corpo, com outros órgãos, dirão que um novo bebezinho nasceu.  

O mundo do teatro como representação em miniatura dessas realidades. Espetáculo de teatro que durasse duas horas e condensasse algumas das inquietações mais categóricas da espécie humana. 

Pequeno universo onde o autor entra em cena (nasce), movimenta-se, fala algumas coisas (vive), e depois retira-se do palco (morre). A plateia bate as palmas, o diretor (deus?) levanta-se para receber os louros, todos voltam para casa com a certeza de que aquilo que foi retratado durante a peça de teatro só aconteceu aos atores e às atrizes de teatro. 

A tragédia humana vista à distância, confortavelmente à distância, alguns até mastigavam pipoca. 

O casal que desliga a televisão depois de ver um gráfico a respeito do aumento de casos de divórcio. Eles se cobrem e garantem: ainda bem que isso nunca, nunca acontecerá connosco. 

Ou a guerra acompanhada pelos noticiários, sem derramamento de sangue (pelo menos do lado dos telespectadores). Guerra começa, desenrola-se, termina. Uma semana depois, é como se nada tivesse acontecido.

Enquanto abrimos a torneira do chuveiro e sentimos a água quente cair, enquanto acordamos e tomamos o café fresco, enquanto podemos regar a horta ao jardim, enquanto apertamos o controle da televisão e temos as certezas de que aquela cena é longínqua de mais para bater à nossa porta, enquanto o Drácula se esconde num castelo grotesco na Transilvânia e não amedronta outras regiões do mundo, enquanto essas miragens funcionarem, estaremos sãos e salvos.

— P. R. Cunha

Nuvens de tempestade carregam raios luminosos

Tardezinha. Dois seres humanos estão a caminhar no cais. Os cabelos dela esvoaçam. Venta um bocado. Ele tira o sobretudo e cobre as costas dela. Ela ajeita a franja com dificuldade: a questão é, de que tens medo?… (pausa)… quero dizer, sentes medo?, com que frequência sentes medo? Ondas aborrecidas acertam as pedras perto da balaustrada diante da qual eles pararam à guisa de observar a tempestade que se aproximava. Ele abaixa a cabeça, olha para o nada, como que envergonhado, como se não encontrasse as palavras certas para responder. Ela insiste: então, sentes medo?

— P. R. Cunha

Sistema cognitivo idealiza/realiza experiências

Sobre a minha visita ao Double R Diner (Tmar RR Café) / torta de cereja, a damn fine cup of coffee («ma’am, this is, excuse me, a damn fine cup of coffee» [Agent Dale Cooper]).

Ela-tem-uma-mancha-de-café-na-manga-esquerda-da-camisa.

Geralmente, o primeiro espirro vem acompanhado de um segundo espirro. 

O Chris me contou que havia este café que não fechava nem durante as quarentenas. É o Double R Diner, ele disse. Não percebo. Sempre achei que para ir até lá era preciso: 1) ser cidadão de Twin Peaks; 2) fazer parte da equipe de gravações da série dirigida pelo David Lynch. Então o Chris explicou que era outra coisa, enviou-me o endereço (web, http:// [vide serviço]), ou seja, um canal no YouTube chamado Calmed By Nature — Twin Peaks Double R Diner Ambience / 8 Hours of Smooth Jazz Music, Rain Sounds, & Cozy Cafe Ambience. Uma simulação. O cliente virtual é conduzido à mesa por uma atendente invisível (quis acreditar que era a própria Shelly Johnson [Mädchen Amick]) enquanto se escuta a voz do agente Cooper ao fundo. A câmera estaciona num canto do estabelecimento: observamos os azulejos quadriculados, o cartaz de procura-se o Bob, a fumaça do café quente, o gravador de Cooper, a torta de cereja, o pedaço de lenha da Log Lady, as chaves do The Great Northern Hotel e outras inúmeras referências lynchianas. Há algo assustadoramente reconfortante nesse simulacro. As notas suaves do piano, o som hipnotizador de um trompete, a bateria a marcar o tempo com batidas delicadas, discretas, o barulho da chuva na janela. É um pouco como ler Dickens: quase acreditamos estar noutra época. Tudo depende da (pré)disposição do receptor. Com os fones no ouvido, a cabeça na minha fazenda literária, a sentir crises de abstinência (não me sento num café de verdade há mais de três meses), com o pensamento longe, tão longe quanto Twin Peaks, deixei-me vergonhosamente sonhar com a representação do Double R Diner (uma fotocópia ficcional de outra cópia ficcional). Uma experiência deveras moderna, portanto.

SERVIÇO
Endereço do Double R Diner: https://youtu.be/npVellnR6D8

Sugere-se a utilização de auscultadores.

— P. R. Cunha

Contos revisitados (levemente alterados): geladeira vermelha estilo retrô

Elizabete está assistindo ao noticiário enquanto o marido Norberto frita uns ovos com bacon e orégano, pitadas de sal, sem excessos, porque o médico anda muito preocupado com o alto nível de sódio no sangue do Norberto, hipernatremia (no idioma medicinal), e o colesterol, precisa de se cuidar, diz o médico, não é mais uma criancinha, Norberto. A luz azulada da tela de TV reflete nas lentes grossas dos óculos da Elizabete, que também não é mais uma criancinha (5 graus de miopia / 4.5 de astigmatismo). Ela corta umas verduras que estão ficando já meio passadas, os pedaços desabam numa bacia circular cor de abacate, e a faca que perdera a afiação dos melhores dias. Pode-se dizer que Elizabete e Norberto são como as facas que pararam de cortar, mesmo que numa altura fossem afiadíssimas e deixassem toda a sorte de verduras (até as mais resistentes) em pedacinhos. Agora o noticiário fala de um empresário que, como se diz, se dera muito bem na vida. O nome dele é Carlos Bragança. Elizabete para de cortar as verduras, fica de pé na sala sob o olhar luminoso do televisor e diz: Norbe!, Norbe!, vê só!, o nosso amigo dos tempos de escola está no noticiário. Norberto esquece o ovo a fritar na frigideira e vai ver o que se passa: humn, ele era bem mais magro, não achas?, e não tinha lá essas entradas na testa… Elizabete, como que hipnotizada, pronuncia vagarosamente o nome: Braaaaa-gannnnn-ça, ainda o acho muito atraente, e tenho a certeza de que todas as meninas da turma concordariam comigo. Ela solta uma risada alta e descontrolada, parece louca. Norberto coça a têmpora, incomodado com aquele adversário de luz, um fantasma que se levantara de um sonho plasmático de televisão: péssimo aluno de geografia, péssimo, não te lembras disso? Elizabete limpa os óculos com a camisola para enxergar melhor, continua a sorrir para o noticiário. Carlos Bragança fala agora sobre uma venda importante, guinadas econômicas, mais dinheiro para o produto interno bruto. Que homem!, ela suspira. Norberto dá de ombros, volta para a cozinha e continua a fritar os ovos com bacon, orégano, pitadas de sal, etc.

— P. R. Cunha

Cérebro de LED (reboot)

O sr. Max finalmente sai de casa para um passeio. Ele se assusta imenso com o que vê e decide voltar ligeiro ao conforto do ecrã televisivo.

Se o futuro está cancelado (ou suspenso), talvez olhar para trás em busca de âncoras. A ficção científica dos anos 1990, o electrowave dos 1980, as calças dos anos 1970, o penteado dos 1960. Misturas esperadas, nostálgicas, confortáveis.

Observamos a bola da história bater na parede do século 21, ricochetear, seguir rumos difíceis de serem previstos.

Noticiários como representações desconexas do eterno presente, reportagens disparatadas, contraditórias, anuláveis, em busca de interesses ilícitos.

«As coisas só acontecem se elas chamam a atenção da mídia.» No ciberespaço este axioma ganha versão assustadoramente jocosa: se não está no Google, não existe. 

O sr. Max acostumara-se a essas previsibilidades, a essas certezas, de aí ele ter voltado ligeiro ao ecrã  — onde a realidade é filtrada, mastigada, menos aleatória, comentada e descartada.

Pode-se sempre recomeçar no dia seguinte, basta um clique de botão.

— P. R. Cunha

Resíduos radioativos

Só sentimos falta/valorizamos quando deixamos de ter: boca sem afta; banho de água quente; livros de papel; um amor correspondido.

É importante guardar os pormenores do livro a respeito do qual estamos a escrever. 

Céline dissera que o livro é como uma moça grávida — não podemos expôr o bebezinho aos raios-x demasiadamente, atrapalha a gestação, o desenvolvimento do futuro miúdo. 

Faça o pré-natal com discrição, sem alardes. O segredo cria sensações misteriosas. (Basta observar as pessoas que preferem permanecer em silêncio.)

Tenha uma lista de títulos em mente ou anotada nas margens do caderno, mas não é imprescindível nomear o livro com tanta pressa.

No momento em que intitulamos a obra, ela perde um bocado de energia. Nomear — os estruturalistas sabem disso — é conceituar, expor o livro à luz do dia antes do necessário. 

Na altura em que escrevemos o título definitivo no papel em branco, estamos condenados.

Jogue o tubarão de volta para o oceano, finja que nada aconteceu.

Nunca dizer o nome, nunca dizer do que se trata. Se muito, explicar o mínimo: sou escritor, de forma que, obviamente, estou a escrever qualquer coisa. Isso é tudo.

Um livro ao revés, portanto. A folha de rosto fica para o final: como aquele artista que só assina a obra quando acredita que o quadro se mostra pronto o bastante para o escrutínio público.

— P. R. Cunha

Teoria do holofote (apontamentos desconexos)

Os reencontros de turma são sempre organizados pelos alunos mais bem-sucedidos.

* * *

Capitalismo-mágico faz crer que as commodities consumidas pela sociedade simplesmente surgem, aparecem, materializam-se, como num sonho, contos de fada.

Ir ao supermercado, ao shopping mall e deparar-se com quantidades vertiginosas de produtos coloridos; ou, num contexto mais imediatista, comprar pela internet, no infinito abstrato acessado com um simples movimento do mouse, e a mercadoria chega à porta de casa.

Passe de mágica.

Fácil de esquecer que, a despeito do acelerado desenvolvimento robótico, as coisas ainda são majoritariamente produzidas por pessoas (isto é: dependem da supervisão e do esforço de seres humanos).

Se outros humanos não produzem, não embalam, não transportam, não fiscalizam, não entregam, de aí a magia perde todo o sentido.

* * *

Um vírus que realmente causasse pânico/histeria/desespero — não um vírus biológico, mas virtual. Visto que a fuga da «realidade» é feita através da janela computadorizada, os pixels ganham novas dimensões. A falta de conexão com a internet, colapso do sistema streaming (Netflix, YouTube & associados), redes sociais em espera; difícil de prever como essa abstinência afetaria o psicológico de certos usuários.

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Estádio de futebol repleto de torcedores feitos de papelão — Pinocchios com rostos (fotografias) de torcedores de verdade. O barulho da torcida viria de altifalantes estrategicamente posicionados às laterais do campo. Ecos, gravações e reverberações garantiriam a atmosfera grotesca do espetáculo. 

— P. R. Cunha