Caderno de viagem: doces portugueses (espécie de prólogo [em parte{s}])

Uma senhora está a chamar-te. Fica paradinho aí, ela diz. Carrega consigo um livro. À medida que ela se aproxima, podes ler melhor o título em vermelho da capa: Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, um livro de memórias — é Murakami.

Sexta-feira, 14 de dezembro de 2018. Escreves com o caderninho sobre a cama do Hotel Imperial. Aveiro. A letra afunda enquanto anotas, o colchão é macio, imprevisível. Sentes-te no século XIX. 

Portugal tem destas.

Se viajar significa «ir-se alhures» então o que estas a fazer é definitivamente uma viagem. Kipling nunca esteve em Mandalai, e mesmo assim escrevera qualquer coisa chamada The road to Mandalay — não sabes ao certo. Não vais muito com os poemas do Kipling.

A literatura de viagem boa, a literatura de viagem má e a literatura de viagem do meio.

Há quem gaste dinheiros, encontra-se de repente numa cidade estranha e jamais sai do quarto do hotel. É isto uma viagem? Quanto tempo precisamos estar fora para adquirirmos o direito tácito de colocar nossas experiências ao papel, quantas coisas precisamos de ver para transformá-las em memórias verosímeis, podemos tagarelar com desenvoltura sobre a culinária alheia depois de comermos somente em um restaurante obscuro indicado pelos mecanismos Google?

Outra maneira de se falar de viagem, uma viagem a Lisboa, suponhamos, ou até aos canais de Aveiro — ou a tantos outros sítios, sente-te lá à vontade para escolher —, falar a respeito dessas deslocações estrangeiras, não necessariamente fora da tua pátria, mas fora da tua zona de conforto, uma maneira de falar dessas andanças algures (e nenhures) seria segundo partes de relatos; fragmentos, portanto. Porque nessas ocasiões, longe de casa, numa altura estamos cá, noutras já cá não estamos.

Moves-te muitíssimo quando viajas. Tu explicas: em dezembro fui a Lisboa, fui também aos canais de Aveiro, Coimbra, Cascais, Estoril, Óbidos, sítios realmente fantásticos; andei e refleti imenso. Agora, apetece-me escrever sobre essas tretas. Novamente a mesma imagem: d’um sítio para o outro, ora lá, ora cá. Em fuga.

Em Portugal és apenas um estranho qualquer — l’étranger. Falar mais a respeito disto depois. (No Brasil, também és apenas um étranger qualquer. Não faz a diferença.)

A viagem é uma vida engarrafada, maqueta existencial, microcosmos. A viagem começa, ela se desenrola, a viagem acaba — geralmente em lágrimas.

Estás com uma t-shirt preta a escutar o r.roo (Art of forgetting).

Dois passos para te tornares fã de Lisboa — vai até Lisboa, abre-te os olhos. Pronto, és fã de Lisboa.

O anonimato do viajante. Pois, como escrevera um poeta, quando viajamos podemos extrair novas canduras até mesmo nas saudades, numas palavras incompreendidas, na catástrofe, na fatalidade, na solidão, principalmente na solidão.

Há bem os dias em que o viajante acorda tão disposto que poderia caminhar meio mundo com aquele humor leve, despretensioso, dominical. Não se limita às paredes da cidade. Quebra muros, vai ao cume da montanha. Grita, se for preciso.

Quando vejo o Tejo
ondular
numa língua familiar
compreendo —
o Tejo tem alma.

Um relato de viagem que fosse também uma espécie de viagem. Estás a escrever em Lisboa, depois Óbidos, de aí Évora, Setúbal, Leiria, Nazaré, Aveiro, novamente Lisboa. Continuarás a escrever quando voltares ao Brasil, em casa, num refeitório, ao pequeno-almoço, à livraria (se elas continuarem a existir). Estás a escrever sempre, não tens qualquer ambição cronológica. Agora umas frases de ontem, ali uma outra observação da semana passada, destacas algo que acabara de ocorrer-te. Tu misturas tudo. Perguntam-te: mas de certeza havia um roteiro, certo? Repondes que a cada dia conhecias um sítio diferente. Mas ao falar deles tu não segues ordem nenhuma, sem configuração determinada. Uma quinta nebulosa em Sintra deixara-te com o coração à boca de tão bela, outras ruas são tocadas apenas ao de leve. Os doces portugueses bem mereciam um capítulo à parte.

O uso dos três pontos (…): o uso dos três pontos, no nosso caso, indica que existe transição, rota, deslocamentos — indica geralmente que o viajante está dentro de um autocarro, ou talvez montado numa bicicleta (BUGA, se Aveiro), indica que está a ruminar, a passear. O viajante vai de passagem.

Há uma surpresa constante quando vos entrais em sítios em que nunca estivestes. Tudo está fresco, não foi contaminado pelo excesso. Vossas vistas procuram compreender os mínimos detalhes, vistas atentas, vistas aguçadas etc. Os nativos podem não dar tanto valor a determinado canto da cidade, alguns podem nunca ter lá ido. É como a piscina: se não as temos em casa, queremos tê-la; se temos, perde-se um pouco a magia. Vós dizeis: temos a piscina, podemos cá abrir a janela do nosso quarto e avistamos ali uma piscina, entramos nela quando (e se) apetecer-nos, a piscina não tem tanta importância. Um miúdo sem piscina está sentado no sofá do apartamento da mamã e sonha com a piscina, gostava de ter uma piscina bem grande, ele diz para consigo, ficaria dentro dela a tempo inteiro. 

Percebei, leitores, que este tema «viagem» é vasto. Muitos já escreveram a respeito. Isto tem certa vantagem: tudo torna-se possível; podei-vos anotar do jeito que preferirdes.

— P. R. Cunha

Observações pouco específicas e um tanto desinteressadas sobre viajar

O autor ainda desconhece o propósito destas notas; teme, entretanto, que as viagens estejam a se transformar em meros deslocamentos inconvenientes — tal como o maníaco citado por Baudelaire que substituía móveis sólidos e jardins verdadeiros por cenários pintados em tela e montados em caixilhos.

Determinadas jornadas, por algum motivo, produzem emoções diferentes no teu coração — e se estás a ler o relato de algum fidalgo que passara por epifanias parecidas, logo deixas de ser um mero leitor-espectador para juntar-te ao viajante, ao caminho, à estrada. Um amplo e sensível diálogo do fidalgo connosco, com a vida. Perguntas-lhe «por onde anda, por onde andou, para onde vai». Se achas realmente simpático o relato, logo percebes aquela aprazível atmosfera que toda a gente que numa altura esteve na poltrona de um comboio com a janela aberta — o vento fresco a limpar o rosto —, que toda a gente que já ouvira as profundas badaladas dos sinos de certa aldeia portuguesa irá prontamente entender. O viajante pode estar a contar verdades, ou a transformar o que vira em auto-retrato ficcional; entrelaça a realidade vivida com as composições fantásticas da literatura. Viajante está a observar a rua desde um café estrangeiro e pensa com afinco sobre as possibilidades desta cena, o potencial narrativo desta cena: um passarinho canta, um trompetista aveirense que limpa o instrumento com ternura, o balé moroso de árvores retorcidas pelo Pai Inverno. O viajante não precisa de ser um homem triste, tímido, um bocadinho atormentado, solitário — embora amiúde o seja. Lá está ele com os cabelos desgrenhados à Einstein, a fotografar qualquer coisa na praça central, a vivenciar, a lutar contra o esquecimento. Bem podia ser um brasileiro de trinta e poucos anos, um metro e setenta de altura, um tipo aluado que acabara de sair da estação de comboio com o mapa da cidade de Lisboa para o bolso do sobretudo preto, a calcular a melhor rota até ao Hotel Continental — se pego está ou aquela avenida, ele diz consigo, talvez poupasse uns dez minutos, evitaria atravessar o Chiado que a esta hora com toda a certeza está engarrafado —, o viajante a devorar uma sanduíche de manteiga com o pão mole, a dar golinhos esporádicos no Sumol de laranja. Ele respira fundo o ar lisboeta, glaciar, e pensa se outros também sentiriam a mesma espécie de comoção que ele está a sentir diante da capital portuguesa, aquele tipo de arrepio involuntário que por vezes sentimos quando nos deparamos com o bater de asas de um colibri. 

— P. R. Cunha

Já posso ouvir os versos cantados pelo fantasma de Pessoa — ou uma jornada tragicômica com turbulências (Lisboa)

Chegar duas horas antes da descolagem, despachar as malas, fila do embarque (a contar atrasos eventuais causados por miúdos que jogam-se para o chão e esperneiam diante da mamã brasileira, que não liga patavina para aquelas tretas), entrar no aeroplano, colocar as malinhas nas bagageiras, nove horas dentro do transatlântico celeste, aterrar, entrar na fila dos possuidores de passaporte estrangeiro, ficar duas horas em pé, entrevista com a alfândega (motivo da visita?…, prêmio?, em Aveiro?, és jovem, ora!, quantos anos tens?, o quê?!, não, não posso acreditar, a sério?, e o livro vale a pena? [solta o prolongado «uhmmmnnn…»], gostava de ler exemplar com a tua assinatura, assim, quando fores famoso, claro, é isto, faz boa viagem, menino, parabéns pelo prêmio — diz o homem da alfândega), esperar o funcionário da transportadora que me leva ao hotel para o merecido descanso. O caminho até Lisboa dura quase uma vida inteira.

Anexo: ou trecho do livrinho de notas

Estamos a sobrevoar o Atlântico ao meio de uma turbulenta tempestade de relâmpagos; não acho que vamos morrer, mas é um bocado assustador chacoalhar-se dentro de um comboio alado a 11 mil metros da superfície. Enquanto isto, há uma coisa que está a mexer com os meus brios: a passividade forçada de determinados passageiros (via de regra: homens caucasianos que andam por volta dos 40 e têm as têmporas grisalhas) que fazem cara de desdém diante do desespero alheio, aquela odiosa cara de nada está a acontecer, estou calmo, um eremita, estressas-te à toa, a aviação moderna é segura, devias estar siente disto há muito, como se estivessem sentadinhos para a salita de televisão assistindo à novela vespertina, erguem os jornais, dão bocejos com ar de desprezo; se a lei ainda permitisse provavelmente acenderiam o cigarro aromatizado, dariam uma tragada e o segurariam com aquela pose tipo Oscar Wilde. O que vou escrever agora soará macabro pacas… Acontece que uma parte de mim (aquela com inclinações diabólicas) bem gostaria de que este avião caísse, só para ver essa gente irritante a gritar um bocadinho.

— P. R. Cunha

 

Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Tiveste um ano repleto de escritas e agora estás deitado numa cama macia a anotar isto aqui, sem nenhuma vontade — propriamente — de anotar isto aqui.

Overdose de literatura (ou o mal de Montano [vide Vila-Matas et al.]). Escrever todos os dias e ver o que acontece.

Amanhã viajarás para Portugal e tua mãe pensa que tu deves estar na lua, muito satisfeito com tudo; afinal, recebeste um prêmio de literatura, ela diz, era bem o que tu querias, não era?, não era?, não era?

Há um telefonema, a gentil pessoa do outro lado da linha te dá os muitos parabéns porque tu acabaras de receber um prêmio, sentes tremor de pernas, o teu coração é um motor de fórmula 1, teu sistema nervoso libera acetilcolina, noradrenalina, o solo desaparece, estás a cair, era bem o que tu querias (pausa dramática), não era?

Fizeste as pazes com o tablete-leitor-eletrônico, principalmente porque antes era-te um verdadeiro estorvo escolher os livros à viagem, o peso na mochila, a indecisão, «será que é mesmo este livro que gostavas de levar na aeronave» etc. O teu tablete tem agora duzentas obras digitalizadas e pesa um pouco mais do que uma folha A4. Estás a sentir-te um bocadinho sujo diante dessa situação.

Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!

Agora, diz até breve aos leitores, diz que voltas, diz que sentes já o cheiro dos pastéis de nata…

— P. R. Cunha

Hotel Brasília

A impressão é a de que cheguei ao fim do mundo. Está tarde, mas posso ainda escutar os barulhos do centro, os autocarros a sair da rodoviária, a motocicleta rangendo, os gritos de amor no quarto ao lado, o choro de uma mulher idosa, marteladas na parede (o que estariam a pregar?), a televisão, o noticiário, um abajur ligado que não ilumina a leitura de ninguém. No restaurante do primeiro piso, vi um garçom aflito porque as mesas mostravam-se impecáveis, as toalhas brancas, os pratos alinhados, os talheres reluzentes, mas algumas taças de vinho, que supostamente deveriam brilhar de tão cristalinas, estavam borradas de batom — alguém lhe dissera às costas: tranquiliza-te, Francisco, ninguém desce para comer a uma hora destas.

— P. R. Cunha

Futebol americano

Bola oval capacetes jogadores com armaduras é como assistir à batalha dos romanos gladiadores modernos o kickoff o retornador o running back ligeiro está a dançar à frente da defesa o Tom Brady o Julian Edelman o Rob Gronkowski as linhas as jardas o ataque avança a tática parece uma partida de xadrez o lançamento preciso o efeito a angústia da torcida o tempo congelado os gritos a festa a euforia o touchdown.

— P. R. Cunha

Notas de um verão carioca (dezembro/2011)*

Tenho a certeza de que me chamarás de louco, mas te garanto, leitor, que existe uma longa linha imaginária a dividir as praias do Rio de Janeiro. De um lado, o calçadão, os bons modos, os tênis Nike, as pessoas vestidas com esmero, o asfalto, os automóveis com ar-condicionado; do outro, a areia, a devassidão, o calor, os biquínis, o futvôlei, os bumbuns, o suor, as peles bronzeadas. Vou a um restaurante de frutos marítimos a dez passos da praia, funcionário vestido de pinguim fica à porta e explica que ali não é permitida a entrada com fatos de banho, nem com calção tipo shorts. Perto do bufê há um enorme vidro panorâmico através do qual a clientela observa o baile das ondas. Ao sair do restaurante, tu bem poderias andar com um tapa-sexo de dez centímetros que gente nenhuma iria te incomodar, mas, dentro do restaurante, repito, dentro do restaurante é outra coisa. Dentro do restaurante impera a mais alta etiqueta da chamada civilização: todos usam muitas roupas, comportam-se direitinho, a mamã pede silêncio ao miúdo serelepe — é o lado recatado da linha imaginária, percebes? Depois do almoço, levo a minha espreguiçadeira e deito-me diante da brisa atlântica. Estou, naturalmente, com as pernas à mostra. Uma senhora por volta dos setenta passa perto e diz sem olhar nos meus olhos: tu tens aí umas pernas tão brancas, nunca apanhas sol? Sou de Brasília, Distrito Federal, preciso de descansar — respondo à queima-roupa.

— P. R. Cunha


*Crônica originalmente publicada na Folha de Icaraí.