Tu — esperas & notas antes de viajar

» Camus equivocara-se 

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: quais livros levaremos para a viagem. Julgar se colocamos para a bolsa de mão o Sebald ou o Handke ou o Carrión, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto — se vai chover, se escolheremos as camisas vermelhas, se levaremos as bermudas que a tia Rita nos deu — vem depois. Camus, portanto, equivocara-se. O suicídio não é tão absurdo quanto essas seleções literárias. Poucos escolhidos, muitos deixados para trás. Vive-se com esse barulho.

» Discretamente, D. Delgado escreve sobre P. R. Cunha

O pensamento deste narrador, que se diz desventuroso, é um autêntico jogo de xadrez. De um lado do «tabuleiro», o pensamento-ficção; do outro, a realidade. Acho que a ficção podem ser as peças brancas e a realidade as pretas. Ou talvez não. As «peças»… num dos lados são os personagens reais da vida, e no outro, filósofos, autores e pensadores fruto de muitas leituras. Por vezes dão-se todos bem, noutras nem tanto. A estratégia deste «jogo» é o «desventuroso narrador», como se intitula aos trinta e poucos anos de vida, estratégia que entre avanços, recuos, dúvidas e certezas, tem jogadas/pensamentos de mestre. Penso que será um jogo eterno, sem xeque-mate, nem vencedor. Porque cada um sabe que precisa do outro para se sentir vivo e produtivo.


IMG_1532Há muitos livros; e não podemos levá-los todos numa mala


» Gostava de ter o cabelo à Scott Fitzgerald — haikus tropicais

1.

vendedor de pipoca
não aproveita o parque —
um automóvel passou

2.

Para a amiga M. L. F.

jogadores de xadrez
à berma da praia
o rei está louco

3. 

Sturm und drang

sonhador solitário
perseguido pela culpa
poeta sem remorso

— P. R. Cunha

Balões & Saída Norte

Boas! Este electro-sítio, residência de minhas loucuras, completa hoje três meses. Numa palavra: o blogue ainda vive e respira — assim como o próprio autor. E, o que é mais, há-de continuar a respirar, se a fonte da saúde agraciá-lo com regojizo e boa disposição.

«Um maquinista gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino», é Blaise Cendrars, citado por Oswald de Andrade — citados por mim.

Assim prossigo, com grande entusiasmo.


» Piloto / Plano / Brasília

Superquadras (SQS ––––––––– SQN)

[112 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
guarda-se a tristeza
das coisas que não foram

[405 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
sozinhas, as pessoas
tomam o pequeno-almoço

– – – – – – – – EIXO

[106 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
esconde-se o Sol
que não quer mais se ver

[309 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
por vezes há apenas
uma outra superquadra.


IMG_1465Mesa de trabalho deste autor, um seu criado


» Amantes

Certa mulher chega a casa e está a beijar o amante na sala de visitas. Ambos caminham lentamente para o quarto dela, entram no cômodo escuro e ainda não notaram que o marido da mulher encontra-se esticado sobre a cama, com os olhos cerrados. A mulher e o amante fazem uma verdadeira algazarra, mas o marido não percebe. É muito estúpido. Ou talvez…

— P. R. Cunha

Álbum à vista

A canção Domingo à tarde foi escolhida pela Cássia para ser música de trabalho do meu próximo álbum, cujo título provisório é «Triunfo». As outras faixas serão produzidas e masterizadas nos estúdios OC, em Niterói, perto da praia de Icaraí.

PRCunhaDomingo

«Nova antologia de contos brasilienses», duas breves narrativas de P. R. Cunha

W3 Sul

Um fotógrafo brasiliense que durante mais de trinta anos batalhou pela vida, como se diz, fotografando acidentes automobilísticos foi atropelado por um ônibus na avenida W3 Sul. Para não perder a lucrativa oportunidade, o fotógrafo, ainda gemendo de dores, tirou do bolso da calça o próprio telemóvel e apontara a câmera para si. Ao que parece, o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília pagaram, respectivamente, R$ 45 e R$ 50 pela selfie.

Sem pudores

Três sobreviventes de uma catástrofe aeronáutica viram-se obrigados a consumir a carne de outros passageiros mortos — do contrário teriam morrido à fome. Aquando da chegada do resgate disseram que, de início, enquanto mastigavam a carne humana, precisaram de fazer um esforço descomunal a fim de imaginar o gosto da carne bovina, mas logo aperceberam-se de que não havia muita diferença entre os dois tipos de carne; praticamente o mesmo sabor. Meses depois, durante entrevista a um canal televisivo, os três sobreviventes confessaram sem pudores que, agora, ao consumirem carne bovina, concentravam-se para lembrar do gosto da carne humana.

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Teatro Nacional

Uma semana antes daquela que seria muito provavelmente a apresentação mais importante da história da Orquestra Sinfônica de Brasília, o maestro Zaleski comentou com os músicos durante o ensaio que não pretendia, de forma alguma, participar do evento, atitude que gerara uma série de boas gargalhadas e comentários divertidos, afinal todos tinham a certeza de que o renomado maestro Zaleski estava apenas a brincar. Na noite da apresentação, à qual estiveram presentes diversos líderes mundiais, o maestro Zaleski de fato desapareceu, e como nunca chegasse ao Teatro Nacional, o espetáculo teve mesmo de ser adiado por não ter sido encontrado substituto a tempo. A polícia investiga a respeito e não descarta nenhuma possibilidade.

— P. R. Cunha

Dois embarques

Em maio de 2016, eu partira de Brasília com destino a Niterói na esperança de superar ao oceano marítimo um desassossego particularmente perturbador: mistura de ansiedade, com saudade, com aflição por achar que nunca terminaria o meu livrinho (Paraquedas, um estudo filosófico), que já há tempos estava a escrever. Indizível melancolia por flertar com a minha finitude, com o meu, como se diz, «eterno processo de dissolução extremamente lento».

— Brasília, para escapar daqui só indo para Saturno; ou para Niterói.

De manhãzinha, antes de sair para as caminhadas aparentemente sem destino, sentava-me à máquina de escrever que pertencera ao meu papá e datilografava:

Regresso a Niterói, que me é agora tão estranha como antes me fora familiar. O apartamento da minha avó fica no 24º piso. Daqui se vê até muito longe a toda a volta. Inclusive o desengonçado morro com formato de cavalo, atrás do qual dissipam-se as lacrimosas ondas do Atlântico. Ali está um oceano onde começa a viagem para Portugal — ou para a morada dos náufragos. 

Poder deixar a vista espraiar-se até tão longínquas paragens, sem dúvida, liberta o coração.

Há dias
em que
não percebo
nada de mim.

Maio de 2018 — muito cansado, ralado e estropiado, voltarei novamente a Niterói a ver se encontro uma tranquila noite de sono, com a certeza de que a minha juventude, ou melhor, de que aquele tempo maravilhoso em que tudo ainda era possível, já começa a se despedir definitivamente deste desventuroso narrador.

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Praia de Icaraí

«A evasão de P. R. Cunha para dedicar-se algures integralmente ao xadrez causou nesta família uma impressão profundamente desagradável.»
Notas de minha mãe

Foi preso ontem, às onze horas da noite, um enxadrista brasiliense que se achava embriagado, completamente fora de si e provocava desordem em um boteco na rua Mariz e Barros, Niterói. Na ocasião de ser conduzido para a delegacia, tentou surrar o rondante com um chapéu-de-chuva, que trazia consigo. Ninguém se feriu.

O que disse o delegado a respeito do enxadrista brasiliense: o que é certo é que muito raramente aparecem aqui meliantes deste gênero — intelectual, jogador de xadrez, e pelos vistos ainda escreve romances. Não deixa de ser uma pena, posto que são excelentes conversadores.

Como vais?, o delegado perguntou para o jogador de xadrez. Bem, respondeu o jogador de xadrez com uma resignada tristeza. Já não sofres?, perguntou o delegado. No físico, disse o jogador, no físico, passo às mil maravilhas.

O enxadrista brasiliense, que está na 467ª posição do ranking mundial, foi liberado hoje pela manhã. E isso tudo é confuso demais.


» Malas prontas para Niterói

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