Duas conversas com um autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários

A primeira conversa que tive com este autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, foi em Viena, quando ele me dissera que, enquanto escreve, o escritor jamais deve pensar em sua escrita, deve apenas escrever. Da mesma forma que o nosso coração está a bater, ele acrescentou ainda, e muitas vezes não nos damos conta deste batimento. Quando eu resolvi lhe perguntar sobre o motivo de ele não ter publicado nada, nem uma linha sequer, nos últimos cinco anos, o autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, respondeu que desde a morte da esposa num trágico acidente rodoviário ele passara a tomar notas única e exclusivamente numa cadernetinha que ela lhe presenteara poucos dias antes do desastre. E como as linhas dessa cadernetinha já estivessem lá quase que completamente tomadas, a faltar apenas uma ou duas para serem preenchidas, o autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, não pretendia, de forma alguma, desperdiçá-las com quaisquer bobagens. Estou desde então, disse-me ele, a esperar pela chamada frase derradeira. Naturalmente, o comentário a respeito da catástrofe rodoviária e da morte da esposa nessa catástrofe rodoviária acabou por ensombrecer um bom bocado a dica — excelente dica, aliás — sobre nunca pensar no que se escreve, apenas escrever.

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A segunda e última conversa que tive com este autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, foi em Gdańsk, cerca de quatro anos depois, e caía uma verdadeira nevasca lá fora. Estávamos hospedados no Sadova. Ao saguão do hotel, eu a ler o vespertino e ele a dar baforadas num cachimbo à moda Sherlock Holmes. O autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, quebrara o silêncio e dissera que tornara-se trágico não somente por conta da morte da esposa, mas principalmente por ter sido privado de atividades literárias. Como os futebolistas a quem é vedada a bola, ou jardineiros banidos do jardim. Prestar atenção, ele disse, nos escritores que se isolam demais, progressivamente melancólicos. Ou estão a fugir de algo, ou sentem-se lá já meio mortos — daí a predileção pelos ambientes frios, subsolos, salas de mármore ou de madeira, tudo muito apropriado para as celebrações fúnebres. O medo de que amanhã possa estar já tudo perdido. No dia seguinte, uma camareira do Sadova chamada Malwina encontrara pendurado o corpo do autor muito famoso, vencedor de vários prêmios, com lençol branco ao redor do pescoço enrijecido.

— P. R. Cunha

Departamento de trânsito

Depois da morte do pai do Nestor — meu amigo dos tempos de escola — a mãe dele que, bem me lembro, costumava nos preparar deliciosas tortas de framboesa, a mãe dele, estava eu a dizer, passou a dirigir o automóvel que pertencia ao esposo falecido, um Honda ano 2016. Acontece de por vezes a mãe do Nestor, que mete-se nos copos todas as sextas-feiras, passar dos limites de velocidade. Quando chegam os avisos de multa, os envelopes levam ainda o nome do pai do Nestor, e não o da mãe do Nestor. O Nestor comenta, num tom que nunca sei se de brincadeira ou de malevolência, que, pelo menos para o departamento de trânsito, o pai dele ainda está vivo e dirige por aí como um desvairado. O departamento de trânsito não tomara conhecimento, portanto, do suicídio do pai do Nestor.

— P. R. Cunha

Cinema do Centro da Cidade

Um militar que depois de, como se diz, muitos anos de serviços prestados finalmente se aposentara e para não ficar, também como se diz, à toa decidira ir a todas as estreias de filmes ao assim chamado Cinema do Centro da Cidade. Não demorou para que o militar percebesse que o Cinema do Centro da Cidade era frequentado majoritariamente, cerca de setenta por cento, embora esse tipo de estimativa não seja lá muito simples de se fazer, frequentado majoritariamente por jovens que comem pipoca e manuseiam o telemóvel, principalmente às estreias que, como já se ressaltou, eram as sessões às quais o militar se dispusera a ir depois da própria aposentadoria. Como o barulho de pipoca e os ecrãs luminosos dos telemóveis o incomodassem sobremaneira, o militar decidira recrutar um promissor soldado para, devidamente dotado de rifle com mira, esconder-se nalgum canto da sala de cinema e atirar em qualquer pessoa que comesse pipoca, manuseasse telemóvel ou mesmo fizesse outro tipo de ruído que incomodasse a experiência cinematográfica do militar, que, diga-se de passagem, sempre ia às sessões fardado. Calhou de ser inverno aquando da primeira tentativa de se utilizar o soldado armado e — segundo os noticiários, que estranhamente não se excederam em minúcias — o militar andava acometido da gripe, de modo que, no momento em que o filme iniciou-se, foi ele o primeiro a espirrar, e o soldado, apenas seguindo ordens, como mais tarde justificar-se-ia num tribunal de pequenas causas, mirou o próprio rifle para a cabeça do baderneiro e apertara o gatilho com destreza. Ainda segundo os noticiários, essa sala do Cinema do Centro da Cidade tivera de ser desativada por tempo indeterminado, visto que até hoje não conseguiram remover completamente o sangue do militar que naturalmente se esparramara pelos assentos, além do cheiro ter se tornado, como eu mesmo pude averiguar depois, insuportável.

— P. R. Cunha

Masha Tolkalina fala sobre os contos russos de P. R. Cunha

— Tradução de Alice V. Monteiro

De modo geral, os russos ainda têm uma visão deveras tropicalista a respeito do Brasil: terra de gentes felizes, que sabem lidar com a penúria, enorme região geográfica do globo onde há carnaval e é verão o ano inteiro. Ao que por vezes se demora a compreender quando se chega a estas latitudes mais invernosas qualquer coisa de muito melancólica de um país que emana tanta amistosidade e benevolência.

Em certa medida, é o que está para acontecer com as primeiras tentativas de se apresentar por aqui os contos do escritor brasileiro P. R. Cunha — que escreve diretamente neste nosso ardiloso idioma. Os temas que permeiam as suas curtas narrativas logo demonstram que ele está lá muito mais interessado na descrição da infelicidade do que nos preparativos de uma festa de máscaras com papeizinhos coloridos.

Lida-se, inclusive, com uma série de motes ainda caríssimos para os autores russos; como aquela tristeza nascida do esvaziamento do sagrado, do desespero, o espinho na carne da modernidade, nas palavras de Yves Bonnefoy. Seres humanos que, continua o próprio Bonnefoy, estão sempre a nascer, sem jamais chegar a se livrar de nostalgias, pesares e sonhos.

Imaginamos ao lado da escrivaninha do brasileiro o anjo taciturno de Dürer, quase podemos observar as pilhas de livros de Thomas Bernhard e W. G. Sebald — confessadamente as duas maiores influências de P. R. Cunha — a servirem de fortaleza contra as vertigens de um abismo que se encontra sempre às redondezas.

Na seara russa, o primo mais próximo é aquele homem enfermo, o homem que se diz muito mau em Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Tipo suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas que não deixa de sê-lo por nada. P. R. Cunha a colocar suas personagens embaixo da terra, ou numa espécie de exílio prolongado — e nisso ele tem também um bom quinhão do nosso Venedikt Erofeev.

São relatos de figuras perturbadas que aos poucos começam a cair num inevitável esquecimento porque têm dentro de si já uma alma esvaziada de sentidos. A vida que não vive mais, como disseram. A atmosfera é de gelo, de tempo paralisado, de inevitabilidade… de morte — o que deixa tudo ainda mais inquietante e o leitor fica mesmo a se perguntar, por céus!, em que cantos brasileiros haveria de ter tanta treva.

Ainda é muito cedo para dizer como será a receptividade dos russos quando aqui chegarem os primeiros exemplares dos livros de P. R. Cunha. Porém, antes de abri-los, talvez fosse o caso de se entender que a neve e a neblina não são fenômenos unicamente meteorológicos — pois que também assolam o coração humano. E vem por aí uma nevasca brasileira.

Aqui se descansa de todo o resto

Estavam casados há vinte anos e ela se dera conta de que precisavam de umas férias, como se diz, ao sossego do oceano marítimo. Colocaram as malas na traseira de um Volkswagen, ele se acomodou no banco do passageiro, ela se ajeitara ao volante e girou a chave de ligar. Olha para o retrovisor na hora de sair da garagem, pois não — disse ele. Ela conduzia bem devagarzinho, parando sempre quando a luz do sinal estava no amarelo. Você sabe que não precisa disto, ele disse. Do quê?, ela perguntou. De parar no sinal amarelo, ele disse, pode acelerar um tanto, passar antes de ir para o vermelho. Ela continuou a dirigir a seu modo, ou seja, devagar, parando no sinal amarelo. Ele bagunçou os próprios cabelos com as duas mãos, como costumam agir os adolescentes mimados quando são contrariados pelo papai e pela mamãe. Ficou a pensar o que acontecera com aquele relacionamento — afinal, foi justamente pelo modo cuidadoso e precavido que ele um dia a amou. Num dia somos completamente apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido de uma pessoa, no outro, ele pensou, no outro já não somos mais apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido dessa pessoa, em verdade, esse modo cuidadoso e precavido deixa a nossa cabeça à roda. O belo transforma-se em feio, refletiu ele enquanto o automóvel se aproximava de uma pousada isolada junto à frente de mar. Ela estacionou, abriram as portas sem dizer palavra. Tiraram da traseira do Volkswagen as malas e caminharam sem dar as mãos até à porta da pousada. Havia uma placa de madeira com a frase «Aqui se descansa de todo o resto» em tipologia cursiva e ele sentiu vontade de rir. Uma senhora de uns sessenta-setenta anos estava para a recepção e declarara de um modo muito afável: que bom terem vindo, estamos muitíssimos satisfeitos por terem vindo.

— P. R. Cunha

Homens fragmentados

No terceiro dia do ano de dois mil e dezesseis, Julia e o marido estavam sentados num café que fica a duas quadras de onde eu moro, cerca de quatro minutos de caminhada. O marido de Julia acabara de perder o emprego, razão pela qual mostrava-se macambúzio. Julia estava bem, tinha emprego e cortara o cabelo pouco antes do Réveillon com o mesmo cabeleireiro da esposa do ministro da Cultura. Enquanto o marido tomava o cafezinho curto com as costas inclinadas, Julia observava sobre os ombros dele um homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso, do Roland Barthes. Julia sempre gostou do Roland Barthes, já o marido dela não fazia ideia, nunca lera Roland Barthes. O homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso flertava com Julia e o marido de Julia deixou cair café na própria camisa azul e arrastara a cadeira para trás e fez cara de criança aborrecida e disse para si qualquer coisa como: mil diabos, café dos diabos, vá para os diabos etc. O homem que lia Roland Barthes piscou para Julia, sorriu, levantou-se e foi embora. Tanto bastou para impressioná-la imenso, ao que ela o identificou como representante de uma classe em vias de extinção, a classe dos intelectuais — com a qual o marido que estava a secar a camisa azul com um guardanapo não podia competir. Mas o que Julia não sabia, e também não tinha mesmo como sabê-lo, é que pouco depois o homem que folheava Roland Barthes chegou em casa, sacou da maleta um revólver destravado — a mesma maleta dentro da qual carregava o exemplar de Fragmentos de um discurso amoroso (Martins Fontes Editora Ltda. [tradução de Márcia Valéria Martines de Aguiar {2003}]) — sacou, portanto, dessa maleta um revólver destravado, colocou-o dentro da boca e disparou. Naturalmente, não sobreviveu.

— P. R. Cunha

Isto aqui tem que ver com a verdade

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— Fotografia: P. R. Cunha

Muito já se escreveu sobre as dificuldades de homens e mulheres das chamadas «letras» de se relacionarem com outros seres humanos. Escritores, como se sabe, bichos arrogantes e megalomaníacos, que por vezes metem lá nas ideias o desejo de compartilhar o mesmo teto com um certo alguém. Manter, portanto, a lente focada nas intrigas dos relacionamentos amorosos. A ideia de que o escritor só é um verdadeiro artista se for louco dos pés à cabeça, se se entregar totalmente à loucura. Malucos, poços de manias, obsessivos. Esta imagem de fragilidade pode atrair, porque romantizada. — Gosto de você porque você é diferente etc. Um bípede se aproxima com ingênuas pretensões de salvá-lo da insanidade, sem compreender que dessa mazela gramatical não se pode fugir. Teresa e João tiveram um namorico de dois meses e estão agora ajoelhados para o altar; o padre pergunta se eles têm certeza. Ele acena com a cabeça que sim. Teresa hesita, relutante em aceitar, mas acaba por o fazer. Teresa, dos dois, é a que escreve. Na primavera do ano seguinte, João cai em profunda depressão porque Teresa não quer sair do próprio gabinete por nada, nem para um despretensioso amorzinho vespertino. Teresa só escreve, com ausência de afetividade — artificial, fria como um boneco de gelo. Mais tarde João sai amortalhado com o seu casaco preto para fazer compras, e como nunca recebesse da Teresa uma palavra cortês decide não voltar.

— P. R. Cunha