Porque é óbvio que nem toda a gente vive da mesma maneira

Ele andava de um jeito engraçado, como se estivesse prestes a levitar, ela segurava o braço direito dele com suavidade, ternura. Eles tinham acabado de tomar sorvete & depois de ela tanto insistir ele finalmente aceitou levá-la para conhecer o apartamento em que ele morava há quase um ano. Eles pararam à portaria, ele a abraçou & disse: passo importante, este. Ela sorrira. Ele ajeitou os cabelos dela. Entraram no elevador, ele tirou as chaves do bolso da calça. Antes de destravar a fechadura do apartamento ele olhou para ela: tens a certeza de que queres mesmo fazer isto? Ela consentira com a cabeça, os olhinhos a brilhar. Ele então abriu a porta & como se fosse um guia turístico explicando as peças de um museu estranho começou a mostrar todos aqueles livros jogados, centenas, milhares de livros, no chão, nas prateleiras de madeira clara, sobre o sofá de três lugares perto da escrivaninha — também amarrotada de livros —, livros em cima do fogão, livros em cima da pia, livros na cama, centenas e milhares de livros, é importante repetir, Francisco de Moraes, Le Carré, Virginia Woolf, Pinker, Ballard, Starobinski, Horgan, Panek, Austen, Kafka, Mendes Campos, Cheever, Plath, Camus, Baudelaire, Beauvoir, Harari, Eco, Melville, Begley, Haroldo de Campos, &tc. &tc. &tc., livros em cima do rádio, livros dentro do banheiro, livros, em suma, para tudo quanto é lado, & parecia que ele tinha sempre uma anedota a fazer sobre esses livros, ou uma história edificante sobre esses livros, ou uma lembrança que determinada coleção oitocentista lhe trazia, & quando ele finalmente parou para respirar, como se diz, quando ele percebeu que desde que começou a falar sobre esses livros todos não dera a mínima atenção para ela, quando ele decidiu olhar para ela, portanto, ela que ficara em absoluto silêncio durante as explicações dele sobre todos esses livros, quando ele finalmente se voltou para observá-la, ele definitivamente não estava nem um pouco preparado para o que viu.

— P. R. Cunha

Bento fica

Bento acorda com o barulho da televisão na sala e agora está esparramado na cama a escutar a esposa conversando com algum manager importante de alguma multinacional com sede alhures. Ele não consegue vê-la, mas pelo cheiro imagina que ela esteja impecável a tomar o pequeno-almoço, segurando a chávena de café com uma mão e o telemóvel com a outra. A cacofonia televisão-alta-voz-estridente-da-esposa faz o Bento levar o travesseiro aos ouvidos — monta uma concha amorfa que abafa com eficiência mediana os sons que vêm de fora. Ele finalmente decide se levantar e vestido apenas com a calça do pijama arrasta-se até à sala. A esposa o observa com os mesmos olhos reprovadores de sempre: você precisa dar um jeito na merda da sua vida, ela diz, não pode ficar por aqui vagabundeando a tempo inteiro. Bento coça as pálpebras, pega uma torrada esquecida sobre a mesa, mastiga a torrada, coloca leite numa caneca com o rosto do Stanley Kubrick, mexe o achocolatado, mastiga novamente a torrada, toma um melancólico gole do leite. A esposa sai. Bento fica.

— P. R. Cunha

E se a Mamã e o Papá reprovarem os meus escritos — café com Friedrich Nietzsche

No aforismo nº 192 de Humano, demasiado humano Nietzsche defende que o melhor autor é aquele que tem vergonha de se tornar escritor. Ou mesmo aquele que só o diz em última instância, quando não resta nada a dizer sobre si. Assim, bom narrador seria um indivíduo que transmite-se com segurança e coerência nos atos/pensamentos dos personagens. Longe de ser postura covarde, é bem um sinal de respeito aos leitores. O escritor está simplesmente a mostrar que o que ele escreve é muito mais importante do que aquilo que ele faz quando não está a escrever. 

Raramente se tem tanto interesse pela vida de um advogado, ou de um médico, ou de um engenheiro — apenas contamos com os seus serviços, pagamos, e seguimos adiante. Mas com os escritores parece haver fetiche incontrolável: perguntam como, por que, quando, onde. E alguns voyeurs estão sempre a confundir ficção com opinião. 

Um escritor com medo não cria bons antagonistas, pois, como se diz, pisa sempre em ovos. Teme a opinião pública, não confia no discernimento dos leitores — o que vão achar de mim?, etc. De aí lermos os melhores vilões através das penas de escritores que nunca (ou quase nunca) deram a mínima para o que os outros achavam das próprias narrativas (estou a pensar majoritariamente em Melville, Stendhal, Beckett, Pynchon, Ionesco, Pirandello, Sciascia, Krúdy, Pinter, Bernhard). 

Em suma, escritor que se senta à escrivaninha e começa a matutar «será que mamã aprovaria o que estou a escrever» já se perdera antes mesmo da primeira palavrinha. Ler um escritor como se ele mesmo fosse um material de ficção. Ou, como também defendia o Nietzsche, tratar o escritor como um mero porta-voz de acontecimentos, sejam eles verdadeiros ou imaginativos.

— P. R. Cunha

As preocupações do funcionário serão discutidas no devido tempo (com prólogo à moda «fire walk with me»)

Hoje o bot do WordPress, muito gentil por sinal, deu-me os parabéns porque nos últimos oito dias eu publiquei sete textos, e agora está a me enviar mensagem de encorajamento que diz: ficas on fire se compartilhas qualquer coisa esta quarta-feira. Quem nunca cedeu aos caprichos de um bot aprazível que atire o primeiro processador.


O Haroldo, assim como toda a gente, passa por dias bons & dias ruins. Ontem foi um dia bom — alta atenção sem esforço, boa produtividade na firma, conseguira regular a intensidade das próprias emoções, deixara erros & frustrações de lado. Acontece que hoje talvez o Haroldo não consiga dizer o mesmo; isto é, hoje ele não está a ter um dia bom — correio eletrônico com palavras distorcidas, a garçonete do restaurante da firma que reparara sem pudores, durante um tempo prolongado de mais para ocasiões desta natureza, garçonete que reparara, portanto, na barriga protuberante do Haroldo, a tentativa frustrada de esconder essa protuberância atrás do cinto, a elasticidade do cinto, a culpa enquanto mastigava lentamente os seis donuts com recheio de doce de leite, a grande área desmatada no cocuruto do Haroldo, área que não para de crescer, a queda excessiva de cabelo, ativação de estresse que desencadeia sentimentos & pensamentos negativos, instabilidade, quebra da concentração, impotências (moral & sexual [o «negocinho» do Haroldo tende a não funcionar nessas condições, ele se culpa muitíssimo, geralmente recorre àqueles discursos comuns tais como: ora!, isto nunca me aconteceu antes/deve ter sido um remédio que tomei/estou a investir muitos dinheiros numa multinacional &tc.), certo nervosismo, Haroldo tenta agora direcionar a atenção para assuntos mundanos, respira-inspira-respira-inspira, posição de lótus, tenta eliminar a tensão muscular, inspira-respira, mas a tensão muscular continua ali, não foi para canto algum. O Thomas, que trabalha a poucos metros do Haroldo, no Setor de Vendas & Controle de Qualidade, a quatro metros & vinte centímetros da baia do Haroldo, para ser mais exato — & a exatidão aqui é de extrema importância, sempre foi —, o Thomas levanta os olhos da tela do próprio computador & não consegue (& talvez nem queira) imaginar o que se passa na cabeça do colega, os demônios, como se diz, que o sistema neurológico do Haroldo precisa de combater dia após dia & assim por diante.

— P. R. Cunha

Antídotos literários / confissão

Uma amiga geóloga certa vez me disse que quando não estava a estudar as alterações da crosta terrestre, quando não estava, portanto, a praticar a própria geologia, ela tinha febre, sofria de tristezas, comportamentos irascíveis, neuroses prontas para atacá-la. O mesmo parecia ocorrer quando papai não exercia a medicina: tornava-se taciturno, atormentado, lembrava-se de que era apenas um homem, incontáveis adversidades o afligiam, comia pouco, falava pouco. No meu caso cheguei à conclusão de que só sei escrever — e com isso não estou a colocar juízo de valor na empreitada (isto é: se bom ou mau escritor). Há muitos seres humanos que possuem carteira de motorista mas não dirigem os automóveis com destreza; o mesmo ocorre em toda a parte, com todas as profissões. Se levarmos em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre a expectativa de vida do homem brasileiro — 75,8 anos —, estou a caminhar para a metade da minha existência e sinto-me satisfeito por já ter chegado à conclusão de que só sei escrever, escrever todos os dias, e praticar também todas as outras atividades que orbitam a escrita: ler, contemplar, ouvir, pesquisar etc. etc. Se passo um dia sem escrever fico meio louco, imprudente, fraco, desgovernado, acato todas as perturbações neurológicas, apetite incorrigível, soterrado em melancolia, pouco saudável, péssima constituição, olheiras, alma (ou isso a que chamam de alma) gélida, intemperanças diversas — as dores e as mazelas e as consequências e o tempo de recuperação aumentam à medida que os dias se passam e não me sento para escrever —, frenesi, letargia, memória fraca, pouca imaginação/razão corrompida, como diria um antigo, insônia, delírios, e a escrita parece ser o único remédio, a escrita como conforto, subterfúgio, escrita-abrigo. Numa palavra: se não escrevo, vivo morto etc.

— P. R. Cunha 

Fragmentos de um romance inacabável (parte VIII) – intimidades do Escritor

A casa do Escritor fica situada no meio do Brasil, numa área isolada e pouco acolhedora a que muitos não hesitaram em chamar de «fim do mundo». Se saímos para a traseira dessa longínqua residência damo-nos de cara com uma atmosfera seca, árvores contorcidas, grama rasteira que não tem cor de grama, tem cor de areia, cor de deserto. O Escritor veste calça larga, vive em mangas de camisa e raramente utiliza pisantes. Céu azul e nuvens brancas dão a sensação de estarmos presos numa moldura de Vermeer, trabalho abandonado às pressas, talvez porque o artista se entediara com a coisa toda, ou talvez porque estivesse atrasado para um compromisso de importância mediana.

A fim de transmitir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado suportar, o Escritor descreve. Dor excessiva, um ser excepcional, um cavaleiro lutando contra moinhos de vento, um Quixote, um sublime excêntrico.

Muitos escritores enlouqueceram, mas mesmo assim começaram a produzir verdadeira arte. O gênio perambula por esses caminhos misteriosos.

O Escritor louco, de certa forma, é a única matéria desta narrativa.

— P. R. Cunha

Urna eletrônica (responder à pergunta com perguntas)

João & Maria estão a conversar civilizadamente sobre política. Numa altura Maria pergunta para João: o que lhe faz votar neste ou naquele candidato? João responde: imagine que você decida transformar a sua casa numa empresa, & agora você quer que a empresa dê certo, que a empresa funcione da melhor forma possível, você quer oferecer as melhores condições para essa empresa, & para isso você precisa contratar alguém que cuide das finanças, alguém que trate os seus filhos com respeito, alguém que possa auxiliá-los no crescimento intelectual/educacional, ou mesmo quando surgir alguma doença etc. etc. Certo. Agora esqueça nomes, siglas, cor de bandeiras, preferências sexuais, esqueça as picuinhas partidárias: você contrataria uma pessoa com ficha na polícia, histórico de corrupção, pessoa homofóbica, racista, sem formações administrativas, mentirosa, desrespeitosa, intransigente, pessoa que, em-pleno-século-vinte-e-um, acha que homens & mulheres não têm direitos iguais, que ao invés do diálogo defende a ignorância armada; você realmente gostaria de ter uma pessoa assim dentro da própria casa, perto dos seus filhos, a cuidar do seu dinheiro, da saúde e da educação? […]

— P. R. Cunha