Café da manhã

Preciso escrever todos os dias, para que o meu cérebro não atrofie. Como aquele maratonista que aos poucos aumenta as próprias quilometragens antes de correr para a Olimpíada.

(…)

Manhã, por volta das sete horas. Ele está sentado à mesa da cozinha, segura uma chávena de café, assopra o líquido quente que libera uma fumaça aromatizada. Ele respira a fumaça e olha para a esposa que está a comer torradas com geleia de amora. Ele não gosta do jeito que ela come as torradas com geleia de amora. Ela tampouco aprova o rosto imbecil do marido a cheirar o café daquela forma. Ela se levanta e finge pegar algo dentro de uma das gavetas embaixo da pia — só o fez porque já não aguentava mais ver as feições estúpidas do marido cheirando o maldito café. «Será que você poderia parar de cheirar o maldito café?», ela diz. Ele levanta o rosto: atordoado, sim, mas não de todo surpreso. Daí coloca lentamente a chávena sobre a mesa, enxuga a boca com um guardanapo, dobra o guardanapo. Ele se levanta sem dizer palavra, pega a chave do carro e sai. No caminho para o trabalho, ele se distrai com as imagens do que acabara de acontecer: o café, a torrada com geleia de amora, a reação intempestiva da esposa, o terrível tédio da inércia matrimonial. Quando finalmente volta as atenções para a pista, uma moça vestida com certa elegância esta a atravessar a rua e ele quase a atropela. A verdade é que ele não sabe, e também não teria como sabê-lo, mas a moça que ele quase atropelara acabou de ser promovida a gerente de vendas de uma montadora de automóveis. E essa é outra história.

— P. R. Cunha

Trecho de romance

Teoremas do fracasso
(P. R. Cunha – Inédito)

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler. Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O fato de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza. O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler. Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências. Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória. Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até mesmo para si), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam. Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro. Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler

Sobre a experiência MYMK e outras viagens

Pouco se sabe a respeito da vida privada de Homero; se teve filhos, se foi feliz ao lado de alguém, de que modo divertia-se ou mesmo como lidava com a rotina de escritor. No entanto, quem lê Ilíada e Odisseia logo percebe que esse poeta da Grécia Antiga tinha um fraco por viagens longas. O tema viajar-para-algures contido nesses dois poemas épicos escritos há quase três mil anos influenciaria algumas das mais intrigantes obras da humanidade. Miguel de Cervantes coloca Dom Quixote em cima de um quadrúpede e o faz perseguir moinhos imaginários para ajudar o pobre do protagonista a encontrar-se durante a fuga. Laurence Sterne arrisca-se numa viagem sentimental através de França e Itália apesar da frágil saúde, que de fato viria a matá-lo antes que ele conseguisse concluir o relato dessa espinhosa jornada. A melancolia foi a viagem de Robert Burton. Montaigne viajou muitíssimo.

Dá-se um salto arbitrário aos séculos modernos e chega-se à conclusão de que viajar é quase uma necessidade vital àqueles que se colocam a esmiuçar — nas palavras de Stendhal — o que há dentro de si. Flaubert, Stevenson, Melville, Wilde, Benjamin, Calvino, Orwell, Canetti, Sebald, Manguel; todos viajantes compulsivos. Susan Sontag escrevera certa vez que viajava para se despedir: invariavelmente para me despedir, é por isso que estou sempre distante, ela dizia. Despede-se do que é usual, do comodismo, da mesmice. Logo a sra. Sontag se move diante do desconhecido, do outro, dos outros.

Estou deitado sobre o tapete da sala do meu apartamento, tenho a cabeça voltada para os dois amplificadores retangulares do toca-discos, cuja agulha rabisca a superfície de um vinil do MYMK. A tocar um tema chamado Body issues. Se MYMK fosse um livro seria Voyage autour de ma chambre [Viagem à volta do meu quarto], de Xavier de Maistre. «Toda a infelicidade dos seres humanos resulta de não saberem ficar quietos no próprio canto». Pois lá está o MYMK que leva longe, apesar de não se mover um músculo. Eis os destroços de uma estrutura industrial abandonada nos arredores de Berlim; ou um inverno rigoroso em Varsóvia enquanto se observa os moradores dos prédios à moda Tetris, eles se movem diante das janelas fechadas, alguns se escondem atrás das cortinas diáfanas, consegue-se ver apenas uma silhueta que atravessa o aposento como se em câmera lenta; mais à frente enxerga-se um rio, talvez o Vístula, e barcos preguiçosos que se decompõem nas água congeladas; um automóvel na colina faz curva fechada, pode-se escutar o barulho do motor num fantasmagórico Doppler — não é mais a Polônia, não é mais canto nenhum. A verdade é que nunca se sai da experiência MYMK da mesma forma que entrou.

MYMK é coleção de fragmentos do artista brasiliense Bruno Sres, sujeito misterioso que jamais se entrega às demandas modernas de se mostrar. Desvanece por uns tempos, pensa na vida, mastiga frustrações, traduz em sons tudo aquilo que é difícil de expressar em palavras. Faz música como que para se defender da fugacidade, do esquecimento, da devastação dos cérebros… Faz trilha sonora de desaparecidos, era o que eu estava querendo dizer.

Em 1929 Stefan Zweig escreveu que o que é único, distinto, é cada dia mais valioso num mundo como o nosso, mundo que irremediavelmente se vai tornando uniforme. Em pleno século vinte e um, o tal século da globalização, MYMK reverbera o pensamento do sr. Zweig. E projetos assim mostram que ainda há quem prefira resistir.

* * *

Em conversa com Bruno Sres:

Quais as maiores influências do MYMK?
Tim Hecker, Caroline K, Ryuichi Sakamoto, Deru, Brian Eno, Christina Vantzou.

O que lhe fez começar este projeto?
Um retorno às raízes de outro projeto eletrônico que tive em 2004, o Chez Ville: era uma experimentação mais tosca com música eletro-acústica e uma continuidade da proposta instrumental feita pelo Fúlgora, banda «pós-roque» em que tocava guitarra e teclados.

Como funcionam as colaborações com outros artistas?
Geralmente eu encontro uma composição visual que possa transmitir ideias de espaço em aberto ou em construção. Ou propostas que casem com a sonoridade de um projeto em específico. Gosto de observar espaços inacabados e desconjunturas. Na prática, algumas vezes faço uma lista de artistas prediletos e começo a entrar em contato com cada um, de acordo com a trabalho que estou desenvolvendo naquele momento. Acho que o som do MYMK, realmente, é um exercício de camadas e texturas, e busco parcerias que tenham alguma afinidade com isso. Fico de olho em profissionais (novos e antigos, com os quais eu possa me comunicar) que trabalham com a imagem digital em elaboração, em confronto com erros e manipulações imperfeitas. Busco, também, alguns artistas relacionados à produção de vídeo em forma de coletivos, como, por exemplo, o Computer Club. É dessas procuras que surgiram parcerias com autores como Krist Wood, Yoshi Sodeoka, Sabrina Ratté (o primeiro disco do MYMK, Jeopardy, foi elaborado com base em algumas pirações de paisagens sonoras do trabalho dela), entre outros.

Pretensões do MYMK para o futuro próximo?
Tenho uma leva de faixas e a proposta visual do próximo disco encaminhadas, em um meio termo, já. Estava de férias em Berlim em julho passado, articulei novas gravações por lá e foi inevitável a influência da produção artística da cidade. Isso é um pouco clichê, mas se trata de um projeto um pouco diferente dos trabalhos anteriores, o que é bem legal. Mas acredito que é a hora de um ano sabático. Algo novo, mesmo, acredito que saia em 2019. Ainda não sei em que formato.

Mymk

Texto: P. R. Cunha
Ilustração: © MYMK

O soldado caído

A língua inglesa possui verbo que de acordo com o contexto pode definir as ações de fotografar e atirar — to shoot. Fotógrafos de guerra retornam do combate por vezes desmiolados depois de tantas atrocidades e repetem como se fossem robôs: nós também atiramos. Desnecessário perder-se em análises para entender de que modo as fotografias podem ser utilizadas para enganar, matar, ludibriar, acusar, vender produtos que não funcionam etc. etc. A verdade é que a metáfora «câmera/arma de fogo» não é de modo algum disparatada. Ambas possuem mira, ambas precisam de gatilho para finalizar os respectivos alvos. Já se sabe que algumas comunidades isoladas têm verdadeiro pavor do aparato fotográfico: objeto estranho que assalta aquilo que há dentro de nós. Revela-se a fotografia e o que se vê é mesmo uma figura humana estática, paralisada pelo tiro do tempo, geralmente com os olhos arregalados. Pistola e obturador que transformam os vivos em fantasmas, em memórias que aos poucos desvanecem.

time-100-influential-photos-robert-capa-falling-soldier-24

Texto: P. R. Cunha
Fotografia: © Robert Capa