Masha Tolkalina fala sobre os contos russos de P. R. Cunha

— Tradução de Alice V. Monteiro

De modo geral, os russos ainda têm uma visão deveras tropicalista a respeito do Brasil: terra de gentes felizes, que sabem lidar com a penúria, enorme região geográfica do globo onde há carnaval e é verão o ano inteiro. Ao que por vezes se demora a compreender quando se chega a estas latitudes mais invernosas qualquer coisa de muito melancólica de um país que emana tanta amistosidade e benevolência.

Em certa medida, é o que está para acontecer com as primeiras tentativas de se apresentar por aqui os contos do escritor brasileiro P. R. Cunha — que escreve diretamente neste nosso ardiloso idioma. Os temas que permeiam as suas curtas narrativas logo demonstram que ele está lá muito mais interessado na descrição da infelicidade do que nos preparativos de uma festa de máscaras com papeizinhos coloridos.

Lida-se, inclusive, com uma série de motes ainda caríssimos para os autores russos; como aquela tristeza nascida do esvaziamento do sagrado, do desespero, o espinho na carne da modernidade, nas palavras de Yves Bonnefoy. Seres humanos que, continua o próprio Bonnefoy, estão sempre a nascer, sem jamais chegar a se livrar de nostalgias, pesares e sonhos.

Imaginamos ao lado da escrivaninha do brasileiro o anjo taciturno de Dürer, quase podemos observar as pilhas de livros de Thomas Bernhard e W. G. Sebald — confessadamente as duas maiores influências de P. R. Cunha — a servirem de fortaleza contra as vertigens de um abismo que se encontra sempre às redondezas.

Na seara russa, o primo mais próximo é aquele homem enfermo, o homem que se diz muito mau em Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Tipo suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas que não deixa de sê-lo por nada. P. R. Cunha a colocar suas personagens embaixo da terra, ou numa espécie de exílio prolongado — e nisso ele tem também um bom quinhão do nosso Venedikt Erofeev.

São relatos de figuras perturbadas que aos poucos começam a cair num inevitável esquecimento porque têm dentro de si já uma alma esvaziada de sentidos. A vida que não vive mais, como disseram. A atmosfera é de gelo, de tempo paralisado, de inevitabilidade… de morte — o que deixa tudo ainda mais inquietante e o leitor fica mesmo a se perguntar, por céus!, em que cantos brasileiros haveria de ter tanta treva.

Ainda é muito cedo para dizer como será a receptividade dos russos quando aqui chegarem os primeiros exemplares dos livros de P. R. Cunha. Porém, antes de abri-los, talvez fosse o caso de se entender que a neve e a neblina não são fenômenos unicamente meteorológicos — pois que também assolam o coração humano. E vem por aí uma nevasca brasileira.

Aqui se descansa de todo o resto

Estavam casados há vinte anos e ela se dera conta de que precisavam de umas férias, como se diz, ao sossego do oceano marítimo. Colocaram as malas na traseira de um Volkswagen, ele se acomodou no banco do passageiro, ela se ajeitara ao volante e girou a chave de ligar. Olha para o retrovisor na hora de sair da garagem, pois não — disse ele. Ela conduzia bem devagarzinho, parando sempre quando a luz do sinal estava no amarelo. Você sabe que não precisa disto, ele disse. Do quê?, ela perguntou. De parar no sinal amarelo, ele disse, pode acelerar um tanto, passar antes de ir para o vermelho. Ela continuou a dirigir a seu modo, ou seja, devagar, parando no sinal amarelo. Ele bagunçou os próprios cabelos com as duas mãos, como costumam agir os adolescentes mimados quando são contrariados pelo papai e pela mamãe. Ficou a pensar o que acontecera com aquele relacionamento — afinal, foi justamente pelo modo cuidadoso e precavido que ele um dia a amou. Num dia somos completamente apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido de uma pessoa, no outro, ele pensou, no outro já não somos mais apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido dessa pessoa, em verdade, esse modo cuidadoso e precavido deixa a nossa cabeça à roda. O belo transforma-se em feio, refletiu ele enquanto o automóvel se aproximava de uma pousada isolada junto à frente de mar. Ela estacionou, abriram as portas sem dizer palavra. Tiraram da traseira do Volkswagen as malas e caminharam sem dar as mãos até à porta da pousada. Havia uma placa de madeira com a frase «Aqui se descansa de todo o resto» em tipologia cursiva e ele sentiu vontade de rir. Uma senhora de uns sessenta-setenta anos estava para a recepção e declarara de um modo muito afável: que bom terem vindo, estamos muitíssimos satisfeitos por terem vindo.

— P. R. Cunha

Homens fragmentados

No terceiro dia do ano de dois mil e dezesseis, Julia e o marido estavam sentados num café que fica a duas quadras de onde eu moro, cerca de quatro minutos de caminhada. O marido de Julia acabara de perder o emprego, razão pela qual mostrava-se macambúzio. Julia estava bem, tinha emprego e cortara o cabelo pouco antes do Réveillon com o mesmo cabeleireiro da esposa do ministro da Cultura. Enquanto o marido tomava o cafezinho curto com as costas inclinadas, Julia observava sobre os ombros dele um homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso, do Roland Barthes. Julia sempre gostou do Roland Barthes, já o marido dela não fazia ideia, nunca lera Roland Barthes. O homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso flertava com Julia e o marido de Julia deixou cair café na própria camisa azul e arrastara a cadeira para trás e fez cara de criança aborrecida e disse para si qualquer coisa como: mil diabos, café dos diabos, vá para os diabos etc. O homem que lia Roland Barthes piscou para Julia, sorriu, levantou-se e foi embora. Tanto bastou para impressioná-la imenso, ao que ela o identificou como representante de uma classe em vias de extinção, a classe dos intelectuais — com a qual o marido que estava a secar a camisa azul com um guardanapo não podia competir. Mas o que Julia não sabia, e também não tinha mesmo como sabê-lo, é que pouco depois o homem que folheava Roland Barthes chegou em casa, sacou da maleta um revólver destravado — a mesma maleta dentro da qual carregava o exemplar de Fragmentos de um discurso amoroso (Martins Fontes Editora Ltda. [tradução de Márcia Valéria Martines de Aguiar {2003}]) — sacou, portanto, dessa maleta um revólver destravado, colocou-o dentro da boca e disparou. Naturalmente, não sobreviveu.

— P. R. Cunha

Isto aqui tem que ver com a verdade

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— Fotografia: P. R. Cunha

Muito já se escreveu sobre as dificuldades de homens e mulheres das chamadas «letras» de se relacionarem com outros seres humanos. Escritores, como se sabe, bichos arrogantes e megalomaníacos, que por vezes metem lá nas ideias o desejo de compartilhar o mesmo teto com um certo alguém. Manter, portanto, a lente focada nas intrigas dos relacionamentos amorosos. A ideia de que o escritor só é um verdadeiro artista se for louco dos pés à cabeça, se se entregar totalmente à loucura. Malucos, poços de manias, obsessivos. Esta imagem de fragilidade pode atrair, porque romantizada. — Gosto de você porque você é diferente etc. Um bípede se aproxima com ingênuas pretensões de salvá-lo da insanidade, sem compreender que dessa mazela gramatical não se pode fugir. Teresa e João tiveram um namorico de dois meses e estão agora ajoelhados para o altar; o padre pergunta se eles têm certeza. Ele acena com a cabeça que sim. Teresa hesita, relutante em aceitar, mas acaba por o fazer. Teresa, dos dois, é a que escreve. Na primavera do ano seguinte, João cai em profunda depressão porque Teresa não quer sair do próprio gabinete por nada, nem para um despretensioso amorzinho vespertino. Teresa só escreve, com ausência de afetividade — artificial, fria como um boneco de gelo. Mais tarde João sai amortalhado com o seu casaco preto para fazer compras, e como nunca recebesse da Teresa uma palavra cortês decide não voltar.

— P. R. Cunha

Águas do rio

Em maio de dois mil e dezesseis, depois de um período particularmente confuso, parti para Niterói a ver se conseguia recolher alguns documentos sobre a infância do meu pai. Passei toda a viagem com a poltrona inclinada a olhar para o botão de chamar a aeromoça, com vontade de pressioná-lo, mas sem de fato fazê-lo. O plano inicial era ficar quatro dias no apartamento da minha avó e talvez sair com ela para caminharmos pelas ruas em que papai costumava brincar em menino. Mas que vovó já estivesse a me esperar à portaria do edifício com uma vestimenta, de pronto notei, completamente adequada para uma longa caminhada foi algo que me pegou de surpresa — de modo que só tive tempo de sair do táxi amarelo e deixar minha mochila aos cuidados do porteiro. Durante alguns minutos caminhamos em silêncio e de vez em quando vovó permitia-se uma careta quando passávamos por algum dos canais terrivelmente fedorentos que cortam o bairro de Icaraí e que em tempos melhores, dizem, brilhavam com o azul do céu. Hoje está tudo mudado, minha avó disse, tudo mudado. Antigamente, ela continuou, era uma cidade bonita, sabe, de cuja beleza a memória aos poucos se esquece. Paramos em frente a uma casa abandonada e vovó apontou para uma janela de madeira no segundo andar: quarto do seu pai. Sempre senti uma espécie de inquietação quando diante de uma estrutura arruinada, pensei. Como se o declínio arquitetônico me perturbasse da mesma maneira que os acidentes automobilísticos, o desemprego, a perda de tudo, do conforto, da dignidade, porque receio poder vir a ter um final parecido. Seu pai tinha muitos amigos, disse a minha avó, de início queremos lá ter muitos amigos, estar rodeados de amigos, mas isso mudo à medida que envelhecemos, pois começamos a perceber que quanto mais amigos nós temos, mais ao cemitério precisamos ir. E a cada ano, ela continua, a cada ano é um monte de gente que morre. Nós cá ficamos, e para quem fica é sempre pior. Um pouco mais adiante, sentamos num banco de cimento a partir do qual podia-se ver a praia de Icaraí, com o Pão de Açúcar a ilustrar o horizonte acinzentado. A cidade, o mar, as pessoas, todos viram costas à desgraça de uma mãe que perdera o filho, vovó disse. Seguiu-se uma breve pausa até que ela de súbito me perguntou: já leu Adalbert Stifter? Respondi que nunca havia lido nada de Stifter, apenas um ensaio sobre Stifter escrito pelo Sebald. Vovó então fitou um ponto de fuga invisível: curioso destino, este de as pessoas que têm de aprender a conhecer-se e reconhecer-se, a compreender-se e a estimar-se para a seguir e para todo o sempre — se separarem. É Jenny Lind, ela disse.

— P. R. Cunha

Bonifácio — esquete

À esquerda, uma estante com pratos e outros utensílios de cozinha. Ao centro, mesa com um abajur retrô em cima. Quadros estranhos grudados na parede. O rádio toca uma qualquer sinfonia de Mozart. Bonifácio, a filha e o filho tomam o café da manhã.

BONIFÁCIO
Pois que durante toda a
minha infância e
durante toda a minha
adolescência
Durante
portanto
toda a minha juventude
eu cá só comi Froot Loops
com leite
(a filha e o filho mastigam Froot Loops)
Ou melhor
tomei o Froot Loops
com leite
que como toda a gente
sabe muito bem
é a única forma correta
e saudável de se ingerir o
Froot Loops
Com leite
Enquanto vocês comem o
Froot Loops mastigam
Froot Loops sem leite
(o filho mastiga Froot Loops, a filha leva o suco de laranja aos lábios)
Sim
Dois monstrinhos comendo
Froot Loops
Quando sabem muito bem
que só se aproveita o Froot Loops
se Froot Loops acompanhado
de leite
Froot Loops seco
assim como vocês comem
(filho mastiga Froot Loops)
não pode
é terrível
Isso vai matá-los
escutem o que lhes digo
Froot Loops sem leite
e é por isso que eu cá
sou um dramaturgo genial
incrível
que já recebera vários prêmios
(filha mastiga Froot Loops)
Froot Loops com leite
Hoje mesmo se ainda sinto
vontade de comer Froot Loops
sempre com leite
Vocês
sem leite
Então eu sou um dramaturgo
realmente excepcional
E vocês naturalmente
não são nada a não ser
filhos de um dramaturgo
excepcional
Basta ler nos noticiários
(filha mastiga Froot Loops)
Dramaturgo excepcional
que peças maravilhosas escreve
este dramaturgo excepcional
Pai de vocês
Froot Loops com leite
compreendem
(filho e filha mastigam Froot Loops)
É o leite o segredo
mas vocês desdenham do leite
acham que podem sem o leite
por isso fracassam
em tudo
(filha mastiga Froot Loops, filho parece satisfeito de modo que não mastiga mais Froot Loops)
São estúpidos
O que de fato os salva
por vezes me pergunto
o quê
ser filho de um dramaturgo
premiado, admirado
(filho e filha tomam suco de laranja)
Tivessem ao menos feito
como fez o irmão
de vocês
Aquele sim
tomava o Froot Loops
com leite
Aquele sim
inteligentíssimo
sabia o russo
a matemática
as artes
a música de Mahler
(filha volta a encher o pote com Froot Loops)
Aquele sim
filho exemplar
Mas a morte não escolhe
Aleatoriamente levou
o meu melhor menino
E cá deixou-me vocês
(filho pega Froot Loops do pote da irmã e mastiga Froot Loops)
A morte leva tudo
consigo
e deixa-nos cá o pior
Froot Loops sem leite
onde já se viu.

— P. R. Cunha

O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha