Paul

Sala escassamente mobiliada. Parece um esconderijo. Parede de estantes com toda a sorte de objetos antigos. Uma mesa muito grande, inútil. Há duas pessoas. Ricardo e Francis. Ricardo anda de um lado para o outro, parece irrequieto, confuso. Francis está estendido numa velha poltrona a fumar cachimbo e a ler o jornal.

RICARDO
É de suma
importância
esperar pelo
Paul
Sem Paul
nada feito
Sem Paul
sem plano

FRANCIS
(Baforada no cachimbo, ajeita calmamente o jornal, vira o jornal para a luz do abajur, voz mansa.)
Pra já ainda
é muito cedo
Paul vem
sempre vem

RICARDO
Sempre veio
mas
desta vez

FRANCIS
(Baforada no cachimbo.)

RICARDO
Desta vez…

(Toca a campainha, Ricardo olha para Francis; Francis levanta a sobrancelha com ar de triunfo.)

FRANCIS
Não falei

(Ricardo dirige-se para a porta e abre-a.)

RICARDO
Não é Paul

FRANCIS
Não é Paul

(Maria entra.)

MARIA
Cadê Paul

FRANCIS
Não se demora
ainda é muito cedo

MARIA
Sem Paul
impossível

RICARDO
Foi o que
eu disse

FRANCIS
Não
Não foi o que
você disse

RICARDO
Como assim
foi sim
o que eu disse

FRANCIS
(Levanta-se, dobra o jornal.)
Você disse
(Imita a voz de Ricardo, teatralmente.)
Sem Paul
nada feito

RICARDO
(Coça a cabeça.)
A ideia
ora
a ideia é a mesma

FRANCIS
(Ar professoral.)
Para isto aqui
funcionar
precisamos ser
precisos
A ideia não pode ser
a mesma
A ideia precisa
ser idêntica

MARIA
Sem Paul
nada feito

FRANCIS
Exatamente

RICARDO
Desejo de mudar
sempre
a todo o momento

MARIA
(Ri, alto, à moda louca.)
Começou

RICARDO
Rachel Boyd
Bersarin Quartett
uma certa calmaria
(Ricardo dança a valsa consigo mesmo.)

MARIA
Falsa
calmaria

RICARDO
Três minutos de calmaria
pelo menos
até ao fim da música
(Continua a dançar a valsa.)

FRANCIS
Bersarin Quartett
Welche Welt

(Toca a campainha.)

RICARDO
É Paul

MARIA
Deve ser Paul

FRANCIS
Paul

(Ricardo dirige-se para a porta, abre-a, há um homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza

RICARDO
(Volta-se para a sala, confuso.)
Quem pediu
pizza?

FRANCIS
Não como pizza
em verdade
odeio pizza

MARIA
Acabei de chegar
não pedi pizza

RICARDO
Não pedimos pizza

(Homem com capacete averigua nota, lê a nota com voz abafada pelo capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza para Paul

(Ricardo toma a nota das mãos do homem com capacete, lê a nota.)

RICARDO
Pizza para Paul

(Maria se aproxima, lê a nota.)

MARIA
Pizza para Paul

FRANCIS
Deixem entrar a pizza

HOMEM COM CAPACETE
Vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Como é
vivente?

HOMEM COM CAPACETE
O senhor me deve vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Ah
sim
claro
(Coloca a pizza sobre a mesa muito grande. Tira o dinheiro do bolso.)

HOMEM COM CAPACETE
Faltam cinquenta centavos

(Francis se aproxima, lê a nota.)

FRANCIS
Pizza para Paul

HOMEM COM CAPACETE
Cinquenta
centavos

(Sem tirar os olhos da nota, Francis entrega uma moeda para o homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
(Levanta a viseira do capacete.)
Espero que
os senhores
(Pausa, olha para a Maria.)
E a madame
(Inclina-se como faziam os antigos cavalheiros oitocentistas.)
Espero que tenham
um excelente apetite

(Francis, ainda a olhar para a nota, fecha a porta.)

FRANCIS
Pizza para Paul
(Balança a nota como se fosse um bilhete premiado.)
Pizza para Paul

MARIA
Está a enlouquecer

(Ricardo se aproxima, tenta ler a nota novamente.)

FRANCIS
A verdade é que
temos de aguardar
pelo Paul
sem Paul
não podemos

MARIA
Sem Paul
sem sentido

FRANCIS
Tudo é sempre
a mesma coisa
Com Paul
tudo é diferente

MARIA
(Suspira apaixonadamente.)
Se ao menos
Paul estivesse aqui

RICARDO
Ele já vem
antes eu achava que
não viria
mas agora já acho
que vem

FRANCIS
(Balança a cabeça, contrariado, encolhe a língua, a língua toca o céu da boca, depois a língua toca nos dentes da frente e faz um barulho tipo «tsc-tsc».)
Não teria
tanta certeza

RICARDO
Do que está a falar

FRANCIS
Acidentes acontecem

MARIA
(Olha para o Ricardo.)
Odeio admitir
mas Francis
tem um ponto

RICARDO
Uma coisa é certa
sem Paul
nada feito

FRANCIS
Nada feito

MARIA
Acidentes acontecem

RICARDO
Nunca fui muito com
a cara do Paul
sem Paul
sem plano

(Francis se joga novamente na poltrona velha, abre o jornal. Tenta ler. Não consegue.)

FRANCIS
Paul
Paul
Paul
Tudo é Paul

MARIA
Enciumou-se

FRANCIS
(Levanta-se. Joga o jornal para o chão.)
O que estou a dizer é
sei que sem Paul
não conseguiremos
mas tudo é
sempre Paul

RICARDO
Grande dependência
de Paul

MARIA
Deixem lá disso
sabemos bem
que Paul
é imprescindível

(Toca a campainha, os três gritam em uníssono: PAUL! Francis dirige-se para a porta, saltitante feito criança, abre-a.)

FRANCIS
Não é Paul

VIZINHO
Olá

(Ninguém responde.)

VIZINHO
Aqui mora o Paul?

(Ninguém responde, todos desapontados. O vizinho entra sem cerimônia. Abre a caixa de pizza sobre a mesa muito grande, come um pedaço de pizza.)

VIZINHO
(Lambe os dedos.)
Não sei se sabem

(Todos olham desconfiados para o vizinho.)

VIZINHO
Esbarrei com o Paul
ontem

RICARDO
(Incrédulo.)
Paul?

VIZINHO
Sim
ontem
à noite

MARIA
(Incrédula.)
Tem a certeza?

VIZINHO
Olha como tu falas
claro que tenho
a certeza
era o Paul
carne e osso
Paul

(Ricardo senta na poltrona velha de Francis, resignado.)

RICARDO
Sem Paul
sem plano

VIZINHO
Preciso de açúcar

(Francis vai até ao armário, tira um pacote de açúcar e entrega para o vizinho.)

FRANCIS
Bolinhos?

VIZINHO
Cookies

MARIA
Sou diabética

VIZINHO
(Faz que vai chorar e nunca chora.)
É uma grande pena

(Toca a campainha. Maria, sem pressa, dirige-se à porta. Abre a porta. Há um policial.)

POLICIAL
Amigos do Paul?

(Apaga a luz. Cai o pano. Fim.)

— P. R. Cunha

O boteco

Esta peça obscura foi escrita para ser apresentada a um público formado exclusivamente por enfermeiras aposentadas de Brasília, Distrito Federal.

PERSONAGENS:
Chico – funcionário, trinta e poucos anos.
Gonçalves – chefe, cinquenta e poucos anos.

Uma daquelas salas de empresas médias (à moda «The office», Rick Gervais) em que os funcionários estão ilhados dentro de caixas divididas por compartimentos destacáveis com superfície atapetada na qual, com a ajuda de tachinhas, podem ser grudadas miudezas da vida humana — retratos do bebê, da vovó, do Rivaldo (cão Yorkshire que, depois de um matrimônio malsucedido, passa uma semana na casa dele, e depois outra semana na casa dela). Etc.

Inverno.
Dia.

Chico jogado na cadeira, descanso de tela do computador a rodar num looping entediante, gravata desalinhada, camisa branca com uma enorme mancha de café, paletó sobre a mesa.

Gonçalves vestido a rigor, terno impecável, o sapato a refletir a luz fluorescente da sala, caminha com desenvoltura. Aproxima-se de Chico e mostra-lhe um frasco de plástico com substância amarelada.

GONÇALVES
Andou bebendo

CHICO
(Assusta-se com a presença do chefe, tenta se ajeitar na cadeira, sem sucesso)
Como é
o quê

GONÇALVES
Perguntei se
(Dá duas batidinhas no pote)
andou bebendo
Chico

CHICO
Tive sono agitado
só isso

GONÇALVES
O teste rotineiro
de urina detectou
álcool
ou melhor
uso abusivo de álcool
Pode me explicar isso

CHICO
(Boceja)
Posso

GONÇALVES
Pois não

CHICO
(Inclina a cadeira para trás, coloca os pés sobre a mesa)
Uma garota
sabe
uma garota daquelas
estou sentado e ela se aproxima
Quero um drinque
ela diz
O cavalheiro vai me oferecer
um drinque ou não vai
E então lhe ofereço um drinque
e toda a gente sabe que uma dama
não pode tomar um trago
assim
sozinha
De aí pedi um para mim também
(Pausa)

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Uma mulher estonteante
precisava de ver
modelo
já fez comercial da C&A
Riachuelo
Bebemos aproximadamente
vejamos
(Faz o cálculo de cabeça, conta nos dedos, faltam-lhe dedos para chegar à aritmética correta)
15 a 17 doses
ao longo de
(Faz novamente as contas, aluado)
ao longo de seis horas
Minto!
sete horas no bar
duas horas num hotel

GONÇALVES
Motel?

CHICO
Hotel

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Ressaca leve
estou habituado
Duas três vezes por semana
sair
tomar um trago
conhecer damas
quem sabe dormir
com essas damas
num hotel

GONÇALVES
Motel?

CHICO
(Pausadamente)
Ho-tel

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Criamos um padrão
percebe
e depois
como você deve saber
«old habits die hard»

GONÇALVES
Como é
homem

CHICO
Velhos hábitos
companheiro
velhos hábitos
nos perseguem ao
túmulo

GONÇALVES
(Resignado)
Sei como é

CHICO
Meus colegas
(Aponta para os outros funcionários na sala, todos a trabalhar, compenetrados, olhos fixos no ecrã do computador)
meus colegas já me disseram
Chico Chico Chico
que estilo de vida é esse
que estilo de vida é esse
meu rapaz
está prejudicado

GONÇALVES
E não acha
que esteja

CHICO
O quê

GONÇALVES
(Puxa uma cadeira, senta-se)
Prejudicado, ora, essa

CHICO
De forma alguma
padrão de consumo alcóolico
de acordo com as minhas
necessidades
Trabalhar aqui
percebe
não é fácil

GONÇALVES
(Levanta o frasco, lê o que está escrito no rótulo)
Alcoolemia de 1,4 g/L
necessidade de intervenção psiquiátrica
consumo pesado de álcool
possível alcoolismo
quinto teste reprovado
em menos de um mês

CHICO
(Coça a cabeça)
A ciência não explica nada

GONÇALVES
Como é

CHICO
A ciência
testes
esse frasquinho
com o meu xixi dentro
isso não quer dizer nada
Bebo socialmente
garanto-lhe

GONÇALVES
Chama 15 doses
de beber socialmente

CHICO
(Gira a cadeira, tal criança)
Chamo
Estava a beber com
uma outra pessoa
não estava
ou seja
evento social
socialmente

GONÇALVES
Chico

CHICO
Gonçalves

GONÇALVES
Não me faça perder
a paciência

CHICO
Jamais

GONÇALVES
Agora
diga-me lá uma coisa

CHICO
O que quiser

GONÇALVES
Esse boteco aí

CHICO
Sim

GONÇALVES
Como se chama

Fecha-se o pano, a peça terminou.

— P. R. Cunha

«Un descubrimiento genial, mágico, surrealista. Encuentros que te hacen continuar.»

Quando Conserva de Aspargo e Garrafa de Leite atravessam o Atlântico — y encuentran un corazón gallego

Por el hueco de la escalera

Es un honor, un placer y un privilegio compartir con todxs vosotrxs a un genio de las letras, un colega excepcional: P. R. Cunha

Tuvo la osadía absurda (maravillosa) de dedicarme tamaña pieza teatral que degusté y con la que me reí muchísimo.

Copio y pego:

Esta peça teatral foi escrita à tardinha em 28 de março de 2018, ao Clandestino Café e Música — é dedicada à artista espanholaMarina López Fernández(inconstancias tropicales, locuras del otro lado del mar: «Bienvenida a mi mente»).

Ambiente habitual que precede ao espetáculo de teatro. Murmurinhos na sala. Os funcionários do teatro deverão fechar as portas do teatro pontualmente às 20h32 (vinte horas e trinta e dois minutos [horário de Brasília {UTC–3}]). Depois, uma funcionária do teatro pressionará botão vermelho ao lado da porta do teatro: soará assim a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro. Os espectadores…

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Evento de Teatro seguido de Garrafa de Leite/Conserva de Aspargo

Esta peça teatral foi escrita à tardinha em 28 de março de 2018, ao Clandestino Café e Música — é dedicada à artista espanhola Marina López Fernández (inconstancias tropicales, locuras del otro lado del mar: «Bienvenida a mi mente»).

Ambiente habitual que precede ao espetáculo de teatro. Murmurinhos na sala. Os funcionários do teatro deverão fechar as portas do teatro pontualmente às 20h32 (vinte horas e trinta e dois minutos [horário de Brasília {UTC–3}]). Depois, uma funcionária do teatro pressionará botão vermelho ao lado da porta do teatro: soará assim a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro. Os espectadores que não conseguirem entrar antes dessa campainha e antes de a porta fechar-se serão informados pelos funcionários do teatro, com muita cortesia e benevolência, atitude própria desses funcionários do teatro — escolhidos a dedo, como se diz, por uma empresa húngara especializada em treinar funcionários de teatro para eventos dessa magnitude — os espectadores atrasados, portanto, serão avisados educadamente de que lá dentro do teatro ocorre agora um espetáculo de teatro, a porta do teatro está fechada, a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro já foi tocada, e eles (os funcionários do teatro) sentem muito, mas eles (os espectadores que chegaram depois das 20h32) não poderão entrar. Os espectadores de teatro que chegaram antes das 20h32 e que estão agora sentados confortavelmente em cadeiras reclináveis podem observar com certo deleite a luz da sala diminuir de forma gradual. Surge no palco um senhor de paletó cinza, chapéu, aspecto de desleixo pessoal, um leve arrastar dos pés. Ele diz que antes do grande espetáculo da noite haverá um monólogo introdutório, dois ou três minutinhos, de um artista romeno que nunca falara uma palavra sequer em português mas que lerá o monólogo mesmo assim. O artista romeno entra e lê o monólogo desta maneira:

Uma hora gritamos e temos quem nos escute (pausa), uma hora gritamos, esperneamos, fazemos cena e temos, por assim dizer, uma plateia, alguém com muita paciência para nos ouvir a gritar, a espernear, a fazer cenas (pausa), até que de repente esse alguém perde a paciência e se vai e daí não há mais plateia, não temos mais com quem gritar. Ficamos sozinhos.

Os espectadores de teatro aplaudem esse brevíssimo monólogo introdutório lido por um artista romeno que nunca falara português, e comentam, de certeza muito espantados, sobre o fato de esse artista romeno ter lido tão bem o monólogo em língua portuguesa apesar de não saber falar português — pelo menos se ainda acreditarmos no senhor de paletó cinza, chapéu, que arrasta os pés; porque, quando ao teatro, nunca se sabe. A luz da sala ameniza-se um pouco mais. Entram no palco os dois oradores do chamado grande espetáculo da noite, são estes: Conserva de Aspargo (uma mulher vestida de conserva de aspargo) e Garrafa de Leite (um homem vestido de garrafa de leite).


CONSERVA DE ASPARGO

Tu falas as tuas falas
depois eu tenho mais munições
para falar as
minhas falas

GARRAFA DE LEITE
E qualquer coisa
é um começo

CONSERVA DE ASPARGO
Qualquer
coisa

GARRAFA DE LEITE
Um teatro livre
percebes
Teatro que constrói
para si próprio
uma lógica
uma metodologia
uma ambiência

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro esquizofrênico
teatro de vidas duplas
simultâneas
vidas que se contradizem

GARRAFA DE LEITE
Teatro impossível de encenar
impossível de se transformar em peça
Teatro surpreendente

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro torto
teatro que serve para
afligir
O teatro que não
aflige ninguém
e não contraria ninguém
não é um teatro

GARRAFA DE LEITE
É outra coisa

CONSERVA DE ASPARGO
Sim outra coisa

GARRAFA DE LEITE
Tu falas
eu penso
depois eu falo
tu pensas
percebes

CONSERVA DE ASPARGO
Percebo

GARRAFA DE LEITE
(Sem olhar para a plateia)
Introduzimos aqui
uma pequena observação
que chamamos de «teatro»
(Faz as aspas com os dedos, dificuldade para mover os braços por conta da fantasia de garrafa de leite)
o que quer dizer
simplesmente que
poderíamos passar sem
essa observação
Teatro

CONSERVA DE ASPARGO
Toda a gente sabe que
isto é lá um teatro
um teatro que se leva
no bolso

GARRAFA DE LEITE
No bolso
em vez de telemóvel
de bolso
teatro-de-bolso

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro-de-bolso
uma máquina para
encenar o que se vê

GARRAFA DE LEITE
E nem sempre o que
começa é bom

CONSERVA DE ASPARGO
Nem sempre
mas qualquer coisa
é um começo

GARRAFA DE LEITE
Tu falas
eu penso
eu falo
tu pensas

CONSERVA DE ASPARGO
Munições
para continuar
a falar

GARRAFA DE LEITE
E pensar
Naturalmente

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro livre

GARRAFA DE LEITE
Livre

CONSERVA DE ASPARGO
Garrafa de Leite

GARRAFA DE LEITE
Conserva de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Naturalmente
tu não és
uma garrafa
de leite

GARRAFA DE LEITE
Não
Não sou
trato-me de
um ser humano

CONSERVA DE ASPARGO
Certo
Ser humano
fantasiado de
garrafa de leite

GARRAFA DE LEITE
Correto
Fantasiado de
garrafa de leite
teatro livre

CONSERVA DE ASPARGO
E tampouco
eu cá sou
uma conserva
de aspargo

GARRAFA DE LEITE
Tu tampouco
és uma conserva
de aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Fantasia de conserva
de aspargo
por dentro
ser humaníssima

GARRAFA DE LEITE
Dieta unilateral
uma pessoa que alimenta
o seu pensamento
apenas com um gênero
de exemplos

CONSERVA DE ASPARGO
Vês
(Levanta a fantasia, mostra as pernas)
Humaníssima
de conserva
de aspargo

GARRAFA DE LEITE
(Chega perto, averigua)
Aspargo
com pernas
Sim
Humaníssima

CONSERVA DE ASPARGO
Tu não és uma garrafa
de leite
estou certa

GARRAFA DE LEITE
Mais certa impossível
Sou cá um homem
humano

CONSERVA DE ASPARGO
Mas
Suponhamos

GARRAFA DE LEITE
Sim

CONSERVA DE ASPARGO
Suponhamos
à guisa de recreio
Teatro livre

GARRAFA DE LEITE
Livre
Uma lógica
uma metodologia
Ambiência

CONSERVA DE ASPARGO
Suponhamos que
o universo

GARRAFA DE LEITE
O universo
sim
suponhamos

CONSERVA DE ASPARGO
Supercordas
Cosmos
inflacionário
paralelo
infinito
em todas
as direções

GARRAFA DE LEITE
Cosmos
inflacionário
Sagan
Einstein
Planck
Hawkins
Alan Guth
Suponhamos

CONSERVA DE ASPARGO
O universo
em colapso
o palco
este teatro

GARRAFA DE LEITE
Este teatro

CONSERVA DE ASPARGO
Este universo
Suponhamos

GARRAFA DE LEITE
Eu de leite
você de aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Exatamente
Como sabias

GARRAFA DE LEITE
Li o texto
está lá no roteiro

CONSERVA DE ASPARGO
Certo
tudo é semente

GARRAFA DE LEITE
Qualquer coisa é um
começo

CONSERVA DE ASPARGO
Então suponhamos
que se nós dois
só nós dois
universo

GARRAFA DE LEITE
Multiversos

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro de
vias duplas

GARRAFA DE LEITE
Vidas duplas

CONSERVA DE ASPARGO
Simultâneas

GARRAFA DE LEITE
Vias
barra
Vidas
que se contradizem

CONSERVA DE ASPARGO
Suponhamos que
se estivermos de acordo
eu
Conserva de Aspargo
tu
Garrafa de Leite

GARRAFA DE LEITE
Estou de
acordo

CONSERVA DE ASPARGO
Certo
Estamos de
acordo

GARRAFA DE LEITE
Estamos

CONSERVA DE ASPARGO
Então
O que achas
não passa a ser verdade
que eu
sou Conserva de Aspargos
e que tu
és Garrafa de Leite?

GARRAFA DE LEITE
Eu
Garrafa de Leite
tu
Conserva de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Passa a ser verdade
não passa

GARRAFA DE LEITE
Sim
Passa
Se estivermos de acordo
passa

CONSERVA DE ASPARGO
E até onde sei
estamos de
acordo

GARRAFA DE LEITE
Estamos

CONSERVA DE ASPARGO
Um teatro
impossível
percebes

GARRAFA DE LEITE
Mas se estamos
de acordo
torna-se
possível

CONSERVA DE ASPARGO
Sem atores
humanos
percebes

GARRAFA DE LEITE
Estou a perceber

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro feito por
Conserva de
Aspargo

GARRAFA DE LEITE
E Garrafa de Leite
passa a ser verdade
Estamos de acordo

CONSERVA DE ASPARGO
O teatro que não
incomoda que não
inquieta
que não contraria
não é um teatro

GARRAFA DE LEITE
Não é um teatro
Absolutamente
É lá outra coisa

CONSERVA DE ASPARGO
Outra coisa
Teatro feito por
Garrafa de Leite
e Conserva de Aspargo

GARRAFA DE LEITE
Bonito de se ver

CONSERVA DE ASPARGO
(Olha para o relógio)
Pois manda as minhas
lembranças à
senhora Garrafa
de Leite

GARRAFA DE LEITE
Mandá-las-ei
E manda as minhas
ao senhor Conserva
de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Não posso

GARRAFA DE LEITE
Como assim
não posso
por essa eu
não esperava

CONSERVA DE ASPARGO
Não
não esperava
não está no roteiro

GARRAFA DE LEITE
(Tira o roteiro de dentro da fantasia de garrafa de leite, lê o roteiro)
Não
Não está no roteiro
Teatro estranho
correr em redor
de uma circunferência
(Faz uma circunferência invisível no chão, corre em redor da circunferência invisível)

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro doido
Conserva de Aspargo
Caixa de Leite
Não está no roteiro
mas passa a ser verdade

GARRAFA DE LEITE
Por que não podes
mandar lembranças
o que se passou
com o senhor
Conserva
de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Morreu-se

GARRAFA DE LEITE
Morreu-se

CONSERVA DE ASPARGO
Sim
Suicídio

GARRAFA DE LEITE
Meus pêsames

CONSERVA DE ASPARGO
Não precisas

GARRAFA DE LEITE
De quê

CONSERVA DE ASPARGO
De pêsames
foi há muito

GARRAFA DE LEITE
O suicídio

CONSERVA DE ASPARGO
Sim
O suicídio

GARRAFA DE LEITE
Pena isso

CONSERVA DE ASPARGO
Superei

GARRAFA DE LEITE
Superaste
Conserva de
Aspargo
viúva

CONSERVA DE ASPARGO
Viuvinha
Superei

GARRAFA DE LEITE
Então
Não mandes lá
as minhas lembranças
ao senhor Conserva
de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Não mandarei
impossível
suicidou-se

GARRAFA DE LEITE
Que barra

CONSERVA DE ASPARGO
Superei

GARRAFA DE LEITE
(Pensativo)
Mas e à senhora
Garrafa de Leite
Continuo a mandar
as tuas lembranças
certo

CONSERVA DE ASPARGO
Pois não vejo motivo
para não mandares

GARRAFA DE LEITE
Teatro livre

CONSERVA DE ASPARGO
Justamente

GARRAFA DE LEITE
Mas temo cá pela simetria
do espetáculo

CONSERVA DE ASPARGO
Explica-te
Leite

GARRAFA DE LEITE
(Tenta colocar o indicador para os lábios, à moda filósofo, mas não consegue, a fantasia de garrafa de leite atrapalha)
Eu a mandar as
lembranças da
Conserva de Aspargo
à senhora Garrafa de Leite
mas Conserva de Aspargo
não manda lembranças
para ninguém
Percebes

CONSERVA DE ASPARGO
Percebo
Assimétrico

GARRAFA DE LEITE
Sim
O conceito é bem esse
Assimétrico

CONSERVA DE ASPARGO
Não mandes
então
as lembranças

GARRAFA DE LEITE
Sim
melhor assim
sem lembranças
De ambas as partes

CONSERVA DE ASPARGO
Inúmeras confusões
surgiriam dessa
terrível assimetria

GARRAFA DE LEITE
Inúmeras

CONSERVA DE ASPARGO
Senhora Garrafa
de Leite recebe as lembranças
da Conserva de Aspargo
Senhor Conserva
de Aspargo
não recebe lembranças de
Garrafa de Leite
Porque suicídio
Assimétrico

GARRAFA DE LEITE
Melhor não

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro-de-bolso
Lembremos
Teatro-de-Bolso

GARRAFA DE LEITE
Simetrias

CONSERVA DE ASPARGO
Sem lembranças
portanto

GARRAFA DE LEITE
Pois não

(Cai o pano)

— P. R. Cunha

Buraco negro (ou: toda a humanidade vive já há imenso tempo no exílio)

Palco — uma porta à esquerda, fechada. Ao centro, tapete com motivos florais. Pouco mais à direita, sofá, poltrona, luminária de piso, estante abarrotada de livros. Personagens: Pai Psiquiatra está sentado no sofá a ler o vespertino, Mãe Psiquiatra está a bater na porta fechada e ninguém responde.

MÃE PSIQUIATRA
Não abre
estou a bater
e ela não abre

PAI PSIQUIATRA
Deixa a menina
se não quer abrir
que não abra

MÃE PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, fita o marido e cita Schubert)
«Ich bin zu
Ende mit allen
Träumen»

PAI PSIQUIATRA
(Sem baixar o vespertino)
Para os diabos
com o seu alemão
mulher
não me venha
com essa

MÃE PSIQUIATRA
Schubert
Cheguei ao fim
de todos os sonhos
É Schubert

PAI PSIQUIATRA
Gavetas

MÃE PSIQUIATRA
O que têm

PAI PSIQUIATRA
Deitamos tudo
para as gavetas
daí quando abrimos
as gavetas
tudo bagunçado

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ver

PAI PSIQUIATRA
Como não queremos
lidar com a nossa bagunça
deitamos tudo às gavetas
sempre foi assim
esconder-se
do mundo inteiro

MÃE PSIQUIATRA
E os mortos
(Aponta para o chão)
como não queremos
lidar com os mortos
deitamo-los
embaixo da terra
ou viram pó

PAI PSIQUIATRA
Estou a ver

MÃE PSIQUIATRA
(Aproxima-se da porta, bate, ninguém responde)
Não abre
a menina não
abre

PAI PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parado, esquece-se por que levantara-se, cai esgotado no sofá)
Às vezes eu também
jogo tudo para as gavetas
gavetas enormes
sim
não sou mais do que isso
enchedor de gavetas
e também não peço
mais nada

MÃE PSIQUIATRA
(Indignada, bate na porta novamente, ninguém responde)
Absurdo

PAI PSIQUIATRA
(Coloca o vespertino no braço do sofá, tira os óculos, limpa-os com uma flanela que estava no bolso da calça)
A verdade é que
quando se quer sobreviver
quando tudo o que se
consegue pensar é
única e exclusivamente
sobreviver
(Alto)
a verdade é que nessas ocasiões
os livros não nos servem
bulhufas
para absolutamente
nada
(Mais baixo)
De fato toda a gente
que lê
que ama os livros
tenta lá dizer que eles servem
mas eles não servem
o instinto de sobrevivência
não leva em conta
a estupidez
da intelectualidade

MÃE PSIQUIATRA
(Vai até à estante de livros, tira um)
Mais tarde ou mais cedo
todos passam por algo
desse gênero

PAI PSIQUIATRA
Ainda encontramos gentes que
gostam de ler
que compram livros
e assim acham que estão
preparando-se para a vida
quando em boa verdade
as palavras nunca
nos salvaram
de morte nenhuma
(Pega o vespertino, levanta-se, vai bater na porta, ninguém responde)
Absurdo
não abre

MÃE PSIQUIATRA
Pois
eu lhe disse
não abre

PAI PSIQUIATRA
(Aponta o vespertino para a esposa)
Bem sabemos
de quem é a culpa

MÃE PSIQUIATRA
A floresta é grande
a escuridão também

PAI PSIQUIATRA
(Aproxima-se da esposa)
Estou-me nas tintas
para as suas florestas

MÃE PSIQUIATRA
(Bate na porta, ninguém abre)
Não vamos nos
separar querido
além disso
a papelada me aborrece
está a ouvir

PAI PSIQUIATRA
(Leva a mão em formato de pistola à têmpora direita, finge-se que deu um tiro)
Nitidamente

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se no sofá)
Só muito raramente
permitir-me o luxo
de reconhecer o grande
fracasso de tudo isto

PAI PSIQUIATRA
(Bate outra vez na porta, ninguém responde)
Não abre

MÃE PSIQUIATRA
Uma mulher que vive a
personificar o papel
de boa profissional
de boa esposa
e boa mãe
exposta a
evidentes riscos
psicológicos

PAI PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, pega um livro na estante)
Dizem que Balzac
antes de morrer
só conseguia perguntar
sobre as suas personagens
Indagava tal louco
Como está Vautrin
e Eugène de Rastignac
Barbet
os Baudoyer
Pensou naqueles que tinha criado
percebe
não pensou nos vivos
em esposa
filha
nada
largou da realidade
o Balzac
sim
recusara a realidade
Mesmo antes de morrer
(Aproxima-se da porta, bate duas vezes, ninguém responde)
Mesmo antes de morrer
mantera-se fiel
às personagens que
criara
Balzac
O escritor não é dono
do livro
o livro é que é dono
do escritor
Sim
Balzac

(Mãe Psiquiatra leva as mãos à cabeça, dir-se-ia que estava a ficar louca)

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ficar louca
muitas vezes pergunto-me
se estou a enlouquecer

PAI PSIQUIATRA
Acalme-se lá
mulher
não me tenha um piripaque
pois não

MÃE PSIQUIATRA
A papelada me aborrece

PAI PSIQUIATRA
Volte a si
que carnaval
desnecessário

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, vai até à porta, bate, ninguém abre)
Não abre

PAI PSIQUIATRA
(Joga-se novamente no sofá)
Já estou a crer
que a criança não
abre a porta

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se na poltrona)
O que me acontecerá
a mim

PAI PSIQUIATRA
Escute
eu podia mentir-lhe
não é verdade?
dizer que tudo ajeita-se
no próprio tempo
não é verdade?
mas digo-lhe
que não sei
o que acontecerá a si
não sei

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, como se de súbito tivesse lhe ocorrido uma ideia)
E se tentássemos abrir
a porta

PAI PSIQUIATRA
Como assim

MÃE PSIQUIATRA
A maçaneta
abrir a maçaneta
simplesmente girá-la

PAI PSIQUIATRA
Girar a maçaneta
interessante

(Ambos se aproximam da porta; Pai Psiquiatra encosta a orelha na porta para tentar escutar alguma coisa)

MÃE PSIQUIATRA
(Envergonhada)
Não não não
isso não seria justo
é a privacidade da
menina
Não podemos

(Ambos se jogam no sofá, exaustos)

PAI PSIQUIATRA
Vidas amorosas
mexericos
filosofias
a menina só tem
catorze anos
meu deus

MÃE PSIQUIATRA
Nós adorávamos fazer
perguntas
querido
Possuíamos
aquela persistente
curiosidade
lembra-se

PAI PSIQUIATRA
Não faço ideia
do que está a falar
mulher

MÃE PSIQUIATRA
Ler até as pestanas
tinirem de cansaço
Umas poucas frases ditas
em devido tempo

PAI PSIQUIATRA
O mundo é uma
redução gradual da
luz

MÃE PSIQUIATRA
É disso que estou a falar

PAI PSIQUIATRA
(Aponta com o livro para a porta)
Perene sensação de espera
a menina não abre
e tensão por algo
maravilhoso ou terrível
que deve acontecer

MÃE PSIQUIATRA
Podemos sempre tentar
a maçaneta

PAI PSIQUIATRA
Não seria justo com a criança
privacidade
percebe
privacidade
A criança precisa
de privacidade

MÃE PSIQUIATRA
(Aponta para a porta)
Caladinha

PAI PSIQUIATRA
(Acende um Marlboro)
Tinham lá grandes
expectativas
e muitos investiram em mim
e veja bem no que me tornei
nada daquilo que imaginaram

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parada à porta, indecisa)
Um papai tirano
Sol enorme que consome-se
mais rapidamente
É lá um buraco negro

(Encosta na maçaneta, tenta girá-la, a porta não abre)

«FINIS»

— P. R. Cunha