Quarta nota #10 — ironicamente

§ A máquina de gritar desenvolvida pelo Dr. Ludwig consiste em uma caixa (50 x 60 cm) ajustável a qualquer tipo de crânio humano. A pessoa que porventura esteja zangada com o chefe, enfurecida com o cônjuge, irritada com o desfecho de determinado inventário que há anos se arrasta, coloca a cabeça dentro da máquina de gritar do Dr. Ludwig — cujo interior acolchoado evita o vazamento de toda a sorte de ruídos (graves, agudos etc.) — e grita. Paga-se uma módica quantia para se utilizar o aparato. Máquina de gritar.

§ Tenho um amigo que fizera a faculdade de jornalismo e nunca exercera a profissão. Ao passo que esse amigo jamais disse: sou jornalista. Sabe que para ser jornalista é preciso praticar o jornalismo. Da mesma forma, ele às vezes me alerta: para ser escritor é preciso escrever. Se tu não escreves, não és escritor, és apenas um leitor mascarado.

§ Depois da repercussão positiva do manual Como construir um escritor, eis uma breve reflexão sobre Como construir um texto literário. Antes de mais nada, baixa o aplicativo «Faça-me um Texto Literário» (disponível para Android e iOS). Coloca no campo TEMA o assunto a respeito do qual desejas «escrever». Aguarda uns minutinhos, porque agora o aplicativo está a pensar por ti. Passados os minutinhos, tu terás um texto literário.

§ Pausa prolongada.

§ Fica-se muito triste quando alguém admirável morre. Mas a morte de Mark Hollis, vocalista dos Talk Talk, possui peculiaridades que merecem ser levadas em consideração. Hollis morreu-se (livre e espontânea vontade) em 1992, pouco depois das gravações do álbum Laughing Stock. Na altura, dissera que estava farto das pressões da chamada indústria da música, dos mexericos, das expectativas irreais/surreais dos fãs, da necessidade de sempre estar em todos os lados, e que chegara a hora de dedicar-se à família. Viveu desde então ao lado dos seus, retirado do mundo fonográfico — apesar de um propositadamente discreto trabalho solo em 1998. Já não queria mais saber de mostrar-se, e o facto de poucos falarem dele nos últimos tempos é prova de que lograra êxito na fuga. Ontem, foi o Hollis privado — o pai, o marido — que se despedira. Para os que admiravam a sua genialidade, permanecem ainda os mesmos espólios de um luto que há décadas perdura.

— P. R. Cunha


Quarta nota #9 — há um bezerrinho chamado Pê Erre (e ele passa bem)

Porque amnésia — e certo descaso involuntário — escrevo estas notas de quarta-feira numa manhã de quinta-feira parcialmente nublada, vista cinzenta, glacial, sol modorrento a aquecer coisa alguma. À tarde, sorvete com a Jéssica.


§ Certa leitora que mora num rancho, na paz dos campos, como se diz, não muito longe da cidade de Pirenópolis, enviara-me agradável electro-carta a dizer que gosta das coisas que escrevo. A leitora acrescenta ainda que o rancho acabara de ganhar um novo bezerrinho e que o animal já tem nome: Pê Erre — singela homenagem a este que vos fala.

§ Aqueles que mexem com robôs sabem que os robôs vieram para ficar, que os robôs não estão para brincadeiras. E aqueles que mexem com robôs estão a dizer também que se queres competir com estas criaturas metálicas é melhor desenvolveres qualificações como o pensamento crítico, a resolução de problemas ardilosos, a criatividade, a comunicação, o espírito colaborativo.

§ Em suma, se queres competir com robôs, não ajas como um robô.

§ Na primária, Miranda divertia-se no parquinho da escola. Era uma pequenina realmente graciosa. Na adolescência, engordara um bocado porque tomava sorvete e comia quantidade absurda de bacon ao pequeno-almoço. Em mulher, entregara-se à cocaína e nunca saía de casa. Numa altura, namoriscou a ideia de se tornar comissária de bordo da TAP Air Portugal.

§ Excelente método para se ver livre da procrastinação (em fazendas artísticas e não só) é ter em mente que o amanhã pode não existir. «E se eu morrer?» Pergunte-se isso várias vezes ao dia, principalmente quando a ociosidade construir moradas. «E se eu morrer?» Preciso de começar um livro, são muitas páginas, mas vou escrevê-lo depois — postura clássica de aqueles que não percebem a imprevisibilidade da ceifa. O desconforto da nossa finitude, como já se disse, ajuda a produzir coisas intensas.

§ Animal humano que vive cheio de ruminações, que passa um tempo considerável a ser vítima de pensamentos insuportáveis, problemas invisíveis, vítima da ansiedade, e da raiva, e da inquietude, atormenta-se por angústias desnecessárias, esperanças vãs, temores absurdos, muitas vezes torna-se vulnerável ao extremo, frágil, prisioneiro de memórias equivocadas, tenta responder a uma realidade que já há muito não tolera — e coisas do gênero.

§ 8/4/2017: o juiz Sérgio Moro diz que crime de caixa dois é pior do que corrupção, um crime contra a democracia, é trapaça, pior do que enriquecimento ilícito. 19/2/2019: o superministro (sic) Sérgio Moro diz que crime de caixa dois não tem gravidade de corrupção, não precisa de estar no projeto anticrime, não há necessidade de incomodar os políticos com temas sensíveis.

§ As pessoas mudam, quer dizer…

— P. R. Cunha

Quarta Nota #8 — Gordon Banks, morte das estrelas (defesa impossível)

O autor deste blogue volta com as notas descompromissadas que deixam a senhora Cassandra (do apartamento 323) com ganas de desbravar o mundo, a despeito dos seus noventa e quatro anos.


Cansado de embriagar-se
verbalmente —
largara o romance
para se entregar
à poesia.

§ Todas as noites o Roberto queixa-se com a esposa: detesto a metalurgia, a metalurgia me causa um verdadeiro asco; e todos os dias o Roberto sai para ir trabalhar com metalurgia. Pode-se dizer o mesmo dos casais que se odeiam, que se desprezam prolongadamente, mas não se separam: talvez porque tenham medo de morrer sozinhos.

§ As bobagens que dizemos para preencher os demorados silêncios.

§ Etc.

§ O que um escritor de ficção diz é bem diferente daquilo que um escritor de ficção escreve. A fórmula é a seguinte:

Vida pessoal do escritor ≠ Vida literária do escritor

§ O Sol — observável ao céu — é uma gigantesca bomba nuclear que, quer-queira-quer-não, irá explodir. Cessa a fusão hidrogênionúmeroatômico1/hélionúmeroatômico2, o interior do Sol perde a batalha contra a gravidade e o núcleo entra em colapso. A jornada é um bocado mais complexa do que isso, mas não precisamos de esmiuçar os pormenores aqui. O importante é saber que as estrelas também possuem ciclos. Elas nascem, vivem e morrem.

§ (Trajetória comum de diversos escritores de ficção: nascer, ler muitos livros, perder-se no mundo dessas narrativas livrescas, eventualmente criar os próprios universos — lidar com a finitude alheia, muitas vezes esquecendo-se da própria finitude. Porém, as páginas dos escritores de ficção também se acabam.)

§ «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», é Wittgenstein.

§ Noutras ocasiões, os grandes morrem discretamente, a dormir. Depois de anos a lutar com um cancro no fígado, Gordon Banks, o maior guarda-redes de sempre, faleceu ontem à noite durante o sono. Autor da chamada «defesa impossível» (Carlos Alberto avança desde o próprio campo, dá um primoroso passe à três dedos para Jairzinho, que ganha do defensor inglês, corre até à linha de fundo, cruza para Pelé, Pelé sobe majestosamente para cabecear a bola, um cabeceio enciclopédico, perfeito, para baixo, indefensável — não fosse Banks), o guarda-redes costumava brincar que seria lembrado por estragar um belíssimo tento do Rei do Futebol.

§ Mostraram-me os vencedores dos Grammy e percebi que não conhecia vivalma (Kacey Musgraves?). Lembrei de uma conversa que tive com vovô ao final dos 1990. Ele disse: meu gosto musical morreu de ataque fulminante, e está enterrado no Desert Memorial Park. Vovô estava a falar do Frank Sinatra.

§ A minha hipótese é que numa certa altura (o período pode/deve variar de ser humano para ser humano) perdemos um pouco o interesse, a vontade de adaptarmo-nos às novas tendências. Preferimos continuar com o Frank Sinatra, com o Gordon Banks, com o Thomas Bernhard, com o Johnny Cash, com a Susan Sontag, com o Perec, com a Lispector, com a Cecília Meireles, com a Nina Simone — até ao fim dos nossos dias. 

§ (À guisa de P. S.) Mas a verdade é que ainda estou para conhecer cargo político mais poético do que o da senhora Ana Paula Vitorino: ministra do Mar. E ontem conversei com o músico Flávio Silva sobre os porquês de nunca estarmos satisfeitos — plenamente satisfeitos (e.g. Fulano estipula objetivos [ter casa, família, automóvel para locomover-se], e quando atinge/conquista tais objetivos parece querer pular em novas bacias de inquietações). É que nosso cérebro primata evoluíra para lidar com as intempéries da floresta, ambiente pouco amistoso àqueles que ficam parados (presa fácil), e toda a gente que já comera demais e depois dissera: ufa!, que almoço incrível, estou satisfeito, sabe que a satisfação gera inércia, apetece-nos deitar. Corroborei essas conclusões enquanto voltava para casa escutando The promise, do Sturgill Simpson.

— P. R. Cunha

Quarta nota #7 — vende-se

Caminhada na floresta
o cheiro da relva
sinistro presságio.

§ Se o propósito da vida humana for mesmo a tal busca da felicidade, acúmulos de experiências alhures, receber reconhecimento enquanto ainda se está vivo… então, dedicar-se à atividade literária a tempo inteiro é provavelmente a aposta mais absurda, mais incrível, mais gratificante, mais perturbadora e mais contraditória que tu poderias fazer.

§ Fulano escreveu um livro muito bonito, cujas linhas ninguém entendera. Só foram compreendê-las duzentos e cinquenta e cinco anos depois; quando Fulano há muito já servira de banquete às minhocas.

§ Ainda assim, Fulano permanece horas a devorar o Beckett, o Adorno, o Jünger, o Genet e outros. Depois, anota a respeito do Beckett, do Adorno, do Jünger, do Genet…

§ O perigo de se lidar com o absurdo diariamente: o absurdo se torna hábito, o absurdo cria moradas, o absurdo fica. Entra-se num ciclo em que sentes sempre um abismo.

§ Elefante na biblioteca: a literatura e todas as possibilidades criadas por ela não passam de commodities, mercadorias (Leandro compra livros, Marta os vende — livros custam dinheiros). Vamos às lojas adquirir esses trocinhos de papel, pagamos por eles. A dinâmica é bem esta: há um produto, as pessoas perdem o interesse pelo produto, o produto começa a desaparecer.

§ «As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. […] Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise» — trecho da carta aos leitores escrita por Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.

§ Livraria Saraiva pede recuperação judicial para reestruturar dívida de R$ 675 milhões. O pedido foi aceito. A empresa agora precisa de apresentar um plano econômico viável nos próximos sessenta dias.

— P. R. Cunha

Quarta nota #6 — terraplanagem, Modiano a ressurgir do ostracismo, expectativas portuguesas e jogar xadrez à guisa de afastamentos melancólicos

§ Há livros que nos fazem querer largar tudo, largar todos; livros que desafiam a relatividade, o tempo, o Einstein. Encontra-os e procura mantê-los por perto.

§ BBC World News — entrevista com um sujeito em mangas de camisa que tenta explicar que a Terra é, em verdade, plana. Numa altura, ele diz à repórter: you’ve got to understand that the Flat Earth Society has millions of members all around the globe (grifo meu).

§ Faltam catorze dias para ir-me a Portugal receber o Prémio Aldónio Gomes, promovido pelo Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. As possibilidades fotográficas que a terrinha lusitana me proporcionará acalmam um bocadinho este coração, que já não se aguenta de tanta ansiedade.

§ Estavam a conjecturar um bloqueio criativo do Modiano — por conta do Nobel da literatura dois mil e catorze. Paralisia pós-grande premiação, esse tipo de coisa. Mas já saíram as Lembranças adormecidas, livro com retratos de uma Paris fantasmagórica, nostálgica, desaparecida. É a última respiração antes de o mundo se desmoronar, confessa o autor. […]

§ […] «Uma luta contra o esquecimento, um sublinhar dos caminhos redentores da memória e da ficção, é Modiano» — comentário de José Riço Direitinho sobre Lembranças adormecidas.

§ Em 1879, desiludido com os rumos que a própria teoria tomara, Karl Marx lastimou-se: tudo o que sei é que não sou marxista.

§ A saída do Reino Unido da União Europeia apenas demonstra que ainda somos reféns da velha dinâmica imperial: ascensão, apogeu e queda. Bem-vindos, portanto, à nova era — a dos Trumps.

§ O xadrez é uma excelente companhia para homens tristes.

§ Já se sabe em que sítio poisará a sonda espacial da missão Marte 2020: cratera Jezero, com cerca de quarenta e cinco quilômetros de diâmetro, localizada ao norte do planeta vermelho. De acordo com a Nasa, há evidências de que o local já fora preenchido por um profundo lago, delta fluvial capaz de preservar provas de vida. A missão do veículo, com características muito semelhantes às do Curiosity — robozinho que há mais de seis anos explora o solo marciano —, será encontrar carbono e possíveis sinais de micróbios.

§ Acharam 115 copos, palhinhas, quatro garrafas, chinelos, sacos, escovas, potes de sorvete e um milhar de outros objetos — montante a pesar 5,9 quilos — dentro do estômago de uma baleia em estado de decomposição na costa sudeste da Indonésia. E há governantes a garantir que anda tudo limpinho, que o colapso global é trama da esquerda.

— P. R. Cunha

Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco

§ Há muito que este electro-sítio se transformara em espaço indefinido, etéreo, no limite entre fantasia e realidade. Por vezes o próprio autor não sabe ao certo o que é o quê.

§ Franzen diz que a ficção mais puramente autobiográfica exige pura inventividade.

§ Minha resposta predileta ao paradoxo de Enrico Fermi (se o Universo é tão grande, tão velho, possui tantas estrelas e tantos planetas habitáveis… — então cadê os alienígenas?) é a hipótese Zoo. Extraterrestres tecnologicamente avançados já teriam localizado a Terra, mas decidiram não intervir, pois querem manter a nossa sociedade funcionando de maneira autônoma. Desta forma, não seríamos muito diferentes daqueles animais cuja vida acreditamos salvar ao mantê-los em reservas ecológicas específicas. Estão a nos observar e talvez até esbocem um sorriso torto diante das nossas incontáveis parvoíces.

§ «Passeio a minha casa / como leão na jaula», o trechinho é do Ruy Cinatti.

§ Antiga tradição em África: os tambores mensageiros. Percussões cujas batidas não transmitem o simples, o direto — elaboram. Se o caçador sente medo, os tambores não dirão apenas «não sintas medo», pois preferem discurso mais ativo: «Tira o coração da boca, fá-lo descer já daí, deixa de lado a angústia desnecessária, respira com destreza», etc. Os percussionistas africanos, portanto, longevos cronistas da espécie humana, que ao fim jaz de costas sobre montes de terra.

§ Stan Lee: a prova de que os super-heróis também morrem.

§ Sr. Trágico chega ao próprio apartamento para ler aquelas palavras que de tão harmoniosas, ele pensa consigo mesmo, só parecem dignas de olhos flamejantes e entendimentos sublimes. Sr. Trágico percebe que está a escalar a lombada do venerado livrinho uma traça modorrenta, mui gulosa de papel. Dá um peteleco na traça, FFFFUUUPPTTT. Certeiro. Traça voa ao longe, caindo finalmente sobre o jogo de xadrez, em cima da mesa que deveria servir às refeições. A torre branca ameaçada pelo bispo preto. Dois movimentos e xeque-mate. Mas sr. Trágico, agora um bocado distraído pela suavidade das Musas em elogios raros, ainda não percebera a ameaça real. 

§ Terminou a 11 de novembro de 1918 a guerra que supostamente deveria acabar com todas as guerras.

§ Na última segunda-feira, papai teria completado 65 idades.

— P. R. Cunha

Quarta nota #4 — há um enorme pedaço do universo onde pouca coisa acontece

§ Curta passagem pela Terra (68,76 anos se fores mulher e 64,52 anos se fores homem [em média, naturalmente]) e, depois, durante quanto tempo ainda lembrarão do teu nome? Malabarismos diários para construir o chamado «legado à posteridade», enquanto, ainda em vida, milhares de pessoas são relegadas ao esquecimento.

§ Em 1845, um jovem e irascível Charles Baudelaire — o poeta suicida que não se suicidara — escreveu carta de despedida a explicar que não aguentava mais o cansaço de adormecer e o cansaço de acordar, a rotina das mesmices. Logo depois, esfaqueou-se, mas não morreu. A nota com os pormenores desse plano macabro foi leiloada no domingo último por € 234 mil (≅ R$ 988 mil).

§ Se gostas de Roland Barthes e de, como costumam dizer os críticos, thriller cult com referências filosóficas de pensadores dos 1980, então La septième fonction du langage, do Laurent Binet, é um livro que vai te agradar imenso.

§ Tu és o motorista, não há mão livre para escrever. Passeia de autocarro, ou de metrô, ou de táxi; ali anota ao sabor das trepidações.

§ Os leitores portugueses têm agora um novo sítio de verificação de fatos: Polígrafo, fundado pelo jornalista Fernando Esteves, ex-editor de Política e Internacional da revista Sábado. Os fact-checks são primordialmente voltados para o contexto lusitano, mas Polígrafo também averigua eventuais lorotas brasileiras.

§ Em toda a parte deveria existir um escritor a trabalhar. O escritor dá forma a contos, crônicas, artigos, romances, poemas etc. A palavra é a tua matéria-prima; inspiração nada mais é do que a leitura e a releitura daqueles livros e daquelas ideias que mais te agradam. Utiliza de um clichê bobo e gentil: a inspiração é também transpiração. Os gênios têm os dedos calejados. 

§ Dentro de casa — a melodia das canetas a riscar a folha em branco continua.

§ O mundo é um lugar estranho. Muitas nuvens, cães solitários a vagar nenhures, árvores com folhas verdes, e vermelhas, e amarelas, os telhados, os asfaltos vestidos de sombra, automóveis de aço, aeronaves de aço, convites para escrever no jornal alheio; jornal de celulose. As longas tardes cinzentas em que pegaste no sono ao escutar documentários sobre o Cosmos — Boötes void (o vazio de Boötes), diâmetro de quase 250 milhões de anos-luz, monstruosa região repleta de coisa nenhuma, onde o inverno dura para sempre. Estás a escrever a respeito disso tudo e sentes também um Boötes void no coração. És supervazio. 

— P. R. Cunha