Álbum à vista

A canção Domingo à tarde foi escolhida pela Cássia para ser música de trabalho do meu próximo álbum, cujo título provisório é «Triunfo». As outras faixas serão produzidas e masterizadas nos estúdios OC, em Niterói, perto da praia de Icaraí.

PRCunhaDomingo

Tudo acaba

Um assim chamado amigo de juventude, e que sempre foi um grande admirador de jazz, muito provavelmente o maior colecionador de discos de jazz de Brasília, tendo inclusive participado de diversas palestras sobre Charlie Parker, Cannonball Adderley, Billie Holiday, Sarah Vaughan, Etta James, Duke Ellington, Chet Baker, Stan Getz, Buddy Rich, etc., esse amigo de juventude, portanto, decidira conhecer pessoalmente aquele que é considerado o maior baterista de jazz do Brasil, um baterista sem dúvida muito talentoso. Comentei com esse amigo de juventude que ele estava prestes a cometer um grande equívoco, que não deveria ir lá conhecer o baterista, que deixasse o baterista tocar a bateria, e que ele apenas se contentasse em ouvir o baterista tocar a bateria, que isso já seria o bastante. De longe você gosta do baterista, admira o baterista, eu disse a esse meu amigo de juventude, mas de perto você não gosta do baterista, evidentemente, porque quanto mais nos aproximamos daqueles que admiramos, mais os odiamos, é tudo afinal simples como isso. A verdade é que ninguém muda, e meu amigo de juventude, a despeito de minhas recomendações, foi lá ter com o maior baterista de jazz do Brasil, ou seja, não seguiu os meus conselhos, e naturalmente se decepcionara imenso. Disse-me que tão logo apertara a mão do baterista percebera que estava tudo acabado, e se dera conta de que, daí em diante, nunca mais conseguiria ouvir os tambores desse baterista, o maior do Brasil, como já salientei diversas vezes.

— P. R. Cunha

Além da escrita #3

PR – Kelton Gomes (Superquadra 202 Norte)
— Kelton Gomes, Superquadra 202 N / Fotografia: P. R. Cunha

[…] Insisto — escrever é um trabalho solitário, mas o escritor não precisa ser de todo sozinho. Escritor que se isola para a torre de marfim, parte indissociável da lenda; porque romântico. Montaigne o fez, de fato, fugiu das gentes do castelo e anotara para si os ensaios, longe. Mas depois percebeu que não aguentaria escrever somente para as paredes de pedra lascada e publicara os próprios pensamentos em edições caprichadas (pelo menos se levarmos em conta o conceito de caprichado para os convivas do século dezesseis). Sai do bunker, ou levanta submarino de vez em quando, e tudo se torna fonte de inspiração. Quando se tem a sorte de lidar com amigos talentosos, tanto melhor. A música do Kelton Gomes, por exemplo, sempre me foi crucial. Thomas Bernhard dizia que o escritor deve alimentar-se de todas as formas de arte. Se por um acaso a escrita lhe cansava, refugiava-se na ópera, na música clássica, no violino, nas pinturas. E o Kelton é bem isso. Um refúgio. Artista que ainda tem o cuidado de pensar na narrativa musical, e muitos já não se importam mais com esses detalhes. Quer dizer, a ordem das músicas para o Kelton é imprescindível. Trata-se de um álbum, ele diz, e se uma determinada canção destoa das demais, preciso colocá-la de lado, é outra coisa. Isto, repito, numa época em que o shuffle e os dez mil temas armazenados no aparelho do ouvinte é meio que regra. Por vezes essas afinidades se transformam em parceria. O Kelton pediu para utilizar uma foto que tirei em Frankfurt para ser capa do disco Distraído concentrado. Ou mesmo quando a escrita me aborrece. Tiro da mochila a câmera fotográfica, o Kelton está ao estúdio produzindo belezas e me coloco a retratá-lo. Depois, no conforto do lar, como se diz, edito tudo numa sessão «metakelton» — Kelton fotografado, Kelton nos fones de ouvido.

— P. R. Cunha

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Sobre a experiência MYMK e outras viagens

Pouco se sabe a respeito da vida privada de Homero; se teve filhos, se foi feliz ao lado de alguém, de que modo divertia-se ou mesmo como lidava com a rotina de escritor. No entanto, quem lê Ilíada e Odisseia logo percebe que esse poeta da Grécia Antiga tinha um fraco por viagens longas. O tema viajar-para-algures contido nesses dois poemas épicos escritos há quase três mil anos influenciaria algumas das mais intrigantes obras da humanidade. Miguel de Cervantes coloca Dom Quixote em cima de um quadrúpede e o faz perseguir moinhos imaginários para ajudar o pobre do protagonista a encontrar-se durante a fuga. Laurence Sterne arrisca-se numa viagem sentimental através de França e Itália apesar da frágil saúde, que de fato viria a matá-lo antes que ele conseguisse concluir o relato dessa espinhosa jornada. A melancolia foi a viagem de Robert Burton. Montaigne viajou muitíssimo.

Dá-se um salto arbitrário aos séculos modernos e chega-se à conclusão de que viajar é quase uma necessidade vital àqueles que se colocam a esmiuçar — nas palavras de Stendhal — o que há dentro de si. Flaubert, Stevenson, Melville, Wilde, Benjamin, Calvino, Orwell, Canetti, Sebald, Manguel; todos viajantes compulsivos. Susan Sontag escrevera certa vez que viajava para se despedir: invariavelmente para me despedir, é por isso que estou sempre distante, ela dizia. Despede-se do que é usual, do comodismo, da mesmice. Logo a sra. Sontag se move diante do desconhecido, do outro, dos outros.

Estou deitado sobre o tapete da sala do meu apartamento, tenho a cabeça voltada para os dois amplificadores retangulares do toca-discos, cuja agulha rabisca a superfície de um vinil do MYMK. A tocar um tema chamado Body issues. Se MYMK fosse um livro seria Voyage autour de ma chambre [Viagem à volta do meu quarto], de Xavier de Maistre. «Toda a infelicidade dos seres humanos resulta de não saberem ficar quietos no próprio canto». Pois lá está o MYMK que leva longe, apesar de não se mover um músculo. Eis os destroços de uma estrutura industrial abandonada nos arredores de Berlim; ou um inverno rigoroso em Varsóvia enquanto se observa os moradores dos prédios à moda Tetris, eles se movem diante das janelas fechadas, alguns se escondem atrás das cortinas diáfanas, consegue-se ver apenas uma silhueta que atravessa o aposento como se em câmera lenta; mais à frente enxerga-se um rio, talvez o Vístula, e barcos preguiçosos que se decompõem nas água congeladas; um automóvel na colina faz curva fechada, pode-se escutar o barulho do motor num fantasmagórico Doppler — não é mais a Polônia, não é mais canto nenhum. A verdade é que nunca se sai da experiência MYMK da mesma forma que entrou.

MYMK é coleção de fragmentos do artista brasiliense Bruno Sres, sujeito misterioso que jamais se entrega às demandas modernas de se mostrar. Desvanece por uns tempos, pensa na vida, mastiga frustrações, traduz em sons tudo aquilo que é difícil de expressar em palavras. Faz música como que para se defender da fugacidade, do esquecimento, da devastação dos cérebros… Faz trilha sonora de desaparecidos, era o que eu estava querendo dizer.

Em 1929 Stefan Zweig escreveu que o que é único, distinto, é cada dia mais valioso num mundo como o nosso, mundo que irremediavelmente se vai tornando uniforme. Em pleno século vinte e um, o tal século da globalização, MYMK reverbera o pensamento do sr. Zweig. E projetos assim mostram que ainda há quem prefira resistir.

* * *

Em conversa com Bruno Sres:

Quais as maiores influências do MYMK?
Tim Hecker, Caroline K, Ryuichi Sakamoto, Deru, Brian Eno, Christina Vantzou.

O que lhe fez começar este projeto?
Um retorno às raízes de outro projeto eletrônico que tive em 2004, o Chez Ville: era uma experimentação mais tosca com música eletro-acústica e uma continuidade da proposta instrumental feita pelo Fúlgora, banda «pós-roque» em que tocava guitarra e teclados.

Como funcionam as colaborações com outros artistas?
Geralmente eu encontro uma composição visual que possa transmitir ideias de espaço em aberto ou em construção. Ou propostas que casem com a sonoridade de um projeto em específico. Gosto de observar espaços inacabados e desconjunturas. Na prática, algumas vezes faço uma lista de artistas prediletos e começo a entrar em contato com cada um, de acordo com a trabalho que estou desenvolvendo naquele momento. Acho que o som do MYMK, realmente, é um exercício de camadas e texturas, e busco parcerias que tenham alguma afinidade com isso. Fico de olho em profissionais (novos e antigos, com os quais eu possa me comunicar) que trabalham com a imagem digital em elaboração, em confronto com erros e manipulações imperfeitas. Busco, também, alguns artistas relacionados à produção de vídeo em forma de coletivos, como, por exemplo, o Computer Club. É dessas procuras que surgiram parcerias com autores como Krist Wood, Yoshi Sodeoka, Sabrina Ratté (o primeiro disco do MYMK, Jeopardy, foi elaborado com base em algumas pirações de paisagens sonoras do trabalho dela), entre outros.

Pretensões do MYMK para o futuro próximo?
Tenho uma leva de faixas e a proposta visual do próximo disco encaminhadas, em um meio termo, já. Estava de férias em Berlim em julho passado, articulei novas gravações por lá e foi inevitável a influência da produção artística da cidade. Isso é um pouco clichê, mas se trata de um projeto um pouco diferente dos trabalhos anteriores, o que é bem legal. Mas acredito que é a hora de um ano sabático. Algo novo, mesmo, acredito que saia em 2019. Ainda não sei em que formato.

Mymk

Texto: P. R. Cunha
Ilustração: © MYMK