Pensou que talvez devesse tomar algumas providências a respeito do modo de se vestir para que o levassem mais a sério

Estar num estado de muita euforia (ou alienação patológica) para se cortejar as musas melancólicas sem correr o risco de perder completamente os botões, etcétera. Só os contentes, como se sabe, anotam para si as poesias taciturnas. Ocorrera qualquer coisa parecida com aquele escritor da miúda Alcalá de Henares, tipo estranho que nascera uns bons cinco séculos antes de o Doktor Freud criar os alicerces da chamada «ciência das almas». Pois que a loucura era freelancer nos campos do fidalgo Miguel de Cervantes Saavedra, pai do Quixote. Flerta com a maligna, dia-e-noite, por anos, instiga, cutuca, tira-a do sério. Até que a jaula se abre e o pobrezinho busca abrigo na casa da vovó, que está enferma, cá não fica por muito tempo. Alguma tia irascível, com rugas de dores & pavor a desenhar-lhe o corpo inteiro, de longe, quase não se escuta a megera: eu bem que avisei — ela diz. E esta constatação (ficou lelé, o sobrinho das letras) pareceu lhe proporcionar um regojizo imenso.

— P. R. Cunha

Café da manhã

Preciso escrever todos os dias, para que o meu cérebro não atrofie. Como aquele maratonista que aos poucos aumenta as próprias quilometragens antes de correr para a Olimpíada.

(…)

Manhã, por volta das sete horas. Ele está sentado à mesa da cozinha, segura uma chávena de café, assopra o líquido quente que libera uma fumaça aromatizada. Ele respira a fumaça e olha para a esposa que está a comer torradas com geleia de amora. Ele não gosta do jeito que ela come as torradas com geleia de amora. Ela tampouco aprova o rosto imbecil do marido a cheirar o café daquela forma. Ela se levanta e finge pegar algo dentro de uma das gavetas embaixo da pia — só o fez porque já não aguentava mais ver as feições estúpidas do marido cheirando o maldito café. «Será que você poderia parar de cheirar o maldito café?», ela diz. Ele levanta o rosto: atordoado, sim, mas não de todo surpreso. Daí coloca lentamente a chávena sobre a mesa, enxuga a boca com um guardanapo, dobra o guardanapo. Ele se levanta sem dizer palavra, pega a chave do carro e sai. No caminho para o trabalho, ele se distrai com as imagens do que acabara de acontecer: o café, a torrada com geleia de amora, a reação intempestiva da esposa, o terrível tédio da inércia matrimonial. Quando finalmente volta as atenções para a pista, uma moça vestida com certa elegância esta a atravessar a rua e ele quase a atropela. A verdade é que ele não sabe, e também não teria como sabê-lo, mas a moça que ele quase atropelara acabou de ser promovida a gerente de vendas de uma montadora de automóveis. E essa é outra história.

— P. R. Cunha

Trecho de romance

Teoremas do fracasso
(P. R. Cunha – Inédito)

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler. Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O fato de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza. O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler. Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências. Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória. Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até mesmo para si), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam. Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro. Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler

O soldado caído

A língua inglesa possui verbo que de acordo com o contexto pode definir as ações de fotografar e atirar — to shoot. Fotógrafos de guerra retornam do combate por vezes desmiolados depois de tantas atrocidades e repetem como se fossem robôs: nós também atiramos. Desnecessário perder-se em análises para entender de que modo as fotografias podem ser utilizadas para enganar, matar, ludibriar, acusar, vender produtos que não funcionam etc. etc. A verdade é que a metáfora «câmera/arma de fogo» não é de modo algum disparatada. Ambas possuem mira, ambas precisam de gatilho para finalizar os respectivos alvos. Já se sabe que algumas comunidades isoladas têm verdadeiro pavor do aparato fotográfico: objeto estranho que assalta aquilo que há dentro de nós. Revela-se a fotografia e o que se vê é mesmo uma figura humana estática, paralisada pelo tiro do tempo, geralmente com os olhos arregalados. Pistola e obturador que transformam os vivos em fantasmas, em memórias que aos poucos desvanecem.

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Texto: P. R. Cunha
Fotografia: © Robert Capa