Entulho das letras

Só percebemos o número de livros que possuímos quando precisamos de retirá-los todos das estantes — por motivos variados (limpeza, mudança de lares, reformas etc.). 

Enquanto deitadinhos nas prateleiras, os livros fazem parte do ambiente, mesclam-se com as linhas da paisagem.

É um pouco como olhar para uma parede e não precisar contar cada tijolo para saber que ali há uma parede.

Então o leitor decide remover poeiras e traças que criaram moradas nas brochuras e o que era ordem se transforma em caos.

Aqui a analogia do muro encaixa-se melhor: os livros esparramados no chão fazem lembrar uma casa bombardeada, demolida, com as paredes em pedaços.

De início, para almas mais vaidosas, aquele amontoado de obras pode gerar certo regojizo. O leitor pensa: puxa!, até que já li um bocadinho. Porém, logo notamos o lado obscuro da empresa livresca. 

Veja também o tanto de lixo que acumulamos, obras supérfluas, escritores verborrágicos, o tanto de tempo que perdemos debruçados sobre páginas e mais páginas e mais páginas que não nos entregaram nada.

A angústia se multiplica ao cogitarmos a terrível possibilidade de nunca conseguirmos terminar de ler os livros que realmente gostaríamos de ler, que a ceifa pode estar à espreita, que numa tarde soalheira de domingo acreditamos possuir a eternidade para apreciarmos todos os nossos escritores favoritos, e na manhã de segunda-feira tudo se desmancha, não temos eternidade nenhuma.

Mas as trovoadas passam. O espírito se acalma. Recolocamos os nossos tijolinhos na parede, respiramos o ar renovado da biblioteca, consultamos as cartas de amor de Scott e Zelda Fitzgerald, acariciamos a folha de rosto da Virginia Woolf (exemplar de colecionador) — fazemos as pazes, estamos prontos para novas desilusões.

— P. R. Cunha

Inconclusão das reticências

A ideia deste conto surgiu-me depois de revisar os estudos machadianos do amigo e professor Paulo Paniago.


Guillermo Jiménez e Suzana Bonnefoy casaram-se faz pouco. Eles estão agora na sala do novo apartamento: dois quartos, cozinha, varanda tamanho médio, área de lazer no térreo. Os cômodos ainda se mostram parcamente mobiliados. O restante das coisas deve chegar aos poucos, nas próximas semanas. Guillermo e a esposa estão sentados no tapete da sala a folhear álbum de fotografias. Muitos retratos do Guillermo em adolescente, com os familiares, a antiga casa na Ciudad de México, a piscina, os jantares, as férias em Oaxaca. Guillermo começa a se dar conta de que a grande maioria das pessoas que habitam aquele álbum de fotografias já morreu. Sem que a esposa perceba, ele solta um suspiro breve, melancólico — o suspiro, como se diz, de um homem momentaneamente abatido. Suzana, ao passar a página e deparar-se com o sorriso da irmã do Guillermo depois de um banho de mar em Acapulco, reflete, também em absoluto silêncio, se ela conseguiria sorrir daquela maneira, se ela é de fato sincera, se ela é quem deveria ser ou se apenas tornara-se o manequim que a mãe, a senhora Bonnefoy, tanto exigira que ela fosse. Suzana nunca se imaginara a contrair matrimônio, por exemplo. Lembrou-se de quando estava a cuidar do pai, o quase centenário Hubert. Eles passaram a morar juntos depois que a senhora Bonnefoy fugiu para Antuérpia com um russo que se dizia dono da equipe automobilística McLaren F1. Há este vestígio de memória em que Suzana tenta esconder que está a chorar. Não era um choro de tristeza, era aquele outro tipo de lágrima, que vem do desespero seco da culpa, do remorso. Acontece que numa madrugada ao levantar-se para o corriqueiro xixi noturno Suzana injuriou-se e pensara sentada na latrina como lhe seria um alívio ver-se livre do pai de uma vez por todas, que não aguentava mais, que precisava de respirar, e o sr. Hubert não a deixava respirar, etc. De aí, na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço, o velho Hubert engasgara-se com o caroço da tangerina, e a cena foi qualquer coisa de filme de terror, Hubert a segurar o pescoço com os dedos de Drácula, Suzana a pressioná-lo de todos os jeitos, tapas nas costas, soco nas costas do velho, o rosto vermelho do velho, os olhos que tentavam sair de órbita, a língua roxa do velho, o caroço da tangerina a escapulir da boca juntamente com a dentadura, o Hubert sentando-se à mesa com as mãos no coração a dizer: ufa!, essa foi por pouco. Guillermo coça a parte inferior da coxa direita, o tecido felpudo do tapete começa a incomodá-lo. Ele conjectura de que forma o casamento vai lhe afetar os processos criativos, a rotina literária, como ele vai encontrar tempo e disposição para escrever o próximo livro, a grande obra, magnum opus, um livro-prefácio, prefácio tão grande que o leitor morreria antes de chegar ao texto propriamente dito, à moda Macedonio Fernández, bajula-se Guillermo, Museu do romance da Eterna, que nunca encontra sítio algum, antologia de prólogos, sim, livro-prefácio que jamais seria alcançado, introdução com quatro mil páginas, enquanto a narrativa per se teria apenas duas laudas, para não cansar as vistas do leitor, fantasia Guillermo, que prometera «colocar a caneta à obra assim que a escrivaninha chegasse». Suzana agora encosta a cabeça nos ombros do Guillermo, comentam miudezas despretensiosas sobre o álbum de fotografias da família Jiménez, ambos tentam agir como se nada estivesse acontecendo, não querem levantar suspeitas, não agora, recém-casados, muito cedo. Em cima do fogão, cujo gás ainda não fôra instalado, permanece imóvel a brochura de O amor acaba, coletânea de crônicas líricas e existenciais do Paulo Mendes Campos, composta em tipologia Electra, impressa em ofsete pela Geográfica sobre papel pólen soft para a editora Companhia das Letras, março de 2013.

— P. R. Cunha

A estalajadeira

Eu não sou uma assassina nunca fui uma assassina meu pai que deixara esta estalagem a mim e ao meu irmão mais novo costumava dizer ora filha tu não matarias nem uma mosca quiça um ser humano de forma que ainda não consigo explicar completamente o que me aconteceu àquela tarde de domingo quando o homem entrou na nossa estalagem e meu irmão mais novo que aliás se chama Durval e é talvez o rapaz mais singelo e amável e prestativo que já andara neste planeta o Durval deu as boas-vindas ao homem que usava um chapéu tipo cowboy e pediu um quarto cujo sol vespertino não batesse nas janelas e pagara três dias de forma adiantada em dinheiro vivo como se diz lá na cidade e o Durval levou as malas do homem para o quarto com sol nascente e o homem ficara trancadinho no quarto durante dois dias e nem sequer conseguíamos ouvir os passos dele e o Durval meio que comentava aos sussurros que o homem podia ser criminoso desses que surgem do nada e ficam calados à espreita calculistas só esperando o momento certo para agir e ao pensar nessas palavras do Durval sinto gelar-me o sangue fico com os calafrios até que na noite do terceiro dia o homem apareceu ainda com o chapéu cowboy a barba por fazer era um homem bonito com olho verde-claro parecia mesmo um desses viajantes solitários que tantas vezes recebemos e que passam dias inteiros num silêncio ininterrupto e que de certa forma nos agradecem por lhes dirigir a palavra mas este homem não nos agradecia não falava não olhava apenas desceu as escadas da estalagem e sentou-se no pequeno sofá da recepção que deixamos mais à guisa de decoração do que para ser utilizado propriamente e posso contar nos dedos as vezes em que um dos nossos hóspedes de fato sentara-se naquele sofá que segundo a lenda foi montado pelo nosso avô materno mas disto eu não tenho a certeza nunca se pode ter a certeza de nada e agora lá estava o homem com o chapéu de cowboy sentado no sofá montado pelo nosso avô Hofmann a mascar qualquer coisa e eu atrás do balcão a observá-lo enquanto tateava o claviculário para fingir que estava fazendo alguma atividade para não levantar suspeitas e o homem nada e o homem nada e o homem nada apenas mascava até que tudo aconteceu eu abri o pequeno armário que fica em cima do balcão e tirei a pistola que o nosso papai guardava para o caso de algum intruso indesejável se meter nas gracinhas com a gente e apontei a pistola para o chapéu cowboy e o dono do chapéu cowboy não teve nenhuma reação talvez nem tenha se dado conta de que eu estava a segurar a pistola que eu estava a apontar a pistola na cabeça dele sou boa de tiro sou muito boa de tiro costumava treinar em menina e aquela frieza glaciar do homem me deixava ainda mais furiosa e comecei a escutar um barulho forte como pegadas de um gigante era um barulho mesmo grave gravíssimo como se o Durval estivesse no andar de cima a bater uma daquelas bolas de ferro que os construtores utilizam para demolir edifícios um barulho abafado por vezes ensurdecedor e o homem com chapéu de cowboy permanecia inerte sentado no sofá Hofmann mascando e por um momento antes de apertar o gatilho acreditei que o barulho da bola de ferro vinha da boca do homem com chapéu à cowboy até me dar conta de que eram na verdade as batidas do meu coração.

— P. R. Cunha

Armazém intracraniano

O nosso cérebro é uma gaveta. Enchemos a gaveta com toda a espécie de coisas. Podemos chamar essas coisas de «informação».

No armário da casa de alguém há uma gaveta: se abrirmos encontraremos camisas, meias, uma caixa de ferramentas, joias, fotografias, etc. etc.

A gaveta não reclama, apenas recebe. Perguntamos a ela se quer ou não receber umas calças, a coletânea de enciclopédias dos nossos avós, artigos desportivos, computador, cabos. A gaveta nada diz.

Colocamos os ítens lá dentro e isso é tudo.

Claro que podemos levar em consideração as capacidades da gaveta: aguenta muito peso?, é espaçosa?, fácil de abrir?, o material é resistente?

Cérebro, gaveta de informações, eis do que estamos a falar aqui.

Ao sairmos para uma caminhada matinal, observamos os elementos à volta — os automóveis, as árvores, o voo rasante de um pintassilgo, o miúdo a chutar a bola. Estamos a preencher a nossa gaveta.

Gostava de acrescentar isto: nosso sistema encefálico não possui juízo de valor. Podemos assistir ao telejornal, escutar as sinfonias de Haydn, ler Rimbaud, acompanhar uma partida de curling. Para o cérebro-gaveta dá na mesma. Ele armazena.

Imagens: uma esponja que absorve o líquido que se acumulara na pia; o buraco negro a consumir matéria cósmica.

A pessoa que guarda para si informações trágicas, violentas, catastróficas, contraditórias, alarmantes — possivelmente deitar-se-á na cama com pavores. Tem sonhos intranquilos. Acorda com as angústias.

Abrimos novamente a gaveta desse ser humano afoito e dizemos: paletó já muito fora de moda, meias furadas, a bermuda não lhe cabe, o martelo está sem cabeça, etc.

— P. R. Cunha

Entropia

A pedra sente a água do rio passar-lhe pelo corpo. A pedra percebe que o momento, o breve instante em que o rio lhe acaricia é único, pois a correnteza possui uma só direção: ida. As águas jamais se repetem.

— P. R. Cunha

Sonhador

Para a Jéssica Fernandes Cunha

I
A rede branca
com tranças de algodão
oferece o átimo de repouso
linha do horizonte
percebem-se
aléns-fabulosos
onde todos os conflitos
estão resolvidos
mesmo que
momentaneamente

II
Um longe feito
de iras e acalmias
o brilho de uma borboleta
fugidio —
cimos de árvores
retorcidas pelas
estações imperfeitas

III
Acolhimentos futuros
a luz d’outro mundo
outra dimensão
fito o meu reflexo
na superfície ondular
da piscina
rosto estranho
como um cometa que
acabara de cair da lua
não é poeta
é ser humano.

— P. R. Cunha


Volante ligeiro entre os dedos da mãe

6h47. A mãe está dentro do automóvel, ela tenta manobrar para sair da garagem da casa. O pai ao jardim segura a filha no colo, observa. Os vidros fechados e embaçados do automóvel. A mãe passa um pano laranja para desembaçá-los. A cena do pai a segurar a filha no colo parece comovê-la. O pai levanta os bracinhos da filha enquanto diz com voz de desenho animado: tchau, mamãe!, tchau, mamãe! A menina sorri e balbucia: mã-mã. A mãe respira fundo, pisa levemente no pedal do acelerador. O automóvel desaparece depois de virar à esquerda.

— P. R. Cunha

Poetisas loucas

Yorick vai para férias e me convida para uma partida de xadrez.

Sei que tu andas a jogar todos os dias, ele me diz, portanto, pega leve, estou enferrujado.

Jogo contra o telemóvel, eu digo, o cérebro humano é outra coisa.

Sentamos ao tabuleiro que Yorick montara na varanda da própria chácara. Faz um frio aprazível e o céu se mostra tão azul quanto as nuvens do planeta Netuno.

Gosto de estar cá fora, ele diz, traz-me sempre boas recordações.

Acendemos os nossos respectivos cachimbos e ficamos a observar as peças de madeira dispostas sobre a superfície quadriculada.

Uma espessa fumaça sai da extremidade do cachimbo do Yorick: acho que tenho um fraco por poetisas loucas, ele diz, fico alucinado.

Eu faço que sim com a cabeça: compreendo.

Yorick desloca o cavalo branco [Nf3].

— P. R. Cunha

Baileys Irish Cream

Um gole de Baileys
apazigua os pensamentos
em total sossego
escrevo este poema
com caneta do espírito
negra como as sombras
abre-se diante de mim
a infinitude universal
luas prateadas
o vazio entre as estrelas
que há muito já se foram
e enquanto nesta fuga imaginada
eu fixo o olhar no líquido
percebo que não é à toa
Baileys e espaço sideral
possuírem a mesma média de cor
leite cósmico
cosmic latte.

— P. R. Cunha