Uma vez que temos um encontro marcado com uma amiga

Não é fácil de explicar quando (e como) é que o escritor ultrapassa de fato a fronteira para a chamada maturidade. Isso pode acontecer até bem cedo, depois de uma qualquer tragédia que lhe causa traumas — as chamadas cicatrizes da alma. Ou bem tarde, quando já é tarde demais. A escrita, como repetiram muitas vezes, é lá uma arte solitária, e quem a pratica está quase sempre muito particularmente só consigo mesmo. Daí a dificuldade de se perceber alterações. Há também quem defenda o alastramento da ingenuidade; que o escritor livre das mazelas do mundo adulto (i.e. real [?]) tem mais chances de anotar textos honestos. É a romantização do asceta, do retirado, do melancólico, da eterna criança. Imprescindível lembrar que apesar dos esforços de se permanecer completamente alheado, o monge lida lá com alguns seres humanos — e, como costuma ocorrer, cria laços, mesmo que sem muitas complexidades. Aqui o problema é orgânico: as pessoas simplesmente morrem. E não há antídoto eficaz para curar as dores da saudade. Quer dizer: não importa a fortaleza que se cria, o tamanho da murada, a finitude dará sempre um jeito de invadir o bunker do escritor. Rezam as crônicas que somente depois dessas provas, de lidar com a decadência dos queridos, lidar com a própria morte, com a imprevisibilidade da morte, e sentir o gosto de ferrugem que ela deixa atrás de si, somente depois disso o escritor entraria para a fase madura — fase em que não brinca mais com fadas, mas com fantasmas.

— P. R. Cunha

Crenças equivocadas produzidas por cérebros em exageradas tentativas de estabelecer conexões — ou as demandas de um qualquer relacionamento

Para Mauro Belmiro

Talvez devêssemos confiar no
testemunho de muitas gentes,
gentes da literatura,
vocês sabem,
dos fazedores de livros.
Que lá dizem ser raro,
encontrarmos alguém.
Alguém com quem estejamos
bem-dispostos a nos relacionar.
Bem como ela
conosco.
Ou como dissera
certo filósofo
do pessimismo:
que observava homem feio
estúpido,
rude.
Passar à frente de rapaz
talentoso, dos melhores modos.
Afável.
Por quê:
Excessivo poder mental,
ele diz,
ou até genialidade,
podem agir desfavoravelmente.

— P. R. Cunha

Lírios alaranjados

O avô do Monte era um cara incrível, foi com ele que aprendi a beber. Certa vez estávamos sentados na varanda da casa do Monte, e o avô dele chegou com quatro garrafas de cerveja, abriu uma para si e nos entregou as outras. Nós tínhamos doze, treze anos. O avô do Monte desabou-se na rede e ficara olhando para nós três. Podem beber, ele disse. Demos um gole curto. O Lídio cuspiu tudo fora, o Monte mostrava-se tranquilo, despreocupado, fez até pose na hora de levantar a garrafa. De certo que o avô já lhe havia iniciado no universo etílico. O grisalho ancião levantou-se, enxugou a boca com as costas das mãos, perdeu um pouco o equilíbrio e ficou parado perto de um jarro de flores laranjas: aprendi isto com o meu pai e gostava de transmiti-lo a vocês também. Ele então ensaiou um sorriso debochado e disse: se for o caso de se embebedar pela manhã, mantenham-se perto dos lírios alaranjados. A verdade é que jamais consegui compreender o significado desse conselho estranho. Mas o avô do Monte era sem dúvida um cara incrível.

— P. R. Cunha

O homem embaixo da terra

Poucos lugares no mundo são mais desoladores e melancólicos do que a garagem do prédio onde moro às três horas da manhã depois de uma noite de bebedeiras voltadas ao esquecimento total. Quando a única companhia é um hidrante vermelho grudado na parede perto dos elevadores e a trilha sonora se faz do zumbido apático das lâmpadas fluorescentes que, pelos vistos, não são trocadas há anos. O que se passa na minha cabeça: que um homem pode levar a vida inteira obedecendo todas as regras, e aí de súbito já não importa mais nada.

— P. R. Cunha

Mapa

Eis um singelo atalho para as seções mais importantes deste sítio  —

Estilo de escrita
Teatro
Ensaios
Quarta nota
Fotografias
Músicas
Vídeos
Короткий рассказ (contos em russo)
Prémio Aldónio Gomes
Lojinha
Conta(c)tos

Pensou que talvez devesse tomar algumas providências a respeito do modo de se vestir para que o levassem mais a sério

Estar num estado de muita euforia (ou alienação patológica) para se cortejar as musas melancólicas sem correr o risco de perder completamente os botões, etcétera. Só os contentes, como se sabe, anotam para si as poesias taciturnas. Ocorrera qualquer coisa parecida com aquele escritor da miúda Alcalá de Henares, tipo estranho que nascera uns bons cinco séculos antes de o Doktor Freud criar os alicerces da chamada «ciência das almas». Pois que a loucura era freelancer nos campos do fidalgo Miguel de Cervantes Saavedra, pai do Quixote. Flerta com a maligna, dia-e-noite, por anos, instiga, cutuca, tira-a do sério. Até que a jaula se abre e o pobrezinho busca abrigo na casa da vovó, que está enferma, cá não fica por muito tempo. Alguma tia irascível, com rugas de dores & pavor a desenhar-lhe o corpo inteiro, de longe, quase não se escuta a megera: eu bem que avisei — ela diz. E esta constatação (ficou lelé, o sobrinho das letras) pareceu lhe proporcionar um regojizo imenso.

— P. R. Cunha