Sr. Anselmo – parte 1

O sr. Anselmo gosta de observar a cabeça das pessoas. Ele matuta consigo mesmo: vejo essas pessoas, e elas têm cabeça, e dentro dessa cabeça há um cérebro — sr. Anselmo aponta o indicador para o próprio crânio, dá duas leves batidinhas —, cérebro. Mas o que realmente inquieta o sr. Anselmo é o facto de que, apesar de toda a gente possuir cérebro, muitos preferem anulá-lo e escravizam-se ao cérebro dos outros. Passividade, costuma dizer o sr. Anselmo, é uma ilha vulcânica. Onde a calmaria e o conforto nada mais são do que presságios de catástrofes.

— P. R. Cunha

A lei marcial

AVISO: este é um excerto de ficção, qualquer semelhança com factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Disseram que seriam apenas alguns dias, «até que tudo se normalizasse». Mas os dias se tornaram semanas, semanas viraram meses, e os meses ainda se alastram em anos. Primeiro fecharam as escolas, depois os estádios, as bibliotecas, os parques, as praças, os cinemas, as lojas, o espaço aéreo, as rodovias, os teatros, as livrarias, os cafés, as fronteiras, e de repente nada mais era essencial. Para a vossa segurança, garantiram, é para a vossa segurança. De suma importância ficar em casa enquanto cuidamos direitinho da calamidade, vegetar em casa enquanto aprovamos as leis mais estapafúrdias, enclausurar-se em casa enquanto introduzimos os antídotos bilionários. Parados, atônitos, perdidos, à espera, «até que tudo se normalizasse». Agora vejo-me amaldiçoando a tal normalidade, e enfurecido sento-me para tomar estas notas, decidido a enlouquecer enquanto tomo estas notas, perder os botões de vez, como se diz. Após alguns minutos de escrita, porém, a angústia retorna e não dou mais conta de tomar nota nenhuma. Com trejeitos conspiratórios arrasto-me para a janela. Abro uma brecha na cortina e como se eu fosse um criminoso — e talvez eu seja mesmo um criminoso — espreito a vizinhança deserta. Os drones com barulho de enxame de vespas sobrevoam os telhados. Tudo é sombrio e pequeno. Tudo foi feito diante do nosso nariz. As regras foram alteradas diante do nosso nariz. O medo insano foi instaurado diante do nosso nariz. A bota do totalitarismo diante do nosso nariz. Do outro lado da cidade, percebo as luzes dos apartamentos acesas. Fico a imaginar se esses blocos ainda são habitados por gente, ou se deixaram as luzes acesas apenas para sugerir uma qualquer normalidade. Atrás dessas colunas verticais que cortam o crepúsculo, uma nuvem morosa se aproxima. Enquanto aqui perto, dois soldados sinistros marcham no meio da rua. Levam cigarro na boca.

— P. R. Cunha

A vovó

Minha avó paterna vai completar noventa e três anos. Ela já passou por guerras, ditaduras, recessões, milagres econômicos, pandemias, surtos imobiliários, ameaças nucleares («1962, crise dos mísseis, talvez o pior momento da minha vida», vovó comenta). Há pouco tempo ela descobriu que tinha câncer no ovário. A família toda ficou triste e ela sorria: não sei por que cargas vocês estão tristes. Quinze meses depois, vovó estava curada. Noventa e três anos, vejam bem! E quando se arriscam a perguntá-la «afinal, qual é o segredo?», ela cerra as pálpebras como quem já tivesse escutado essa pergunta imensas vezes: comam o que quiserem, bebam o que quiserem e não acreditem no que os jornais dizem. Noventa e três anos.

— P. R. Cunha

A luz

O homem que mora dentro do farol marítimo a viver uma silenciosa, sedentária e solitária existência consigo mesmo, a ler vasta biblioteca de estudos oceânicos, a apontar a lente do monóculo aos barcos que vão-e-vêm, ou mesmo às estrelas, às crateras da Lua — que oferecem-lhe à noite uma pontada sutil no coração —, possui pouco, possui muito, possui o bastante, não deve nada a ninguém, não tem filhos para sustentar, esposa para agradecer, um mero espectador, como diria um antigo, sim, o homem que mora dentro do farol marítimo, um mero espectador dos infortúnios dos seres humanos, das aventuras, desventuras, de toda a gente, como agem, agiram, como devem agir, como devem seguir as ordens, como devem ler o noticiário, os rumores de guerras, de pragas, incêndios, inundações, assaltos, pandemias, bombas, assassinatos, massacres, meteoros, cometas, fantasmas, prodígios, cidades sitiadas, moradores trancafiados, gritos, denúncias, vigilâncias, tempos tempestuosos, tempos de vírus, piratarias, navios afundados, histeria, inimigos imaginários, prédios abandonados, alarmes falsos, ambulâncias, confusão, contradições, desejos, sirenes, ações, forças armadas, petições, processos, leis, proclamações, novas capas de jornais a cada manhã, novos panfletos, ataques, dores, lágrimas, mentiras, aproveitadores, manipulações, tropas de choque, opiniões, achismos, ódio, filosofias controvérsias, direitos, novos paradigmas, soluções, etc., casamentos cancelados, famílias enjauladas, parques vazios, praias vazias, funerais vazios, drones, bailes vazios, cremação, morte de príncipes, princesas, plebeus, traições, vacinas, roubalheiras, troféus, mentiras, bandidos, medalhas, retrospectivas, novas descobertas, velhas curas, outras doenças, futuros presidentes, outros governos, homens depostos, mulheres depostas, as devidas honrarias, o dinheiro, os bancos, o robô, os créditos, as empresas, os hospitais, a inteligência artificial, os interesses, e, de novo, as mortes, os números, as mortes, os gráficos, os casos, as causas, as mortes, as simulações, os famintos, os dados, as mortes, os ricos, os que precisam, os que nunca precisaram, as risadas, as brincadeiras, o choro, o tédio, o nada.

— P. R. Cunha

A dúvida

No inverno de 2015 trabalhei numa farmácia de manipulação, diz Horácio. Eu dividia o turno da manhã com o sr. Panucci e com a Luana. Chegávamos bem cedo e precisávamos de nos reunir com o dono da farmácia. O dono da farmácia explicava que o cliente sempre tem razão, devemos tratar o cliente da melhor forma possível, mesmo se cliente se portar da forma mais odiosa possível. Etc. Lembro-me também que a Luana tinha acabado de perder a filha caçula, e apesar da raiva e das dores agudas que sentia no próprio peito continuava a distribuir sorrisos para a clientela. A farmácia de manipulação, diz Horácio, ensinou-me a duvidar de todos os sorrisos.

— P. R. Cunha

O romance

A paciência nos dá livros, diz um antigo provérbio. Eu ainda não sei realmente o que é um livro. É sobretudo uma coisa com páginas, e palavras, coisa que é como é e que depois já são duas, três quatro coisas. Julga-se um livro pelo tamanho?, pela complexidade?, gênero?, relevância? Quando cada um procura descrever o livro, explica-se, exemplifica-se, defende-se, propaga-se — cada um acredita estar a explicar o que é um livro «de verdade». Só que nunca lá se encontra nenhuma verdade absoluta. Um livro que começamos a ler e não o terminamos, pode/deve ser considerado um livro? Certo dia sento-me à escrivaninha e escrevo um capítulo, noutra semana escrevo mais dois capítulos, depois oito, quinze capítulos. O livro se encorpa, digo a mim mesmo. Até que, numa determinada ocasião, dou-me conta de que: sim, concluí o romance, um romance devastador, algo de muito genioso saíra da minha cabeça. Que prodígio. Bem verdade que o honesto manuscrito necessita de alguns retoques, mas, no geral, está pronto para ser embrulhado e despachado alhures. Ontem à noite, por exemplo, comprei canetas novas. Chegar-me-ão pelos correios.

— P. R. Cunha

O violoncelo

Para a Marcella Cunha, minha irmã

O violoncelo é um instrumento robusto. Se — a título de entretenimento — colocássemos roupa humana no violoncelo, ele ficaria parecido com uma pessoa de estatura mediana. Inclusive, a forma como o violoncelista toca o violoncelo lembra muito a maneira que duas pessoas se abraçam. O violoncelo parece um contrabaixo, mas não é um contrabaixo, é outra coisa. O violoncelista experimenta sons no violoncelo, aperfeiçoa-se com o tempo. Numa altura, violoncelista-e-violoncelo parecem um só organismo. O violoncelista dedilha as cordas do violoncelo e acredita-se um deus acústico. O prazer que sente o violoncelista ninguém lho tira. Podem jogar maçãs no violoncelista, baldes d’água, terra, lama, podem cuspir no violoncelista que ele continuará tocando. E mesmo que o teatro lhe caia sobre a cabeça, e o aglomerado de pedras, cascalhos e areia comece a lhe sufocar, ele continua tocando.

— P. R. Cunha