O jantar

Os dois estavam dentro do automóvel, ainda muito impressionados com o que acabara de acontecer durante o jantar. Ela talvez um pouco mais do que ele. Ele já tinha visto qualquer coisa parecida na internet, num sítio web pornográfico, relacionamentos ciborgues, ou algo assim. É claro que nunca é a mesma coisa quando acontece com alguém próximo, um amigo de juventude, por exemplo, um tipo que sempre fora admirado — e invejado — por muitos, e que era considerado uma espécie de sedutor congênito, sedutor de moças finas, elegantes, não de bonecas, bonecas com aquela aparência assustadoramente humana, com aquele jeito estranho de mexer o «corpo», um amontoado mecânico com pele sintética. Como diz a música dos Smiths: it’s too close to home. Situações bizarras costumam acontecer longe, nos programas de televisão, naquelas séries extravagantes da National Geographic, Discovery Channel. Mas daí que acontece com um amigo de juventude, um sujeito sério, sem nenhum vestígio de insanidade, um homem saudável, portanto, que resolve casar-se com uma robô sexual e fica-se sem saber ao certo como agir. O dedo indicador dela tocava os lábios, ela olhava pela janela, incrédula, balançava a cabeça de forma irônica, um lado para o outro. Ele às vezes tentava passar a marcha, esquecendo-se de que o automóvel dela tinha câmbio automático. E quando ele fazia isso, não conseguia deixar de perceber brevemente o decote da saia dela. Ele ria-se por dentro. Mesmo depois dos maiores absurdos, a libido humana ainda dava lá um jeito de se intrometer. Que coisa mais esquisita, ela disse para o nada. Ele fez um leve movimento com os braços, rendendo-se, como se quisesse concordar mas sem encontrar palavras para fazê-lo. Eu bem podia esperar isso do Harry, ou do Kevin, mas do George!, ela disse enquanto as luzes dos postes apareciam e desapareciam, justo o George…

— P. R. Cunha

Contra dicções

Em tempos de colégio tínhamos um treinador de futebol muito rigoroso — era o Mr. Bryan. Nunca se mostrava satisfeito. O Mr. Bryan era do Canadá, Québec. Vocês precisam de treinar mais, ele dizia. E mais. E mais. Numa altura chegamos a vencer quatro dos cinco torneios escolares disputados, e o Mr. Bryan ficou possesso porque não vencemos os cinco. Éramos para ter vencido os cinco, ele disse. Anos depois, encontrei-me com o Mr. Bryan num café arborizado. Os cabelos grisalhos, as rugas marcavam vales no rosto do canadiano. Contou-me que pouca gente o visitava em casa, pois onde ele morava havia uma quantidade absurda de mosquitos.

[…]

Imersão em trabalhos criativos, preocupar-se mais com os outros (com os estranhos, especialmente), tirar sarro da condição humana (ri-se na cara do absurdo, como se diz), escrever a respeito das próprias crises, procriar (ter filhos, adotá-los), cuidar da saúde, evitar os comportamentos obsessivos, viver melhor, viver mais, o marinheiro que ganha «uma noite ao bordel do vilarejo» antes de ser enforcado pelos outros marinheiros, viver melhor do que os pais, superar os pais, fazer parte de algum clube (group membership), ser menos intolerante com as religiões, resgatar o álbum de fotografias da família esquecido ao sótão, praticar desportes radicais/perigosos (paraquedismo, escalada em montanhas íngremes [sem o equipamento adequado]), experimentar drogas exóticas, cair ao abismo do álcool, cultivar múltiplas personalidades, negar a morte.

— P. R. Cunha

Condição científica

Cientista da Bulgária descobriu que possuía uma estranha condição: assim que ele aprendia alguma coisa, o cérebro dele crescia um bocadinho.

Era mesmo só um bocadinho, algo quase imperceptível. Mas acontece que cientista é ávido por conhecimentos. E, como toda a gente sabe, quanto mais sabemos, mais queremos saber.

Ciclo vicioso.

Numa altura cientista havia já estudado tanto, aprendido tanto, acumulado tanto que o próprio cérebro ficara pesado demais para que ele conseguisse carregá-lo.

Hoje cientista não sai de casa, fica com a cabeça encostada sobre uma mesa de mogno, a refletir.

— P. R. Cunha

20/20

Wuhan, epidemia, coronavírus, Luanda Leaks, vulcão Taal a encher as Filipinas de cinzas, Roberto Alvim a vestir-se de Goebbels 75 anos depois de Aushchwitz, helicóptero do Kobe Bryant, chuvas em Minas Gerais, economia sem rumo, assessor do Planalto a fazer voos exclusivos numa aeronave da Força Aérea Brasileira, o mundo insatisfeito com a democracia (segundo a Universidade de Cambridge), a crise hídrica, sismo às Caraíbas de 7,7 na escala de Richter, exércitos digitais, quarentenas, Donald Trump a mediar plano para a criação de um Estado palestiniano, Palestina a recusá-lo… 

E janeiro ainda nem se acabou.

— P. R. Cunha

Ruído vermelho

Ele acordou com o barulho das sirenes lá fora. Como que por reflexo, virou-se para o relógio com números digitais verdes: 3:42 AM.

A verdade é que ele nunca conseguia distinguir ao certo se eram sirenes da polícia ou da ambulância médica. 

Às vezes ele voltava a fechar os olhos bem depressa e concentrava-se o máximo que podia para perceber os últimos vestígios do efeito Doppler.

Barulho de sirene a desaparecer…

Ele imaginava perseguição de automóveis, algum criminoso hostil que acabara de fugir da penitenciária juntamente com outro bandido que dirigia uma espécie de carro esportivo retrô, conversível, tipo Lincoln Continental 1961, aquele em que o F. Kennedy fora assassinado. 

Nessa altura ele arriscava-se a pensar que eram sirenes da viatura policial. Só podiam ser.

Noutras vezes ele visualizava uma velha senhora a morar sozinha porque havia sido abandonada pela própria família, e levantara-se de madrugada para preparar sandes de fiambre com queijo, quem sabe também uma chávena de chá de hibisco, e a senhora descia as escadas com todo o cuidado do mundo, como se diz, até escorregar-se no estofo desencaixado do quinto degrau (contando de cima para baixo) e cair de cabeça ao soalhado.

O sangue a escorrer, essas coisas da praxe.

Daí ele dizia para si mesmo que eram as sirenes da ambulância.

Confortava-se ainda com a ideia de que foi imensa sorte os paramédicos terem, de alguma maneira, ido até ao apartamento da velha senhora para resgatá-la. Possui a vaga premissa de que a velha senhora tinha mandado instalar um daqueles dispositivos de segurança cujos comerciais mostram uma debilitada dama grisalha ao chão a dizer em inglês: I’ve fallen, and I can’t get up!

Ele perdera as contas de quantas vezes assistira a esse comercial na altura em que morava para New York City, época 1989/1990.

Intercâmbio estudantil, o estresse era muito.

Curioso notar, inclusive, que a namorada dele a dormir ao lado nunca teve assim um sono tão sensível e não acorda com as sirenes — quer sejam sirenes de polícia ou de ambulância médica.

— P. R. Cunha