Esta história aconteceu de verdade

Claire e Victor receberam um considerável aumento de salário e decidiram que era altura de se mudarem para uma casa no subúrbio. A mudança será boa para todos nós, disse Claire enquanto guardava livros dentro de uma caixa de papelão. Ela fechou a caixa com fita adesiva e continuou: principalmente para a Lorena, e podemos tentar nos esforçar mais para fazermos a festinha dela na casa nova, o que achas? Victor sentou-se na cama, fitou o quarto onde dormira durante quase uma década: seis anos, Claire, a nossa pequena vai fazer seis anos… nem consigo acreditar. Claire agachou-se e beijou a bochecha do marido: vai dar tudo certo.

Victor carregou o resto das malas para a furgoneta. Claire apareceu com Lorena no colo: Lorie não está se sentindo muito bem. Victor abriu a porta do automóvel para elas: deve ser o estresse da mudança. Deve ser, disse Claire enquanto se ajeitava na poltrona. Victor segurou o aro do volante e com um entusiasmo que soara um bocadinho artificial disse: aqui vamos nós.

Chegaram. O portão estava aberto. Victor estacionou a furgoneta na pequena estradinha de paralelepípedos que leva até à garagem. O antigo dono da casa estava esperando perto da porta de entrada. Oh, aí estão vocês, ele disse. Victor abaixou a janela e acenou com as mãos: senhor Pedro!, demoramos? De forma alguma, chegaram bem na hora, ele respondeu.

Entraram na casa. Claire segurou o braço do marido: vou levar a Lorie para o quarto, acho que está com febre. Quer ajuda, perguntou Victor. Não precisa, disse Claire enquanto subia as escadas. Pedro apenas observou a cena sem esboçar qualquer reação.

Pedro e Victor sentaram-se no sofá que a empresa de mudanças trouxera no dia anterior. Pedro tirou um molho de chaves do bolso e entregou para Victor: estão todas devidamente etiquetadas, as etiquetas verdes indicam que são chaves do interior da casa, as amarelas que são chaves do exterior da casa. Victor ficou a olhar para as chaves durante alguns segundos. Alguma pergunta?, disse Pedro. Victor não respondeu. Ei, alguma outra pergunta?, insistiu Pedro. Como se acordasse de um transe, de uma viagem psicodélica, Victor se assustou: não, não, não, senhor Pedro, está tudo certo.

Claire desceu as escadas e os dois se levantaram do sofá. Victor balançou o molho de chaves como se dissesse: é nossa!, a casa é finalmente nossa! Pedro ergueu os braços: bom, acho que está mesmo tudo resolvido. Despediram-se. Victor foi ligar a geladeira na cozinha, Claire ficou na sala imaginando onde colocaria o restante dos móveis.

Victor aproveitou para arrumar algumas gavetas também. Separou os garfos, depois as facas, abriu a torneira a ver se saía água. Estava prestes a começar a organizar as colheres quando ouviu a voz da esposa: ei, Victor, vem até aqui rapidinho.

Claire olhava para a escada como se não acreditasse no que estava vendo. Lorena tinha colocado a fantasia de princesa e sorria de forma radiante. Victor aproximou-se da filha para segurá-la no colo: vejam só quem melhorou! Claire parecia preocupada. Lorena abraçou o pai: papai, será que eu podia convidar um amiguinho novo para o meu aniversário? Victor beijou a testa da filha e virou-se para Claire: amiguinho novo, querida? É, papai, disse Lorena, diz que sim, por favor, por favor!

Na manhã seguinte, antes de descer para preparar o pequeno-almoço, Victor aproximou-se do quarto da filha. Escutou a inconfundível vozinha nasalada a conversar com alguém. Victor abriu a porta e viu Lorena de costas: Lorie, com quem estás conversando? Ela virou-se para o pai: com o Hugo, papai, ele ainda quer saber se vai ser convidado para a minha festinha de aniversário.

Mais tarde, Victor comentou com Claire sobre o que tinha acontecido. Estranho, ela disse, muito estranho, Lorena nunca foi disso. Victor encheu a chávena de café: sabes, ela andou lendo um daqueles livros de vampiro que a tua irmã deu de Natal. Claire largou o prato na mesa: lá vem de novo, Victor, agora a culpa é da minha irmã, é sempre culpa de alguém da minha família. Victor não sabia como lidar com a situação, nunca soube: não estou dizendo isso, Claire, só sei que a nossa filha anda conversando com um amigo invisível e isso está a me dar nos nervos, só isso.

Victor buscou Lorena na escola. Ela parecia triste. O que foi, princesinha?, perguntou Victor olhando pelo espelho retrovisor. Lorena não disse nada. 

Chegaram em casa e a menina subiu correndo para o quarto. Claire fitou o marido. Também subiram as escadas e ficaram a ouvir atrás da porta da filha. Lorena estava chorando. Dizia que não importava o que eles achavam, a festinha é minha, eu convido quem eu quiser, é claro que você está convidado, Hugo, você é meu amiguinho agora. Sem fazer barulho, Victor e Claire desceram para a sala.

Os dois permanecerem em silêncio por um tempo. 

Como é mesmo o sobrenome do senhor Pedro?, Claire perguntou enquanto abria o laptop. Por quê?, disse Victor. Anda, Victor!, qual o nome inteiro dele. Alencar…, Pedro Alencar Viana. Claire digitou o nome no Google. As primeiras buscas mostravam dados irrelevantes sobre a vida do antigo proprietário da casa, até que quase ao rodapé da página uma notícia chamara a atenção de Claire. Ela puxou o marido pela manga da camisa: olha aqui! — ACIDENTE DOMÉSTICO MATA FILHO DE ADVOGADO. Antes que Claire se mexesse, Victor clicou no link da notícia. O jornal comentava sobre uma terrível tragédia que teria acontecido no dia 14 de outubro de 1998, quando Hugo Alencar Viana, filho mais novo do insigne advogado Pedro Alencar Viana, escorregara da escada e morrera antes mesmo de chegar ao hospital.

— P. R. Cunha

Maneira de praticar uma operação

Antes da escrita (do acto propriamente dito, como dois amantes que se preparam para uma noite de núpcias), a insistência em se ter o mínimo de tecnologia digital sobre a mesa — nada de controle remoto do ar condicionado, carregador, telemóvel, nenhum aparelho que precise de pilha/bateria para funcionar. Cercar-se de objetos analógicos (livros, esferográficas, bloco-notas, lápis, borracha, fotografias reveladas [como antigamente {uma 3×4 da minha namorada}], a biografia do Nietzsche escrita pelo Rüdiger Safranski, caneta corretiva «shake’n squeeze» fora da validade [JUN/2019]). Pequeno almoço: bandeja com café, biscoitinhos amanteigados, sande de queijo. Caso esteja a escrever qualquer coisa para o sítio web, só depois, bem depois, tiro o computador da maleta, abro o editor de texto, datilografo as anotações. A fonte do meu editor de texto imita a tipologia de uma máquina de escrever. Sim, sou ridiculamente contraditório. Tenho a certeza de que outros seres humanos desenvolveram rotinas mais eficientes (eficazes[?]) do que a minha (é tirar o telemóvel do bolso e não se preocupar com tretas, porque ali já se tem tudo). Acontece de eu ainda encontrar muito conforto nesse arcaico modus operandi. Como se o meu cérebro estivesse constantemente preparado para alguma catástrofe nuclear, quando só me restariam os pedaços de concreto dos prédios arruinados e a superfície amorfa da areia para descrever os meus pensamentos.

— P. R. Cunha

Retrospectiva

It’s cold I’m afraid
It’s been like this for a day
The water is rising and slowly we’re dying
We won’t see a light again.
—  The Kursk

Segundo a machine-deep-learning-Spotify, Drinking songs do Matt Elliott foi o álbum que mais escutei durante os meses do já nostálgico 2019. Um pouco como entrar numa bebedeira sem a necessidade do bilhete etílico (mas tudo bem se estiveres acompanhado de um copinho ou outro). Os arranjos te levam ao longe, ao pub esquecido em falésia irlandesa, com o Atlântico a perder-se no horizonte anuviado. E depois tu voltas, um outro alguém. A mim me parece que é bem esta a função da arte, qualquer arte. Entornar, quebrar garrafas invisíveis, salvar-se do submarino à deriva. Voltar um outro alguém.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #50)

aqui terminam-se os devaneios da própria máquina de escrever. ao quinquagésimo ato, o ponto final, o recomeço, as repartidas. os «adeuses».

[…]

a casa onde os teus pais moravam
em niterói não existe mais
é apenas um terreno com entulhos
& restos & sobras & bichos rasteiros &
quem passa pelo terreno não consegue perceber
que numa altura
ali existira um lar
ao passo que hoje tu estás sentadinho à mesa
n’outra construção
no teu escritório
tu observas as paredes
as prateleiras
os teus livros em pé
sim as tuas coisas
a tua morada
estão ainda em pé
quando a memória te escapa
& não consegues mais imaginar como era a casa
de niterói
dos teus pais
a fachada é nebulosa
não te lembras dos quartos
da cozinha
se às traseiras havia jardim
começas então a dar pancadas na cabeça
a ver se a geringonça
recupera a estabilidade
porque às vezes só há mesmo ruínas
do passado
do futuro.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #48)

eis o relato de um «milagre natalício». na manhã do dia 24 o meu amigo ortega telefonou-me & disse: francisco, sei que não tens sítio para ir este natal, então vou te levar à festa de uns conhecidos. quando chegamos à festa, ortega me apresentou a duas senhoritas. eu disse: nada mau, nada mau mesmo. mas há sempre qualquer coisa. um sujeito meia-idade aproximou-se & pediu ao garçom duas doses de johnnie walker, outras três de gordon’s. ele queria impressionar. as senhoritas levaram as mãos aos lábios & ao próprio coração: senhor, nós nem bebemos. meia-idade disse: são para mim. todas as doses?, perguntei. sim, todas, ele disse. a atmosfera, obviamente, ficou pesada como um búfalo, mas permanecemos ali, acho que à guisa de decoro. as doses chegaram, meia-idade colocara-as em cima da mesa, perto de uma taça de vinho cheia. ele tomou um gole de johnnie walker & disse: eu gosto mesmo é de ler filosofia, história das guerras (pausa), literatura ficcional não me agrada. daí ele começou a vomitar umas datas aleatórias, confundia voltaire com rousseau, achava que nietzsche tinha morrido durante a segunda guerra mundial, fez apologia aos combates nas trincheiras, garantiu que não se fazia mais soldado como antigamente. as moças estavam muito aborrecidas & olhavam para mim & pareciam dizer: francisco, faz alguma coisa, isto aqui está um inferno, isto aqui não dá & tals. mas eu não sabia o que fazer para livrar-nos daquele sujeito. até que o espírito natalício arquitetara o milagre. meia-idade estava prestes a começar extenso monólogo sobre a quantidade de livros que lera em 2019 quando virou-se para pegar outra dose de johnnie walker (ou de gordon’s, já não me lembro) & esbarrou o braço na taça de vinho. meia-idade gritou: merda! o vinho sujara toda a roupa branca dele. segurei as senhoritas pelo braço & disse: senhor, não se preocupe, iremos buscar ajuda imediatamente, fique bem aí onde o senhor está, não se mexa em hipótese alguma &tc. &tc.

— p. r. cunha