Pensamentos (aparentemente) arbitrários de um tipo satisfeito com a própria fazenda literária

§ No início dos anos 2000, comprei um telescópio refrator de 110 milímetros com o objetivo de observar as ondas atmosféricas de Júpiter, os sombrios anéis de Saturno, e talvez até descobrir algum asteroide tinhoso que pudesse atingir a Terra — ao qual eu daria um qualquer nome latinizado: Paulus Renatus Letalis.

§ De modo genérico, quem adquire um telescópio refrator de 110 milímetros está basicamente a dizer: sou amador, sim, mas não quero apenas brincar de Nicolau Copérnico. Trata-se de um tipo com certa disciplina, que gosta de analisar os astros celestes com afinco, e no entanto não pretende pôr as receitas (e a sanidade) da própria família em risco largando tudo (emprego etc.) para se transformar num astrônomo a tempo inteiro.

§ Meus pais formaram-se em medicina, de forma que, em criança, não tive uma biblioteca repleta de romances e outros gêneros de ficção. Por vezes eu entrava às escondidas na Sala de Pesquisa, que era como papai costumava chamá-la, e abria aleatoriamente um livro de anatomia só para me deparar com fotos e ilustrações de doenças estranhas, e corpos deformados, e peles com hematomas inacreditáveis.

§ Passei muitos anos a lamentar essa lacuna na minha chamada «Formação de Ficcionista». Lia e ouvia histórias incríveis de autoras e autores famosos que em criança tiveram à disposição verdadeiros haréns literários, mais de mil obras dos mais diversos expoentes da tal literatura-que-vale-a-pena. Os meus pais ofereceram-me, no entanto, bibliografias minuciosas sobre a candidíase, a história da urologia moderna, como curar a infecção urinária, os sintomas do cálculo renal, tratamentos adequados das disfunções miccionais e não só.

§ Falando retrospectivamente, não é de assustar o facto de eu ter me tornado um escritor com inclinações lunáticas.

— P. R. Cunha

Paraquedas canadiano

Esta breve nota — à laia de introdução — pretende falar apenas o absolutamente necessário.

Creio que quem se mete a escrever literaturas possui dentro de si um honesto impulso para comunicar. O desafio, portanto, é construir obra coerente que consiga transmitir de alguma(s) forma(s) o que se passa dentro da maquinaria escritora. 

Projetar o livro, levar por diante o livro, concluir o livro e talvez receber respostas de leitores atenciosos. Eis do que se trata.

Quando li (e reli, e reli…) a resenha do Emanuel Melo a respeito do meu Paraquedas, senti aquela reconfortante certeza de que minhas entranhas não foram expostas à toa. As inquietações que compartilhei chegaram a um destinatário disposto a recebê-las, ou melhor, a absorvê-las, a digeri-las. E este diálogo distante, um bocadinho onírico, tipo message in a bottle, constitui, no meu simples modo de ver, a maior distinção para uma obra literária.

Compartilho na íntegra o texto do Emanuel (in English); e se quiseres apreciar com serenidade os mais singelos apontamentos canadianos de um Torontonian Azorean writer, podes acessar o electro-sítio: thetorzorean.com

— P. R. Cunha   


Paraquedas/Parachute
By Emanuel Melo

Paulo Renato Souza Cunha is a young Brazilian writer, poet, photographer, and musician: a truly modern Renaissance man. He was the winner of the VII Prémio Aldónio Gomes  for his book, Paraquedas – um ensaio filosófico, published in December, 2018, by UA Editora/Universidade de Aveiro. He made the trip from Brazil to Portugal where he joyfully received his literary prize and shared his travelling adventures with the dedicated followers of his blog.

I waited eagerly for a copy of the book, a generous gift from the writer who I have befriended over the last year. When it arrived, on one of the coldest spring days in Toronto, all the way from the warm climate of Brazil, I decided to wait until our own weather improved so that I could sit in my garden to read the book while the warmth of the sun covered my skin. I waited as long as I could but, alas, at the end of April we were still wearing winter coats to keep the chill away. It was impossible to sit in my garden for more than a few minutes before hyperthermia set in! I finally gave up on the weather as a prop to my enjoyment of reading and, holding Paraquedas in my hands, my fingers turned the pages with a caress of admiration for its aesthetically bound softcover, eye-catching typesetting and layout, and simple clear lines, so full of understated elegance. Sitting cozily on my sofa by the warmth of the radiator heat, I entered the world of P. R. Cunha’s writing.

I wish this book was available in English so that those who don’t read in Portuguese could discover and appreciate Parachute – a Philosophical Essay (my translation). “There are no correct tones for an essay beyond those of enthusiasm and sincerity,” wrote John Moss in his Introduction Essay in The Canadian Novel: Here and Now – A critical Anthology, 1978 (p. 12/13). And he could have been writing about P.R. Cunha, whose writing is, indeed, full of enthusiasm and, more importantly, sincerity. His essay is divided into four parts and may be read as part memoir, part philosophical musings, but the reader is never really sure how much of what we are told is about the protagonist writer in the essay, who after ten years of grappling with writing a novel, decides to run away (for a very short time) to England before Brazilian literature drove him to madness (p. 9), or the author himself. Is it pure biography or a reinvented biography-cum-fiction? It’s up to the reader to decide.

But I do know that the author of Parachute, like his first-person narrator, shares the same love and fascination for the writers J. G. Ballard, W. G. Sebald, Montaigne, Thomas Bernhard, Sterne, among others. The love for these authors was instilled in the narrator-protagonist by his tia Laura, and we wonder if this is P.R. Cunha’s aunt, too, or simply that of his alter-ego, the writer-protagonist who discusses literature and life, while revealing unflattering facts about his mother, his father, his brother and his sister. The description of his father’s death and his siblings’ greed at spending their 24% each inheritance, while our protagonist-writer is left with only a mere 2%, reveals a family dysfunction that made me cringe. It is tia Laura who has mentored and financed the writer’s adventures and travels, thereby exposing him to the arts, including music; an assistance which allowed him to pursue his intellectual interests.

The book can be read as a tribute to the aunt who dies towards the end of the narrative; and the protagonist wishes that someday, someone in the future may take his dusty book off a shelf to read it and, by doing so, afford his tia Laura a fleeting reward in eternity (p. 168); but the book can also be seen as the inner journey of someone trying to make sense of his life through literature and his own literary pursuits; questioning in every page what is real and what is fiction.

P. R. Cunha is a master weaver of the long, meandering sentence, common in Portuguese writing but not unknown in the English world of literature. It’s a style that appeals to the lyrical writer, regardless of nationality. But not everyone who writes can carry a long sentence without losing their breath along the way. With the long sentence, we can only rely on the helpful use of the comma in order to pause before reading on. Cunha’s narrative starts in one place but by the end he has taken the reader to another world; and yet, managing to brilliantly unite each idea and meandering thought, making it all fit and make sense like a carefully thought-out chess move, a game that both P. R. Cunha and the protagonist of Paraquedas share with passion. I enjoyed this book precisely for this reason; savouring the elegant writing on ideas, philosophically connected to the personal.

The essay questions, in a broader sense, the meaning of the self, and the relationship between literature and everyday life, by referencing philosophy as a guide to the art of living. A parachute is used to allow someone to come down from the sky in a slow, safe way to reach the ground unscathed, and I wonder if P. R. Cunha chose this word for the title of his book as a metaphor for the self’s movement from the internal “sky” world within us, as it floats down from the abstract air, towards the concreteness of the world landed upon.

What Paulo Renato Souza Cunha’s imaginative and complex mind is trying to offer through his meditations, observations, reflections, is perhaps an invitation to his readers to be in touch with their deeper thinking selves.

It is now mid-May and the weather teases the promise of real spring days ahead, when I will finally be able to sit out in my garden again to satisfy my pleasure in reading surrounded by trees, plants and flowers. And I will then take delight in rereading Paraquedas.

Só mais um rostinho bonito (e indefeso) no capcioso universo literário

Dizem que todas as profissões criam para si um conjunto de maneirismos — uma espécie de manual de etiqueta informal que ao fim e ao cabo acaba definindo um bocadinho esta ou aquela área de atuação. Penso nos uniformes de guerra, nas perucas dos juízes, no jaleco branco a mostrar que fulano é médico e confiável, nas patentes aeronáuticas, penso na indumentária alternativa dos que trabalham com publicidade, nos homens e mulheres hightech que praticam o jogging pela manhã e depois levam os próprios animais (cães, gatos, porquinhos da Índia) à sede de empresas com edifícios «amistosamente ecológicos» tais como Google, Facebook, Microsoft. São esteriótipos. E como acontece muitas vezes com as imposições arbitrárias, os esteriótipos têm também qualquer coisa de cafona, de surreal. Nunca compreendi, por exemplo, os porquês de os políticos brasileiros vestirem terno e gravata. O Brasil é um país tropical com temperaturas diabolicamente infernais. Uma terra a arder e mesmo assim os gajos se metem em fatos de algodão, ficam tão ensopados e fedorentos quanto um gambá silvestre depois de fugir do Leopardus spp. — popularmente conhecido como gato-do-mato. No entanto, é provável que no quesito «brega casual» nenhuma cafonice consiga superar a dos chamados (pseudo-)intelectuais. Christopher Hitchens dizia que não conseguia ler o livro de autores que tirassem retratos com a mão no queixo, a fazer poses de: mamã, estou na orelha de um livro, o meu livro, sou mesmo muito importante, passo os weekends a ler Tolstói, analisando os pormenores do formalismo búlgaro. Ou mesmo a postura de pessoa fragilizada pelas mazelas do mundo, a citar Bertrand Russell fora do contexto. O desabafo vem a calhar, porque dia desses um jornalista solicitou-me fotografia à guisa de ilustração — ele escrevera uma nota a respeito de Paraquedas. Acontece que depois ficou deveras aborrecido com a imagem que eu lhe enviara (uma foto descontraída em que estou perto da piscina, com t-shirt branca e tênis de beisebol). Não tem nenhuma mais bonitinha?, ele me perguntou. Pedi que definisse o adjetivo com mais esmero. A resposta: sei lá, uma com a mão no queixo, essas fotos que vocês (sic!) costumam mandar para a imprensa.

— P. R. Cunha


headshot

Crasso exemplo de autor-fragilizado-pelas-intempéries-do-mundo-com-a-mão-no-queixo (a mídia parece adorar esse tipo de pose) ©BWC Photos

Poema para Tomas

Acordo de manhã cedo
e estou a fazer o pequeno-almoço
quando uma figura felina misteriosa
surge nos limites da moldura da porta
de vidro da cozinha onde fico
a beliscar o pão com geleia de frutas vermelhas
bebericando o café sem açúcar.
Quem olha para este gato
enquanto compreende-se ao sabor
da cafeína
não deixa de se maravilhar com o aspecto
do animal que tem as cores de
uma montanha de neve
a derreter sob a luz
do sol brando
geleira com faixas de pedra marrom
a surgir após um longo e melancólico inverno.
O gato visita-me vez sim vez não
vez não vez sim vez não
o bastante para eu —
com aquele distanciamento protocolar
de quem teme envolver-se de mais —
ter-lhe dado nome:
Tomas
O dócil felino fica a miar
até que a porta esteja aberta
e vem fazer carinhos nos meus pés
como forma de profundo agradecimento
pela tigela de leite que coloco lá fora.
Quando Tomas não aparece
por motivos felinos
sempre difíceis de compreender
a tigela de leite fica cheia
e vem até mim um pensamento
pensamento formado
pensamento resolvido
de que o bicho pode não voltar mais.
E é assim que vejo o Tomas
microcosmos das irregularidades
da vida.

— P. R. Cunha

Projeto promissor

Um dramaturgo de Niterói, cansado de assistir aos mesmos espetáculos, decidira montar uma peça inovadora, com diálogos e cenários que fugiam dos chamados clichés de sempre. Ao escolher o elenco, o dramaturgo de Niterói fazia com que os atores assinassem um termo de responsabilidade para se ter a certeza de que todos iriam comprometer-se com afinco ao projeto. Não é necessário listar cada um dos pormenores do termo, mas talvez fosse interessante notar que o décimo e último artigo do documento basicamente isentava o dramaturgo de Niterói de qualquer culpa caso a vida dos atores de alguma forma corresse perigo durante os ensaios. Acontecia que antes de os atores lerem os respetivos textos um assistente de palco amarrava ao pescoço das personagens uma corda cuja extremidade era acoplada a um complexo mecanismo que apertava ou afrouxava o laço de acordo com os caprichos do próprio dramaturgo de Niterói. Se por um acaso ele achasse que os atores não estavam a se esforçar ao máximo, se por um acaso o dramaturgo de Niterói achasse que os atores estavam a fazer, como se diz, corpo mole, ele então acionava de forma gradual o mecanismo para apertar o laço. Por se tratar de um artista muito meticuloso com a própria obra, dir-se-ia obcecado e exigente com a própria obra, o dramaturgo de Niterói não demonstrava qualquer tipo de tolerância com os atores, apertando o laço sempre que lhe desse na gana. Como o palco durante as semanas de ensaios transformara-se em uma verdadeira vala de corpos asfixiados, os polícias tiveram de intervir e finalmente cancelaram o, de acordo com a imprensa local, «muito promissor» projeto do dramaturgo de Niterói — que hoje vive em Camboinhas, a poucos metros da Praia do Sossego.

— P. R. Cunha

Carlos e Helena estão no Parque de Diversões

Carlos e Helena estão no Parque de Diversões. É um daqueles parques com toda a sorte de brinquedos redondos, altos, verticais, horizontais, crianças eufóricas de várias idades a gritar — aquele tipo de grito que ultrapassa cada oitava das frequências audíveis: grave, médio, agudo. Carlos e Helena acabaram de discutir sobre algum pormenor que incomodava-os. Em verdade, Carlos incomodava-se mais com o pormenor discutido do que Helena. Carlos dissera o tanto que aquele pormenor incomodava-o, enquanto Helena dizia que aquele pormenor também a incomodava. No entanto, por dentro, Helena sabia que o pormenor não a incomodava, apenas concordava com Carlos porque percebera nos últimos tempos que concordar com Carlos era a melhor forma de encurtar qualquer tipo de discussão, mesmo que, nunca é de mais repetir, mesmo que nem sempre concordasse com Carlos. Os dois estão de mãos dadas e Carlos insiste em dizer que já superara o pormenor, que o pormenor é coisa do passado, Carlos não pensa mais no pormenor, e que o facto de terem conversado, de terem exorcizado o pormenor, diz Carlos, só o facto de terem arrancado aquele pormenor de uma vez por todas era, diz Carlos, um grande avanço para o relacionamento dos dois. Helena mexe a cabeça, para cima, para baixo, concordando com Carlos enquanto tira um pedacinho de algodão doce rosa e coloca o pedacinho na boca. Eles entram à fila dos carrinhos de bate-bate, os carrinhos de choque, e os dois sorriem um para o outro, Helena sorri para o Carlos, Carlos sorri para a Helena. O funcionário responsável pelo brinquedo abre a porta de ferro que separa da pista metálica as pessoas que aguardavam à fila. Helena escolhe um carrinho preto com motivos cósmicos (luas, estrelas, planetas com anéis etc.); Carlos escolhe um bumper car amarelo. Aos poucos, os outros carrinhos também são ocupados. O funcionário aperta uma buzina e aciona o botão de funcionamento dos carrinhos. Carlos e Helena parecem se divertir, ambos inclinados para a frente, com os braços grudados no volante. Mas pela forma que Carlos bate no carrinho cósmico de Helena, pela forma que Carlos mira somente o carrinho de Helena, ignorando todos os outros carrinhos, pela forma obcecada que Carlos aponta o próprio bumper car amarelo ao carrinho de choque de Helena, percebe-se claramente que ele não superara pormenor nenhum.

— P. R. Cunha

Todos os papéis do mundo

Já escrevi algumas vezes que este blogue iniciou-se depois de um período particularmente difícil de minha vida, e desenvolvera-se na esperança de conseguir desafogar, como se diz, tudo aquilo que eu estava a produzir em excesso, o material que ficava guardado dentro de gavetas acumulando poeira e a virar casa das traças.

Não havia, ou melhor, jamais houve qualquer interesse financeiro, ou demandas arbitrárias, ou sistema de trocas indecorosas, ou desejos por um número maior de leitores etc. Apenas um despretensioso distrair-se que no decorrer dos meses transformara-se num dos exercícios mais saudáveis e edificantes para a profissão que eu escolhera — a saber, escritor de literatura ficcional.

A jornada começou deveras tímida. Numa altura, só a minha mamã entrava aqui para ler as coisas que eu escrevia. E mesmo assim, com o único propósito — ela mesma confessou-me depois — de saber «se estava tudo bem, se o filhote estava a recuperar-se adequadamente das tormentas pelas quais passara».

Até que, de súbito, notei um fluxo maior de leitores. Não era mais somente a minha mamã, era a Dulce Delgado, a Rejane Leopoldino, o Gabriel Moura, a Miau, a Cristileine Leão, a mãe de Ludo e Vico, a Thaysminy Marques, o Brunno Vittorazze, a Léo Campos, a LPD, o Jorge Sasgarante, a Ana Gimenez, a Irina Marques, a AmagM, o Jorge Santos

E como se a interação virtual não bastasse — e nunca, nunca basta —, duas das pessoas mais singelas e adoráveis que pude conhecer através deste blogue mandaram-me regalos reais na semana passada. Dois seres humanos com histórias parecidas e que muito provavelmente não sabem (ainda) da existência um do outro: a Danielli Cavalcanti e o Emanuel Melo.

A brasileira Dani, que hoje mora em Kolding, Dinamarca, enviara-me os perfumes da Flor de Linz, um livro sobre sair, sobre chegar, sobre migrar, sobre a(s) tentativa(s) de encontrar casa(s) algures. Uma obra que devorei de bom grado ao jardim da minha residência, por vezes deitado numa rede a lembrar-me dos primeiros escritos de W. G. Sebald, que durante toda a vida procurou amenizar angústias e que numa altura chegara a dizer que seria (e realmente o foi) um eterno exilado.

Do Emanuel, que possui um coração gigante — cujos detalhes não caberiam nos propósitos enxutos desta publicação —, recebi Memória, an Anthology of Portuguese Canadian Writers. O conto que ele escrevera encontra-se na página 14 e se chama «Avó Lives Alone», que apenas aparentemente trata de uma velha senhora que levanta às cinco da manhã para assistir às missas portuguesas na televisão. No entanto, como já é da praxe nos textos do Emanuel, as linhas começam de forma sutil e elegante a problematizar os pormenores de uma família que teve de sair do próprio país a viver para o estrangeiro, os trejeitos de uma Avó que sente saudades da terra e que busca refúgios no ecrã da televisão — sem necessariamente encontrá-los. 

As vias biográficas da Dani e do Emanuel mostram-se análogas. Ao ler o texto de ambos foi-me impossível não imaginar uma espécie de diálogo: Dani a escrever para o Emanuel, Emanuel a responder para a Dani. Os dois tiveram de se despedir daquilo a que costumamos chamar de pátria, os dois cruzaram o Oceano Atlântico — ela na direção europeia, ele na direção canadiana. Os dois precisaram de se reinventar e encontraram na literatura uma fonte mais amena, um canal aberto através do qual tentam compreender os mundos em que vivem.

E, finalmente, deixo-vos com esta opção aprazível, que aprendi ao me deparar com as palavras impressas da Danielli Cavalcanti e do Emanuel Melo: apesar dos traumas, apesar das dores, apesar das distâncias, das saudades, dos arrependimentos, dos desafios, apesar de tudo, sempre teremos à nossa disposição uma simples folha em branco para nos convalescer. Pode até não significar a cura total, mas pelo menos ajuda imenso no processo — ameniza-nos. Faz-nos seguir para diante, não importa se para o Norte ou se para o Sul.

— P. R. Cunha