Resíduos radioativos

Só sentimos falta/valorizamos quando deixamos de ter: boca sem afta; banho de água quente; livros de papel; um amor correspondido.

É importante guardar os pormenores do livro a respeito do qual estamos a escrever. 

Céline dissera que o livro é como uma moça grávida — não podemos expôr o bebezinho aos raios-x demasiadamente, atrapalha a gestação, o desenvolvimento do futuro miúdo. 

Faça o pré-natal com discrição, sem alardes. O segredo cria sensações misteriosas. (Basta observar as pessoas que preferem permanecer em silêncio.)

Tenha uma lista de títulos em mente ou anotada nas margens do caderno, mas não é imprescindível nomear o livro com tanta pressa.

No momento em que intitulamos a obra, ela perde um bocado de energia. Nomear — os estruturalistas sabem disso — é conceituar, expor o livro à luz do dia antes do necessário. 

Na altura em que escrevemos o título definitivo no papel em branco, estamos condenados.

Jogue o tubarão de volta para o oceano, finja que nada aconteceu.

Nunca dizer o nome, nunca dizer do que se trata. Se muito, explicar o mínimo: sou escritor, de forma que, obviamente, estou a escrever qualquer coisa. Isso é tudo.

Um livro ao revés, portanto. A folha de rosto fica para o final: como aquele artista que só assina a obra quando acredita que o quadro se mostra pronto o bastante para o escrutínio público.

— P. R. Cunha

Teoria do holofote (apontamentos desconexos)

Os reencontros de turma são sempre organizados pelos alunos mais bem-sucedidos.

* * *

Capitalismo-mágico faz crer que as commodities consumidas pela sociedade simplesmente surgem, aparecem, materializam-se, como num sonho, contos de fada.

Ir ao supermercado, ao shopping mall e deparar-se com quantidades vertiginosas de produtos coloridos; ou, num contexto mais imediatista, comprar pela internet, no infinito abstrato acessado com um simples movimento do mouse, e a mercadoria chega à porta de casa.

Passe de mágica.

Fácil de esquecer que, a despeito do acelerado desenvolvimento robótico, as coisas ainda são majoritariamente produzidas por pessoas (isto é: dependem da supervisão e do esforço de seres humanos).

Se outros humanos não produzem, não embalam, não transportam, não fiscalizam, não entregam, de aí a magia perde todo o sentido.

* * *

Um vírus que realmente causasse pânico/histeria/desespero — não um vírus biológico, mas virtual. Visto que a fuga da «realidade» é feita através da janela computadorizada, os pixels ganham novas dimensões. A falta de conexão com a internet, colapso do sistema streaming (Netflix, YouTube & associados), redes sociais em espera; difícil de prever como essa abstinência afetaria o psicológico de certos usuários.

* * * 

Estádio de futebol repleto de torcedores feitos de papelão — Pinocchios com rostos (fotografias) de torcedores de verdade. O barulho da torcida viria de altifalantes estrategicamente posicionados às laterais do campo. Ecos, gravações e reverberações garantiriam a atmosfera grotesca do espetáculo. 

— P. R. Cunha

Animal em extinção

Que a literatura esteja sempre a morrer, desde os gregos antigos, desde as transições da oralidade para a escrita, que ela, portanto, tenha sido declarada moribunda já no próprio nascimento, negligenciada, esquecida, poucos leem, como se diz, e que esse vagar fantasmagórico — e categórico — rumo ao desfiladeiro, o grande salto para o vazio, «o que se confessa em silêncio» (DERRIDA, Jacques), que sempre tenha vivido, ou melhor, sobrevivido de agonias, sem recursos, errática, perdida, desconfiada, descartada, que se transforma em ciborgue, que se adapta ao ciborgue, que se desmancha, se apruma, se constrói, se corrige no software de edição de texto, e os sonhos com ovelhas elétricas mesclam-se com realidade(s), com aquilo que se considera realidade, hiper-real, com transmissões wireless, telepáticas, literatura como meio, e o meio, Marshall McLuhan bem o sabia, é a mensagem.

— P. R. Cunha

Sibipirunas

Quando sentimos medo, semioticamente a falar, é sempre de algo e/ou alguém: do crocodilo, da escuridão, do assaltante, do brinquedo de olhos abertos dentro do armário. Dos substantivos.

Se gostamos de certo filme, não apenas nos identificamos com os personagens, como, de muitas formas, tentamos emulá-los. Falamos como eles, agimos como eles, até mexemos nos nossos cabelos como eles.

«Todos os períodos parecem sofrer um ‘momento moderno’, ou seja, momento de crise em que se tornam auto-conscientes, em que dão-se conta de que são um período. O abismo fita o abismo, enquanto as referências históricas e culturais se desfazem», disse Paul de Man.

McAllister enforcou-se na praça central. Poucas horas depois, os primeiros raios solares atravessavam as brechas dos galhos das sibipirunas (Caesalpinia peltophoroides) e crianças brincavam de balançar com o cadáver. Se há defesa para a barbaridade dos miúdos é que, à distância, o corpo do McAllister lembrava mesmo um boneco estendido, uma piñata mexicana.

— P. R. Cunha

As memórias, as sutilezas que fazem de nós o que somos

É um pouco como aquela história do Robson que passava horas & horas conversando pacientemente com a mãe da Karina a sra. Francisca (pois nutria sentimentos sexuais pela Karina) queria fazer boa figura enquanto o próprio pai (o pai do Robson se chamava Alan) vegetava em casa já nos últimos estágios de um tumor no cérebro & cuja companhia nem o Robson nem ninguém nem os irmãos aturavam mais porque há tempos que Alan não falava coisa com coisa &tc. 

* * *

Estaria mentindo se falasse que nunca pensei no que poderia ter-me acontecido se eu não tivesse aceitado a proposta, escreve Ernesto. Pois, assim, em retrospectiva, com o coração a bater como da praxe, tudo parece claro, simples — óbvio até. Mas quando estamos no olho do furacão, quando precisamos de agir sem o luxo de poder olhar pelo retrovisor, cometemos vilezas indizíveis, metemo-nos em ciladas. Depois, à guisa de remorso, tu começas a procurar culpados. E se cavares fundo o bastante, e se fores realmente honesto, encontrarás, enfim, o verdadeiro responsável: o teu reflexo.

* * *

Gallardo completa quarenta anos e a esposa sugere-lhe que faça os exames gerais. Gallardo não vai ao médico há quase uma década, sente-se bem, pratica natação regularmente, alimenta-se com moderações. Está saudável. Mas mesmo assim segue as recomendações da esposa, que sempre lhe tratou com um bocado de esmero, e vai ao médico fazer os tais exames. O médico se demora numa chapa de raio-x que mostra o tórax de Gallardo. O médico coça a barbicha, pensativo, hummmmm, aponta para um local aleatório da chapa de raio-x: está vendo?, não gosto disso, não gosto mesmo… Cabisbaixo, Gallardo volta para o apartamento e agora tem as certezas de que está para morrer.

— P. R. Cunha

Aceleracionismos

Um certo desrespeito aos autores porque começo a ler-ler-ler-ler leio pela manhã leio à tarde leio à noite leio antes de dormir leio na cama leio em pé leio sentado leio à mesa do jantar leio na latrina leio no jardim leio papel leio pixels leio sons e de repente me surge uma ideia um esboço uma faísca e já não sei se isso veio de Camus ou Melville ou Gontcharóv ou Jean Paul se Mark Fisher ou Donna Haraway ou Deleuze se Guattari se Foucault ou Derrida talvez Spinoza quem sabe Baudrillard ou Althusser ou Badiou não sei se Heidegger ou Wittgenstein se Agamben se Barthes talvez Bataille talvez Judith Butler realmente não saberia dizer — sou muitos.

— P. R. Cunha

1.

Em casa de minha mãe, Brasília.

física quântica
mudança inconstante
bailam as árvores

* * *

o laranja
da escuridão
sol que diz adeus

— p. r. cunha

Advertência literária (uma parábola)

Depois de ter passado por muitas desventuras ao emprestar meus livros para outros seres humanos — e nunca mais ter visto as cores dos mesmos —, comecei a adotar drásticas medidas preventivas, à moda mosteiros da Idade Média. 

Na folha de rosto de todos os exemplares (principalmente nos meus Bernhards e nos meus Sebalds [tanto nos originais quanto nas traduções]) anotei isto:

Para aquele que roube, ou empreste e não mais devolva este livro a seu proprietário (a saber: P. R. Cunha), que se mude em serpente venenosa e sua mão o destrua; que se veja vítima de paralisia e se percam seus membros ou coisa ainda pior; que sofra dor à maravilha pedindo toda a sorte de mercês em altas vozes diabólicas e que não haja cessar para a sua desastrosa agonia até que cante dissoluto; que vermes lhe roam as entranhas como lembrança do Grande Verme que não morre, e que quando vá a seu final castigo, que as chamas do Inferno dos Ladrões de Livros o consumam para sempre.

Coincidência ou não, após inseridas essas pragas monásticas o número de «furtos» caíra, digamos, consideravelmente.

E que o amor possessivo pela leitura esteja sempre convosco.

— P. R. Cunha

Passeio niteroiense

Para a Eva de Oliveira Cunha, minha avó

Nas ruas de Niterói há todos os tipos de figura: o jornaleiro, o barista, o engraxate, o sorveteiro, amoladores de faca que tocam o hino dos clubes cariocas enquanto afiam lâminas, fugitivos, cartomantes, turistas desorientados, diplomatas, funkeiros, crianças a brincar de pega, banqueiros, senhoras que caminham lentamente, escultores, tecelões, médicos, ourives, juristas, pintores, monges, andarilhos, escribas, cardeais, polícias, lavradores, senhoritas que se exercitam ao som de Tom Jobim, acrobatas, escritores de literatura, cervejeiros, poetas, bajuladores, vendedores de chapéu, preguiçosos, afoitos, mentirosos, ciclistas, jogadores de xadrez, jogadores de dominó; e o Menezes, que parece não se encaixar em nada disso.

— P. R. Cunha

Comboio-fantasma a nenhures

Acordar dez minutos antes de o sol «nascer», abrir as cortinas, a fresta da janela que deixa entrar a atmosfera matinal. Arrumar a cama (menos de quarenta segundos). Primeira tarefa cumprida. Sente-se bem ao ver o edredom estendido, o travesseiro alinhado. O banho. Passar a bucha nos pés. Não esquecer de lavar atrás das orelhas. Escovar os dentes durante o banho. Fazer o xixi durante o banho. Enxugar-se bem. Depois, os alongamentos. Uma série branda de flexões, polichinelos, exercícios para o pescoço, para os quadris. Descer, preparar o café, a torrada com manteiga, separar a garrafa com um litro de água (beber [aproximadamente] três garrafas durante o dia). Regar as plantas, verificar se tudo certinho com a horta — colher as hortaliças maduras. Sentar-se à escrivaninha antes das 8h, organizar o material de pesquisa, a leitura de descompressão, manter a chávena de café por perto, as canetas (cinco cores diferentes: azul, vermelha, preta, verde, ciano), os blocos de anotações, respirar fundo, escrever:

As comunicações por escrito têm qualquer coisa de fantasmagórico.

Se escrevemos algo para alguém, a pessoa que recebe as nossas palavras lida com aquilo que já não é — mesmo diante dos imediatismos modernos. 

O telemóvel vibra para avisar que há mensagem disponível, o dono do telemóvel mostra-se ocupado. Ao abrir a mensagem antes de dormir, está a ler reverberações. Talvez o remetente tenha até mudado de ideia.

Se a correspondência é feita à moda carta-de-papel, os fantasmas ganham novas intensidades. 

Num exemplo grotesco: poeta apaixonado envia poema para a amante; a moça recebe os versos dias depois; por motivos obscuros, ela demora para responder; a espera enche o coração do poeta de angústias; poeta perde as esperanças, e quando finalmente recebe a carta da moça, ele não a ama mais.

A amante tornara-se um espectro difuso, as palavras carinhosas que ela escrevera são como imagens psicografadas.

Assim como quando olhamos para o céu noturno e observamos a luminosidade de incontáveis estrelas que há séculos deixaram de brilhar. Estrelas moribundas, portanto.

A história do mundo nos mostra que quando uma pessoa é boa (i.e.: correta, dócil, prestativa, amistosa etc.) durante, digamos, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete deslize qualquer, ela será rotulada de falsa/enganadora/hipócrita: a máscara caiu, sabia que tu não eras aquilo tudo, sabia que pisarias na bola.

E se, ao contrário, a pessoa for ruim (i.e.: estúpida, hostil, ignorante, sem caráter, violenta, etc.) durante, digamos novamente, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete um discreto ato de bondade, não faltará quem, com os olhos lacrimejando, garanta: estão a ver?, até que o gajo não é assim tão mau, há esperança.

Expectativas, síndrome de salvação, ninguém nunca é bom o bastante, ou ruim o bastante: eis o tango, a bossa nova.

Bossa_nova_dance_pattern

Se estamos diante de uma fotografia, ou mesmo numa cerimônia fúnebre, estamos a lidar com vulnerabilidades, fantasias.

A mãe segura o retrato do filho, um criminoso terrível que fôra preso na semana anterior. A única voz ativa nessa cena é a perspectiva da mãe. O criminoso da foto não se manifesta. É uma estátua, um espectro de luz. A mãe pode (e irá) reconstrui-lo como quiser.

Do mesmo modo, aquele pai que em vida cometera grandes atrocidades, agira de forma abrupta, irascível e desonesta, recebe homilias enaltecedoras enquanto deitado dentro do caixão, o famigerado paletó de madeira. A figura pacífica, distante, pálida, frágil (os mortos não machucariam vivalma)… numa reviravolta difícil de explicar, os filhos, que antes tiveram de se defender do déspota, agora ajoelham-se diante do cadáver maquiado, o sacro boneco.

Há, enfim, uma característica que as fotografias e os cadáveres compartilham: o silêncio. O fotografado é mudo, o morto nem se fala. E se quisermos aproveitar um pouco das regalias que eles, sem esforço, conquistaram, talvez fosse melhor imitá-los: não dizer mais nada.

— P. R. Cunha