A fuga

Durante mais de quarenta e cinco anos o sr. Fukushima montou réplicas em miniatura de automóveis clássicos. Quase todos os dias, por volta das 17h, ele descia ao porão onde havia improvisado para si um ateliê de dimensões consideráveis. O sr. Fukushima dizia que quando estava no próprio ateliê a montar os carrinhos era como se de súbito ele fosse transportado para algum outro universo, algum tecido-espaço-tempo em que as leis de física não operavam da mesma maneira. Até que certa tarde de outono, quando as folhas das árvores começavam a cair na relva do jardim, um dos netos do sr. Fukushima desceu ao porão para fazer-lhe visita e deparou-se com quantidade absurda de réplicas em miniatura de automóveis clássicos. O neto, que tinha acabado de frequentar o curso de marketing numa renomada universidade da região, sugeriu ao avô que começasse a vender aqueles brinquedos que, fora o tamanho, em tudo se assemelhavam aos carros de verdade. E, como era de se esperar, os carrinhos do sr. Fukushima foram mesmo um grande sucesso comercial. Mas desde então o sr. Fukushima não desce mais ao próprio ateliê para montar as réplicas. A fuga, segundo ele, perdera completamente o sentido.

— P. R. Cunha

O cabelo

De todos aqueles elementos que — como se costuma dizer — mexem com os brios da vaidade do homem, muito provavelmente o cabelo seja o mais imprescindível. As mulheres acabam por desenvolver outras obsessões relacionadas (a cor das unhas, o intelecto, os vestidos, os sapatos, a sabedoria, os cílios, a profundidade da alma etc.), mas, com os homens, via de regra, é o cabelo. Rodrigo inclina-se para pegar a chávena de café e um amigo fere-lhe o ego: vejo que o Rodrigo está a ficar careca aí na parte de trás da cabeça. Rodrigo esfrega o cocuruto com as mãos. Show de rock, insiste o amigo, tens aí já o palco e as duas entradas. Rodrigo agora passa boa parte do tempo livre a levar um pequeno espelho ao topo do próprio crânio a ver se a calvice consumira-lhe a outrora expansiva cabeleira.

— P. R. Cunha

O mosquito

O mosquito fica a observar o animal humano a agir feito um louco. O mosquito não tem pressa, poder-se-ia dizer que o espetáculo (i.e.: ver o animal humano em busca de objetivos supostamente grandiosos, dos segredos do Universo em expansão, de status, de fama, de dinheiros, de entretenimentos, de analgésicos contra os absurdos existenciais [livros, cursos profissionalizantes, futebol, cinema, séries Netflix, comida]), poder-se-ia dizer, portanto, que o espetáculo agrada aos sentidos do inseto, mas daí já seria extrapolar os limites do bom senso; afinal, o mosquito é apenas um mosquito. A verdade é que numa altura o animal humano está de pé a realizar todas essas tarefas, e numa outra o insignificante mosquito decide-se ir até ao animal humano para lhe transmitir dengue, zika, malária, febre oropouche e não só. Daí o animal humano não fica mais de pé, não mesmo.

— P. R. Cunha

O shopping mall

Tancredo sentia-se desolado, de forma que desligou a televisão e foi dar um passeio no shopping mall a ver se preenchia o vazio que lhe perturbava imenso. Tancredo compra roupas, entrega-se às gulodices na praça de alimentação, irrita-se com o ar viciado do shopping mall e depois volta para o próprio apartamento. Agora ele é um vazio de ressaca moral, com barriga cheia e vestimentas novas.

— P. R. Cunha

A febre

A febre nos transforma em meros espectadores. Marionetes arrastadas para lá e para cá pelas cordas do sistema imunológico. A cabeça pesa uns trezentos quilos, as palpitações vacilam, o corpo não corresponde. São dores que vêm como de um inferno longínquo. E se antes andávamos com imensa desenvoltura sobre a superfície rochosa deste planeta atmosférico, agora somos nós o espaço geográfico — o palco de uma guerra sanguinária entre os exércitos do gelo e do fogo.

— P. R. Cunha

A memória

Os pais do Charles fizeram muita besteira em criança. Mas naquela época toda a gente esquecia e os pais do Charles seguiram em frente sem consequências. O mesmo não se pode dizer do Charles. Hoje o Charles faz besteira e toda a gente lembra, porque está tudo guardado dentro da memória do computador, que nunca, nunca esqueceria.

— P. R. Cunha

A colmeia

O pai e a mãe estão conversando na cozinha. Enquanto o pai prepara o café, a mãe lê o jornal e diz: é mesmo um sistema econômico predatório, inútil, onde já se viu?, telemóvel com ecrã dobrável, quem precisa de um troço desse? O pai fica a observar o fluxo constante do café a cair do coador: dizem que o Franklin lá da firma tem um desses — ele fecha a garrafa térmica —, qualquer dia o planeta não suporta mais esse tipo de capricho. Lá em cima o menino está dormindo. Abre os olhos. Faz uma espécie de cabana com o próprio cobertor. Espera até que alguém vá chamá-lo para se arrumar e ir à escola. O menino regozija-se com aqueles minutinhos extras de sono, os melhores minutinhos de preguiça de sempre, ele pensa. Mas ninguém aparece. O menino se dá conta de que é sábado e a soneca transgressora perde todo o sentido. Ficar deitado sem ter que fugir de compromissos não possui o mesmo sabor. O menino se levanta e vai até ao quintal. O pai e a mãe ainda estão a conversar na cozinha. A mãe está a comer as torradas com manteiga enquanto observa pela janela embaçada o filho a brincar no quintal. O menino fica parado embaixo da árvore. Ele tenta jogar pedras na colmeia. As três primeiras pedras não atingem a colmeia, a quarta, sim. Daí as abelhas assustadas voam em todas direções, inclusive na direção do menino, que começa a ficar com a pele empolada — é alérgico. Mas não há nenhuma moral realmente relevante nesta história.

— P. R. Cunha