Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Tiveste um ano repleto de escritas e agora estás deitado numa cama macia a anotar isto aqui, sem nenhuma vontade — propriamente — de anotar isto aqui.

Overdose de literatura (ou o mal de Montano [vide Vila-Matas et al.]). Escrever todos os dias e ver o que acontece.

Amanhã viajarás para Portugal e tua mãe pensa que tu deves estar na lua, muito satisfeito com tudo; afinal, recebeste um prêmio de literatura, ela diz, era bem o que tu querias, não era?, não era?, não era?

Há um telefonema, a gentil pessoa do outro lado da linha te dá os muitos parabéns porque tu acabaras de receber um prêmio, sentes tremor de pernas, o teu coração é um motor de fórmula 1, teu sistema nervoso libera acetilcolina, noradrenalina, o solo desaparece, estás a cair, era bem o que tu querias (pausa dramática), não era?

Fizeste as pazes com o tablete-leitor-eletrônico, principalmente porque antes era-te um verdadeiro estorvo escolher os livros à viagem, o peso na mochila, a indecisão, «será que é mesmo este livro que gostavas de levar na aeronave» etc. O teu tablete tem agora duzentas obras digitalizadas e pesa um pouco mais do que uma folha A4. Estás a sentir-te um bocadinho sujo diante dessa situação.

Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!

Agora, diz até breve aos leitores, diz que voltas, diz que sentes já o cheiro dos pastéis de nata…

— P. R. Cunha

Hotel Brasília

A impressão é a de que cheguei ao fim do mundo. Está tarde, mas posso ainda escutar os barulhos do centro, os autocarros a sair da rodoviária, a motocicleta rangendo, os gritos de amor no quarto ao lado, o choro de uma mulher idosa, marteladas na parede (o que estariam a pregar?), a televisão, o noticiário, um abajur ligado que não ilumina a leitura de ninguém. No restaurante do primeiro piso, vi um garçom aflito porque as mesas mostravam-se impecáveis, as toalhas brancas, os pratos alinhados, os talheres reluzentes, mas algumas taças de vinho, que supostamente deveriam brilhar de tão cristalinas, estavam borradas de batom — alguém lhe dissera às costas: tranquiliza-te, Francisco, ninguém desce para comer a uma hora destas.

— P. R. Cunha

Futebol americano

Bola oval capacetes jogadores com armaduras é como assistir à batalha dos romanos gladiadores modernos o kickoff o retornador o running back ligeiro está a dançar à frente da defesa o Tom Brady o Julian Edelman o Rob Gronkowski as linhas as jardas o ataque avança a tática parece uma partida de xadrez o lançamento preciso o efeito a angústia da torcida o tempo congelado os gritos a festa a euforia o touchdown.

— P. R. Cunha

Notas de um verão carioca (dezembro/2011)*

Tenho a certeza de que me chamarás de louco, mas te garanto, leitor, que existe uma longa linha imaginária a dividir as praias do Rio de Janeiro. De um lado, o calçadão, os bons modos, os tênis Nike, as pessoas vestidas com esmero, o asfalto, os automóveis com ar-condicionado; do outro, a areia, a devassidão, o calor, os biquínis, o futvôlei, os bumbuns, o suor, as peles bronzeadas. Vou a um restaurante de frutos marítimos a dez passos da praia, funcionário vestido de pinguim fica à porta e explica que ali não é permitida a entrada com fatos de banho, nem com calção tipo shorts. Perto do bufê há um enorme vidro panorâmico através do qual a clientela observa o baile das ondas. Ao sair do restaurante, tu bem poderias andar com um tapa-sexo de dez centímetros que gente nenhuma iria te incomodar, mas, dentro do restaurante, repito, dentro do restaurante é outra coisa. Dentro do restaurante impera a mais alta etiqueta da chamada civilização: todos usam muitas roupas, comportam-se direitinho, a mamã pede silêncio ao miúdo serelepe — é o lado recatado da linha imaginária, percebes? Depois do almoço, levo a minha espreguiçadeira e deito-me diante da brisa atlântica. Estou, naturalmente, com as pernas à mostra. Uma senhora por volta dos setenta passa perto e diz sem olhar nos meus olhos: tu tens aí umas pernas tão brancas, nunca apanhas sol? Sou de Brasília, Distrito Federal, preciso de descansar — respondo à queima-roupa.

— P. R. Cunha


*Crônica originalmente publicada na Folha de Icaraí.

As vozes de uma família que já não existe + contexto da fazenda literária (intimidade[s])

Ao folhear um velho álbum com retratos dos meus familiares, escreve Batista, verifico que muitos foram figuras distintas: médicos, administradores, arquitetos, políticos, advogados. A grande maioria morrera cedo demais, como se diz vulgarmente. Aqueles que pregavam o comedimento, morreram de alcoolismo; os que pediam paciência e prudência, morreram numa autoestrada, excesso de velocidade; aqueles que diziam: não fume, isto vai lhe matar!, morreram de cancro de pulmão porque fumavam quatro maços de cigarro por dia. Em criança, continua Batista, em criança não nos damos conta dessas contradições. Os adultos eram os meus heróis. Acontece que também crescemos, amadurecemos, lemos um bocadinho, e aos poucos a coisa toda começa a nos dar nos nervos, percebemos que aqueles a quem escutávamos com tamanha devoção em busca de ensinamentos eram tão humanos e tão falhados como qualquer outro. Um deles chegou mesmo a cometer o suicídio.


Brasília, 27 de novembro, 8h44

A chuva, a neblina, as nuvens cinzas que vêm ter comigo à janela, insônias, o chuveiro que parou de funcionar. Arrumar a mala, comprar caderninho de anotações para a viagem. Portugal, Lisboa, Aveiro. O cabelo a crescer demasiadamente, a «atmosfera intelectual», artificialidade. O violão sem a corda dó. Ir ao centro. O café literário. O café forte. A soneca vespertina. O pão com manteiga. Os livros. A calma. O desaparecer. À noite.

Processed with RNI Films. Preset 'Fuji FP 100C'

— P. R. Cunha

New York, New York

Em 1996, papá nos levou para conhecer Nova Iorque. Era o mês do meu aniversário de onze anos e mamã comprou-me uma miniatura da Estátua da Liberdade enquanto visitávamos Long Island. A moça que nos vendera o suvenir dissera que a Estátua da Liberdade original tem noventa e três metros de altura, e pesa 225 toneladas; agora a miniatura que acabávamos de adquirir tem apenas vinte centímetros e pesa não mais que trinta gramas. Essa diferença de escalas fascinou-me imenso e passei a levar sempre comigo a Estátua da Liberdade. Numa altura da viagem papá contratou um guia chamado John, cujo objetivo era nos mostrar os principais sítios da metrópole que nunca dorme e acabei esquecendo o meu presente no autocarro da empresa de turismo. Assim que chegamos ao hotel telefonamos para o John a ver se alguém havia encontrado uma Estátua da Liberdade, com estas e aquelas características. John lamentara muitíssimo, dissera que não, mas que entraria em contato se achassem qualquer coisa. Duas semanas depois, quando estávamos a voltar para o Brasil, vi uma criança loira e serelepe no aeroporto John F. Kennedy a segurar uma Estátua da Liberdade miúda, cerca de vinte centímetros, relativamente leve. Era a minha Estátua da Liberdade, tenho quase a certeza disso.

— P. R. Cunha

O relógio búlgaro

Bem longe
uma estrela vermelha
a explodir planetas

Lourenço era completamente obcecado por relógios. Ele tinha uns olhos profundos, olhos da cor do Pacífico em tardes tempestuosas. Durante boa parte da vida pagou as próprias despesas com o dinheiro que recebia ao arrumar os cucos das mansões de gentes muito ricas, cujas casinhas de cachorro pareciam amiúde melhores sítios para se dormir do que o próprio apartamento do Lourenço. O apartamento do Lourenço quase nunca tinha água, o gás funcionava dia-sim-dia-não, as baratas desfilavam desimpedidas pelos azulejos deteriorados da cozinha, aqueles bichos cascudos a mastigar as sobras de um pequeno-almoço do mês anterior. O prédio ficava a menos de cem metros de um bordel clandestino administrado por búlgara rechonchuda e lenta chamada Nadejda. Em tempos de vacas magras, como se costuma dizer, Lourenço também consertava o cuco desse bordel clandestino — não era o tipo de homem que ligava para reputações. Organizava a caixinha de ferramentas, vestia o fato-macaco laranja e seguia para ter com a Nadejda, que estava sempre a comer qualquer coisa. Ela apontava com dedos engordurados e dizia: de novo, cuco estraga, cuco quebra, tu consertas. Jeito engraçado de falar, pensava consigo mesmo o Lourenço. O cuco desse bordel era um velho relógio búlgaro com cordas Herweg, o passarinho de madeira que cantava as horas não tinha mais o bico, a pata esquerda coxeava. Cuco mais trabalhoso com o qual já lidei, confessava o Lourenço na própria intimidade.

— P. R. Cunha