O soldado caído

A língua inglesa possui verbo que de acordo com o contexto pode definir as ações de fotografar e atirar — to shoot. Fotógrafos de guerra retornam do combate por vezes desmiolados depois de tantas atrocidades e repetem como se fossem robôs: nós também atiramos. Desnecessário perder-se em análises para entender de que modo as fotografias podem ser utilizadas para enganar, matar, ludibriar, acusar, vender produtos que não funcionam etc. etc. A verdade é que a metáfora «câmera/arma de fogo» não é de modo algum disparatada. Ambas possuem mira, ambas precisam de gatilho para finalizar os respectivos alvos. Já se sabe que algumas comunidades isoladas têm verdadeiro pavor do aparato fotográfico: objeto estranho que assalta aquilo que há dentro de nós. Revela-se a fotografia e o que se vê é mesmo uma figura humana estática, paralisada pelo tiro do tempo, geralmente com os olhos arregalados. Pistola e obturador que transformam os vivos em fantasmas, em memórias que aos poucos desvanecem.

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Texto: P. R. Cunha
Fotografia: © Robert Capa