Luto & melancolia

Perdi algumas namoradas porque numa altura reclamaram que eu dava mais atenção aos livros do que a elas. Não me orgulho de nada disso — afinal, as namoradas são seres humanos, os livros não o são. Mas acontece que fui diagnosticado com doença bibliófila. De acordo com os parâmetros estabelecidos pelo «Exame Umberto Eco Ex-Líbris» (vide La memoria vegetale e altri scritti di bibliofilia), estou no segmento intermediário-avançado do espectro dessa mania livresca. Isso quer dizer basicamente que perco o sono, e as estribeiras, caso alguma obra pela qual eu tenha considerável apreço demonstre uma qualquer deformidade. É terrível. Trata-se sem dúvida de uma tentativa obsessiva de enganar e/ou congelar as peripécias do tempo — não à toa sugerem que os livros sejam armazenados em locais refrigerados. Manter os livros em boas condições e assim criar para si a ilusão de que o corpo de carne também resistirá à passagem dos dias. Ledo engano. Estou a perceber que não importa o tanto que se cuide bem desses objetos retangulares, o relógio sempre apronta uma das suas. Para o bibliófilo, entrar em contato com a decadência do livro é entrar em contato com a própria decadência. A brochura está esfarelando nas dobras, e o mesmo está a ocorrer com a pele e com a memória do obcecado. Quero dizer, juntamente com o próprio objeto de adoração está a desintegrar-se, o pobre bibliófilo. Alguns chegam mesmo a empacotar todos os livros, ou colocá-los dentro de mausoléus de vidro. Não abram estas portas, eles dizem, expressamente proibido abri-las. No entanto, anos depois eles sentem vontade de manusear Luto e melancolia do Sigmund Freud e qual não é a surpresa quando deparam-se com as imperfeições causadas pela luz do sol, ou pelas traças que de alguma forma invadiram o caixão-biblioteca. O dano ao livro é um pecado que o bibliófilo nunca esquece — insisto nisso. Ele logo se torna má companhia, irascível, inescrupuloso, perturbado, ao passo que todos aqueles que o conhecem e até gostam tacitamente dele não têm outra opção a não ser afastar-se. A capinha de Luto e melancolia não vai resistir, e a maldita da Cosac Naify já não existe mais para reeditar a coisa toda. Às bondosas senhoritas com as quais tive o prazer de me relacionar, a maneira como eu me degrado por conta dessas lombadas imperfeitas é patética. E, pensando bem, talvez elas tenham razão.

— P. R. Cunha

Frederico Hofmannsthal fala sobre a peça «Acumuladores» de P. R. Cunha

Há na peça Acumuladores do brasileiro P. R. Cunha uma clara tentativa de transformar em risível tudo aquilo que costuma atormentar a vida do animal humano. Aliás, característica perceptível em boa parte da produção literária deste jovem autor ainda desconhecido em terras portuguesas: colocar o dedo na ferida, expor as ilusões contemporâneas, tirar o indivíduo — principalmente aquele que se diz artista — da zona de conforto, abraçar a frieza do mundo, das pessoas que a cada dia se transformam mais e mais em bonecos, o homem que degusta a vida, e logo perde tudo, inclusive a própria vida, porque adquiriu muitas dívidas, não deu conta, bala na cabeça etc. A convicção de que tudo é perda de tempo. Acumuladores, cuja estreia em casas lisboetas deve se dar no segundo semestre deste dois mil e dezoito, é uma antologia de fracassos e resgata a figura da mesa à moda teatro do absurdo — se é que ainda se utilizam de tais termos. A mesa-epicentro, ao redor da qual as grandes decisões da humanidade são levadas a cabo. Mas aqui um objeto cenográfico, quase um detalhe. Personagem Filho Sonhador está sentado à mesa e toma notas a respeito de um qualquer romance alemão do século dezanove e a Mãe Rancorosa não compreende a paixão do rapaz pela literatura:

MÃE RANCOROSA
O que está aí a fazer

FILHO SONHADOR
Estou a acumular

MÃE RANCOROSA
A acumular
Vocês jovens
só servem para isso

FILHO SONHADOR
Para acumular

MÃE RANCOROSA
E não sabem que
quando morrer
tudo se perde
não fica uma
vírgula
acumular

FILHO SONHADOR
Sim
acumular

Percebe-se ligeiro que ali ao palco vai um drama em família — por vezes familiar — em que o menino ingênuo precisa resistir ao ímpeto destrutivo da mãe que envelhecera, que há muito notara que nada fez de bom para si e muito menos para os outros. Mãe Rancorosa que sente inveja dos anos que Filho Sonhador ainda tem pela frente:

MÃE RANCOROSA
Não dura muito viu
estes momentinhos de
perder-se
de literatura
logo vêm as tragédias

FILHO SONHADOR
Vêm pois eu sei
que vêm

MÃE RANCOROSA
(levanta a mão para o filho)
Não sabe de nada
moleque
ainda é moleque

Mãe Rancorosa, Filho Sonhador e o (anti)herói da peça a quem P. R. Cunha chama de Pai Tirano. Personagens fracassados ou que em breve fracassarão, porque a angústia, se calhar, é mesmo o fim habitual. Não importa o tanto que se acumule. Como na cena em que Pai Tirano tenta mostrar para Filho Sonhador que não adianta esforçar-se. Tudo termina em trevas:

PAI TIRANO
Se já hoje discutimos a relevância
do motorista para a sociedade
porque logo todos os automóveis
serão dirigidos por robôs
então precisamos também
discutir a relevância da chamada
classe escritora
Quando percebemos que toda a gente
se transforma em máquina a passos largos
e as máquinas como sabemos
só pensam em trabalhar
não pensam em literatura
E você aí
sentado à mesa
acredita que acumula letras
mas em boa verdade
e isso lhe digo porque sou pai
você acumula
dores

Bonito jogo de palavras. E pertinente discussão sobre a relevância da literatura numa sociedade que aponta os telemóveis para todo o canto, passa horas em maratonas Netflix. Então acompanhamos a angústia de Filho Sonhador à medida que ele percebe que realmente não faz sentido acumular tantas palavras, porque os escritores de livros são negligenciados, ninguém dá a mínima para eles:

FILHO SONHADOR
A vovó lia
achava bonitinho
é bonitinho o que você escreve
a vovó dizia
mas a vovó já não está
a vovó se foi
e eu agora a me sentir
como um professor de latim
que sabe ensinar
uma língua morta

P. R. Cunha tenta revelar (e lidar com) a realidade dos fatos. E sai-se do teatro a reflectir um bocadinho sobre o que estamos a fazer com as nossas letras. Pois que as máquinas não querem lá saber de literatura. As máquinas trabalham. As máquinas. As nossas ruínas. Enquanto isso, acumulamos.

O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas

Desde já esclareço que utilizo o verbo conhecer com aquela despreocupação do viajante que passa duas horinhas ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris e volta para casa a pavonear que conheceu a França. Pois que tietagem pressupõe atitude, afinal. E quando um mero escriba se mete a falar sobre a admiração que sente por determinado escritor famoso, corre-se sem dúvida o risco de cair para o bobo. Em julho de dois mil e doze saí de Brasília dentro de um Nissan Tiida para percorrer mil duzentos e cinquenta e três quilômetros de estrada até a Festa Literária Internacional de Paraty — a boa e simpática Flip. Era a décima edição da festinha livresca e permiti-me grandes expectativas porque 1) Enrique Vila-Matas e 2) Jennifer Egan, Ian McEwan, Dany Laferrièrre, Alejandro Zambra. Mas a primeira coisa em que realmente reparei no lugarejo não tinha muito que ver com literatura: foi a quantidade expressiva de seres humanos que andavam lá para a chamada melhor idade. Velhinhos e velhinhas tropeçando nas ruelas de paralelepípedos de Paraty. Pensei com os meus botões que teria sido gira se a organização também tivesse se dado conta de que boa parte do público leitor brasileiro já passara dos sessenta/setenta carnavais e construísse caminhos mais seguros, pelo menos durante o evento. Nada. À guisa de desabafo compartilho a tese que elaborei quando diante dessas negligências: acredito que os idosos têm medo de reclamar e depois serem tachados de «velhinhos rabugentos», e a organização Flip bem sabe disso, e fica quietinha na dela porque não quer investir dinheiros em caminhos seguros para aqueles que, no fim de contas, são bem os que financiam a coisa toda. A cidade é bonita e agradável para os jovens adultos. Depois de um tempinho a perambular pelo centro, confesso que senti enorme vontade de cortar os pulsos por conta dos comerciantes de poesia que me abordavam a cada dois passos para ler estrofes de gosto duvidoso ao estilo: estas palavras, meu amigo, são Paraty. É necessário um esforço considerável para não cair numa branda melancolia e para não começar a achar toda aquela overdose de literatura um verdadeiro absurdo. Felizmente, percebi ligeiro que havia uma espécie de antídoto «contra» os poetas de rua: sentar-se nalgum canto, abrir um livro do Foster Wallace e responder numa qualquer língua estrangeira que je ne parle pas portugais. É claro que depois de me utilizar desse subterfúgio canhestro eu comecei a me sentir culpado e por vezes cheguei mesmo a abordar poetas-comerciantes na rua para pedir poema: vá lá, leia-me alguma coisa. Eles abriam sorriso que ia até Angra dos Reis e citavam: o corpo, a alma, Paraty, não fazem sentido. Fim da tardinha, chegara o momento de ir ao bate-papo Vila-Matas/Zambra. Este meu jovem coração se sublevou e assaltou-me o primeiro sentimento de mamãe-eu-sou-patético-idolatro-escritores. Duas horas depois, estava eu na fila de autógrafos a ver de longe a cabeça grisalha do Vila-Matas, as mãos disciplinadas do escritor espanhol num surto de assinaturas e os leitores que saíam com os livros coloridinhos editados pela saudosa Cosac Naify. Quando cheguei perto o bastante para conseguir escutar o que o Vila-Matas falava para as pessoas e o que as pessoas falavam para o Vila-Matas reparei que ninguém dizia nada, absoluto silêncio. O processo se passava da seguinte maneira: ser humano se aproximava do Vila-Matas, jogava o livro do Vila-Matas sobre a mesa, Vila-Matas abria o livro, assinava, devolvia o livro para ser humano e pronto. Não me orgulho em dizê-lo, mas essas cenas Tempos modernos — com o livro a fazer as vezes do parafuso — causaram-me uma incontrolável Schadenfreude (prazer pelo infortúnio alheio). Vila-Matas não levantava a cabeça porque ninguém lhe dirigia a palavra, parecia óbvio. E muito provavelmente ninguém lhe dirigia a palavra porque Vila-Matas não levantava a cabeça. Resolvi colocar essas ruminações em prática. Na minha vez, fiquei parado numa postura ridícula, hoje consigo perceber com clareza, numa postura imbecil e teatral diante do Vila-Matas. Daí mostrei o exemplar de O mal de Montano — que juntamente com O náufrago, do Bernhard, foi a obra que mais reli na vida — e lhe disse: el libro más increíble de la literatura española, sin dudas. Vila-Matas levantou a cabeça. Arregalou os olhos. Fitou-me por alguns segundos: ¿Cómo te llamas, joven? Eu disse meu nome, ele autografou na folha de rosto do Montano e estendeu-me a mão: ¡Suerte, chico! Estarrecido, fiquei ainda uns bons trinta minutos perto da fila a ver se ele iria conversar com mais alguém. Não conversou. A linha de montagem dos leitores tinha voltado a funcionar: joga o livro, o Vila-Matas assina, pega o livro, vai embora. Em silêncio. Absoluto.

— P. R. Cunha

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Contradizer-se para dizer livro

Já se sabe que Franz Kafka não suportava a realidade. Certa vez, num sanatório em Kierling ben Wien, repetira a algum visitante distraído (provavelmente ao amigo Max Brod): tudo o que não é literatura me aborrece. A mãezinha não larga, ela tem garras — outro comentário kafkiano, desta vez sobre a cidade de Praga, mas que bem podia ser sobre a fuga literária que ele tentara implementar durante os breves quarenta anos e onze meses de planeta Terra. Jorge Luis Borges queria viver num sítio dentro das páginas de um gigantesco livro que abrigasse todas as histórias da humanidade. Mesmo depois de perder a visão, Borges ainda se trancava numa biblioteca e inventava outros mundos, porque aquele que se passa alhures nunca se mostrara o suficiente. Morreu em Genebra, perto das inúmeras enciclopédias que colecionou. Raymond Carver acelerava o processo auto-depredativo ao perder-se no álcool, na melancolia, e nas palavras — coquetel mortífero que, a história o confirma, levou embora tantos escritores cedo demais. Estes três exemplos devem bastar aos propósitos paradoxais desta crônica. Kafka, Borges, Carver — como se retratados por W. G. Sebald, que num ousado hiper-realismo coloca o leitor na perspectiva de um zepelim, a observar a esfera terrestre que habitamos cheia de corpos deitados, fila após fila, como se ceifados pela foice de Saturno. Um cemitério comprido, continua Sebald, sem fim, para uma humanidade epilética. Daí a necessidade de querer escapar ligeiro dessas aterradoras imagens de decadência e morte. Fugir, reconstruir para si os heróis — arquétipos, exemplos, referências — num outro universo, este muito mais aconchegante e controlável; aos livros, que não se aborrecem se você jogá-los num canto qualquer e só voltar a eles quando lhe parecer conveniente. Tais eram os antídotos adequados para uma sociedade que ainda dependia sobremaneira do entretenimento por escrito. Sem websítios, telemóveis, Netflix, o vivente perdia-se na literatura, nos jornais. Agora tropeçamos num ardiloso e inevitável juízo de valor: se a anestesia literária de outrora era mais, ou menos, eficaz do que a enxurrada de sedativos que a indústria do lazer proporciona atualmente. Talvez o número de suicídios — a aumentar a cada ano — consiga esclarecer alguns impasses, difícil dizê-lo. No entanto, pelos vistos parece pouco provável que diante deste excesso de sedativos tecnológicos alguém arrisque-se a confiar única e exclusivamente no chazinho feito de páginas de literatura.

— P. R. Cunha

Marca-passo

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— Livraria Bertrand, Rua Garrett [s.d.] Fotógrafo não identificado
O leitor curioso entra na Livraria Bertrand em Lisboa e depara-se com a seguinte oração: «Desde 1732 a ler com os portugueses». Eis uma cena que já se tornara clássica entre os bibliófilos que obsessivamente saem mundo afora em busca dos chamados refúgios de papel — inclusive, lembra um bom bocado as primeiras observações de Jorge Carrión sobre certa visita à mesma Bertrand numa altura em que escrevia Livrarias — uma história de paixão comércio e melancolia, publicado pela Quetzal. Na primeira sala, diz Carrión, tudo aponta para esse passado venerável patente na data: a vitrina de livros em destaque; as escadas deslizantes ou o banco-escadote que permite aceder às prateleiras mais altas de umas estantes vetustas — o diploma do Guinness World Records, a certificá-la como a mais antiga do mundo. Interessa-me sobremaneira esse cuidado com o tempo, o desejo de aprisioná-lo, recuperá-lo, repeti-lo, o tempo que legitima. Se dura há tanto, é porque deve servir. Lembrei-me também de uma entrevista cedida pelo Alberto Manguel em que ele comenta sobre determinadas crises de ansiedade que por vezes o assaltam quando dentro de livrarias. A vontade é de derrubar aquela quantidade absurda de livros, ele diz, o ódio e a frustração por não conseguir lê-los todos. Simplesmente não há tempo. O ser humano que se dedica com afinco às leituras conseguirá ler aproximadamente cinco mil livros em vida. Parece um número razoável. Até ser comparado com a sufocante cifra de quase 900 mil obras lançadas apenas no mercado estadunidense em 2017. São as misteriosas negações e proibições às quais a existência se entrega. Então, entra na Bertrand no n.º 73 da Rua Garrett, ou em qualquer outra livraria, e diga para si: não sou ninguém; este universo de celulose e tipologias me é quase todo inexplorável. Mas não se desespere. Porque, como dissera um antigo: só é mesmo possível desejar uma estrela que esteja fora do nosso alcance.

— P. R. Cunha

Seu destino também seria o de tombar cedo no combate

Hemingway dizia que fazer literatura era fácil: bastava estar à maquina de escrever e sangrar. A ironia do autor de Adeus às armas — que dera adeus ao mundo com um tiro de fuzil na própria cabeça — incrementa-se com o fato de ele sempre ter trabalhado em pé, postura que, como se sabe, proporciona melhor circulação sanguínea. Literatura autodestrutiva, a do Hemingway. E não raro observa-se nos chamados novos escritores um terrível asco por essas gentes de outros tempos que entregavam-se à boemia, ao sofrimento, às batalhas, ao suicídio. Porque hoje se escreve à base de vitaminas e minerais, água potável no cantil. Há mesmo diversos sítios web que contam lá como/quando/onde deve comer o literato contemporâneo — vestido com o pulôver costurado pela bisavô (que já vive cá um bocado de tempo). Joseph Conrad escreve sobre o livro O emblema vermelho da coragem, do amigo Stephen Crane, edição Penguin: obra espontânea que parece jorrar e fluir como uma nascente das profundezas da alma do autor. Jorrar, fluir, emblema vermelho — eufemismos de sangue. E este grande período de pseudo-paz pelo qual a humanidade está a passar desde o colapso da União Soviética, período obscuro, de indiferenças. Literatura que por vezes se torna o reflexo do status quo; escritores alheados que vestem as máscaras jubilosas e preferem esquecer que o animal humano sobrevive num esforço nascido de dor e morte. Que a arte, e aqui cito o Crane: é filha do padecimento.

— P. R. Cunha

Mar morto

Por vezes cai-se numa estranha cilada nostálgica, a tal busca da repetição daquilo que já se passou. Uma viagem ao estrangeiro deixa-lhe marcas, o tipo regressa para casa com a certeza de dever cumprido. Ou encontrar-se com uma pessoa adorável e têm lá aos Andes chilenos um fim de semana revigorante. Pouco a pouco essas satisfações desvanecem, o cérebro busca recompensas, quer passar pelo mesmo, para sentir-se o mesmo. Daí volta-se ao estrangeiro e a jornada não é nada parecida com a anterior, a mala foi extraviada no aeroporto, a recepcionista do hotel pede desculpas porque a reserva não fora devidamente registrada no sistema, o passeio ao parque no centro da cidade — que há cinco anos tinha-lhe sido um dos mais encantadores — é um terrível desastre, chove o tempo inteiro. Algo análogo se passa quando voltam aos Andes, ela não é mais a mesma, ele tampouco, a neve bloqueia a estrada e ambos ficam horas dentro de um automóvel miúdo à espera de resgate. Não seria de todo estranho perguntar-se os porquês dessa obsessão pelo retorno. Como se a memória apenas hibernasse num cantinho algures, a bastar uma simples pesquisa aos arquivos neurológicos para sentir qualquer coisa parecida com o que se sentiu numa altura da vida em que as coisas estavam a andar direitinho. A realidade, contudo, insiste em mostrar que navegamos através de um gélido oceano do esquecimento, da indiferença e, principalmente, das mudanças. Porque as ondas nunca batem à praia com o mesmo formato. Não raro, quando o sujeito se depara com essas inquietações percebe que um dia os momentos agradáveis pelos quais passou modificar-se-ão, eventualmente desaparecem. Resigna-se: vou-me embora com as minhas experiências e logo ninguém dará por isso.

— P. R. Cunha