Mobilidades (modelos transitórios)*

Pelos vistos, toda a gente tem um amigo ou uma amiga que já dissera: o telemóvel está a arruinar-nos. 

Camila e Martin estão sentados nalgum café, conversam a respeito de miudezas e comem o croissant misto; não têm telemóvel. À mesa ao lado estão Lúcia e James que nunca se olham, porque atentos ao ecrã luminoso do próprio mobile. Camila e Martin mostram-se agora incomodados, porque perceberam que praticamente todos os frequentadores do café utilizam o telemóvel da forma mais natural e despreocupada possível, como se em universos paralelos. 

Paradoxalmente, Camila e Martin ao cultivar um encontro humano sentem-se desumanos, inadequados, desconectados, deslocados — assim por diante.

Elon Musk há muito defende a ideia de que os telemóveis se tornaram uma espécie de prótese essencial para o Homo sapiens. Fulano esquece o aparelho em casa e o cérebro entra em parafuso como se estivesse a ter abstinência de cocaína. Aliás, uma ressonância magnética mostraria que a estrutura cerebral de um viciado em drogas e a de um viciado em telemóvel possuem mais semelhanças do que gostaríamos de acreditar.

Certa senhora de noventa e um anos observa os netos a brincar com os respectivos telemóveis durante o almoço e lembra que com o rádio e com a televisão acontecera a mesma coisa. Os meios de comunicação a invadir a privacidade da família, diz a vovó, não se pode mais fazer as refeições em paz.

Uma simpática analogia compara os telemóveis às enciclopédias de outrora. Como aquela propaganda de telefonia que diz: estás a carregar um mundo de possibilidades nas mãos, nunca foste tão inteligente, aproveita. 

Mas há quem ainda prefira comparar o telemóvel com o urânio. A saber: se pouco enriquecido (2% a 4%), o urânio proporciona excelente alternativa energética; mas se altamente enriquecido (90% a 99%), então teremos de lidar com bombas atômicas capazes de destruir rapidamente a humanidade.

— P. R. Cunha


*Como publicado na imprensa em julho de 2018.

Quando a Musa visitar, estejam preparados, com os ouvidos atentos — ouçam

Alberto Manguel abre as portas de sua Library at Night dedicando-a para o Craig e a nos contar que o poeta otomano Abdüllatif Çelebi costumava dizer que os livros da biblioteca «são amigos leais e dedicados que afastam todas as preocupações». Muito bonita imagem.

Por vezes para lê-los (ou mesmo até para escrevê-los) a figura humana que lida com os verbos intransitivos precisa também de encontrar um sítio afastado, uma própria biblioteca à noite. 

Gesto de resistência: de dia, sou bombardeado por imagens alheias; agora, aqui, sentadinho num cômodo aprazível, permito-me criar fantasias sem os mediadores publicitários.

Ler e escrever com uma despreocupação que beira a leviandade, nos diz ainda o Manguel.

Enganam-se aqueles que acreditam que tais fugas são unicamente tentativas de abandonar o mundo, viver para o longe e não lidar com os desgostos da realidade. Vemos Montaigne escapulindo para o cume da torre, vemos Montaigne solitário, pensativo, concentrado nas leituras e na fazenda de ensaios. Mas depois observamos Montaigne a descer as escadas de volta para a família, para os amigos, para os afazeres administrativos. Montaigne à procura de si mesmo, recluso, mas sempre a retornar, sempre atento ao nobre objetivo de sair do silêncio um sujeito melhor, mais justo para os seus.

De aí apagamos a luz da escrivaninha, dormimos um sono revigorante e acordamos um bocadinho menos defeituosos. Recompensas dos esconderijos temporários.

— P. R. Cunha

Nenhum segredo a ser revelado – palavras de um fotógrafo amador

Recentemente fui convidado para conversar sobre fotografia com escolares. Moças e rapazes entre 12 e 15 anos que cresceram (e ainda estão a crescer) segurando telemóveis, tablets, e-readers, computadores portáteis quase tão finos quanto uma folha de papel. Enviam mensagens para pessoas do mundo inteiro, recebem respostas num átimo de segundo. Enquanto tomam o achocolatado, jogam o Minecraft, assistem séries Netflix, escrevem crítica a respeito da última temporada de Game of Thrones e brigam com os pais — que muitas vezes encontram-se bem ali, sentados à mesma mesa — através do WhatsApp. 

Estou ainda nos primórdios dos meus anos trinta mas senti-me como se andasse por volta dos oitenta quando tive de explicar para esses miúdos que minha primeira câmera fotográfica foi uma Kodak 35mm descartável com filme para vinte e sete poses. Comecei a tirar fotos em 1997 — época em que Bill Clinton ainda era o presidente dos Estados Unidos, e o Gustavo Kuerten, grande Guga, fazia corações nas quadras de saibro de Roland Garros. Não fugia muito do clichê opa!, vejo que me interesso por essa geringonça, agora vou registrar as conquistas de indivíduos tidos como membros da família. 

Nos dias nublados, fotografava natureza-morta, toda a sorte de objetos inanimados. Achava-me grande, um artista pós-moderno.

Desnecessário bancar o virtuose da fotografia, digo aos escolares. Apesar de minhas primeiras câmeras terem sido analógicas, só comecei a aprender a fotografar de fato quando já utilizava uma Sony Cyber-shot com cartão de memória para aproximadamente quinhentos arquivos JPG. E o processo de aprendizagem nada teve a ver com a mudança tecnológica, mas sim com os pormenores culturais que adquiri em viagens (geográficas, musicais, cinematográficas, literárias)*. 

Sou daqueles que acreditam que «ser-fotógrafo» depende de uma longa série de aptidões extracurriculares. Mas não imaginava que esse simples conceito — cujas bases podem ser encontradas na Poética de Aristóteles, um texto mais antigo do que o nosso próprio calendário —, não imaginava, portanto, que transmitir essa descomplicada ideia para jovens da chamada Gen Z** seria uma tarefa tão ardilosa***.

A verdade é que a internet e as tecnologias cada vez mais aprimoradas são sim excelentes formas de produção/divulgação imagética; mas elas também fomentam imediatismos e outras ansiedades que podem ser fatais para a saudável prática fotográfica.

Por exemplo. A primeira pergunta que recebi durante a conversa foi: 

— Tio, tenho um iPhone X com câmera TrueDepth, A11 Bionic, e mesmo assim as minhas fotos são horríveis, o que devo fazer?

Lembrei-me da primeira vez em que tentei desvendar os segredos do Photoshop. Ali estava um programa infinito, com recursos infinitos, possibilidades infinitas e eu não sabia sequer para onde apontar o cursor do rato. Numa palavra: podemos adquirir as melhores ferramentas de edição e captação disponíveis, mas se não possuímos uma ideia, tudo o que conseguiremos serão porcarias mais nítidas.

Compartilho com os escolares algumas fotos dos meus fotógrafos favoritos: Cartier-Bresson, Capa, Diane Arbus, Doisneau, Atget, Octavius Hill, Alfred Stieglitz, Vivian Maier, Dorothea Lange. São imagens magníficas, os escolares concordam. E nenhum desses artistas utilizava câmera digital, eu digo, e se alguém tentasse explicar-lhes o que era Photoshop talvez esse alguém fosse acusado de bruxaria-voodoo-satanismo. E, convenhamos, com razão

Certo: precisamos agora procurar tema interessante e digno de se fotografar, e depois manter-se fiel ao plano. Essa sugestão não é minha, mas justamente desses fotógrafos que citei acima. 

Hoje em dia toda a gente carrega consigo um telemóvel com surpreendentes captações de imagem. Ótimo. Mas a grande maioria continua a utilizar esse tipo de ferramenta apenas para confirmar experiências****. Fotografias como provas de que determinado evento se realizou, de que a tarefa foi cumprida, isto é: saí de casa, houve diversão, experimentei comidas diferentes, vejam a minha desenvoltura financeira, estou a viver e por aí adiante.

Existe, contudo, um lado positivo nas banalizações. Podemos tirar fotos sem nos preocuparmos (tanto) com o enquadramento, saturação, contraste, com o número de poses do filme. Afinal, se alguém fechou os olhos, ou não sorriu, ou ficou com cara de psicopata, ou um pássaro decidiu fazer caquinha nos ombros do vovô Fred, bom, podemos resolver isso com um dedinho. 

Assim como acontece na literatura, o papel da seleção se torna preponderante para a fotografia. Num texto literário escrevemos numa tacada só, como se diz, e depois nos vemos diante de um amontoado de palavras desnecessárias. O escritor respira fundo e corta, corta, corta, corta. Até chegar ao menor denominador comum, àquilo que alguns chamam de essencial*****. 

Acontece que esse exercício seletivo também depende da nossa cultura, da nossa formação, das nossas atividades extracurriculares. Esse aperfeiçoamento leva tempo. E, como sabemos, a Gen Z não tem tempo a perder. O círculo começa a se fechar.

Os aparatos tecnológicos prometem muitos «agoras». Tire a foto agora, publique a foto agora, edite a foto agora. E com isso talvez estejamos a modificar alguns aspectos do ato de fotografar em si (escrevo isto sem qualquer tipo de juízo de valor [nem melhor, nem pior: apenas diferente]). Tudo o que posso fazer é compartilhar as minhas experiências. Cada um, no fim de contas, percorre/constrói a própria estrada.

A mim a fotografia sempre foi uma grande compilação de fatores, de percepções, múltiplos canais, referências diversas. Por vezes, inclusive, gosto de sair com a minha câmera enquanto escuto algum artista específico******. A música se transforma na trilha sonora das imagens, é bonito de ver. Noutras tantas vezes leio determinado trecho de um livrinho agradável e aquelas palavras me servem de gatilho. Nem precisaria comentar que os enquadramentos cinematográficos mexem deveras com a minha imaginação — inclusive, ainda considero Dziga Viértov******* um dos melhores professores de fotografia do mundo.

Despeço-me deste apressado ensaio com as mesmas palavrinhas com as quais finalizei a conversa com os escolares: leiam muito, façam muitas viagens, copiem descaradamente outros fotógrafos talentosos, escutem canções inspiradoras, tirem muitas fotos, muitas mesmo, centenas de fotos, milhares de fotos, identifiquem as ruins (98% do total), procurem aperfeiçoar as que ficaram boas — e assim procedam, ad infinitum.

P. R. Cunha


*Tive vontades de acrescentar a famigerada «viagem ilícita» (i.e.: alucinógenos), mas preferi evitar reprimendas dos professores e do próprio diretor da escola — além de uma eventual visita à delegacia mais próxima.

**iGeneration, Homeland Generation, Plurais, Centennials, Post-Millennials, Smartphone Generation (o anglicismo despudorado sugere, naturalmente, a onisciência da língua inglesa no vocabulário da juventude contemporânea [quer queira quer não]).

***Talvez fosse o caso de esclarecer de uma vez por todas que estou a generalizar. E, como se diz, toda regra possui exceções. Clarisse, menina muito tímida, veio conversar comigo depois da apresentação e mostrou-me algumas fotografias que, segundo ela, foram tiradas despretensiosamente durante o velório de uma tia distante. Não creio que eu tenha exagerado quando lhe disse que tinha um potencial enorme para se tornar uma espécie de nova (e melhorada) Julia Margaret Cameron.

****As enxurradas de selfies (que, pelos vistos, parecem ter dado uma [breve?] trégua) confirmariam esses modi operandi.

*****Diz a lenda que certa vez perguntaram ao Michelangelo como ele havia feito a escultura de Davi. Michelangelo teria coçado a têmpora e respondido: fiquei a observar o mármore durante algum tempo; depois, simplesmente peguei o martelo e eliminei tudo o que não era o Davi.

******The Verve é ótimo para fotografias noturnas e/ou p&b.

*******Vide Um homem com uma câmera (1929).

Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.

Instafobia (a experiência de um antissocial nos limites do Instagram)

Estive em Niterói em maio e tirei uma porção de fotografias. Eu andava para cima e para baixo com a minha Canon T2i (cujo apelido é «Sei Shōnagon» [singela homenagem à autora de O livro do travesseiro]) e numa altura a recepcionista da pousada onde eu me hospedei, moça muito bonita por sinal, pediu-me para, como se diz, dar uma espiadinha nas fotos. Você não pode guardá-las consigo, ela falou, crie conta no Instagram, mostre-as para o mundo. 

Quem me conhece há mais de duas semanas sabe que tenho forte queda por damas de excelente figura que emitem delicadas opiniões a respeito das minhas fotografias. Ao passo que criei a bendita conta no Instagram. E como também não sei me divertir, comecei a escrever uma espécie de relatório informal (sic) a fim de problematizar as experiências como usuário da maior rede de compartilhamentos de imagens do mundo. Este sou eu, senhoras & senhoras.

Desde o início, estava ciente de que a empreitada só funcionaria se eu utilizasse a conta como portfólio — a saber: P. R.-fotógrafo-somente-atrás-das-câmeras-e-eis-aqui-as-minhas-fotos. Quase como se fosse uma continuidade da postura que costumo adotar neste blogue; só que em vez de palavras, escreveria à moda pixel. 

Bom. Toda essa lenga-lenga de distanciamento racional é muito bonita na teoria, mas na prática deslizei (diversas vezes) nas bananas da vaidade e publiquei retratos desta minha jovem face — mesmo que apenas em «Stories» e com a nobre finalidade (i.e.: desculpa esfarrapada) de divulgar projetos musicais.

Minhas primeiras publicações foram um verdadeiro, como é mesmo a palavra… fracasso. Cinco, sete, no máximo nove curtidas — ou likes, se preferir. A verdade é que nem a sempre encorajadora mamã estava a dar muita atenção para as minhas tentativas de socializar na rede web. Meu filho, ela disse, você não tem paciência para essas coisas, e aposto esta casa como daqui a um mês você já vai ter desativado a conta.

Pois vejam como a vida é irônica… passaram-se dois meses, a conta sobrevive, e se eu tivesse feito um contrato formal com mamã (assinaturas reconhecidas em cartório, advogados, testemunhas etc.) hoje teria uma casa para chamar de minha. Não o fiz, paciência.

No meu despretensioso «Dossiê Instagram» — a nomenclatura é temporária — dou especial atenção ao modus operandi dos seres humanos que ali compartilham, conversam, gostam, odeiam, ignoram, paqueram, ironizam, aparecem, desaparecem, seguem, deixam de seguir. E antes que alguém me acuse de charlatanismo, esclareço que, em certa medida, tive/tenho/terei um pouquinho de cada perfil analisado. Então é isto: selecionei alguns excertos da pesquisa e gostava de anexá-los à guisa de recreio.

Minhas calorosas saudações,

— P. R. Cunha*


[ANEXO: DOSSIÊ INSTAGRAM / EXCERTOS]

O perfil artista frustrado
Aquele ser humano que publica fotos estranhas, mas que prefere acreditar que são fotos incríveis, surreais; comporta-se como se fosse um fotógrafo incompreendido, um fotógrafo do futuro, à espera do verdadeiro reconhecimento que lhe convém. Amiúde, comenta com os amigos que «os usuários do Instagram não sabem apreciar arte, e é por isso que só recebe duas curtidas a cada postagem», esquecendo-se, inclusive, de perguntar por que diabos nem os próprios amigos estariam «apreciando» esse amontoado de esquisitices.

O perfil caça-likes
Este ser humano vai curtir a foto de toda a gente, inclusive as fotos abstratas (na falta de melhor termo) dos artistas frustrados (ver perfil anterior). E tudo isso em troca de corações. Parece claro que o cúmulo dessa prática é a famigerada hashtag «likeforlikes» — e que tais relacionados.

O perfil à espreita
Basicamente, aquele usuário que monitora todos os seguidores, e quer saber quem está curtindo as suas fotos, e quem começou a segui-lo, e quem deixou de segui-lo, e se alguém deixou de segui-lo ele bloqueia esse alguém, e passa dias, semanas, um bocado injuriado a questionar-se por que esse alguém deixara de segui-lo, e assim por diante.

O perfil voyeur
Há aos montes. Este introspectivo ser humano raramente compartilha alguma coisa e por vezes só sabemos da sua existência quando vemos o rosto dele nos registros das «Stories». Ingênua variante voyeurística: o usuário que aprecia a fotografia alheia, acompanha francamente as publicações dos colegas, mas de fato não tem muito tempo (ou paciência) para atualizar a própria conta.

O perfil crítico-fotográfico/só-que-não
Se minha opinião valesse para alguma coisa, diria que este é o perfil mais odioso desde que o mundo é mundo. Trata-se daquele ser humano que se acha entendedor das belas fotografias, garante ter muito conteúdo, uma reputação a zelar, não pode se expor curtindo «qualquer coisinha por aí» (palavras dele), só vai curtir a foto alheia se a imagem for nível-National-Geographic para cima. Consigo claramente vê-lo esparramado num sofá com terríveis almofadas verdes, a empanturrar-se com toda a sorte de salgadinhos industrializados (Ruffles, primordialmente), a dar o scroll down e o scroll up com aquela patética fisionomia de desdém, a dizer: esta foto não merece o meu apreço, esta outra foto é ruim, que fotógrafo medíocre. (Desnecessário ressaltar que o perfil crítico-fotográfico/só-que-não jamais curtiria uma publicação do perfil artista frustrado).


*Numa rara demonstração de coragem, humildade e resiliência, o autor deste blogue compartilha aqui o endereço da própria conta no Instagram: @pierre_cunha

Escritores solteiros casam-se com a própria obra

Há poucos meses participei de uma entrevista de emprego em que a pessoa responsável pela seleção dos candidatos me dissera: a nossa empresa é uma amante muito exigente. Essa frase ficou na minha cabeça.

Escrever livro é como estar num relacionamento — há períodos incríveis em que autor e narrativa parecem feitos um para o outro, depois brigam, dormem em camas separadas, sentem muita raiva, saem para jantar, pedem desculpas, dormem juntos novamente etcétera.

Para Franz Kafka, escrever era solidão absoluta, a descida ao frio poço de si mesmo. Não é difícil, portanto, compreender os motivos de o autor de A metamorfose ter confessado várias vezes ao amigo Max Brod que o casamento à moda antiga de certeza lhe tiraria a ociosidade da escrita. Por fim, viu-se diante de um impasse: ficar com a esposa de papel ou contrair matrimônio com a solícita Felice Bauer. E toda a gente sabe o que ele escolhera.

Escritores que precisam do silêncio, do vazio, que não aturariam nenhuma voz atrás dos ombros a lhe dar pitacos sobre esta ou aquela cena, «este personagem não me cativou», diz o cônjuge, «e se você fosse um bocadinho menos pessimista», pergunta a noiva.

Jane Austen nunca se casou, Emily Dickinson tampouco, Henry Thoreau e Walt Whitman também não, Louisa May Alcott dizia preferir remar a própria canoa — sozinha.

Hijos sin hijos, diria o Enrique Vila-Matas. Escritores que decidiram pela solteirice humana, porque a literatura, como se sabe, é uma amante muito exigente.

— P. R. Cunha

O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.