Danças macabras

Menino medieval sai para brincar e, ainda à porta da pequena morada campestre, depara-se com um cadáver. É o corpo em decomposição do tio, que viera de longe para consolar a irmã — mãe do menino — cujo marido não resistira à pestilência. A morte para essa pobre gente como um fantasma ineliminável; ou a convidada indesejada com foice em mãos, pronta para agir. Hélinand de Froidmont, cronista do século doze que escrevia com aquela perturbadora urgência de quem se sabe muito breve, passageiro, reflexo de uma época verdadeiramente brutal em que a vida podia escapar-se num átimo. «A morte tudo desfaz em uma hora», comenta ele nos seus versos saturninos; a morte, uma megera à espreita. De que valem as honras? Rico príncipe que, como se diz, de um dia para o outro simplesmente espatifara-se no chão do castelo, não mais respira, é agora apenas um corpo inanimado que todavia já se mostrara bem composto e viril. Que foi de suas riquezas e primores? Corpo mudando de cor, diz Sebastiano Paoli em Sermões quaresmais, corpo pardacento, corpo morto, dá náusea, dá medo. O consorte que pavoneava-se às dependências ostentosas de um castelo imponente e que agora espirra fora uma morosa lava de imundice, «o lábio pútrido e corrompido», acrescenta Paoli, «a barriga como um saco de vísceras laceradas». De que vale, portanto, a beleza diante da iminência e a inevitabilidade dessa ceifa? «Onde estão as lindas mulheres, as esplêndidas cidades dos velhos tempos?» Sabe-se também que, durante os antigos cortejos romanos, os condottieri vitoriosos costumavam repetir vezes sem conta: recorda-te de que és apenas um homem. Hoje estamos a enterrar um outro alguém, amanhã pode ser em cima de si que jogam este barro alaranjado. Notável discernimento. E difícil não comparar essa meditatio mortis de outrora com as reações inexpressivas de uma modernidade que procura de todas as formas esquecer-se de que um dia será ela a defunta a ser velada. Está-se bem a perceber o rápido declínio da chamada figura do intelectual — principalmente dos filósofos, tipos ascetas que não se cansam de cutucar as feridas hipócritas da humanidade. Naturalmente, se o objetivo é distrair-se da morte, aqueles que a problematizarem por de mais serão ignorados. E assim como ocorrera durante as ditaduras do século vinte, os escritores de ficção contemporâneos, dotados de perífrases e outras ferramentas metafóricas, podem ser lá o último muro que nos separa do abismo do alheamento total. «Pela escrita mostro, a mim própria, coisas que já sabia mas não as enfrentava», refletiu a escritora Leonor Brito. Pois a literatura, como se sabe, é um animal que leva muito tempo a morrer, e que passados tantos anos continua a morrer, sem deixar de enfrentar. Contudo, quando também a musa derradeira for lá enterrada, talvez alguém ainda se lembre das palavras do senhor Hugo von Hofmannsthal: não há maior dor que recordar o tempo feliz na desgraça.

— P. R. Cunha

Masha Tolkalina fala sobre os contos russos de P. R. Cunha

— Tradução de Alice V. Monteiro

De modo geral, os russos ainda têm uma visão deveras tropicalista a respeito do Brasil: terra de gentes felizes, que sabem lidar com a penúria, enorme região geográfica do globo onde há carnaval e é verão o ano inteiro. Ao que por vezes se demora a compreender quando se chega a estas latitudes mais invernosas qualquer coisa de muito melancólica de um país que emana tanta amistosidade e benevolência.

Em certa medida, é o que está para acontecer com as primeiras tentativas de se apresentar por aqui os contos do escritor brasileiro P. R. Cunha — que escreve diretamente neste nosso ardiloso idioma. Os temas que permeiam as suas curtas narrativas logo demonstram que ele está lá muito mais interessado na descrição da infelicidade do que nos preparativos de uma festa de máscaras com papeizinhos coloridos.

Lida-se, inclusive, com uma série de motes ainda caríssimos para os autores russos; como aquela tristeza nascida do esvaziamento do sagrado, do desespero, o espinho na carne da modernidade, nas palavras de Yves Bonnefoy. Seres humanos que, continua o próprio Bonnefoy, estão sempre a nascer, sem jamais chegar a se livrar de nostalgias, pesares e sonhos.

Imaginamos ao lado da escrivaninha do brasileiro o anjo taciturno de Dürer, quase podemos observar as pilhas de livros de Thomas Bernhard e W. G. Sebald — confessadamente as duas maiores influências de P. R. Cunha — a servirem de fortaleza contra as vertigens de um abismo que se encontra sempre às redondezas.

Na seara russa, o primo mais próximo é aquele homem enfermo, o homem que se diz muito mau em Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Tipo suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas que não deixa de sê-lo por nada. P. R. Cunha a colocar suas personagens embaixo da terra, ou numa espécie de exílio prolongado — e nisso ele tem também um bom quinhão do nosso Venedikt Erofeev.

São relatos de figuras perturbadas que aos poucos começam a cair num inevitável esquecimento porque têm dentro de si já uma alma esvaziada de sentidos. A vida que não vive mais, como disseram. A atmosfera é de gelo, de tempo paralisado, de inevitabilidade… de morte — o que deixa tudo ainda mais inquietante e o leitor fica mesmo a se perguntar, por céus!, em que cantos brasileiros haveria de ter tanta treva.

Ainda é muito cedo para dizer como será a receptividade dos russos quando aqui chegarem os primeiros exemplares dos livros de P. R. Cunha. Porém, antes de abri-los, talvez fosse o caso de se entender que a neve e a neblina não são fenômenos unicamente meteorológicos — pois que também assolam o coração humano. E vem por aí uma nevasca brasileira.

O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha

Luto & melancolia

Perdi algumas namoradas porque numa altura reclamaram que eu dava mais atenção aos livros do que a elas. Não me orgulho de nada disso — afinal, as namoradas são seres humanos, os livros não o são. Mas acontece que fui diagnosticado com doença bibliófila. De acordo com os parâmetros estabelecidos pelo «Exame Umberto Eco Ex-Líbris» (vide La memoria vegetale e altri scritti di bibliofilia), estou no segmento intermediário-avançado do espectro dessa mania livresca. Isso quer dizer basicamente que perco o sono, e as estribeiras, caso alguma obra pela qual eu tenha considerável apreço demonstre uma qualquer deformidade. É terrível. Trata-se sem dúvida de uma tentativa obsessiva de enganar e/ou congelar as peripécias do tempo — não à toa sugerem que os livros sejam armazenados em locais refrigerados. Manter os livros em boas condições e assim criar para si a ilusão de que o corpo de carne também resistirá à passagem dos dias. Ledo engano. Estou a perceber que não importa o tanto que se cuide bem desses objetos retangulares, o relógio sempre apronta uma das suas. Para o bibliófilo, entrar em contato com a decadência do livro é entrar em contato com a própria decadência. A brochura está esfarelando nas dobras, e o mesmo está a ocorrer com a pele e com a memória do obcecado. Quero dizer, juntamente com o próprio objeto de adoração está a desintegrar-se, o pobre bibliófilo. Alguns chegam mesmo a empacotar todos os livros, ou colocá-los dentro de mausoléus de vidro. Não abram estas portas, eles dizem, expressamente proibido abri-las. No entanto, anos depois eles sentem vontade de manusear Luto e melancolia do Sigmund Freud e qual não é a surpresa quando deparam-se com as imperfeições causadas pela luz do sol, ou pelas traças que de alguma forma invadiram o caixão-biblioteca. O dano ao livro é um pecado que o bibliófilo nunca esquece — insisto nisso. Ele logo se torna má companhia, irascível, inescrupuloso, perturbado, ao passo que todos aqueles que o conhecem e até gostam tacitamente dele não têm outra opção a não ser afastar-se. A capinha de Luto e melancolia não vai resistir, e a maldita da Cosac Naify já não existe mais para reeditar a coisa toda. Às bondosas senhoritas com as quais tive o prazer de me relacionar, a maneira como eu me degrado por conta dessas lombadas imperfeitas é patética. E, pensando bem, talvez elas tenham razão.

— P. R. Cunha

Frederico Hofmannsthal fala sobre a peça «Acumuladores» de P. R. Cunha

Há na peça Acumuladores do brasileiro P. R. Cunha uma clara tentativa de transformar em risível tudo aquilo que costuma atormentar a vida do animal humano. Aliás, característica perceptível em boa parte da produção literária deste jovem autor ainda desconhecido em terras portuguesas: colocar o dedo na ferida, expor as ilusões contemporâneas, tirar o indivíduo — principalmente aquele que se diz artista — da zona de conforto, abraçar a frieza do mundo, das pessoas que a cada dia se transformam mais e mais em bonecos, o homem que degusta a vida, e logo perde tudo, inclusive a própria vida, porque adquiriu muitas dívidas, não deu conta, bala na cabeça etc. A convicção de que tudo é perda de tempo. Acumuladores, cuja estreia em casas lisboetas deve se dar no segundo semestre deste dois mil e dezoito, é uma antologia de fracassos e resgata a figura da mesa à moda teatro do absurdo — se é que ainda se utilizam de tais termos. A mesa-epicentro, ao redor da qual as grandes decisões da humanidade são levadas a cabo. Mas aqui um objeto cenográfico, quase um detalhe. Personagem Filho Sonhador está sentado à mesa e toma notas a respeito de um qualquer romance alemão do século dezanove e a Mãe Rancorosa não compreende a paixão do rapaz pela literatura:

MÃE RANCOROSA
O que está aí a fazer

FILHO SONHADOR
Estou a acumular

MÃE RANCOROSA
A acumular
Vocês jovens
só servem para isso

FILHO SONHADOR
Para acumular

MÃE RANCOROSA
E não sabem que
quando morrer
tudo se perde
não fica uma
vírgula
acumular

FILHO SONHADOR
Sim
acumular

Percebe-se ligeiro que ali ao palco vai um drama em família — por vezes familiar — em que o menino ingênuo precisa resistir ao ímpeto destrutivo da mãe que envelhecera, que há muito notara que nada fez de bom para si e muito menos para os outros. Mãe Rancorosa que sente inveja dos anos que Filho Sonhador ainda tem pela frente:

MÃE RANCOROSA
Não dura muito viu
estes momentinhos de
perder-se
de literatura
logo vêm as tragédias

FILHO SONHADOR
Vêm pois eu sei
que vêm

MÃE RANCOROSA
(levanta a mão para o filho)
Não sabe de nada
moleque
ainda é moleque

Mãe Rancorosa, Filho Sonhador e o (anti)herói da peça a quem P. R. Cunha chama de Pai Tirano. Personagens fracassados ou que em breve fracassarão, porque a angústia, se calhar, é mesmo o fim habitual. Não importa o tanto que se acumule. Como na cena em que Pai Tirano tenta mostrar para Filho Sonhador que não adianta esforçar-se. Tudo termina em trevas:

PAI TIRANO
Se já hoje discutimos a relevância
do motorista para a sociedade
porque logo todos os automóveis
serão dirigidos por robôs
então precisamos também
discutir a relevância da chamada
classe escritora
Quando percebemos que toda a gente
se transforma em máquina a passos largos
e as máquinas como sabemos
só pensam em trabalhar
não pensam em literatura
E você aí
sentado à mesa
acredita que acumula letras
mas em boa verdade
e isso lhe digo porque sou pai
você acumula
dores

Bonito jogo de palavras. E pertinente discussão sobre a relevância da literatura numa sociedade que aponta os telemóveis para todo o canto, passa horas em maratonas Netflix. Então acompanhamos a angústia de Filho Sonhador à medida que ele percebe que realmente não faz sentido acumular tantas palavras, porque os escritores de livros são negligenciados, ninguém dá a mínima para eles:

FILHO SONHADOR
A vovó lia
achava bonitinho
é bonitinho o que você escreve
a vovó dizia
mas a vovó já não está
a vovó se foi
e eu agora a me sentir
como um professor de latim
que sabe ensinar
uma língua morta

P. R. Cunha tenta revelar (e lidar com) a realidade dos fatos. E sai-se do teatro a reflectir um bocadinho sobre o que estamos a fazer com as nossas letras. Pois que as máquinas não querem lá saber de literatura. As máquinas trabalham. As máquinas. As nossas ruínas. Enquanto isso, acumulamos.

O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas

Desde já esclareço que utilizo o verbo conhecer com aquela despreocupação do viajante que passa duas horinhas ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris e volta para casa a pavonear que conheceu a França. Pois que tietagem pressupõe atitude, afinal. E quando um mero escriba se mete a falar sobre a admiração que sente por determinado escritor famoso, corre-se sem dúvida o risco de cair para o bobo. Em julho de dois mil e doze saí de Brasília dentro de um Nissan Tiida para percorrer mil duzentos e cinquenta e três quilômetros de estrada até a Festa Literária Internacional de Paraty — a boa e simpática Flip. Era a décima edição da festinha livresca e permiti-me grandes expectativas porque 1) Enrique Vila-Matas e 2) Jennifer Egan, Ian McEwan, Dany Laferrièrre, Alejandro Zambra. Mas a primeira coisa em que realmente reparei no lugarejo não tinha muito que ver com literatura: foi a quantidade expressiva de seres humanos que andavam lá para a chamada melhor idade. Velhinhos e velhinhas tropeçando nas ruelas de paralelepípedos de Paraty. Pensei com os meus botões que teria sido gira se a organização também tivesse se dado conta de que boa parte do público leitor brasileiro já passara dos sessenta/setenta carnavais e construísse caminhos mais seguros, pelo menos durante o evento. Nada. À guisa de desabafo compartilho a tese que elaborei quando diante dessas negligências: acredito que os idosos têm medo de reclamar e depois serem tachados de «velhinhos rabugentos», e a organização Flip bem sabe disso, e fica quietinha na dela porque não quer investir dinheiros em caminhos seguros para aqueles que, no fim de contas, são bem os que financiam a coisa toda. A cidade é bonita e agradável para os jovens adultos. Depois de um tempinho a perambular pelo centro, confesso que senti enorme vontade de cortar os pulsos por conta dos comerciantes de poesia que me abordavam a cada dois passos para ler estrofes de gosto duvidoso ao estilo: estas palavras, meu amigo, são Paraty. É necessário um esforço considerável para não cair numa branda melancolia e para não começar a achar toda aquela overdose de literatura um verdadeiro absurdo. Felizmente, percebi ligeiro que havia uma espécie de antídoto «contra» os poetas de rua: sentar-se nalgum canto, abrir um livro do Foster Wallace e responder numa qualquer língua estrangeira que je ne parle pas portugais. É claro que depois de me utilizar desse subterfúgio canhestro eu comecei a me sentir culpado e por vezes cheguei mesmo a abordar poetas-comerciantes na rua para pedir poema: vá lá, leia-me alguma coisa. Eles abriam sorriso que ia até Angra dos Reis e citavam: o corpo, a alma, Paraty, não fazem sentido. Fim da tardinha, chegara o momento de ir ao bate-papo Vila-Matas/Zambra. Este meu jovem coração se sublevou e assaltou-me o primeiro sentimento de mamãe-eu-sou-patético-idolatro-escritores. Duas horas depois, estava eu na fila de autógrafos a ver de longe a cabeça grisalha do Vila-Matas, as mãos disciplinadas do escritor espanhol num surto de assinaturas e os leitores que saíam com os livros coloridinhos editados pela saudosa Cosac Naify. Quando cheguei perto o bastante para conseguir escutar o que o Vila-Matas falava para as pessoas e o que as pessoas falavam para o Vila-Matas reparei que ninguém dizia nada, absoluto silêncio. O processo se passava da seguinte maneira: ser humano se aproximava do Vila-Matas, jogava o livro do Vila-Matas sobre a mesa, Vila-Matas abria o livro, assinava, devolvia o livro para ser humano e pronto. Não me orgulho em dizê-lo, mas essas cenas Tempos modernos — com o livro a fazer as vezes do parafuso — causaram-me uma incontrolável Schadenfreude (prazer pelo infortúnio alheio). Vila-Matas não levantava a cabeça porque ninguém lhe dirigia a palavra, parecia óbvio. E muito provavelmente ninguém lhe dirigia a palavra porque Vila-Matas não levantava a cabeça. Resolvi colocar essas ruminações em prática. Na minha vez, fiquei parado numa postura ridícula, hoje consigo perceber com clareza, numa postura imbecil e teatral diante do Vila-Matas. Daí mostrei o exemplar de O mal de Montano — que juntamente com O náufrago, do Bernhard, foi a obra que mais reli na vida — e lhe disse: el libro más increíble de la literatura española, sin dudas. Vila-Matas levantou a cabeça. Arregalou os olhos. Fitou-me por alguns segundos: ¿Cómo te llamas, joven? Eu disse meu nome, ele autografou na folha de rosto do Montano e estendeu-me a mão: ¡Suerte, chico! Estarrecido, fiquei ainda uns bons trinta minutos perto da fila a ver se ele iria conversar com mais alguém. Não conversou. A linha de montagem dos leitores tinha voltado a funcionar: joga o livro, o Vila-Matas assina, pega o livro, vai embora. Em silêncio. Absoluto.

— P. R. Cunha

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Contradizer-se para dizer livro

Já se sabe que Franz Kafka não suportava a realidade. Certa vez, num sanatório em Kierling ben Wien, repetira a algum visitante distraído (provavelmente ao amigo Max Brod): tudo o que não é literatura me aborrece. A mãezinha não larga, ela tem garras — outro comentário kafkiano, desta vez sobre a cidade de Praga, mas que bem podia ser sobre a fuga literária que ele tentara implementar durante os breves quarenta anos e onze meses de planeta Terra. Jorge Luis Borges queria viver num sítio dentro das páginas de um gigantesco livro que abrigasse todas as histórias da humanidade. Mesmo depois de perder a visão, Borges ainda se trancava numa biblioteca e inventava outros mundos, porque aquele que se passa alhures nunca se mostrara o suficiente. Morreu em Genebra, perto das inúmeras enciclopédias que colecionou. Raymond Carver acelerava o processo auto-depredativo ao perder-se no álcool, na melancolia, e nas palavras — coquetel mortífero que, a história o confirma, levou embora tantos escritores cedo demais. Estes três exemplos devem bastar aos propósitos paradoxais desta crônica. Kafka, Borges, Carver — como se retratados por W. G. Sebald, que num ousado hiper-realismo coloca o leitor na perspectiva de um zepelim, a observar a esfera terrestre que habitamos cheia de corpos deitados, fila após fila, como se ceifados pela foice de Saturno. Um cemitério comprido, continua Sebald, sem fim, para uma humanidade epilética. Daí a necessidade de querer escapar ligeiro dessas aterradoras imagens de decadência e morte. Fugir, reconstruir para si os heróis — arquétipos, exemplos, referências — num outro universo, este muito mais aconchegante e controlável; aos livros, que não se aborrecem se você jogá-los num canto qualquer e só voltar a eles quando lhe parecer conveniente. Tais eram os antídotos adequados para uma sociedade que ainda dependia sobremaneira do entretenimento por escrito. Sem websítios, telemóveis, Netflix, o vivente perdia-se na literatura, nos jornais. Agora tropeçamos num ardiloso e inevitável juízo de valor: se a anestesia literária de outrora era mais, ou menos, eficaz do que a enxurrada de sedativos que a indústria do lazer proporciona atualmente. Talvez o número de suicídios — a aumentar a cada ano — consiga esclarecer alguns impasses, difícil dizê-lo. No entanto, pelos vistos parece pouco provável que diante deste excesso de sedativos tecnológicos alguém arrisque-se a confiar única e exclusivamente no chazinho feito de páginas de literatura.

— P. R. Cunha