O dia em que a Terra parou (parcialmente)

Ontem os servidores de Facebook e Instagram escangalharam. A pane afetou inúmeras contas em diversos países. Houve quem achasse que o mundo fosse acabar. Bom, pelo menos para aqueles que se agarram com mãos firmes nas bóias das redes sociais, foi uma espécie de ensaio geral do apocalipse.

Ironicamente, a vulnerabilidade dos produtos oferecidos pelo senhor Zuckerberg veio à tona pouco depois de o Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida — ISPA — divulgar dados de uma investigação portuguesa sobre a solitude online. O instituto lisboeta acredita que quem passa muito tempo conectado à Internet se sente mais só.

O sentimento de solidão entre os jovens mantém-se, diz o estudo, mesmo quando o tempo que passam online não interfere (tanto [grifo meu]) com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa, o ISPA acrescenta ainda, pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas mediadas pelos aplicativos eletrônicos.

Com a inoperância parcial de Facebook e Instagram, muitos tiveram de recorrer aos caracteres do Twitter para compartilhar a própria fúria, o desespero, o tédio, o abandono — a solidão¹. Tinham perdido, mesmo que momentaneamente, as plataformas (os palcos de areia da pós-modernidade, como diria Jean Serroy) para se sentirem conectados. Perderam o norte.

Aqueles que respiraram fundo e preferiram aproveitar o caos para dar uma voltinha algures — e notaram que lá fora é onde tudo realmente acontece —, aqueles que depois de alguns minutos de inquietação perceberam que não é assim tão mal conversar com a vovó sobre «os velhos tempos», brincar com o Rex no jardim, ligar para um conhecido de longa data, marcar um café com o conhecido de longa data, de repente até refletir se é realmente necessário ter tantas redes sociais, aqueles que, por fim, esqueceram-se da coisa toda, esses podem ficar sossegadinhos: conseguirão sobreviver caso a sociedade como a conhecemos seja obrigada a se desconectar da Internet².

Ontem, foram apenas algumas horas de abstinência. Mas o suficiente para perceber que muitos não ficarão assim tão sossegadinhos quando a coisa for realmente séria³.

— P. R. Cunha


¹Os próprios técnicos de Facebook e Instagram tiveram de se pronunciar formalmente no Twitter.

²Penso, «grosso modo», nas erupções solares — que podem destruir satélites, danificar a infraestrutura energética e causar um apagão sem prazo de validade.

³A Bárbara Reis de Público, por exemplo, fartara-se do Facebook e escrevera um Coffee break muito pertinente a respeito. Pode-se lê-lo aqui.

Temporários

A obsessão dos maias pelo tempo levou-os a construir sofisticados observatórios para determinar estruturas de continuidade — padrões que hoje em dia, não sem um automatismo distraído, podem ser artificialmente especificados pelas entranhas de um qualquer relógio de pulso. Esses nativos americanos observavam com destreza o ambiente que os rodeava e assim procuravam estabelecer marcos que permitiriam análises importantes do tempo, ao qual sentiam-se submetidos. O império que olha para o céu e pergunta-se o que há para além, o que está a preencher os espaços vazios entre as estrelas, qual o propósito da vida.

Eles não apenas registravam com minuciosidade os intricados ciclos de corpos celestes, como também acreditavam que tinham por obrigação auxiliar o Sol, criador do mundo, a manter a fábrica do tempo funcionando. De facto, as origens dos sacrifícios humanos realizados por essa antiga civilização, sobre os quais a historiografia muito já discutiu, vêm justamente da vital necessidade de alimentar com sangue o insaciável apetite dessa entidade cronológica, que, como sabemos, antes de desaparecer ao abismo do horizonte veste-se de vermelho. Dia e noite, luz e trevas, um presente que a qualquer momento poderia deixar de ser. Os maias encaravam constantemente a possível morte de tudo e um dos maiores símbolos dessa reverência é a Pirâmide de Kukulkán (El Castillo), construída em alguma altura entre os séculos VIII e XII na antiga cidade de Chichén Itzá. Tudo ali remete aos caprichos do tempo: 91 degraus, quatro lados (4 x 91 = 364), mais um último degrau que leva ao cimo — 365. Eficiente calendário arquitetônico a representar as passagens, as jornadas tirânicas que ao fim e ao cabo arrastam tudo pelo caminho.

Incertezas sobre a continuidade ou não do mundo modificaram-se à medida que a humanidade desenvolveu para si equipamentos mais precisos que auxiliaram astrônomos na tarefa de desvendar alguns dos mais estranhos mistérios do cosmos. No entanto, a era do controle absoluto, do total entendimento desse rio que corre adiante e é feito de acontecimentos, como dissera Marco Aurélio, parece longe de se concretizar. A ciência moderna orgulha-se de possuir relógios que funcionam baseados nas propriedades do átomo, e mesmo esses quase infalíveis mecanismos não são capazes de explicar o que está a acontecer quando dizemos o tempo passa. 

O tempo, coisa estranha que não se deixa apanhar facilmente nas malhas do nosso intelecto — o foi e não é mais, o será e ainda não é — continua a intrigar deveras. Essa abstração que atravessa os séculos, que desafia o bom senso daqueles que tentam elaborar discurso coerentes a respeito dos chamados deslocamentos para o futuro desconhecido.

De acordo com a mitologia grega, Cronos seria o deus primordial do tempo, que rege todos os destinos e a tudo devora. Nascido de Gaia (Terra) e de Urano (Céu) — a quem, ainda segundo a lenda, Cronos destronaria com um certeiro golpe de foice. O caráter destrutivo dessa perturbadora divindade que casara-se com a irmã Reia é intensificado depois de os progenitores terem-lhe garantido que o seu destino era mesmo ser superado por um dos filhos.

O poeta Hesíodo conta em La Théogonie que o poderoso Cronos devorava sem piedade as próprias crianças mal elas saíam do ventre da mãe, com o único propósito de impedir que qualquer outro brilhante descendente do Céu obtivesse o privilégio de reinar sobre os Imortais. Conta-se que conseguira engolir todos, exceto Zeus, «substituído por uma pedra enrolada num pano, amparado pela enorme Terra e mantido em segurança na vasta Creta», bem longe da voraz ira paterna. Hesíodo explica ainda que, mais tarde, Zeus, seguindo os conselhos de Prudência, levara a Cronos uma certa substância laxante que o fizera primeiro vomitar a pedra que tinha engolido e, depois, uma a uma, todos os filhos que jaziam dentro daquela gulosa barriga. Com a ajuda dos irmãos libertados, Zeus — figura invencível e a quem as preocupações jamais o atormentavam — supera Cronos e despoja o furioso pai de todos os privilégios divinos.

Parece significativo que nas antigas narrativas gregas pais e filhos se relacionem amiúde de forma tão tempestuosa, vingativa, cada um a querer destronar o outro, sem nem ao menos importar-se com a possibilidade de jogar o adversário familiar às profundezas do mundo subterrâneo, cujo símbolo mitológico é representado por Érebo, descendente direto do Caos. A crer no mito, Caos — personificação do vazio, do abismo insondável — gerara sozinho as trevas: Érebo e Nix (Noite), que juntos se opõem à luz. O primeiro, especificamente, designa as trevas infernais, o crepúsculo. A descendência desse deus das obscuridades é imprecisa, mas especula-se que da união entre Érebo e Nix tenham surgido os elementos que, não por acaso, a literatura da psicologia moderna costuma associar às condições melancólicas: Phobos (medo), Mors (morte), Invidentia (inveja), Keres (miséria), Deimos (terror), e por aí adiante.

Olhar para o céu e questionar-se, portanto, sobre esse fluir dentro da eternidade, o surgir e o desvanecer das estrelas, do Sol, o amanhecer e o anoitecer — movimentos que trazem vida, levam à morte. Quando a espécie humana compreende que, em matéria de tempo, temos apenas um bilhete de ida, e que esse tempo raramente passa como gostaríamos, volta então as atenções para o longe, foge para o infinito repleto de matéria escura. 

Em agosto de 1877, o astrônomo Asaph Hall apontou para Marte o telescópio de vinte e seis polegadas do Observatório Naval dos Estados Unidos e ao cabo de grande esforço encontrara os objetos que há muito procurava. Os satélites naturais do Planeta Vermelho não eram luas grandes como a da Terra; na verdade, nem ao menos chegavam a ser arredondados — tinham um formato exótico, achatado, pareciam batatas descascadas por algum cozinheiro distraído.

É possível, no entanto, imaginar a euforia desse obstinado explorador cósmico ao descrever os últimos detalhes da própria descoberta, ruminando a respeito de como deveria batizar as luas marcianas. No topo de um diagrama caprichosamente elaborado numa folha amarelada está a palavra «Marte» seguida por esta lacônica descrição com letras cursivas: deus romano da guerra, da carnificina, da impulsividade. Embaixo, dois objetos amorfos representam as luas recém-descobertas, e, em destaque, pode-se finalmente ler os nomes escolhidos pelo astrônomo norte-americano: FOBOS e DEIMOS  irmãos gêmeos, anota Hall, que instigavam em campos de batalha a covardia e o pavor no coração dos inimigos.

O planeta da guerra com os seus pequenos guardiões da perturbação — e o inevitável destino desta excêntrica família de astros. Estudos posteriores constatariam que Deimos, a lua menor, está a se afastar do campo gravitacional de Marte, enquanto Fobos se aproxima cada vez mais da superfície. Deimos fugirá para uma longa e solitária jornada pelo cosmos; Fobos em rota de colisão com o planeta que lhe deu abrigo durante milhares de anos. Terror do abandono. Medo de se desintegrar. 

Marte agora é o patriarca autoritário que observa, espera, indiferente, o fardo agonizante dos seus súditos condenados há tempos.

— P. R. Cunha


Moons – from Mars

Cuida-te para não mentires literalmente (primeira de uma série de reflexões sobre A.J. Finn)

Depois do escândalo envolvendo o escritor A.J. Finn — pseudônimo de Dan Mallory (que mentira ter cancro no cérebro, que mentira sobre a mamã ter morrido, que mentira a respeito de um doutoramento em Oxford, que mentira sobre o suicídio do irmão, e não só) —, escândalo que ainda será pormenorizadamente tratado nos pixels deste blogue, muito se especulou se escrever literatura ficcional é lá um gatilho ou consequência de doenças psiquiátricas: tais como mentiroso compulsivo/mentiroso serial/esquizofrenia/distúrbio de personalidade/etc.

Após décadas recriando a própria narrativa, Raymond Carver teria confessado — possivelmente enquanto entornava uns copinhos — que já não conseguia distinguir com segurança entre o que era «verdade» e o que era «ficção». Robert Walser, o andarilho, anotara diários perturbadores diante dos quais toda a gente abre a boca e pergunta-se: ora!, isto realmente aconteceu consigo, Herr Walser? Lima Barreto, o escritor marginalizado, remodelara a internação no Hospital Nacional dos Alienados (1919-1920) ao escrever Diário do Hospício e O cemitério dos vivos com ares de documentos verídicos. A lista de casos assim é infinita.

No meio desta polêmica, o irmão mais novo de um grande amigo meu queria saber se era seguro arriscar-se às tarefas literárias. Perguntou-me: também quero escrever contos e novelas, posso estar descansado, sem medo de apanhar alguma doença grave devido a este hábito singular?

Se queres escrever a sério — ou seja, ler um bocado, pesquisar um bocado, dedicar um bocado, copiar um bocado, desenvolver estilos, trejeitos, desenvolver formas reconhecíveis à moda leio Fulano ao escuro, não preciso de saber que foi Fulano que isto escrevera, as palavras escolhidas dizem por si só: foi Fulano — então, segundo as estatísticas, o risco de contraíres algum tipo de «inquietação psiquiátrica» é considerável.

Mas, como não poderia deixar de ser, há controvérsias.

Em O mundo prodigioso que tenho na cabeça (Companhia das Letras, 2010), Louis Begley retrata em minúcias a terrível e obscura rotina de Franz Kafka. As crises desencadeadas pelos longos períodos de solidão — Kafka sofria, por exemplo, de sensibilidade excessiva aos ruídos enquanto trabalhava nos manuscritos —, os relacionamentos hesitantes (nunca casou-se, a despeito do amor que sentia pela enigmática Felice Bauer), o tédio dos trabalhos burocráticos, os traumas da convivência paterna… 

Numa altura, Begley tenta responder se tudo isso seria consequência do trabalho literário de Kafka ou se Kafka escrevia justamente para atenuar essas batalhas internas. Alastramos a pergunta para todos os seres humanos que se arriscam às fazendas literárias e percebemos como a questão é pertinente. E que, por vezes, só podemos conjecturar imprevisibilidades.

És louco porque escreves, ou escreves porque és louco?

— P. R. Cunha

E-deias

Eu costumava fazer o papel de pessimista quando o assunto orbitava as chamadas «tecnologias modernas». 

Até sermos questionados por um miúdo de cinco anos, um miúdo que acabara de aprender o abecedário, questionados daquela maneira despudorada, seca, desavergonhada que só os miúdos de cinco anos conseguem fazer, ou melhor, até que somos confrontados, sim, afrontados pelas tretas sem filtros desse miúdo, até que o miúdo nos pergunta à queima-roupa, de chofre, bruscamente: então por que cargas de água escreves para a Internet se não crês nela?

E que a história (estória) de que o livro de pixel vai matar o livro de papel e consequentemente vai matar o leitor é uma lenga-lenga criada por aqueles que estão a se sentir ameaçados pelas novas possibilidades eletrônicas e acreditam que perderão parcelas comerciais significativas; afinal de contas, é a obra de qualquer autor/autora uma mera mercadoria. 

Mercadoria à cabeça, ao intelecto, mas mercadoria — tem preço.

Quando finalmente percebem que quem lê acaba que lê em qualquer canto, em qualquer device — estou a citar —, em qualquer plataforma que permita armazenar palavras, quando finalmente percebem que não há perigo, que os livros eletrônicos podem (e devem) custar tanto dinheiro quanto os livros de papel, a despeito da brutal economia (com impressões, tinta, maquinário, luz, pagamento de funcionários especializados, transportes etcétera, etcétera), quando os Lordes e os Reis percebem que há sempre um louco que paga fortunas por determinadas obras, então eles dizem que tudo bem, que o livro-pixel é a (re)evolução, que não há problema, vida que segue, aqueles que não se adaptarem ao livro-pixel que construam foguetes e fujam para Marte.

Vamos lá ser diretos: até percebermos que é tudo uma questão de copo-metade-cheio-ou-copo-metade-vazio, de perspectiva — de ponto de vista, estou a dizer*. O mundo robótico será uma distopia terrível ou mais um desafio superável? 

Podes comprar os e-livros pelo sítio web da Bertrand quando as árvores já não suportarem as lâminas dentadas ou podes deixar de ler para sempre, chorar com a cabeça enfiada no travesseiro, tentar a natação, o bowling, o pingue-pongue.  

(Há sempre também uma data de pílulas do alheamento: Fluoxetine [Prozac], Zoloft, Paxil, Pexeva, Cipralex, Lexapro e por aí fora.)

Ou podes, quem sabe?, começar um blogue, discorrer sobre o futuro da tua adorável profissão, que por vezes assemelha-se mais a um passatempo primaveril.

— P. R. Cunha


*Eventualmente, tudo vai depender do propósito de cada um — se alguém comprou o tablet para averiguar e-correios, perder-se nas redes antissociais, assistir gatinhos a tocar o piano, adquirir bugigangas desnecessárias, então é bem provável que tenha imensos problemas para ler, digamos, o 2666 do Bolaño ali.

Ser digital — o comportamento humano como mercadoria

Cansado das barbáries terrestres,
o astrônomo vivia para o mundo da Lua.

Somos 7.6 bilhões a habitar esta errante bolota de pedra. De acordo com o portal statista.com 2.6 bilhões têm conta em alguma rede social (o Facebook, por exemplo, possui 2.23 bilhões de usuários ativos). Não é necessário recorrer a nenhuma ciência de foguete para conjecturar as possíveis direções dessa locomotiva desvairada: daqui a algumas décadas, toda a gente terá um telemóvel para chamar de seu, cada vez mais operações serão realizadas via rede web e isso faz pensar que os realizadores de filmes de zumbis não estavam assim tão distantes da realidade quando retrataram humanoides melancólicos a vagar algures com vistas a um horizonte invisível. No caso do Homo digital, fitar-se-á dispositivo de telecomunicação enquanto algoritmos (machine learning) oferecerem as devidas alternativas de: 1) consumo; 2) em quem votar nas próximas eleições; 3) por quem se apaixonar; 4) qual o trabalho mais adequado para si; 5) etc. Atualmente, a economia se mostra deveras preocupada com possíveis catástrofes naturais, com a escassez de benzina, crises hídricas. Porém, em breve, as commodities mais valiosas estarão voltadas para o «digital self». De aí, quando a ficção científica se tornar corriqueira, talvez alguém se lembre de 2018 com certa nostalgia — uma época em que ainda podíamos gozar de qualquer privacidade.

— P. R. Cunha

Breve sentido de (quase) nada

No livro Paraquedas — um ensaio filosófico* escrevi que as ruas estão cheias de automóveis, e que dentro desses automóveis há humanos que acordam cedo, levantam-se para ir ao trabalho, cumprem a carga horária exigida pelas normas da firma, voltam para casa, lidam com as obrigações domésticas, dormem, acordam cedo, levantam-se para ir ao trabalho… e assim por diante. 

No século XIX, Friedrich Nietzsche — que é perspicaz nestes assuntos — chamara o roteiro-idas-&-voltas-repetidas de «o eterno retorno». Imaginara a possibilidade de vivermos a mesma vida, vezes sem conta, a lidar com as mesmas pessoas, as mesmas situações, as mesmas dores, os mesmos sucessos, os mesmos fracassos. Diga-se a propósito, tanto quanto sabemos, teorias como a do cosmos inflacionário** legitimam esse looping proposto por Nietzsche, uma vez que infinitas combinações de universos gerariam também infinitas possibilidades de acontecimentos.***

Contudo, ao invés de tranquilizar, essas conjunturas criam ainda mais inquietações; principalmente quando perguntamos qual o sentido da nossa existência.

Para o historiador Yuval Noah Harari**** o ser humano é uma máquina orgânica manejada por conjuntos de mecanismos bioquímicos em conflito — alegrias misturam-se com tristezas, raivas com paixões. Ao nos perguntarmos por que cargas d’água vivemos, todos esses elementos entram em ação e tentam produzir uma narrativa supostamente coerente à guisa de minimizar ansiedades.

Harari instiga-nos a refletir sobre as inúmeras justificativas baseadas em faz-de-conta que construímos (e remodelamos) durante a vida. Afinal, quantos filmes, romances e poemas consumimos ao longo dos anos, em quantos deuses/mitos acreditamos e deixamos de acreditar, e como essas estruturas esculpiram e aguçaram nossa noção do que é o amor, a amizade, nossa percepção de mundo?

Somos, pelos vistos, um baú de narrativas — algumas verdadeiras, a grande maioria baseada em ficções. Somos contadores de causos, de aventuras, queremos que a nossa versão prevaleça, que nos levem a sério. Queremos também criar histórias em que exercemos o papel do protagonista. Queremos fazer parte de algo maior: ser relevantes. De aí inventarmos (e acreditarmos tanto nessas invenções).

Albert Einstein***** ao tentar responder sobre o sentido da vida comentara que «a pessoa que considera a própria narrativa e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver». Pode-se achar que Einstein se esquivara da pergunta, dera lá uma resposta genérica, ficara em cima do muro, como se diz. Mas ele sabia que no fundo a vida não tem sentido, nós (a nossa cabeça [cérebro], a nossa consciência) que criamos não só os propósitos, como a necessidade de analisar esses propósitos em constante mudança.

Ao passo que o sentido tornar-se-ia justamente isto: continuarmos a perguntar qual o sentido das coisas. Até que não haja mais tempo (ou vontade) para responder coisa alguma.

— P. R. Cunha


*Editora da Universidade de Aveiro, lançamento previsto para 17/12/2018.

**Alan Guth et al.

***Inclusive uma espécie de Groundhog Day (O dia da marmota, Harold Ramis, 1993) cosmológico.

****Yuval Noah Harari, 21 lições para o século 21 (Companhia das Letras, 2018).

*****Albert Einstein, Como vejo o mundo (Nova Fronteira, 1985).