Comida de micro-ondas

A época dos jantares populosos terminara (ou pelo menos começou a terminar) quando um novo membro juntou-se à família: a televisão.

O aparelho não sentava-se à mesa propriamente; mas ficava próximo o bastante para determinar as configurações do espetáculo. 

Queriam ficar perto do tubo iconoscópico.

Durante o noticiário o papai & a mamãe aumentavam o volume porque apetecia-lhes saber os detalhes do mundo. Se alguma criança ousava falar qualquer coisa, escutava-se logo um tirânico SHHHHH!

Aos poucos, o aparato luminoso tornou-se acessível e ocupara não somente a sala da família, mas todos os cômodos da casa.

Jovem Dênis não pretende descer para jantar na altura em que passa o programa desportivo. Milena se aborrece imenso ao escutar a voz da mãe: vem comer connosco, filha… (justo na hora do seriado favorito).

Comida congelada para uma pessoa. Prato ideal a ser consumido passivamente diante das telas de néon.

— P. R. Cunha

 

Cérebro de LED (reboot)

O sr. Max finalmente sai de casa para um passeio. Ele se assusta imenso com o que vê e decide voltar ligeiro ao conforto do ecrã televisivo.

Se o futuro está cancelado (ou suspenso), talvez olhar para trás em busca de âncoras. A ficção científica dos anos 1990, o electrowave dos 1980, as calças dos anos 1970, o penteado dos 1960. Misturas esperadas, nostálgicas, confortáveis.

Observamos a bola da história bater na parede do século 21, ricochetear, seguir rumos difíceis de serem previstos.

Noticiários como representações desconexas do eterno presente, reportagens disparatadas, contraditórias, anuláveis, em busca de interesses ilícitos.

«As coisas só acontecem se elas chamam a atenção da mídia.» No ciberespaço este axioma ganha versão assustadoramente jocosa: se não está no Google, não existe. 

O sr. Max acostumara-se a essas previsibilidades, a essas certezas, de aí ele ter voltado ligeiro ao ecrã  — onde a realidade é filtrada, mastigada, menos aleatória, comentada e descartada.

Pode-se sempre recomeçar no dia seguinte, basta um clique de botão.

— P. R. Cunha

A loucura necessária da arte (uma sinopse)

A arte por vezes se assemelha ao conteúdo do cesto daquele egípcio citado por Plutarco — e quando um curioso questionara o transeunte o que ele tanto escondia ali dentro, o egípcio respondera que o cesto estava encoberto justamente para que ninguém o soubesse.

Já pude observar damas e cavalheiros que seriam considerados «mui alta-classe» tapar os ouvidos enquanto tocava sinfonia de Beethoven, alguns bocejam durante as apresentações de balé ao Teatro Bolshoi, há quem chore ao assistir partidas de futebol, outros escutam funk a caminho do funeral do avô.

A arte talvez não seja muito diferente daquela definição de tempo proposta por Santo Agostinho: se não me perguntam, eu sei o que é, mas se me perguntam, daí não sei explicar.

Michel folheia um livro do Thomas Bernhard e sente que o autor está a escrever para ele; dialoga com o Bernhard, exalta-se com inúmeras passagens do Bernhard, toma notas de frases magníficas, que grande mestre. Juliana lê o mesmo livro e acha a narrativa boçal, afetada. 

A mesma obra de arte, reações diferentes.

Certo casal da Finlândia vai ao Louvre. A menina começa a chorar diante de «La Giaconda». O rapaz pergunta à namorada: por que choras? Ela diz que são os traços do Leonardo, está emocionada. O rapaz observa ao redor e com azedume insiste: e quem seria esse tal de Leonardo?

Nos reinos passados a arte era o espelho retorcido das elites. Reis e rainhas encomendavam pinturas que os destacassem como deuses eleitos, que reforçassem o tanto de terras, e joias, e escravos, e palácios, e farturas desnecessárias eles possuíam.

Dizem que o cavalo branco de Napoleão ilustrado por Jacques-Louis David era, em verdade, um burrico maltrapilho à beira do colapso.

A realidade não era pigmento essencial na palheta de cores dos antigos retratistas.

Até que Matisse, Brecheret, Mondrian, Gide, Klimt, Simone de Beauvoir, Munch, Chagall, Duchamp, Nash, Colette, Klee, Kadinsky — para citar alguns —, resolveram que arte definitivamente não era apenas molduras de castelo. As paisagens bucólicas, as mentiras pomposas, os gordos monarcas terrestres já não combinavam com as atrocidades das guerras totais.

Mostravam-se necessários novos meios, novas formas, outras linhas, outros verbos.

Soldados decapitados nos campos de batalha, bombas a cair das nuvens, e o salão do ilustre marquês repleto de cenários campestres das primaveras em que as torres industriais não cortavam o horizonte com lâminas de fogo.

Ainda hoje há quem garanta que os modernistas nunca foram artistas, mas crianças-adultas a espernear com lápis, pincéis, partituras, câmeras, etc.

Então não se sabe ao certo o que é arte — para que serve, quem é original, quem é farsa, quem merece o Nobel, quem valeria milhões na Sotheby’s, o que é grande, o que é pequeno, o que descartar, o que ouvir, o que é gênio, o que ler.

Subjetividades.

Gostava, no entanto, de retornar às tentativas de Santo Agostinho de definir o tempo.

Arte é coisa melindrosa que se depara com várias bifurcações. Também é difícil de explicar. Mas quando ela se retira (principalmente em períodos de exceção), sente-se um grande vazio, abrem-se cicatrizes no abismo. 

Ela pode não ser tão importante quanto um prato de comida, mas à medida que os meses se alastram, é a alma que acusa a fome.

Para muitos, uma vida sem arte é existência passageira, com propósitos vacilantes. Um mundo sem arte (e, insisto, não importa a definição que você prefira utilizar) é um deserto árido, inabitável. Arte como antídoto, a remediar as contradições da chamada civilização.

Nietzsche acrescentaria ainda que: temos as nossas artes para não morrermos de tanta verdade.

Ou aquele famoso trecho escrito por Henry James sobre os artistas: nós trabalhamos no escuro — fazemos o possível — damos o que temos; nossas dúvidas são nossas paixões e as paixões são nossas tarefas.

Enquanto nas artérias coronárias não circular o sangue de silício, enquanto os neurônios não são substituídos pela nanorrobótica, enquanto as cabeças não operam como antenas wifi, a arte ainda permanecerá relevante, confortando, mesmo que brevemente, o espírito humano em busca de refúgios.

— P. R. Cunha

Sala de espera

Os períodos de transição causam tormentas imprevisíveis. Pode-se falar de sociologia, filosofia, política, economia, mas não é preciso de ir tão ao longe. O próprio ser humano guarda dentro de si o microcosmo da transitoriedade. A passagem da meninice para a adolescência, da juventude à vida adulta, de aí vêm a velhice e a morte. Etapas. Não é imprópria a imagem do limbo. O sujeito que se encontra na sala de espera leva dentro do coração duas feridas abertas: a nostalgia do que costumava ser e já não é mais, e a incerteza daquilo que será, mas ainda não o é.

— P. R. Cunha

Politicamente incorreto

Não é preciso de ir muito longe para perceber que se vive numa modernidade de polícias. O desafio talvez seja reconhecê-los, pois não utilizam necessariamente a indumentária marcial. Civis também fazem parte da gangue.

O vizinho mexeriqueiro, a colega de trabalho, o motorista do autocarro, a jornalista, o professor de direito, a médica. Todos suspeitos. Podem ser (e provavelmente são) polícias.

Eles sabem o que é certo para si, ou melhor, para si e para toda a humanidade. Farão de tudo para serem ouvidos, para serem levados em conta, para, se preciso for, enfiarem os próprios ideais corretivos na goela de toda a gente.

Daí vêm as culpas.

Como, por exemplo, dormir demais. Numa sociedade policialesca dormir demais é um pecado capital. Você poderia estar a fazer algo de útil, mas está a dormir. Um breve cochilo vespertino é motivo de crises profundas: afinal, o que vão achar de mim?

Não se pode nem comer um salgado sem que algum espião olhe de cara feia a pensar: esse aí está perdido, brinca com a obesidade, sente tanto prazer ao ingerir salgado gorduroso, que obsceno.

(As bebidas alcoólicas sofrem de estigmas análogos a respeito dos quais muito já se escreveu.)

«Eu sei o que é bom para a raça humana, eu conheço o segredo do sucesso, eu sei o que é uma vida plena, saudável, equilibrada», o sujeito lhe cospe isso antes de voltar ao próprio apartamento de 20mpara perder-se em pensamentos suicidas.

O maior alvo da geração-polícia provavelmente seja o tabaco. A lei que proíbe fumar em locais públicos é sensata, mas não é o bastante. E por que cargas seria? Se você acende um cigarro no conforto da sua casa, sem incomodar vivalma, só você e o cigarro, é bom, por precaução, trancar as portas e fechar as cortinas, pois se alguém observá-lo a cometer tamanho crime saiba que terá de ouvir infinitos sermões.

Roland Barthes escreveu imenso sobre o direito ao tabaco. Parafraseio: sei que faz mal, sei que causa cancro, mas se gosto de fumar, e posso fumar, irei fumar, sou adulto, não necessito de nenhum grupo de fatalistas para esclarecer o que é bom ou ruim para a minha vida, sumam daqui!

Faz lembrar Robert Burton, que em 1621 declarara: oh!, o tabaco, divino, raro, superexcelente tabaco, um elemento milagroso que causa tanto a elevação quanto a ruína da alma.

Ou mesmo aquele antigo beberrão que costumava repetir: a bebida mata, e é bem por isso que continuo a beber.

Acontece que essa independência, essa liberdade de escolha, de compreender e lidar com os riscos, essas posturas desafiadoras obviamente incomodam deveras os membros do Estado Babá. Ora!, como ousa ter esse tipo de autonomia, vontade própria, diz o polícia social, não sabe que vivemos em grupos, e que seguimos regras específicas, e que todos precisam de se comportar direitinho?

— P. R. Cunha

Silent Nights

The first part of the project — remembering the effects of war on the soldier’s behavior. Trauma and memory, shell shock, neuroses, etc.

Despite the helmet and the savage countenance, the soldier is above all just a human being.

A soldier once told me
that every war has at least
two types of death —
the death of those
who fought on the battlefield
and the death of those who had
to survive it.

Music & edition by P. R. Cunha:

 

Por um distanciamento literário

Não há — ou pelo menos não deveria haver — receita de como se apreciar livros.

Alguns preferem a leitura inspecional, outros demoram meses em determinado capítulo, alguns tomam notas, outros só querem se distrair. Os estudiosos, os que estão à procura de lazer, os que leem para se descrever depois. Mistério, romance, suspense, ficção científica, filosofia, variedades, banda desenhada, biografia, história. Na praia, na aeronave, em casa, na biblioteca, no chacoalhar do autocarro, enquanto se espera o metropolitano na estação.

Numa saudável metamorfose esses hábitos se misturam e se multiplicam e se contradizem e se adequam a contextos específicos.

Neste processo adaptativo parece-me essencial o respeito pela inteligência do leitor. A leitura é lá uma atividade dinâmica, ativa. Quem lê participa, destrói, constrói, recria, nega, confirma. 

Ler como forma de entretenimento/aprendizagem que envolve o imaginário (i.e.: fantasia) de quem está diante das palavras.

Uma das grandes satisfações da leitura parece ser aquela sensação de posse que o leitor por vezes sente enquanto domina determinada obra. Certos trechos nos fazem pensar: céus!, gostava tanto de ter escrito isso.

E talvez essa posse seja mais provável se existir discrição durante o ato da leitura. O autor (e, principalmente, o tradutor) como que se retira do palco, o teatro de possibilidades pertence agora aos leitores, que adequarão as cenas a seu, como se diz, bel-prazer.

Em 2005, quando pela primeira vez me deparei com a obra de W. G. Sebald — o meu escritor favorito — ele já estava morto há quatro anos. As páginas com voz fantasmagórica ofereciam-me uma experiência paradoxalmente revigorante. 

Era mais do que um simples diálogo, era uma espécie de psicografia agnóstica.

Algo parecido me ocorre ao ler Carver, Maupassant, Lima Barreto, Orwell, Sérgio Porto, Calvino, Montaigne, Bernhard, Lovecraft, Burton, Sterne, Cervantes… São conversas secretas, fazemos parte de uma confraria metafísica, longe do escrutínio de toda a gente.

Nesta altura poderiam me perguntar se só consigo ler escritores que já morreram.

Minha maior dificuldade com a literatura contemporânea é o culto à exposição. Isto, aliás, valeria para qualquer outro tipo de atividade criativa.

Meu avô costumava dizer que gostava imenso de Pink Floyd porque não fazia a ideia de como era a vida íntima dos integrantes da banda. Havia qualquer coisa de misterioso nisso. Para o meu avô, as letras, os acordes, a atmosfera onírica dos Floyds eram elementos quase mágicos que surgiam após longos invernos introspectivos. Os álbuns eram o produto dessa fuga (vide Atom heart mother).

Diante das exigências mercadológicas, os escritores precisam de vender. Precisam de estar em toda a parte, fazer palestras, realizar aquelas enfadonhas e disparatadas leituras públicas, e, alas!, precisam de se manifestar em redes sociais.

As redes sociais cibernéticas são a ceifa da literatura, isso é certinho.

Observar escritores no Twitter, no Facebook, no Instagram, brigando, babando, xingando, discutindo, ignorando e sendo ignorados é como assistir a um freak show sem pé nem cabeça.

Restam os autores discretos que não atenderam ao imediatismo das participações digitais, os resistentes. Ou os mortos, que não têm Twitter.

Sim, não deveria haver receita de como se apreciar livros. Mas a privacidade, as idealizações fantásticas, a reserva, a ausência de ruídos externos, o distanciamento saudável são ingredientes dos quais muitos ainda sentem falta ao degustar um pedacinho da torta literária.

— P. R. Cunha

Sobre a indústria dos «likes» e não só

Foi-se o tempo em que o escritor podia ficar em casa a escrever sossegado, a receber os cheques da editora, depois lançava o livro, comparecia a um par de eventos promocionais, dava algumas entrevistas, voltava ao próprio escritório para que o ciclo recomeçasse.

Vive-se hoje na era da participação, do compartilhamento, do gostei-não-gostei. Era dos likes — os onipresentes botões (coração vermelho, sinal de joinha, estrela etc. etc.) que por vezes se transformam em símbolos superestimados. Comparo-os com a tecnologia nuclear, que pode gerir imensa quantidade de energia (estímulos positivos), mas também constrói bombas devastadoras.

Há pouco tempo um blogueiro enviara-me a seguinte mensagem: percebo que você não dá likes nas minhas publicações, então vou deixar de dar likes nos seus textos. Assim, curto e grosso. 

O que está acontecendo aqui?

Compreendo que muitos leitores utilizam essa ferramenta (na falta de melhor termo) para mostrar ao autor que leram, que apreciaram de verdade o que estava escrito. A valsa, no entanto, costuma ser um bocadinho mais fúnebre.

Comecei a notar que alguns utilizadores da Romênia e da Turquia apertavam constantemente o botão de curtir das minhas publicações. A parte vaidosa do meu cérebro dizia: que barato!, romenos e turcos a ler os meus devaneios. Enquanto a parte racional aterrava-me sem piedade: por que cargas romenos e turcos leriam as coisas que tu escreves, cidadão? 

Daí acessava o sítio web deles, e não entendia nada, e obviamente não dava like nenhum. Com o tempo, os likes das minhas publicações também sumiam. Alas!, romenos, e turcos, e gregos, e paquistaneses de súbito perderam o interesse pela minha literatura trópico-experimental.

Repito: o que está acontecendo aqui?

Estamos atrás de leitores ou de recompensas? (Fico a pensar se a resposta explicaria fenômenos recentes como o jogo de caçar Pokemón.) Fulano pode ter ao rodapé do próprio blogue uma infinidade de likes, gentes de toda a parte do planeta, gentes que só estão a dar likes para receber likes de volta. Não pretendem ler, muitas vezes não fazem a ideia do que se trata, querem apenas a troca, a premiação, os diplomas na parede eletrônica. «Vê, mamã, quantas pessoas gostaram da minha receita de musse de maracujá que publiquei em sânscrito.»

Egotismo à parte e em termos evolutivos, minhas rotinas literárias talvez se aproximem mais dos modos de escritores de um passado recente — não é Montaigne, é DeLillo; nem Platão, é Wittgenstein. Ao mesmo tempo, procuro estudar sobre o que significa ser humano nos dias atuais, no século vinte e um, 11 de novembro de 2019, por isso tento manter este recanto cibernético abastecido.

É uma válvula, não um jogo de trocas. Uma busca — muito provavelmente, uma busca eterna.

O desafio seria sobreviver aos bytes-and-bites sem ser abatido pelos caçadores de recompensa. Pois, como diria David Foster Wallace, os escritores de ficção tendem a ser mirones ávidos, tendem a espreitar e a fitar, são observadores natos, espectadores, são as pessoas que vão no metropolitano e que têm qualquer coisa de certa forma sinistra no olhar desprendido. Porém, continua o sr. Wallace, os escritores de ficção tendem a ser extremamente autoconscientes. Tal como dedicam imenso tempo produtivo a analisar a impressão que as outras pessoas lhes causam, também dedicam imenso tempo produtivo a interrogar-se nervosamente sobre a impressão que causam às outras pessoas.

A consequência, conclui o sr. Wallace, é que por norma a maioria dos escritores de ficção não gosta de ser objeto da atenção das outras pessoas. Muito menos de se sentir o objeto das outras pessoas. Contudo, pelos vistos, é justamente isso que os meios de comunicação modernos estão a fazer connosco: meros replicantes descartáveis a apertar likes com a falsa promessa de que isso significa participar.

— P. R. Cunha

Miniperfil da persistência

Paul só queria ser artista.

Mas os professores da escola diziam que ele não tinha talento; e os pais costumam acreditar nos professores da escola. Os de Paul proibiram-no de mexer nos pincéis. Artista? Artista coisa nenhuma, trabalharia no banco, com transações monetárias, tal e qual o papá.

A título de sinceridade, os primeiros desenhos de Paul eram mesmo bastante ruins. Pouca emoção, estabanados, toscos, nem faziam sentido. Isso, contudo, não o desanimava. Às escondidas, Paul pintava. Quadros-atrás-de-quadros, dia-após-dia.

Numa altura, algumas telas pareciam se formar, as paisagens não eram apenas borrões desalinhados. Começava a surgir qualquer coisa. Porém, aos olhos dos críticos, Paul continuava a ser insuficiente. Quadros terríveis, disseram, Paul medíocre — falta-lhe talento, falta-lhe tudo.

A morte, como se sabe, sempre chega. Então veio a foice e jogou o papá de Paul à cova. O filho herdara muito dinheiro.

De repente, não precisava dar satisfações, nem lidar com o autoritarismo paterno. Aliviado, livre, Paul pintava cada vez mais, todos os dias, sem parar, a pintura tornara-se definitivamente a sua vida.

Até que aconteceu.

Após centenas, ou melhor, milhares de obras inconstantes, de quadros rejeitados, Paul enfim encontrara a própria voz, o próprio estilo — aprendera a pintar. E como se isso não bastasse, ele decidira ir além, superar-se, ultrapassar toda uma época, transformar-se em história, referência, construir novas formas de expressão. Paul nunca mais seria o tipo tímido e irascível que rabiscava às sombras.

Dali em diante, todos o conheceriam como Paul Cézanne, o pai da Arte Moderna.

— P. R. Cunha

Estão a esquartejar a cultura brasileira

Dados divulgados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil demonstram que o brasileiro lê 2,43 livros por ano. À guisa de contraste, os franceses leem 21. Esses números, obviamente, contêm distorções — são médias. Há quem leia 50 livros, outros podem ler apenas um, muitos sequer chegam à folha de rosto. Sugiro, porém, que no decorrer desta breve digressão mantenhamos o resultado «brasileiro lê 2,43 livros por ano» em mente.

Os ditadores do século 20 compreenderam sobremaneira a força (e o «perigo») de uma sociedade instruída, que aprecia a leitura, que mantém ativos os próprios hábitos intelectuais. Não à toa queimaram livros. A fogueira nazista com obras consideradas perniciosas é um emblema desse tipo de paranoia. 

No romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, as personagens precisam de memorizar tudo que conseguem ler porque «a mente está a ser editada pelas forças armadas, os livros se transformaram em cinzas» — a história, como sabemos, é controlada pelos interesses dos vencedores.

Agosto de 2019. Durante a 19ª edição da Bienal do Livro do Rio, fiscais da prefeitura carioca saíram à caça de obras consideradas impróprias. Impróprias? Segundo o prefeito Marcelo Crivella o conceito é bem simples: tudo aquilo que não se adequa aos valores evangélicos. (Verdadeiro duche de água fria àqueles que ainda acreditavam no conceito de Estado laico, imparcial às questões religiosas, no qual o Brasil, teórica e constitucionalmente, deveria estar inserido.)

Por fim, o Supremo Tribunal Federal ofereceu um facho de alívio ao ratificar a liberdade de discurso, e que a Bienal funcionasse sem o risco de «censura genérica».

A outra frente que ameaça o acesso aos livros nestes solos tropicais: os pedidos de recuperação judicial de diversas livrarias brasileiras que andam às bermas da falência. Letárgico processo que deve se alastrar por tempo indeterminado, mas que já deixou marcas de selvageria. Em Brasília, por exemplo, quem passa pela Livraria Cultura do shopping Iguatemi percebe que a loja fôra decapitada, ou pior, esquartejada por uma grande rede de produtos informáticos. 

Um novo horizonte de computadores, smartwatches, telemóveis, gizmo…

Como se os livros não conseguissem mais sobreviver sozinhos por aqui, como se estivessem queimando num outro tipo de fogueira — sem chamas, porém tão devastadora quanto as labaredas que ardem a 451 graus Fahrenheit, a temperatura na qual o papel do livro pega fogo.

— P. R. Cunha


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O autor deste blogue esconde-se atrás da figura de Ray Bradbury.