Peregrinação chilena ao templo vulcânico

Para chegar à cidade de Puerto Varas — da qual eu nada sabia a não ser que era o sítio em que se podia avistar o vulcão Osorno — o viajante precisa de percorrer uma bucólica estradinha a cortar quintas e choupanas dignas do álbum Atom heart mother, dos Pink Floyd. São imensas pradarias verdes com vacas, lhamas, cavalos, ovelhas e outras espécies a se alimentar despreocupadamente, uma disposição quase teatral comprovando diante dos olhos de todos que é ainda correto o axioma a enaltecer a vida no campo como qualquer coisa menos vertiginosa. A despeito de toda a calmaria meditativa, inclinei-me com ansiedade no assento do automóvel a ver se encontrava o verdadeiro protagonista da Região de Los Lagos: o próprio Osorno. Mas não é assim tão fácil desvendá-lo. Quando o motorista da carrinha apontou para o local onde a montanha supostamente estava, o que pude enxergar foi uma linha branca, anuviada, algo mais parecido com os cenários apocalípticos nos filmes de Fritz Lang.

O Osorno encontra-se ao nordeste do Llanquihue — que em mapudungun, língua dos mapuches (ameríndios que habitam as bermas do vulcão há milhares de anos), significa «lugar para se mergulhar na água». O lago possui 860 km² e os nativos costumam explicar, não sem um certo orgulho nos termos, que toda a capital Santiago caberia ali dentro e ainda sobraria espaço.

Foi apenas no passeio no dia seguinte à chegada a Puerto Varas, dentro de uma furgoneta Ford que leva passageiros curiosos para perto do Osorno, que pouco a pouco a fisionomia glaciar do vulcão começou a adquirir nitidez. Durante a viagem penetramos territórios que em tempos foram habitados pelo povo mapuche, mas que hoje encontram-se tão desfigurados que é difícil imaginar como teria sido de facto a diversidade daquela paisagem.

Pelo conhecimento que se tem das tradições mapuches, cabe duvidar de qualquer tentativa de minimizar a avassaladora intervenção estrangeira desde a chegada dos chamados conquistadores espanhóis a partir do século XVI. Os mapuches foram expulsos, humilhados, escravizados e hoje sobrevivem como podem em zonas urbanas completamente diferentes daquelas vastas e férteis florestas onde os próprios antecessores criaram raízes.

O colonialismo interessado na lã dos animais da localidade logo precisou de ser expandido para atender às demandas em larga escala da Revolução Industrial. Os abundantes recursos naturais encontrados em territórios dos mapuches fizeram com que os exércitos chileno e argentino se mobilizassem para expulsar os nativos das florestas e abrissem espaço para as iniciativas multinacionais. No caso de Puerto Varas a mão de obra foi suplantada pelo metódico trabalho de emigrantes alemães — motivo pelo qual a cultura germânica mostra-se tão presente em Los Lagos.

É de se imaginar que os bosques que hoje recuam até à remota Reserva Nacional Llanquihue eram também a morada de incontáveis chucao tapaculo (la voz del bosque del sur), carpintero negro, loro choroy e outros pássaros com cantos melodiosos e persistentes. Hoje, no entanto, o que se vê é a cicatriz de uma floresta que, tal como os mapuches, parece demonstrar sinais de desistência. Os animais que porventura são encontrados a tentar cruzar as estradas escondem-se onde podem, com os olhos esbugalhados e sempre na expectativa da morte. Parecem esperar pelo som metálico do machado alemão, que numa altura passeou-se por lá e levou consigo boa parte da biodiversidade.

* * *

Os paleontólogos conseguem reconstruir a estrutura de um dinossauro a partir de pequenos, quase insignificantes, fragmentos fósseis. Assim também me parece que são aqueles que escrevem sobre a própria viagem. Recortes de visões, de memórias. No mais íntimo do coração, o sujeito que se predispõe a relatar o que ocorrera algures tem a curiosa certeza de entrar numa máquina do tempo. Sentado à escrivaninha, leva a caneta até à boca, escolhe entre as paisagens nas quais esteve. Compõe a maqueta do passeio, a maqueta de si mesmo. 

Inseguro e com aquela relutância que as pessoas costumam sentir quando se aproximam muito de um vulcão ativo, o condutor da furgoneta avançava vagarosamente. A estrada era uma jiboia sinuosa a fazer curvas abruptas e traiçoeiras enquanto o Osorno mostrava a conhecida silhueta à monte Fuji da ilha Honshu.

Com cada vez mais força as dimensões do Osorno inquietavam-me. O artista húngaro László Moholy-Nagy certa vez escrevera que podemos estar em toda a parte, rodeados por pessoas, e ainda assim estarmos sós. Era como eu estava a me sentir. Havia qualquer coisa nas fornalhas do Osorno que me colocava no meu devido lugar, como se diz. Um silêncio devastador, um presságio de que algo estava para acontecer.

Olhei para o céu e pude observar uns quantos condores-dos-andes desenhando figuras circulares por cima do cume do Osorno. Comentei com o condutor da furgoneta a respeito dessas aves que se alimentam de carne em putrefação mas o velho homem garantira-me que naquela parte da subida era muitíssimo raro avistar condores, ao que julguei estar delirando ou coisa ainda pior.

Recordei-me também que quando nos encontramos longe de casa só podemos ver aquilo que estamos aptos para ver — aquilo que espelha a nossa mente num momento específico. Nesse ardiloso processo, pistas falsas misturam-se com as verdadeiras.

De modo súbito notei que os condores de porte avantajado circulavam não o cume do Osorno, mas a nossa própria furgoneta. Um simbolismo de morte que pode ter passado despercebido para o condutor e também para os outros passageiros, porém criara em mim um desconforto indelével. Os condores-dos-andes seguravam a segadeira, como se dissessem que também eu, brevemente, me dissolverei em cinzas, transformar-me-ei numa massa informe, irreconhecível. Esses bichos necrófagos, pensei comigo, estavam à espera do meu cadáver.

Aqui uma passageira arruma o cabelo; ali, um passageiro espia a relva, leva as mãos ao rosto para proteger os olhos ofuscados pelo sol; num momento alguém limpa os braços no tecido da calça, no outro assobia uma canção andina.

Estava completamente perdido naquela fantasia de que quando visitamos um vulcão ativo estamos numa espécie de busca, numa jornada que transcende a nossa ínfima e temporária passagem por este planeta. Queria que aquela minha viagem se enchesse de significados, que eu pudesse escrever um relato tão interessante a respeito do Osorno que as autoridades de Puerto Varas dar-me-iam um título de cidadão honorário. 

Não sabia muito bem o que pensar dessas pretensões egotistas enquanto mirava a manta de neve do imponente vulcão. De bloco-notas, caneta Bic (quatro cores) entre os dedos ainda observava condores-fantasmas no céu e não estava a tremer-me.

* * * 

Há cerca de trinta quilômetros do vulcão Osorno encontra-se um primo temperamental que nos últimos tempos ameaça catástrofes. No dia 22 de abril de 2015, às 17h50, o vulcão Calbuco começou a soltar para a atmosfera uma parede vertical de cinzas que causaria graves danos à agricultura, suspensão do tráfego aéreo e acionamento de alerta vermelho. 

As últimas erupções do Calbuco foram um lembrete geológico. São nove vulcões em Los Lagos, todos ativos. À distância, parecem simples rochas a cortar o horizonte do Llanquihue, mas por dentro é outra coisa. Montanhas entaladas prontas para cuspir pedras de fogo para qualquer sítio.

Pergunto ao condutor como deve ser dormir com essa mortífera possibilidade. O velho me explica que o Calbuco é como um cachorro que ladra e ninguém teme os cachorros que ladram. De todos os vulcões que fazem parte do complexo regional, o Osorno — o mais discreto e calado — é o que realmente mete medo. Ele tira do porta-luvas umas pedrinhas minúsculas e explica que são vestígios do Calbuco. Depois, pega uma rocha de considerável tamanho e diz: esta, grandona — aqui o condutor aponta para o cume nevado da montanha, a quase três mil metros de altura —, esta saiu da barriga do Osorno.

* * *

Enquanto subíamos o último trecho pavimentado do vulcão fiquei a pensar que estava a desenvolver uma estranha obsessão pelo Osorno; transcendental, místico, algo que os devotos de certeza sentem quando se aproximam da figura que adoram. A furgoneta Ford estacionou perto de um estabelecimento com motivos da Patagônia e o condutor esclarecera que a partir dali o caminho teria de ser feito a pé. 

O clima que há poucos minutos se mostrava ameno, agora encobria com uma fumaça fantasmagórica praticamente todo o cimo da montanha. Rajadas de vento acertavam as encurvadas fisionomias humanas, o frio invadia a medula óssea sem trégua. Era como se o Osorno não quisesse receber visitas.

Mas lá estava eu, inconveniente, a caminhar sobre o meu novo deus de pedra, um vulcão ativo que já tirava um longo cochilo geológico. Se alguém me visse daquele jeito, praticamente ajoelhado, com aquela postura subordinada, bem capaz de acreditar que aquele sujeito encapuzado rezasse. E talvez eu estivesse mesmo a rezar. Não uma prece eclesiástica, mas um canto pagão que refletisse o atual estado da minha existência.

A ingênua (e até um bocadinho tola) sensação de que eu era o primeiro a sentir aquilo ao cimo do Osorno, sim, só eu tinha o direito de adorá-lo, de conversar com ele. Fiquei a observar dois andarilhos invasores que também subiam o vulcão, duas figuras com trajes negro caminhando lentamente para nenhures. Numa altura os dois também pararam, e vi naquele repentino gesto a negação de toda a vontade de se locomover, símbolo da imobilidade humana diante do absurdo das subidas.

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A neblina tornava-se cada vez mais densa e cogitei que aquela tristeza de gelo, a invisibilidade branca da montanha, explicava muito do meu caráter — quanto mais não seja o facto de sempre (mesmo nos momentos mais soalheiros e felizes) ter perto de mim o anjo taciturno de Albrecht Dürer. 

Sabe-se que quando o espírito do viajante une-se perfeitamente à paisagem todo o momento se transforma numa revelação em que um simples detalhe mostra-se capaz de explicar a errática trajetória do sujeito a refletir. Balzac diria que o conjunto de uma vida pode estar resumido nisto, em uma aparência absurdamente momentânea.

Fechei o casaco de neve, virei-me para o precipício e lembrei do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, do filho que não tenho — e que muito provavelmente nunca conseguirei ter. No escritor medíocre que me tornei. Nesta figura cabisbaixa, indolente, preguiçosa, que guarda, acumula, sempre à beira de um colapso, de uma explosão catastrófica.

Não à toa encontrei no Osorno uma metáfora perfeita para a minha mutante personalidade. Estou ficando velho, cansado, intransigente, com pouca paciência, abalado pela vida, ditatorial nos modos, posso entrar em erupção a qualquer altura e devastar tudo e todos que se arrisquem a ficar perto de mim.

Analisei com afinco o desfiladeiro inclinado do vulcão, as marcas deixadas pela lava, as transformações geográficas causadas pela atividade do Osorno. Talvez os mapuches que se aventuram até ali também fiquem a admirar aqueles violentos rastros, talvez os vulcões dos Andes sejam os últimos vingadores de um povo que há séculos precisa de aturar a barbárie contínua da colonização artificial, a ganância de um consumo que não tem fim. Bastaria uma série de erupções para que tudo voltasse a ser como sempre foi.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Grosso-modo, estás a viver uma vida boazinha, és feliz, e as coisas amiúde correm-te apropriadamente. Até que chega a morte, a perda, um desastre e não te mostras de forma alguma preparado para o que vem a seguir.

A velha dicotomia de sempre: vida & morte, deusas imprevisíveis que lutam entre si, mas também, ao fim e ao cabo, dependem uma da outra.

Estás em conflito contigo mesmo porque passaras a tua existência em casulos hermeticamente fechados, protegido do mundo, sem lidar com a possibilidade, como se costuma dizer algures, da finitude. Nessa tua morada, ninguém morria, ninguém morreria. Era tudo calmo, era tudo certo.

(O viajante que acaba invariavelmente por utilizar elementos da própria biografia em seus relatos de viagem.)

A bandeira de Évora.

A bandeira de Évora é qualquer coisa curiosa. De longe, a trepidar ao sabor do vento alentejano, parece uma bandeira como tantas outras, com formas triangulares amarelas e vermelhas a preencher a superfície do pano. Mas se chegares perto, perceberás um brasão assustador adornado com motivos medievais. Dentro do escudo dourado, certo cavaleiro com armadura metálica ergue espada ensanguentada — é Geraldo Geraldes, o Geraldo sem Pavor, galopando um saudável cavalo negro.

Triunfante, o animal salta a cabeça de duas vítimas decapitadas, e daí compreendes a origem do sangue que escorre pela espada do supracitado cavaleiro: vem dum homem e duma mulher; mouros. A faixa branca a contornar o escudo que diz MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE ÉVORA parece querer justificar o assassínio cometido por Geraldo Geraldes.

Esta bandeira causa-te um inverno na espinha.

Dada a tua tendência natural para o inconcebível, decides agora visitar a Igreja de São Francisco, cujos limites, contaram-te, abrigam convento, museu, coleções diversas (presépios Canha da Silva), órgão setecentista, sala régia, sala dos castros, etc., além da Capela dos Ossos — construída no século XVII com o «propósito de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana».

O céu matutino, azul e completamente sem nuvens de Évora contrastava com o vento glaciar que cortava-te a alma. Sentes aquela estranha sensação de estares a ser observado por algo ou alguém.

À entrada da Capela dos Ossos, com duas colunas ao estilo romano, podes ler a famosa inscrição:

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS 

De início, ficas perturbado com a visão das paredes interiores — repletas de crânios, de toda a sorte de ossos humanos. Ossos que não estavam ali para brincar, isso era certinho. Mas, tal e qual ocorre com o noticiário moderno (quanto mais atrocidades alguém lê, menos escandalizado fica), a capela macabra aos poucos torna-se um bocadinho mais aprazível até que finalmente chega a altura de poder colocar o visitante no seu devido posto.

Aqueles restos de pessoas que um dia foram não te deixam esquecer de que tu também irás, cedo ou tarde, ter aquele mesmíssimo fim: transformar-te-á num mero amontoado de osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Serás também caveira, esqueleto.

Poema sobre a existência
(Este soneto do Padre António da Ascensão Teles pode ser lido no interior da capela.)

Aonde vais, caminhante, acelerado? 
Pára…não prossigas mais avante; 
Negócio, não tens mais importante, 
Do que este, à tua vista apresentado. 
Recorda quantos desta vida tem passado, 
Reflecte em que terás fim semelhante, 
Que para meditar causa é bastante 
Terem todos mais nisto parado. 
Pondera, que influído d’essa sorte, 
Entre negociações do mundo tantas, 
Tão pouco consideras na morte; 
Porém, se os olhos aqui levantas, 
Pára…porque em negócio deste porte, 
Quanto mais tu parares, mais adiantas.

(…)

Ouviste dizer que algumas pessoas não se aguentam nem cinco minutinhos dentro da Capela dos Ossos; não dão conta de olhar para aquele espelho cadavérico. Fogem. Mas aquela decoração esquelética causara-te outra coisa. Tens, mais do que jamais tiveras, a certeza de que o derradeiro suspiro chegará, e queres aproveitar o interlúdio da melhor maneira possível.

Refletes também a respeito dos donos daqueles ossos, se um dia teriam imaginado que um escritor brasileiro nos seus trintas, a levar uma vida algo dissipada, escreveria sobre aquela estranha morada, quatro século mais tarde.

Ficas ali dentro, em absoluto silêncio, a observar os rostos sem pele até serem horas de ir para outros sítios da Igreja de São Francisco, porque nesta vida não se pode atrasar. Poderás dormir imenso quando morreres.

Segues para a frente.

Estás em Évora, afinal.

— P. R. Cunha


O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha já se encontra disponível à lojinha do sítio web. Para mais informações, aperta aqui.

Caderno de viagem: andas em círculos (para onde vais?, não sabes…)

Voltar de uma longa viagem ao estrangeiro — o oceano etc. — & falar sobre essa longa viagem & interromper o relato porque outra viagem (desta vez ao centro do Brasil) & distrações agradáveis — viagens sobrepostas/acumulativas — toda a viagem exibe uma beleza & (trecho baseado nas leituras da sra. Sontag) torna-se superficial (i.e. desnecessário) privilegiar certas jornadas como belas (boas?) & outras não.

A viagem para Portugal, ou para o mato brasileiro. Arbitrário (ainda é Sontag) tratar alguns momentos como importantes & a maioria como pura banalidade. Viajar é atribuir significado(s), não importa se algures, ou nenhures. Conferir valor às viagens (se estou a fazer determinada viagem, tu pensas, logo, ela tem importância; certa intransigência, no entanto, com a viagem dos outros [se lá não estou, deveria interessar-me pelo relato alheio?], tu perguntas).

Repetes: nenhuma viagem é mais bonita/importante/interessante do que outra; nenhum viajante é mais preparado do que qualquer outro viajante.

A figura que vem à tua cabeça: barca, estamos todos na mesma barca.

Uma viagem que hoje soa estranha ao teu temperamento, amanhã (isto é, futuramente [não sabes ao certo quando]) pode se mostrar crucial. Queres fazer a tal viagem, porque (vide contextos individuais) ela agora te chama.

Imperativo categórico, Kant, ação necessária em si mesma, sem referência a qualquer outra finalidade.

Da mesma forma que a escrita precisa te chamar, ou seja, não é algo forçado. Escrever e viajar: paradigma, como já disseram, paradigma de atividades nas quais não podemos ser bem-sucedidos (estou a citar) só por tentarmos afincadamente. Podemos preparar-nos para a tarefa (escrever/viajar), sentirmo-nos gratos quando conseguimos construir algo que mexe com os brios de outros seres humanos (a gratificação da empreitada: outra pessoa se identifica com os teus trejeitos, sentes-te encorajado, recompensado, queres continuar).

Pensar na seguinte situação: Yovkov viajara muitíssimo e pensara desesperadamente sobre essas viagens — como transformá-las em mercadoria, vendê-las aos noticiários. Mas quanto mais atenção o sr. Yovkov dava às viagens menos ele conseguia aproveitá-las, relatá-las.

Não digas nada com pressa — parafraseio o Ulisses —, não penses agora, não faças perguntas. Perde-te.

O viajante começa a interpor-se no caminho da prória capacidade para agir de modo natural, pensa excessivamente uma atividade que, de certa forma (ver yips/mão fria [Dreyfus & Dorrance Kelly]), devia ser reflexa.

É bem isto: viajar enquanto estás a escrever sobre as tuas viagens.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: escrever e viajar — ofícios da mesma prática*

Juan Carlos Onetti dizia que o criador/artista precisa de ter a força para viver solitário. Um tipo específico de animal humano que tem a coragem de olhar para dentro de si mesmo, que compreende que não há trilhas para seguir — constrói o caminho à medida que o percorre (como já tivemos oportunidade de ver neste caderno [vide figura do comboio]).

Escrever e viajar: duas viagens.

As odisseias de Homero, as andanças de Ulisses, as raízes da própria literatura vêm dessa vontade, desse desejo… ou melhor, dessa necessidade (sublinhar necessidade) de estar noutro sítio.

O viajante então torna-se filósofo à maneira Nigel Warburton: não se limita a expressar as suas crenças, ele raciocina, define, classifica; uma tentativa constante de ir além das aparências, quer ser desafiado, criticado, sabe que a maioria dos trajetos aparentemente simples não tem uma direção simples.

Quantos romances sobre o mar, sobre as chegadas e partidas em docas atingidas por ondas irascíveis, sobre o faroleiro que avista no horizonte marujos completamente fatigados, mas que a despeito do sopro da morte nunca param. Ahab encontra o cachalote — símbolo marítimo das obsessões do homem. Moby Dick, Herman Melville, acerto de contas com os próprios demônios. 

O oceano: destino dos aventureiros, dos rebeldes, dos insatisfeitos, daqueles que buscavam outra coisa, noutras costas.

A própria jornada narrativa (arco narrativo [para os catedráticos]) — apresentação do protagonista no mundo dos comuns, o chamado para a resolução de alguma dificuldade (desafio), aventura, lidar com algum impasse (algo ou alguém que está a impedir o protagonista de realizar o que pretende), ter de resolver o impasse, buscar a ajuda de algo (porção mágica/armamento/poderes/etc.) ou de alguém (ajudante/tutor[a]/companheiro[a]/justiceiro[a]/sábio[a]/etc.) para resolver o impasse, os objetivos que precisam ser alcançados, o sucesso, o fracasso, as transformações do protagonista no desenrolar da missão, o retorno à casa.

Se lemos, vemos, ouvimos, escrevemos uma história… estamos a viajar.

— P. R. Cunha


*Ironicamente, o autor tem de interromper temporariamente a publicação do Caderno de viagem por motivo de viagem. Feliz 2019!

Caderno de viagem: decides anestesiar (alguns dos) teus pensamentos

Não viajas —
corres atrás
de ti mesmo.

Pode-se dizer que uma cidade desconhecida é como um planeta distante — podemos compreender melhor se observarmos. A primeira vez que viste Marte através das lentes arredondadas do teu telescópio, e Marte de súbito ganhara novos significados para ti. Do mesmo modo, a primeira vez que estiveste em Portugal, e Portugal agora mostra aspectos diferentes, outras paletas cromáticas, outras realidades, outras dimensões.

(Tornar visível o que antes era invisível.)

Alguns viajam
para fugir às dores —
que já tinham.

Enrique Vila-Matas numa altura escrevera que viajava antes mesmo de viajar; lia tudo a respeito do país ao qual estava prestes a ir, arriscava-se mesmo a fazer pequenos (e grandes) esboços sobre esses sítios que ainda seriam visitados — roteiro previamente estipulado, viver aquilo que anotara, de certa forma confirmar algumas expectativas, remodelar previsões: eu já cá estive?

Lisboa: em dezembro, quando as nuvens permitem, e o céu se faz presente, e o forte azul do infinito, azul-turquesa, azul-glaciar, e tu queres agarrar-te à cidade, do mesmo modo como agarras aos braços de alguém por quem estás perdidamente apaixonado.

Constataras que a viagem, por mais «real» e experimentada que ela seja, é altamente ficcionável. Qual era mesmo a temperatura daquele dia?, que roupa usavas?, era mesmo dia?, foi num táxi?, comboio? o nome dela era Antonina?, era ela?, era ele?, era Macedo?, Jorge?, era Lisboa? era Óbidos?, era-te a ti mesmo? Tu não sabes muito claramente como distinguir.

As lembranças da viagem — como as lembranças da tua infância — também são ingênuas, vulneráveis, oníricas. Tu batalhas contra a amnésia, queres ainda sugar o último sumo daquelas memórias. São, por vezes, representações, abstrações. Estás a construir um estranho edifício com tijolos verdadeiros, vigas imaginárias, um terraço ao cimo com vidro de fantasia.

Falar sobre uma viagem que não exija qualquer pré-requisito.

Longos dias de tranquilidade em Portugal, e de imperturbadas caminhadas. Para onde voltaste? Para os campos esverdeados do Alentejo com vaquinhas e carneirinhos a pastar, para o trator que corta os corredores de uma vinícola em Bacalhôa Buddha Eden, para o cavalo a descer uma encosta aveirense, para os estudantes flutuando no pátio perto da capela de S. Miguel (Universidade de Coimbra), não muito distante do Penedo da Saudade.

Uma brisa que atravessa os cabos da ponte 25 de Abril, cujo despretensioso balançar reanima as tuas inclinações introspectivas. Não pensas em contas, boletos, em prazos, em compras, não pensas no mundo, não pensas em absolutamente nada.

Brisas que trazem consigo a esperança de tempos melhores. Mostras o teu coração aberto — percebes que és também um bocadinho de Portugal, terra do teu bisavô. Tens, assim como o velho poeta, uma alegre confiança na vida, no porvir, em ti mesmo. Etc.

Efeito libertador da viagem: jornadas que salvam vidas, que dão norte e propósito a existências por vezes desnorteadas e despropositadas.

E, por enquanto, fez-se o silêncio total.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: outro prólogo (outra parte escrita num Fabienne Chapot [marketing and sales by New Edition Stationery BV — Netherlands] com folhas pautadas à moda escolar e motivos selvagens para a capa)

Como deve ler-se este caderno de viagem? Qual é a maneira mais apropriada de o ler? O autor do caderno sugere que ele devia ser lido de uma maneira — faz com as mãos como deve ser lido. Depois de apreciá-lo com a devida atenção, comentamos «sim!, sim!, agora compreendo, faz todo o sentido». Agradecemos com uma mesura desajeitada, rimos dos nossos modos teatrais. 

O viajante também conhece a filosofia de Wittgenstein. Importa-se imenso com a filosofia-Wittgenstein.

Podes ler o caderno de viagem uma primeira vez e achar profundamente tedioso, sofrível até; mas daí lê deste novo modo, de um modo que nunca imaginarias e dizes: ora!, que maravilha este caderno de viagem, brutal, agora gosto deste caderno de viagem etc. 

Estás a ler mais intensamente.

Como demonstrar que determinado autor de cadernos de viagem te agrada? Relê o autor várias vezes, consome o autor, ignora o autor quando for preciso, não sintas pena do autor.

O cidadão passa três breves dias em determinado país, volta e conta para os seus: conheci tal país. Vós sempre achastes isto curioso. Já Marco Polo esteve vinte seis anos na China e por vezes confessava: não conheço a China. Numa cidade como Lisboa, é preciso escolher, selecionar, é preciso ir para algum canto, explorá-lo, dar-se por satisfeito. Não podeis ter Lisboa toda para vós. Como dizia um ilustre antigo — é não estar em parte alguma em todo o lado estar.

Pôr por escrito os pensamentos de viagem, os aforismos de viagem, os trechos vagos que te assombram durante uma chuvosa noite em Aveiro. Escreves sobre a viagem como fosses salvar a sanidade de alguém. Provavelmente a tua própria sanidade.

É improvável imitar ipsis litteris a rota de outro viajante — as diferenças (ruas, estilo, temperatura [meteorologia de forma geral], profundidades, cores, linhas, pessoas etc.) são de imediato percebidas. Como dizia o teu avô: precisas criar os teus caminhos. 

Noutras palavras: o teu comboio vai para o outro lado. Tens uma certa emoção, queres tornar isto o mais claro possível — ao teu modo.

O tempo em Aveiro no período natalício: sol, chuva, ventos, sol, chuva, sol, ventos, chuva, ventos, sol. Uma escola de transitoriedade, as nuvens aveirenses ensinam-te que tudo passa. Nada é permanente. (Falar sobre as dificuldades de se trabalhar como meteorologista em Aveiro.)

Num passeio público junto ao Tejo, perto do Cais do Sodré, a ouvir a lamentosa sirene de um ferry que afasta-se para dentro do nevoeiro, ofereceram-te, em cinco ocasiões, sacolinhas de maconha. (…) A partir de então, decides ser mais cauteloso com a tua vestimenta.

É possível estar em Lisboa sem estar em Lisboa? Se lês os apontamentos lisboetas de Fernando Pessoa estás também a perambular pelas ladeiras, a ver as casas coloridas, estás a navegar o mesmo Tejo, a ouvir o fado — é possível viajar até às quintas portuguesas sem nunca aterrar em Portugal? Em que sítio estamos quando lemos os relatos do viajante, do observador? Cochilas com o Livro do desassossego ao colo e pensas para ti mesmo: onde é que me meti — onde nos metemos quando folheamos o Livro do desassossego? 

Ouves a respiração do poeta, estás numa aldeia distante. Não te apeteces voltar.

De início não pensavas muito em escrever sobre Lisboa, Évora, Sintra, Aveiro. Limitavas a observar e a entender a dicotomia que te ia na cabeça. Demoravas imenso tempo observando as gôndolas aveirenses com a ingênua crença de que poderias usar tudo aquilo que estavas a ver — tal e qual Funes, o memorioso de Borges.

Mas tu te esqueces, tu não te lembras de tudo.

Estás na Praça do Comércio, Lisboa. Atravessas o Arco da Rua Augusta. Estás rodeado de turistas, miúdos a falar o francês, o alemão, o espanhol, o russo, miúdos a correr loucamente atrás dos pombos bravos e modorrentos que comem as migalhas de um pastel de natas. Perguntas: ora, onde foram parar os portugueses? Não os vias por ali, isso era certinho.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: doces portugueses (espécie de prólogo [em parte{s}])

Uma senhora está a chamar-te. Fica paradinho aí, ela diz. Carrega consigo um livro. À medida que ela se aproxima, podes ler melhor o título em vermelho da capa: Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, um livro de memórias — é Murakami.

Sexta-feira, 14 de dezembro de 2018. Escreves com o caderninho sobre a cama do Hotel Imperial. Aveiro. A letra afunda enquanto anotas, o colchão é macio, imprevisível. Sentes-te no século XIX. 

Portugal tem destas.

Se viajar significa «ir-se alhures» então o que estas a fazer é definitivamente uma viagem. Kipling nunca esteve em Mandalai, e mesmo assim escrevera qualquer coisa chamada The road to Mandalay — não sabes ao certo. Não vais muito com os poemas do Kipling.

A literatura de viagem boa, a literatura de viagem má e a literatura de viagem do meio.

Há quem gaste dinheiros, encontra-se de repente numa cidade estranha e jamais sai do quarto do hotel. É isto uma viagem? Quanto tempo precisamos estar fora para adquirirmos o direito tácito de colocar nossas experiências ao papel, quantas coisas precisamos de ver para transformá-las em memórias verosímeis, podemos tagarelar com desenvoltura sobre a culinária alheia depois de comermos somente em um restaurante obscuro indicado pelos mecanismos Google?

Outra maneira de se falar de viagem, uma viagem a Lisboa, suponhamos, ou até aos canais de Aveiro — ou a tantos outros sítios, sente-te lá à vontade para escolher —, falar a respeito dessas deslocações estrangeiras, não necessariamente fora da tua pátria, mas fora da tua zona de conforto, uma maneira de falar dessas andanças algures (e nenhures) seria segundo partes de relatos; fragmentos, portanto. Porque nessas ocasiões, longe de casa, numa altura estamos cá, noutras já cá não estamos.

Moves-te muitíssimo quando viajas. Tu explicas: em dezembro fui a Lisboa, fui também aos canais de Aveiro, Coimbra, Cascais, Estoril, Óbidos, sítios realmente fantásticos; andei e refleti imenso. Agora, apetece-me escrever sobre essas tretas. Novamente a mesma imagem: d’um sítio para o outro, ora lá, ora cá. Em fuga.

Em Portugal és apenas um estranho qualquer — l’étranger. Falar mais a respeito disto depois. (No Brasil, também és apenas um étranger qualquer. Não faz a diferença.)

A viagem é uma vida engarrafada, maqueta existencial, microcosmos. A viagem começa, ela se desenrola, a viagem acaba — geralmente em lágrimas.

Estás com uma t-shirt preta a escutar o r.roo (Art of forgetting).

Dois passos para te tornares fã de Lisboa — vai até Lisboa, abre-te os olhos. Pronto, és fã de Lisboa.

O anonimato do viajante. Pois, como escrevera um poeta, quando viajamos podemos extrair novas canduras até mesmo nas saudades, numas palavras incompreendidas, na catástrofe, na fatalidade, na solidão, principalmente na solidão.

Há bem os dias em que o viajante acorda tão disposto que poderia caminhar meio mundo com aquele humor leve, despretensioso, dominical. Não se limita às paredes da cidade. Quebra muros, vai ao cume da montanha. Grita, se for preciso.

Quando vejo o Tejo
ondular
numa língua familiar
compreendo —
o Tejo tem alma.

Um relato de viagem que fosse também uma espécie de viagem. Estás a escrever em Lisboa, depois Óbidos, de aí Évora, Setúbal, Leiria, Nazaré, Aveiro, novamente Lisboa. Continuarás a escrever quando voltares ao Brasil, em casa, num refeitório, ao pequeno-almoço, à livraria (se elas continuarem a existir). Estás a escrever sempre, não tens qualquer ambição cronológica. Agora umas frases de ontem, ali uma outra observação da semana passada, destacas algo que acabara de ocorrer-te. Tu misturas tudo. Perguntam-te: mas de certeza havia um roteiro, certo? Repondes que a cada dia conhecias um sítio diferente. Mas ao falar deles tu não segues ordem nenhuma, sem configuração determinada. Uma quinta nebulosa em Sintra deixara-te com o coração à boca de tão bela, outras ruas são tocadas apenas ao de leve. Os doces portugueses bem mereciam um capítulo à parte.

O uso dos três pontos (…): o uso dos três pontos, no nosso caso, indica que existe transição, rota, deslocamentos — indica geralmente que o viajante está dentro de um autocarro, ou talvez montado numa bicicleta (BUGA, se Aveiro), indica que está a ruminar, a passear. O viajante vai de passagem.

Há uma surpresa constante quando vos entrais em sítios em que nunca estivestes. Tudo está fresco, não foi contaminado pelo excesso. Vossas vistas procuram compreender os mínimos detalhes, vistas atentas, vistas aguçadas etc. Os nativos podem não dar tanto valor a determinado canto da cidade, alguns podem nunca ter lá ido. É como a piscina: se não as temos em casa, queremos tê-la; se temos, perde-se um pouco a magia. Vós dizeis: temos a piscina, podemos cá abrir a janela do nosso quarto e avistamos ali uma piscina, entramos nela quando (e se) apetecer-nos, a piscina não tem tanta importância. Um miúdo sem piscina está sentado no sofá do apartamento da mamã e sonha com a piscina, gostava de ter uma piscina bem grande, ele diz para consigo, ficaria dentro dela a tempo inteiro. 

Percebei, leitores, que este tema «viagem» é vasto. Muitos já escreveram a respeito. Isto tem certa vantagem: tudo torna-se possível; podei-vos anotar do jeito que preferirdes.

— P. R. Cunha