Apontamentos

A realidade
desiludida —
o tédio
o estímulo
o tédio.

* * *

Minha avó paterna sente as saudades do mar. Ela me mostra uma antiga fotografia de Niterói. A casa, a mureta, o cajueiro, o menino à sombra do cajueiro. Vovó aponta para o menino e diz: é o teu pai.

* * * 

Duas amigas que se conheciam há mais de cinquenta anos. Perguntaram a elas qual era o segredo de uma amizade tão longeva. O fato de que ambas quase morreram afogadas no arquipélago da Madeira.

* * *

Num terreno abandonado, crianças organizavam uma espécie de corrida de cães — vira-latas que viviam nas ruas e mostravam-se muito satisfeitos com a bagunça. O vencedor levava um pedacinho de pão.

* * *

Às vezes escuto o silvo da locomotiva. Um grito seco, agudo, distante. Mas os trens não operam por aqui desde os anos 1980, explicam-me. E isso me deixa muito perplexo.

— P. R. Cunha

Politicamente incorreto

Não é preciso de ir muito longe para perceber que se vive numa modernidade de polícias. O desafio talvez seja reconhecê-los, pois não utilizam necessariamente a indumentária marcial. Civis também fazem parte da gangue.

O vizinho mexeriqueiro, a colega de trabalho, o motorista do autocarro, a jornalista, o professor de direito, a médica. Todos suspeitos. Podem ser (e provavelmente são) polícias.

Eles sabem o que é certo para si, ou melhor, para si e para toda a humanidade. Farão de tudo para serem ouvidos, para serem levados em conta, para, se preciso for, enfiarem os próprios ideais corretivos na goela de toda a gente.

Daí vêm as culpas.

Como, por exemplo, dormir demais. Numa sociedade policialesca dormir demais é um pecado capital. Você poderia estar a fazer algo de útil, mas está a dormir. Um breve cochilo vespertino é motivo de crises profundas: afinal, o que vão achar de mim?

Não se pode nem comer um salgado sem que algum espião olhe de cara feia a pensar: esse aí está perdido, brinca com a obesidade, sente tanto prazer ao ingerir salgado gorduroso, que obsceno.

(As bebidas alcoólicas sofrem de estigmas análogos a respeito dos quais muito já se escreveu.)

«Eu sei o que é bom para a raça humana, eu conheço o segredo do sucesso, eu sei o que é uma vida plena, saudável, equilibrada», o sujeito lhe cospe isso antes de voltar ao próprio apartamento de 20mpara perder-se em pensamentos suicidas.

O maior alvo da geração-polícia provavelmente seja o tabaco. A lei que proíbe fumar em locais públicos é sensata, mas não é o bastante. E por que cargas seria? Se você acende um cigarro no conforto da sua casa, sem incomodar vivalma, só você e o cigarro, é bom, por precaução, trancar as portas e fechar as cortinas, pois se alguém observá-lo a cometer tamanho crime saiba que terá de ouvir infinitos sermões.

Roland Barthes escreveu imenso sobre o direito ao tabaco. Parafraseio: sei que faz mal, sei que causa cancro, mas se gosto de fumar, e posso fumar, irei fumar, sou adulto, não necessito de nenhum grupo de fatalistas para esclarecer o que é bom ou ruim para a minha vida, sumam daqui!

Faz lembrar Robert Burton, que em 1621 declarara: oh!, o tabaco, divino, raro, superexcelente tabaco, um elemento milagroso que causa tanto a elevação quanto a ruína da alma.

Ou mesmo aquele antigo beberrão que costumava repetir: a bebida mata, e é bem por isso que continuo a beber.

Acontece que essa independência, essa liberdade de escolha, de compreender e lidar com os riscos, essas posturas desafiadoras obviamente incomodam deveras os membros do Estado Babá. Ora!, como ousa ter esse tipo de autonomia, vontade própria, diz o polícia social, não sabe que vivemos em grupos, e que seguimos regras específicas, e que todos precisam de se comportar direitinho?

— P. R. Cunha

Silent Nights

The first part of the project — remembering the effects of war on the soldier’s behavior. Trauma and memory, shell shock, neuroses, etc.

Despite the helmet and the savage countenance, the soldier is above all just a human being.

A soldier once told me
that every war has at least
two types of death —
the death of those
who fought on the battlefield
and the death of those who had
to survive it.

Music & edition by P. R. Cunha:

 

Persona non grata

PZRS

Ela volta sem ser convidada, enquanto você está deitado, revirando-se na cama, a colocar o travesseiro sobre os olhos para evitar a luz dos postes que dribla as frestas da cortina. Ela fica atrás da porta, à espreita, serena, tem todo o tempo do mundo. Você sente a presença indecorosa, perturbadora. Você está com sede. Ela parece sorrir, zombar da sua estranha dança com os lençóis. Você tenta enganá-la, tenta pensar em outras coisas, qualquer coisa, assuntos mundanos, situações tediosas, tenta se imaginar a correr uma maratona, você está cansado, sim, muito cansado, mas essa tática não funciona mais, ela já aprendeu todas as suas artimanhas, todos os seus truques infantis, nem adianta insistir. Você agora escuta os passos que se aproximam de forma lenta e calculista, as mãos nodosas que lhe tocam sem cerimônia, o hálito frio que sussurra ao ouvido: sou eu, a Insônia, uma velha amiga.

— P. R. Cunha

Macchiato

Agradável tarde soalheira. Roubalivros Editora, que brevemente lançará o meu livreto de poemas incompletos, convidara-me para tomar um café virtual e conversar sobre miudezas variadas.


[Roubalivros Editora] Não gostas de dar entrevistas?

[P. R. Cunha] Não muito. Mas também não me procuram tanto para dá-las. Então acho que estamos, como se diz, quites.


[R. E.] Fruto de alguma experiência traumática?

[P. R.] Tenho certo pavor de quem fala demais. E tenho mais pavor ainda de ser eu a pessoa que fala demais. Isso ocorre com frequência. Eu falo, e falo, e falo. Acontece que quando falamos demais é porque queremos nos explicar. E a pior coisa que pode acontecer com um escritor de ficção é ser completamente compreendido. Ou compreendido além da conta. Prefiro cultivar a imprecisão, a inconveniência, e isso só é possível se conseguimos manter a distância correta.


[R. E.] A escrita sempre esteve presente na tua vida?

[P. R.] A escrita?


[R. E.] A escrita… Quero dizer: sempre tivestes na veneta a ideia de ser escritor?

[P. R.] Eu queria ser baterista de jazz. Mas acabei baterista de uma banda de post-rock. A banda parou de tocar e me deparei com o diploma de jornalista. Meu plano B era ser jornalista. Percebes como as coisas podem ser absurdas? Daí eu disse que jornalismo não dava. Jornalismo nem pensar. Estou roubado.


[R. E.] E a escrita?

[P. R.] Numa determinada altura o meu pai falou: tens que te meter em qualquer coisa na vida, moleque, não podes ficar debaixo das minhas asinhas para sempre. Papai estava certo. Então comecei a escrever para dizer que estava fazendo alguma coisa. Foi isso. E peço imensas desculpas pela falta de glamour. Comecei a escrever para enganar o meu pai.


[R. E.]
Costumas falar muito dele na tua ficção. Ainda é uma figura marcante para ti?

[P. R.] Acho que quando alguém perde o pai essa perda será sempre marcante. A diferença é que alguns perdem o pai cedo, e outros quando já estão numa idade mais avançada. Quem está numa idade mais avançada e o pai morre, a pessoa meio que joga as mãos para o alto, resignada: ora!, é o curso natural do universo. E a pessoa que está numa idade mais avançada sabe que ela também não tem muito tempo pela frente. Mas se tu perdes o pai aos 24 anos, como foi o meu caso, faz as contas…


[R. E.] Passas boa parte da vida sem pai.

[P. R.] É por aí. Tenho cá um projeto engavetado sobre o breve período em que fui ghostwriter dele. Papai tinha criado uma espécie de boletim de notícias para o hospital urológico que ele construiu e eu escrevia artigos com assuntos médicos. Depois ele assinava os textos e me pagava uma mixaria. Lembro que estávamos num café e um paciente reconheceu meu pai. Foi até à mesa só para elogiar a escrita elegante dos artigos, além de médico um ótimo escritor etc. E meu pai, sem pudores, respondeu que eram frutos de anos de prática, que em breve arrumaria período sabático para se dedicar somente à literatura, essas coisa. Era tudo muito engraçado. Meu pai era um piadista nato.


[R. E.] O projeto já tem título?

[P. R.] Sim. Chama-se: O fantasma do meu pai.


[R. E.] Quando começaste a escrever poesia?

[P. R.] O paradoxo com o qual tenho de lidar constantemente é este: não consigo existir se não escrevo, mas há épocas em que simplesmente não quero escrever. Quero estar algures. Não é falta de ideias, é estar-se saturado. Sou um escritor de ficção, de prosa. Mas se escrever se torna um aborrecimento, o jeito é lidar com as incompletudes, as migalhas, os cacos. De forma que tomo notas mesmo assim, mesmo sem querer, mesmo saturado. As notas precisam de ser curtas, dispersas, desconjuntadas. Quando passo essas notas para o computador, começo a apertar a tecla «ENTER». Organizo os fragmentos em versos. Não saberia te dizer quando foi a primeira vez que fiz algo dessa natureza. Mas são linhas motivadas pelo tédio, pela total ausência de vontades, são pequenos gemidos de socorro, vai lá.


[R. E.] O desafio seria transformar esses gemidos de socorro em algo orgânico?

[P. R.] Mesmo a ideia de transformar sugere uma qualquer edição, ou pelo menos um processo seletivo. De certeza que isto vai parecer um descaso danado, mas não me importo com nada depois que organizo os fragmentos. As escolhas só acontecem no sentido de que fico com os gemidos que gosto mais e jogo fora os gemidos que gosto menos — sem nunca modificá-los. 


[R. E.] Falando nisso, tens conseguido produzir durante a quarentena?

[P. R.] Há cerca de duas semanas recebi ligação de um amigo que também escreve. Ele contou que estava complicadíssimo trabalhar com esta pandemia toda, blá-blá-blá. Eu disse: não me venhas com essa ladainha, deixa de tolices!, Gore Vidal, Capote, Sartre, Simone de Beauvoir, Hemingway e tantos outros continuaram a escrever durante a Segunda Guerra Mundial, com Hitler, com tanques, com a Wehrmacht, com metralhadoras, com bombas sobre as cabeças. Tudo bem se não quer escrever porque está metido em outras atividades menos indecorosas, mas jogar a culpa no vírus parece-me de uma covardia brutal. Já és grandinho o suficiente para lidares com os próprios fracassos, não achas? E agora leio sobre artistas deprimidos que não dão conta de produzir porque o mundo está acabando. Tretas. Sinto informar-lhes, mas o mundo está sempre acabando.

[R. E.] E a literatura sempre a sobreviver ao fim dos tempos.

[P. R.] Taí uma bela frase de encerramento.

Fases da Lua

Tu levantas, andas pelo quarto, o relógio analógico vermelho faz tic-tac-tic-tac, tu tiras alguns livros da prateleira, continuas a andar pelo quarto, com livros na mão, tu não sabes o que fazer com esses livros, os livros não poderiam te ajudar agora, não queres ler livro nenhum, não sabes mesmo por que diabos tiraste esses livros da prateleira, os livros naturalmente te pesam imenso enquanto perambulas inquieto pelo quarto, tic-tac-tic-tac, relógio analógico vermelho, relógio de corda, estilo retrô, com duas sinetinhas para o alarme, tu jogas os livros na cama, tu acendes mais um cigarro, caminhas até ao frigobar, abres outra garrafa, o barulho da cidade te incomoda, o ruído mecânico do frigobar também te incomoda, tu não tens para onde fugir, o cigarro não te causa mais efeito, a bebida não te causa mais efeito, a música de Max Richter não te causa mais efeito, a vista começa a embaçar, a vista se contrai, afunila-se, as cinzas do cigarro agora se esparramam pelo tapete, tu não dás a mínima para as cinzas do cigarro, nem para o tapete, nem para nada, tu estás com frio, abres a porta do armário, vestes o casaco, o casaco marrom te esquenta por alguns minutos, mas logo tu sentes frio de novo, um frio que penetra os teus ossos, outro cigarro, outra bebida, a angústia que ultrapassa as tuas fronteiras, a angústia a conquistar cada molécula do teu corpo, a angústia é megera, implacável, chega em ondas, outro cigarro, céus!, outro cigarro, mais cinzas para o tapete, a tua cabeça não te obedece, a tua cabeça rodopia, a tua cabeça é um enorme balão, balão com hélio, expande, retrai, cabeça, na rua dois gatos começam a brigar, tu consegues ver os gatos irascíveis pela moldura da tua janela, as garras dos felinos se ameaçam, territorialistas, um dos gatos parece ser mais agressivo do que o outro, um gato na defensiva, outro gato na ofensiva, alguém lá fora grita qualquer coisa incompreensível, os gatos também gritam, a vizinha também grita, os automóveis também gritam, Vênus brilha perto da Lua em quarto crescente, tu estás a ter um colapso.

— P. R. Cunha


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Corações partidos

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«Despropositada, incompleta, obscura, niilista, doente, fútil, sem rumo: a poesia de P. R. Cunha é um retrato a preto e branco da modernidade.» 

— Roubalivros Editora


[Excertos]

/
Animal bípede
sempre com as pressas
põe-se com luxos
enquanto três andorinhas
nas calmas
cortam nuvens.

*

/
À tarde
depois de um dia difícil
o fumo de corda e a palha
invadem-lhe as entranhas
— a dizer que estar ali
ou não estar ali
tanto fazia.

*

/
O calango escala a mureta
para encontrar
outro calango
no alto da mureta.

*

/
Não entornas mais a garrafa
agora é ela que te bebe
tu apenas fechas os olhos:
isto não está a acontecer
se não vês
não está a acontecer.

*

/
A vida é bem um intervalo
entre sonhos
e esquecimentos.