devaneios da própria máquina de escrever (episódio #35)

eu havia marcado de encontrar o meu amigo bob, bob flynn, ao café-restaurante da rua noventa às 7h30 da manhã, mas cheguei uma hora antes, ou seja, às 6h30 da manhã, tão cedo que o café-restaurante ainda nem sequer estava aberto, escreve ray. a ideia de chegar com tanta antecedência surgiu-me na noite anterior, quando fui até à cozinha preparar qualquer coisa para comer & deparei-me com duas baratas gigantescas a fazer sexo. eu nunca tinha visto nada parecido. as baratas cruzam de uma maneira completamente despudorada, não fazem questão nenhuma de olhar uma para a antena da outra, & agora que estou analisando a cena retrospectivamente, talvez o ato não seja muito diferente do sexo entre certos casais que estão juntos há, sei lá, vinte, trinta anos. dois simulacros de pessoas que entram embaixo dos lençóis, fazem o que têm de fazer, viram-se cada um para o próprio lado da cama & vida que segue. enquanto as baratas fornicavam num dos quadradinhos 20x20cm do piso esmaltado com borda arredondada da minha cozinha, tentei imaginar, à guisa de entretenimento, um início alternativo para aquele livro «a metamorfose», escrito ao que parece por um tal de kafka, sugestão do meu próprio amigo bob flynn: quando certa manhã a barata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em seu esgoto metamorfoseada num animal humano monstruoso. a ideia, portanto, era conversar a respeito dessas miudezas de barata com o meu bom & velho amigo bob flynn, que chegara ao café-restaurante pontualmente às 7h30 da matina. sempre foi do feitio do bob chegar aos nossos encontros sem atraso. numa ocasião, acho que nos anos noventa ou algo assim, zelda — minha primeira esposa — & eu convidamos bob & aretha para jantar. lembro-me de que estava a cair uma tempestade terrível, as ruas foram interditadas, voos foram cancelados, mas bob tocara a campainha exatamente à hora combinada, abrira a porta para aretha passar & até hoje não sei como ele consegue fazer isso. acho que o bob controla alguma fenda misteriosa no tecido espaço-tempo, só pode ser. a funcionária do café-restaurante entregou-nos o cardápio & perguntou se poderia nos ajudar com alguma coisa. pedimos duas chávenas de café sem açúcar, uma cestinha com torradas. a funcionária rabiscou com a caneta bic azul & retirou-se sem tirar os olhos do bloquinho de anotações. então descrevi a cena pornográfica que se passara na noite anterior sobre os azulejos da minha cozinha. o bob, que havia deixado o chapéu-panamá no encosto da cadeira, levou-me absolutamente a sério, compenetrado, sim, escutara tudo com muita atenção.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #34)

vistosa a ideia de que a capacidade criativa do ser humano nasce quando a criança se dá conta de que possui um ego, «algo» dentro de si com fortes inclinações fecundadoras. está ali a circunstância, o caminho para transcender-se (& o digo sem nenhuma conotação mística-religiosa). o pequeno sujeito afasta-se dos limites impostos pelo corpo biológico, deixa de ser apenas criatura para também fazer parte de um contexto potencialmente produtivo — criar um objeto artístico?, criar-se a si mesmo? picasso dizia que toda a criança é artista, o problema é permanecer artista em adulto. é a tal imagem da semente: se negligenciado, o fruto não se desenvolve — semente nas entranhas da terra sem água para crescer. noutros termos: observardes as janelas se abrirem não fará muito sentido se não tiverdes força o bastante para mantê-las abertas depois.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #33)

hoje de manhãzinha aconteceu a primeira partida do torneio de xadrez (modo blitz [10 minutos]) do qual estou a participar nas plataformas chess.com. meu adversário foi vujasinvujke, da sérvia. com pontuação de 1425 (mais de 1800 vitórias), vujasinvujke ganhou fama de ser um enxadrista ousado & agressivo. de forma que precisei de alterar/adequar o meu estilo de jogo — que costuma ser voltado às trincheiras defensivas.

prcunha (brasil): peças brancas
vujasinvujke (sérvia): peças pretas

Screen Shot 2019-11-26 at 08.56.49

minha abertura foi propositadamente simples (uma variação minimalista do paulsen attack) — de certeza que o sr. vujasinvujke não me conhecia, ao que a pegadinha parece ter funcionado. numa partida de xadrez, sabemos, brinca-se muito com os processos mentais do adversário. se enfrento um oponente bem mais capacitado do que eu, cometo erros bobos à laia de me fazer de desentendido. & se a isca é mordida, as chances de vitória aumentam consideravelmente (como se verá a seguir).

o meu primeiro «erro bobo» foi cometido cedo, antes de o relógio ultrapassar o minuto nove. vujasinvujke, como era esperado, atacava-me com insistência maquiavélica — (nb4) o cavalo dele já às portas da minha família real, a ameaçar ao mesmo tempo rei-torre-&-rainha, num xeque que me seria devastador (vide nc2).

Screen Shot 2019-11-26 at 09.04.39

em vez de defender a minha posição com a rainha (sei lá, qb3), retribuí o ataque de vujasinvujke com o bispo (repito: sou basicamente um zagueiro de várzea a dar botinadas no adversário, atacar nunca foi o meu forte): xeque.

Screen Shot 2019-11-26 at 09.13.06

o ruim das partidas online é que não podemos ver a fisionomia do adversário. eu basicamente «dei» um bispo para vujasinvujke chamar de seu. ele aceitou o presente de bom grado, pescou a minha peça com o próprio rei.

Screen Shot 2019-11-26 at 09.19.07

agora sim, rainha branca em b3 (xeque). os xadrezistas não têm papas na língua, então digo-vos sem falsa modéstia que depois dessa jogada a partida estava ganha (o duelo inteiro pode ser visto no gif a seguir). preciso de confessar, no entanto, que muito provavelmente tudo só se passou dessa forma porque o sr. vujasinvujke não conhecia o meu estilo de jogo — enquanto eu já o vira trucidar inúmeros adversários. & são esses pequenos detalhes que podem decidir as batalhas ao tabuleiro.

board

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #32)

assolado pela dúvida & pela inconstância do próprio trabalho, otto rank confessa numa digressão epistolar que em diversas ocasiões pensara em desistir da escrita, pois já existe um excesso de verdade no mundo, ele diz, uma superprodução que aparentemente não pode ser consumida. qualquer pessoa que tenha publicado livro & cometa a insensatez de entrar numa livraria para analisar (i.e. contar) estantes abarrotadas de obras, milhares-&-milhares de obras, corre o risco de perder-se na vala dos verbos. filas infinitas de brochuras alheias & a tua está ali também, intrusa, deslocada. que alguém abra o teu livro & decida levá-lo para casa não deixa de ser um capricho do acaso. conta-se com a sorte. &, como se sabe, a sorte não é necessariamente a deusa mais aprazível do panteão.

«se não sabemos para que porto ir
nenhum vento é favorável.» (sêneca)

ler sêneca me faz lembrar que as ondas por vezes se agitam, que quando elas batem furiosas no casco é justamente a altura em que o barco mais necessita de um capitão firme & seguro de si. o mesmo acontece com a embarcação do escritor. não se deve fugir da escrita quando a realidade sacoleja a cabeça literária, quando a vida se mostra irascível. porque se as coisas não andam lá muito bem, a boa & velha dupla caneta/papel ameniza angústias. tu sentas à mesa, anotas frases, o relógio como que desaparece, o tempo deixa de existir, estás de repente suspenso, a quarta dimensão (ou a hipótese das cordas quânticas, multiversos, teoria unificada [do pequeno para o cósmico]) agora faz todo o sentido para ti. foster wallace, henry james, tchekhov (et al.) diriam que esse alheamento quase místico é o mais próximo da imortalidade que se pode chegar.

P.S.: NEURASTENIA (ALGUMAS COISAS DEPENDEM DE NÓS, OUTRAS NÃO)

os exercícios do crossfit da semana passada deram-me calos nas mãos, que se transformaram em bolhas, que abriram & revelaram bolhas dentro das bolhas numa sucessão que deixaria a alice de lewis carrol um bocado irrequieta. não demorou nada &, noite após noite, banho após banho, meu organismo começou a fechar essas bolhas, os calos também desapareceram. & ao invés de me admirar diante dessa eficiência genética, desse conveniente processo regenerativo, senti foi pavor. medo de habitar este corpo autônomo que cura bolhas por si só, sem qualquer intervenção de «minha parte» (o que quer que «minha parte» signifique nesse todo que se desloca pelo espaço-tempo & que se vira quando alguém na rua grita o meu nome).

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #31)

TEMA DA ÚLTIMA AULA DE ESCRITA CRIATIVA DE 2019

[SUGESTÃO DOS ALUNOS]

quando tu escreves ficção, tu estás a contar mentirinhas. sim, é um jogo. um jogo em que tu farás de tudo para esconder as costuras da tua trama & não aborrecer os leitores — que não querem lembrar que estão imersos em ilusões. portanto, tens de ser convincente. & também por se tratar de um jogo, o escritor de ficção tem a liberdade de soar/agir de maneira, digamos, excêntrica. tu crias mundos paralelos, percebes?, personagens, sentimentos, caos, ordem, és tipo um deus pagão sem ambições evangelistas. o próprio escritor se (re)cria. sempre antes de começar qualquer narrativa gosto de imaginar uma versão otimizada de mim mesmo. uma espécie de escritor sob efeito de esteróides literários, se preferires. o meu duplo é muito melhor do que eu, escreve muito melhor do que eu, é sociável, toca guitarra numa banda islandesa de post-rock, ele sempre tem muitas ideias, sabe colocá-las em prática, o meu duplo já publicou várias obras, sabe lidar com a pressão editorial, participa da feira do livro, conversa com os leitores sem magoá-los. enfim, acho que pegaste a essência, certo? acontece que, para a coisa toda funcionar, o doppelgänger precisa mesmo de ser inatingível. ele é um eu-hipotético-ideal-übermenschizado, uma direção. um foco. a escrita acontece enquanto tento me aproximar desse espelho encantador cuja desenvoltura me inquieta & me perturba & me fascina ao mesmo tempo.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #30)

a fábula dos três porquinhos narra a trajetória de três irmãos suínos que numa altura dizem para a mãe: é isto!, vamos embora & cada um vai construir a própria casa. (a depender de idioma/região/didatismo/&tc., o início pode sofrer algumas variações específicas [como aquela em que a mãe está {implícita &/ou explicitamente} de saco cheio dos porquinhos & meio que os expulsa para enfim entregar-se ao merecido momento de sossego]. o irmão mais novo — onde ele estava com a cabeça? — constrói casa de palha; o lobo vai, assopra, a palha cai. o irmão do meio, constrói casa de madeira; o lobo vai, assopra, a madeira cai. o irmão mais velho é arisco & ousado, constrói casa de tijolo, o lobo vai assopra, assopra, assopra, assopra, a casa permanece. via de regra, os porquinhos vivem felizes para sempre dentro da casa de tijolo.

essa estória costuma me oferecer interessantes gatilhos filosóficos.

um professor de biologia do ensino médio me dissera certa vez que as árvores com raízes mais seguras são aquelas que precisam de resistir constantemente a ventos devastadores. as árvores frágeis seriam as que crescem nos vales calmos & ensolarados.

«assim como as árvores», conta-nos um antigo estoico, «as pessoas também podem se beneficiar das tempestades & dos ventos fortes — pois as intempéries ensinam a manter a calma, a disciplina; trazem resiliência.»

em novembro de 2009, pouco depois da minha temporada na rússia, estava esparramado na cama a ouvir mikhail glinka & tive aquilo a que costumam chamar de sonho lúcido. vi-me sentado à escrivaninha de uma casa perto do oceano, chávena de café, tabuleiro de xadrez, calhamaço do dostoiévski jogado despretensiosamente numa poltrona felpuda. ao fundo no horizonte, um borrão de nuvens cinzas carregadas de chuva & eletricidade se aproximava. foi quando tive a certeza de que não queria ser jornalista, não fazia sentido ser jornalista, ser jornalista estava mesmo fora de questão. largaria tudo para me dedicar à literatura, aos livros.

estou a completar, portanto, dez anos de atividades literárias — de madrugadas intranquilas, manhãs absolutamente adoráveis, tardes duvidosas, sonos esperançosos, ciclos inconstantes, ventos fortes, tornados, tempestades tropicais, achados & perdidos, sempre a lembrar daquela frase de epiteto: «antes de mais nada, diga para si mesmo o que deseja ser, daí faça o que precisa de ser feito para sê-lo».

sim, ainda estou a fazer o que precisa de ser feito para sê-lo. estou a exercitar-me, dia-após-dia, a cair, a subir, a descer — a colocar em prática tudo o que vejo & aprendo & descubro & escuto durante a jornada. (evoco, a título de parêntese, o surfista que necessita de encarar ondas gigantescas até finalmente aprender a domá-las.)

a boa notícia é que já consigo enxergar a tal casa perto do oceano. ela está ali, não muito longe, sobre as falésias, com uma escrivaninha à varanda. & quando o desânimo ameaça fechar as pálpebras, o barulho dos trovões mantém a caminhada nas trilhas.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #29)

julián benítez distraíra-se à cafeteria da firma. o céu azulado de uma noite chuvosa misturava-se com o branco da lâmpada fluorescente tubular dando ao recinto um aspecto ligeiramente mais otimista do que um necrotério. quando olhou para o relógio digital, que por superstição ele usava no punho direito, julián benítez sussurrou para si mesmo: droga! daí correu para a própria mesa com divisórias sob medida (um metro & sessenta de largura, um de profundidade, quinze centímetros de altura, cor: bege), pegou a maleta & a chave do fiat que estava jogada ao lado de um livro sobre análise de sistemas. ao caminhar até ao elevador, os sapatos de julián benítez pressionavam a tapeçaria do corredor da firma & faziam um barulho de desenho animado. entrou no automóvel. respirou fundo. deu a partida. não ligou o rádio. durante o trajeto, algumas perguntas que muitos rotulariam como «questionamentos filosóficos» inquietaram o silêncio de julián benítez: qual o propósito do trabalho?, por que as pessoas decidem se casar?, por que se separam? por que elas viajam a lugares estranhos?, por que usamos as roupas que usamos? ele estacionou o fiat na vaga 605 do prédio & acenou com a cabeça ao reconhecer o porteiro do turno da noite. o porteiro bocejou dentro da cabine de vidro enquanto levantava a mão para retribuir o aceno. julián benítez abriu a porta do apartamento sem fazer barulho. tirou os sapatos & colocou-os perto do sofá da sala. na cozinha, bebeu um copo d’água & lavou o resto de louça que estava na pia. antes de ir tomar banho, passou pelo quarto do bebê. o bebê dormia com a barriguinha para cima, as mãozinhas praticamente coladas nas grades do berço. julián benítez ficou a observar o sobe-&-desce da barriguinha do bebê. até que a barriguinha do bebê parou de subir-&-descer. julián benítez esperou que a barriguinha se movesse novamente, mas a barriguinha não se movia, ele se aproximou do berço. a barriguinha ainda não se movia. ele se inclinou de forma abrupta. quando estava prestes a segurar a cabeça do filho, o bebê fez um ruído de bebê & a barriguinha voltou ao sobe-&-desce. julián benítez cambaleou-se até à suíte do casal. abriu a torneira. molhou o rosto. sentia vontade de chorar.

— p. r. cunha