Depoimento de um náufrago

«Desejava, para satisfazer a curiosidade de muitos, relatar como foi que passei duas noites à deriva no meio das águas turbulentas do oceano Atlântico ao lado de tubarões. Aqui não colocarei mais do que aquilo que vi, senti e me pareceu.

Na segunda-feira, 14 de outubro, parti para uma breve viagem marítima que, quis o destino, levou-me aos confins do mar sem que, de início, eu me apercebesse do que estava de facto a acontecer. Se na minha discreta despedida uma tarde soalheira desejava-me os melhores presságios, logo o meu veleiro (Frederico, cujo nome é homenagem ao meu falecido pai) estava no meio de chuvaceiros torrenciais e medonhos relâmpagos que decapitavam as nuvens carregadas em redor. Fez o capitão e único tripulante (este que agora vos fala) todas as diligências para contatar terra firme, o que não fora absolutamente possível, visto que os equipamentos de rádio mostravam-se já avariados pelas intempéries da tempestade — isto é: encharcados de água salgada. O receio do pior encolheu-me à proa do veleiro quando observei uma monstruosa onda de uns nove metros de altura a se formar atrás da embarcação e a cair sem piedade sobre o Frederico. A fúria da parede marítima foi mais que o suficiente para despedaçar o veleiro, que mais parecia um brinquedo de miúdos que se espatifara no chão. Vi-me completamente aturdido no meio dos destroços e consegui — mesmo hoje não saberia explicar ao certo como — reunir forças para abraçar o leme que boiava de forma absurda perto do meu ombro esquerdo. O pedaço de madeira era tão instável que bastava um pequeno descuido de minha parte para ser sugado às profundezas, até ser lançado novamente à superfície ondulante do oceano. Quando as nuvens se dissiparam, percebi com pavor que o sol se escondia atrás da linha do horizonte e a noite glaciar trazia as intempéries da praxe. Depois que minhas pupilas se acostumaram à escuridão, cada movimento errático da água trazia-me a certeza de que algum animal marinho estava a se aproximar para ter-me de banquete. Minha vontade era ceder de uma vez por todas ao cansaço e deixar meu corpo cair até ao fundo. Mas a madrugada passou e eu continuava debruçado sobre o leme, sem saber o que pensar da situação. Como que por instinto, tirei minha camisa de manga longa para amarrar meus punhos no pedaço de madeira, juízo que acabaria por salvar a minha vida. Os raios solares castigavam-me sem piedade quando enfim notei a presença de barbatanas cinzentas e pontiagudas, pareciam o estabilizador vertical de um aeroplano. Fechei os olhos e talvez o terror de morte desregulara a química do meu cérebro, pois passei a ter alucinações com o rosto do meu velho pai. A boca dele mexia-se lentamente, aconselhava-me um afogamento cauteloso, sem histeria, uma despedida honrosa, digna. Devo então ter caído num sono profundo, já que a partir do incidente das barbatanas nada me vem à memória. No dia seguinte, quando abri os olhos, as mãos nodosas de dois pescadores que estavam à procura de lagostas não muito longe dali puxaram-me com dificuldade e caímos os três na popa do pesqueiro. Ainda confuso e perplexo, perguntei sem motivo nenhum que horas eram, em que dia estávamos. Os pescadores permaneceram em silêncio, como se não me compreendessem. Fitei a bandeira que tremulava no mastro e entendi o porquê: eram finlandeses. Enquanto o pesqueiro voltava para a costa, larguei minha cabeça na balaustrada de metal e lembrei-me do rosto do meu pai, as rugas desfiguradas, a voz sinistra, a travessia entre a vida e a morte pela qual ele passou, e pela qual, um dia, eu também passarei, mas não agora, não dentro das mandíbulas de um tubarão.»

— P. R. Cunha

A loucura necessária da arte (uma sinopse)

A arte por vezes se assemelha ao conteúdo do cesto daquele egípcio citado por Plutarco — e quando um curioso questionara o transeunte o que ele tanto escondia ali dentro, o egípcio respondera que o cesto estava encoberto justamente para que ninguém o soubesse.

Já pude observar damas e cavalheiros que seriam considerados «mui alta-classe» tapar os ouvidos enquanto tocava sinfonia de Beethoven, alguns bocejam durante as apresentações de balé ao Teatro Bolshoi, há quem chore ao assistir partidas de futebol, outros escutam funk a caminho do funeral do avô.

A arte talvez não seja muito diferente daquela definição de tempo proposta por Santo Agostinho: se não me perguntam, eu sei o que é, mas se me perguntam, daí não sei explicar.

Michel folheia um livro do Thomas Bernhard e sente que o autor está a escrever para ele; dialoga com o Bernhard, exalta-se com inúmeras passagens do Bernhard, toma notas de frases magníficas, que grande mestre. Juliana lê o mesmo livro e acha a narrativa boçal, afetada. 

A mesma obra de arte, reações diferentes.

Certo casal da Finlândia vai ao Louvre. A menina começa a chorar diante de «La Giaconda». O rapaz pergunta à namorada: por que choras? Ela diz que são os traços do Leonardo, está emocionada. O rapaz observa ao redor e com azedume insiste: e quem seria esse tal de Leonardo?

Nos reinos passados a arte era o espelho retorcido das elites. Reis e rainhas encomendavam pinturas que os destacassem como deuses eleitos, que reforçassem o tanto de terras, e joias, e escravos, e palácios, e farturas desnecessárias eles possuíam.

Dizem que o cavalo branco de Napoleão ilustrado por Jacques-Louis David era, em verdade, um burrico maltrapilho à beira do colapso.

A realidade não era pigmento essencial na palheta de cores dos antigos retratistas.

Até que Matisse, Brecheret, Mondrian, Gide, Klimt, Simone de Beauvoir, Munch, Chagall, Duchamp, Nash, Colette, Klee, Kadinsky — para citar alguns —, resolveram que arte definitivamente não era apenas molduras de castelo. As paisagens bucólicas, as mentiras pomposas, os gordos monarcas terrestres já não combinavam com as atrocidades das guerras totais.

Mostravam-se necessários novos meios, novas formas, outras linhas, outros verbos.

Soldados decapitados nos campos de batalha, bombas a cair das nuvens, e o salão do ilustre marquês repleto de cenários campestres das primaveras em que as torres industriais não cortavam o horizonte com lâminas de fogo.

Ainda hoje há quem garanta que os modernistas nunca foram artistas, mas crianças-adultas a espernear com lápis, pincéis, partituras, câmeras, etc.

Então não se sabe ao certo o que é arte — para que serve, quem é original, quem é farsa, quem merece o Nobel, quem valeria milhões na Sotheby’s, o que é grande, o que é pequeno, o que descartar, o que ouvir, o que é gênio, o que ler.

Subjetividades.

Gostava, no entanto, de retornar às tentativas de Santo Agostinho de definir o tempo.

Arte é coisa melindrosa que se depara com várias bifurcações. Também é difícil de explicar. Mas quando ela se retira (principalmente em períodos de exceção), sente-se um grande vazio, abrem-se cicatrizes no abismo. 

Ela pode não ser tão importante quanto um prato de comida, mas à medida que os meses se alastram, é a alma que acusa a fome.

Para muitos, uma vida sem arte é existência passageira, com propósitos vacilantes. Um mundo sem arte (e, insisto, não importa a definição que você prefira utilizar) é um deserto árido, inabitável. Arte como antídoto, a remediar as contradições da chamada civilização.

Nietzsche acrescentaria ainda que: temos as nossas artes para não morrermos de tanta verdade.

Ou aquele famoso trecho escrito por Henry James sobre os artistas: nós trabalhamos no escuro — fazemos o possível — damos o que temos; nossas dúvidas são nossas paixões e as paixões são nossas tarefas.

Enquanto nas artérias coronárias não circular o sangue de silício, enquanto os neurônios não são substituídos pela nanorrobótica, enquanto as cabeças não operam como antenas wifi, a arte ainda permanecerá relevante, confortando, mesmo que brevemente, o espírito humano em busca de refúgios.

— P. R. Cunha

A obra evolui em direções estranhas e imprevistas

Cansado de ser interrompido durante a fazenda do livro para lidar com sociabilidades, o escritor sonhava em adestrar dromedário para enviá-lo aos eventos que fora convidado em vez de comparecer pessoalmente.

Lançamentos de antologias, almoços familiares, rendez-vous na casa de um ex-colega de escola, leituras poéticas, festas de aniversário, casamentos, bienais, exposições fotográficas a preto e branco — dromedário estaria lá com a elegante corcova representando o escritor.

No alongado pescoço, o mamífero levaria uma plaquinha a dizer que:

«Dromedário frequenta o evento com se fosse o próprio escritor — por gentileza, trocar o uísque da praxe pelo bom e velho copo d’água.»

(Alguém [e o escritor ainda não pensara nisto com a devida seriedade] de certeza estaria por perto para auxiliar dromedário durante os pormenores fisiológicos.)

Em casa e sentindo-se menos culpado, o escritor daria prosseguimento ao próprio livro sem grandes percalços.

— P. R. Cunha

Ode aos cinzeiros

Incapaz de — como diria Stevenson — laborar em alguma atividade lucrativa com um zelo próximo do entusiasmo (a obrigação do acúmulo, etc.), rapaz confessa ao avô que quer escrever literatura.

O avô acende o cigarro, esfrega os olhos, está ficando cego, tem diabetes mellitus.

Há o célebre caso daquele empresário da cidade que queria tanto ser rico que quando percebera o primeiro milhão de US dollar na própria conta bancária não aguentara de entusiasmo e tivera uma taquicardia ventricular. O dinheiro, ao que parece, foi mais que o suficiente para arcar com os custos da funerária. 

Tinha 34 anos, o póstumo milionário.

É sem dúvida doloroso esperar por determinadas conquistas, trabalhar, abdicar-se, anular-se, para ao fim e ao cabo encontrar indiferenças ao próprio êxito, ou pior: a capa escura e reluzente da senhorita Morte.

O avô tateia a mesa à procura de alguma coisa e pergunta ao rapaz: queres mesmo ser escritor? O rapaz balança a cabeça para-cima-e-para-baixo. O avô finalmente encontra o cinzeiro e levanta-o com a mão direita: então escreve um poema para isto aqui, e se a indiferença do cinzeiro, a frieza glaciar do cinzeiro, se a total mudez do cinzeiro não te enlouquecer, saberás que fizeste a escolha apropriada.

— P. R. Cunha

Comboios

Cenário: inverno, 10h48 da manhã, dois amigos jogam pedras na lagoa; árvore retorcida à esquerda — atrás, a fachada de uma pequena estalagem para descansar indo de jornada.

* * *

[…] de início a coisa toda me estimulou muitíssimo, mas fui perdendo o interesse / isto sempre acontece contigo / o quê? / perder o interesse, começas com alvoroço, estás muito animado, e dali a pouco é como se nada te importasse, percebes?, tratas o assunto com aquela odiosa indiferença / [pensativo] pode ser, poder ser… mas a culpa não é minha, digo, não totalmente / e é de quem, então / ora, de vivalma / rá!, «vivalma», estás a falar daquele jeito engraçado de novo / de que jeito? / daquele jeito absurdo, livresco, como se fosses um personagem / [dedo em riste] shhhhhhhhhh!, precisamos de fazer silêncio / silêncio? / é, o poeta está a dormir / a estas horas? / poeta não escolhe hora / [bate o cajado na relva] tem cabimento… / ele acorda é solta uns grunhidos tristes, lamuriosos, ninguém aguenta [aponta para a janela] / e por que diabos aturam-no? / é elegante ter um hóspede poeta, não achas? / não / [furioso] é porque estás ranzinza feito um condutor de comboios! / [levanta-se, faz que vai embora, mas fica] não fazia mesmo a ideia de que condutores de comboios eram ranzinzas / pois nem eu, mas devem ser, ficam lá sentadinhos apenas observando a paisagem, não dirigem o comboio, o comboio apenas segue o carril, deve ser enfadonho / tenho a certeza de que não ficam apenas a observar paisagem / quem? / [suspira de forma impaciente] os condutores de comboios / e fazem mais o quê lá dentro? / diabos, nunca conduzi comboio para sabê-lo / então por que metes as tintas numa atividade que não tens a ideia? / [levanta-se novamente, limpa a grama que se acumulara na parte traseira das calças] disparate!, tu que começaste! / [calmamente] não, não [pausa], não comecei foi nada, estava apenas a explicar que de início a coisa toda me estimulou, e depois perdi o interesse, perdi completamente o interesse, e tu com essas ladainhas de comboio […]

— P. R. Cunha

Luz branca tipo néon

Senhor grisalho está a varrer o canto esquerdo do salão a vassoura carrega pratinhos e talheres e copos de plástico pedaços avulsos de salgados doces canapés a carne moída de um pastel a vassoura faz barulho agudo enquanto fricciona a superfície lisa do salão o senhor grisalho leva na cabeça boné vermelho com a marca do posto de gasolina Shell ele às vezes para de varrer a sujeira e encosta o queixo na extremidade pontuda da vassoura metade homem metade vassoura a festa acabou.

— P. R. Cunha

Entulho das letras

Só percebemos o número de livros que possuímos quando precisamos de retirá-los todos das estantes — por motivos variados (limpeza, mudança de lares, reformas etc.). 

Enquanto deitadinhos nas prateleiras, os livros fazem parte do ambiente, mesclam-se com as linhas da paisagem.

É um pouco como olhar para uma parede e não precisar contar cada tijolo para saber que ali há uma parede.

Então o leitor decide remover poeiras e traças que criaram moradas nas brochuras e o que era ordem se transforma em caos.

Aqui a analogia do muro encaixa-se melhor: os livros esparramados no chão fazem lembrar uma casa bombardeada, demolida, com as paredes em pedaços.

De início, para almas mais vaidosas, aquele amontoado de obras pode gerar certo regojizo. O leitor pensa: puxa!, até que já li um bocadinho. Porém, logo notamos o lado obscuro da empresa livresca. 

Veja também o tanto de lixo que acumulamos, obras supérfluas, escritores verborrágicos, o tanto de tempo que perdemos debruçados sobre páginas e mais páginas e mais páginas que não nos entregaram nada.

A angústia se multiplica ao cogitarmos a terrível possibilidade de nunca conseguirmos terminar de ler os livros que realmente gostaríamos de ler, que a ceifa pode estar à espreita, que numa tarde soalheira de domingo acreditamos possuir a eternidade para apreciarmos todos os nossos escritores favoritos, e na manhã de segunda-feira tudo se desmancha, não temos eternidade nenhuma.

Mas as trovoadas passam. O espírito se acalma. Recolocamos os nossos tijolinhos na parede, respiramos o ar renovado da biblioteca, consultamos as cartas de amor de Scott e Zelda Fitzgerald, acariciamos a folha de rosto da Virginia Woolf (exemplar de colecionador) — fazemos as pazes, estamos prontos para novas desilusões.

— P. R. Cunha

Inconclusão das reticências

A ideia deste conto surgiu-me depois de revisar os estudos machadianos do amigo e professor Paulo Paniago.


Guillermo Jiménez e Suzana Bonnefoy casaram-se faz pouco. Eles estão agora na sala do novo apartamento: dois quartos, cozinha, varanda tamanho médio, área de lazer no térreo. Os cômodos ainda se mostram parcamente mobiliados. O restante das coisas deve chegar aos poucos, nas próximas semanas. Guillermo e a esposa estão sentados no tapete da sala a folhear álbum de fotografias. Muitos retratos do Guillermo em adolescente, com os familiares, a antiga casa na Ciudad de México, a piscina, os jantares, as férias em Oaxaca. Guillermo começa a se dar conta de que a grande maioria das pessoas que habitam aquele álbum de fotografias já morreu. Sem que a esposa perceba, ele solta um suspiro breve, melancólico — o suspiro, como se diz, de um homem momentaneamente abatido. Suzana, ao passar a página e deparar-se com o sorriso da irmã do Guillermo depois de um banho de mar em Acapulco, reflete, também em absoluto silêncio, se ela conseguiria sorrir daquela maneira, se ela é de fato sincera, se ela é quem deveria ser ou se apenas tornara-se o manequim que a mãe, a senhora Bonnefoy, tanto exigira que ela fosse. Suzana nunca se imaginara a contrair matrimônio, por exemplo. Lembrou-se de quando estava a cuidar do pai, o quase centenário Hubert. Eles passaram a morar juntos depois que a senhora Bonnefoy fugiu para Antuérpia com um russo que se dizia dono da equipe automobilística McLaren F1. Há este vestígio de memória em que Suzana tenta esconder que está a chorar. Não era um choro de tristeza, era aquele outro tipo de lágrima, que vem do desespero seco da culpa, do remorso. Acontece que numa madrugada ao levantar-se para o corriqueiro xixi noturno Suzana injuriou-se e pensara sentada na latrina como lhe seria um alívio ver-se livre do pai de uma vez por todas, que não aguentava mais, que precisava de respirar, e o sr. Hubert não a deixava respirar, etc. De aí, na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço, o velho Hubert engasgara-se com o caroço da tangerina, e a cena foi qualquer coisa de filme de terror, Hubert a segurar o pescoço com os dedos de Drácula, Suzana a pressioná-lo de todos os jeitos, tapas nas costas, soco nas costas do velho, o rosto vermelho do velho, os olhos que tentavam sair de órbita, a língua roxa do velho, o caroço da tangerina a escapulir da boca juntamente com a dentadura, o Hubert sentando-se à mesa com as mãos no coração a dizer: ufa!, essa foi por pouco. Guillermo coça a parte inferior da coxa direita, o tecido felpudo do tapete começa a incomodá-lo. Ele conjectura de que forma o casamento vai lhe afetar os processos criativos, a rotina literária, como ele vai encontrar tempo e disposição para escrever o próximo livro, a grande obra, magnum opus, um livro-prefácio, prefácio tão grande que o leitor morreria antes de chegar ao texto propriamente dito, à moda Macedonio Fernández, bajula-se Guillermo, Museu do romance da Eterna, que nunca encontra sítio algum, antologia de prólogos, sim, livro-prefácio que jamais seria alcançado, introdução com quatro mil páginas, enquanto a narrativa per se teria apenas duas laudas, para não cansar as vistas do leitor, fantasia Guillermo, que prometera «colocar a caneta à obra assim que a escrivaninha chegasse». Suzana agora encosta a cabeça nos ombros do Guillermo, comentam miudezas despretensiosas sobre o álbum de fotografias da família Jiménez, ambos tentam agir como se nada estivesse acontecendo, não querem levantar suspeitas, não agora, recém-casados, muito cedo. Em cima do fogão, cujo gás ainda não fôra instalado, permanece imóvel a brochura de O amor acaba, coletânea de crônicas líricas e existenciais do Paulo Mendes Campos, composta em tipologia Electra, impressa em ofsete pela Geográfica sobre papel pólen soft para a editora Companhia das Letras, março de 2013.

— P. R. Cunha

A estalajadeira

Eu não sou uma assassina nunca fui uma assassina meu pai que deixara esta estalagem a mim e ao meu irmão mais novo costumava dizer ora filha tu não matarias nem uma mosca quiça um ser humano de forma que ainda não consigo explicar completamente o que me aconteceu àquela tarde de domingo quando o homem entrou na nossa estalagem e meu irmão mais novo que aliás se chama Durval e é talvez o rapaz mais singelo e amável e prestativo que já andara neste planeta o Durval deu as boas-vindas ao homem que usava um chapéu tipo cowboy e pediu um quarto cujo sol vespertino não batesse nas janelas e pagara três dias de forma adiantada em dinheiro vivo como se diz lá na cidade e o Durval levou as malas do homem para o quarto com sol nascente e o homem ficara trancadinho no quarto durante dois dias e nem sequer conseguíamos ouvir os passos dele e o Durval meio que comentava aos sussurros que o homem podia ser criminoso desses que surgem do nada e ficam calados à espreita calculistas só esperando o momento certo para agir e ao pensar nessas palavras do Durval sinto gelar-me o sangue fico com os calafrios até que na noite do terceiro dia o homem apareceu ainda com o chapéu cowboy a barba por fazer era um homem bonito com olho verde-claro parecia mesmo um desses viajantes solitários que tantas vezes recebemos e que passam dias inteiros num silêncio ininterrupto e que de certa forma nos agradecem por lhes dirigir a palavra mas este homem não nos agradecia não falava não olhava apenas desceu as escadas da estalagem e sentou-se no pequeno sofá da recepção que deixamos mais à guisa de decoração do que para ser utilizado propriamente e posso contar nos dedos as vezes em que um dos nossos hóspedes de fato sentara-se naquele sofá que segundo a lenda foi montado pelo nosso avô materno mas disto eu não tenho a certeza nunca se pode ter a certeza de nada e agora lá estava o homem com o chapéu de cowboy sentado no sofá montado pelo nosso avô Hofmann a mascar qualquer coisa e eu atrás do balcão a observá-lo enquanto tateava o claviculário para fingir que estava fazendo alguma atividade para não levantar suspeitas e o homem nada e o homem nada e o homem nada apenas mascava até que tudo aconteceu eu abri o pequeno armário que fica em cima do balcão e tirei a pistola que o nosso papai guardava para o caso de algum intruso indesejável se meter nas gracinhas com a gente e apontei a pistola para o chapéu cowboy e o dono do chapéu cowboy não teve nenhuma reação talvez nem tenha se dado conta de que eu estava a segurar a pistola que eu estava a apontar a pistola na cabeça dele sou boa de tiro sou muito boa de tiro costumava treinar em menina e aquela frieza glaciar do homem me deixava ainda mais furiosa e comecei a escutar um barulho forte como pegadas de um gigante era um barulho mesmo grave gravíssimo como se o Durval estivesse no andar de cima a bater uma daquelas bolas de ferro que os construtores utilizam para demolir edifícios um barulho abafado por vezes ensurdecedor e o homem com chapéu de cowboy permanecia inerte sentado no sofá Hofmann mascando e por um momento antes de apertar o gatilho acreditei que o barulho da bola de ferro vinha da boca do homem com chapéu à cowboy até me dar conta de que eram na verdade as batidas do meu coração.

— P. R. Cunha