A estalajadeira

Eu não sou uma assassina nunca fui uma assassina meu pai que deixara esta estalagem a mim e ao meu irmão mais novo costumava dizer ora filha tu não matarias nem uma mosca quiça um ser humano de forma que ainda não consigo explicar completamente o que me aconteceu àquela tarde de domingo quando o homem entrou na nossa estalagem e meu irmão mais novo que aliás se chama Durval e é talvez o rapaz mais singelo e amável e prestativo que já andara neste planeta o Durval deu as boas-vindas ao homem que usava um chapéu tipo cowboy e pediu um quarto cujo sol vespertino não batesse nas janelas e pagara três dias de forma adiantada em dinheiro vivo como se diz lá na cidade e o Durval levou as malas do homem para o quarto com sol nascente e o homem ficara trancadinho no quarto durante dois dias e nem sequer conseguíamos ouvir os passos dele e o Durval meio que comentava aos sussurros que o homem podia ser criminoso desses que surgem do nada e ficam calados à espreita calculistas só esperando o momento certo para agir e ao pensar nessas palavras do Durval sinto gelar-me o sangue fico com os calafrios até que na noite do terceiro dia o homem apareceu ainda com o chapéu cowboy a barba por fazer era um homem bonito com olho verde-claro parecia mesmo um desses viajantes solitários que tantas vezes recebemos e que passam dias inteiros num silêncio ininterrupto e que de certa forma nos agradecem por lhes dirigir a palavra mas este homem não nos agradecia não falava não olhava apenas desceu as escadas da estalagem e sentou-se no pequeno sofá da recepção que deixamos mais à guisa de decoração do que para ser utilizado propriamente e posso contar nos dedos as vezes em que um dos nossos hóspedes de fato sentara-se naquele sofá que segundo a lenda foi montado pelo nosso avô materno mas disto eu não tenho a certeza nunca se pode ter a certeza de nada e agora lá estava o homem com o chapéu de cowboy sentado no sofá montado pelo nosso avô Hofmann a mascar qualquer coisa e eu atrás do balcão a observá-lo enquanto tateava o claviculário para fingir que estava fazendo alguma atividade para não levantar suspeitas e o homem nada e o homem nada e o homem nada apenas mascava até que tudo aconteceu eu abri o pequeno armário que fica em cima do balcão e tirei a pistola que o nosso papai guardava para o caso de algum intruso indesejável se meter nas gracinhas com a gente e apontei a pistola para o chapéu cowboy e o dono do chapéu cowboy não teve nenhuma reação talvez nem tenha se dado conta de que eu estava a segurar a pistola que eu estava a apontar a pistola na cabeça dele sou boa de tiro sou muito boa de tiro costumava treinar em menina e aquela frieza glaciar do homem me deixava ainda mais furiosa e comecei a escutar um barulho forte como pegadas de um gigante era um barulho mesmo grave gravíssimo como se o Durval estivesse no andar de cima a bater uma daquelas bolas de ferro que os construtores utilizam para demolir edifícios um barulho abafado por vezes ensurdecedor e o homem com chapéu de cowboy permanecia inerte sentado no sofá Hofmann mascando e por um momento antes de apertar o gatilho acreditei que o barulho da bola de ferro vinha da boca do homem com chapéu à cowboy até me dar conta de que eram na verdade as batidas do meu coração.

— P. R. Cunha

Armazém intracraniano

O nosso cérebro é uma gaveta. Enchemos a gaveta com toda a espécie de coisas. Podemos chamar essas coisas de «informação».

No armário da casa de alguém há uma gaveta: se abrirmos encontraremos camisas, meias, uma caixa de ferramentas, joias, fotografias, etc. etc.

A gaveta não reclama, apenas recebe. Perguntamos a ela se quer ou não receber umas calças, a coletânea de enciclopédias dos nossos avós, artigos desportivos, computador, cabos. A gaveta nada diz.

Colocamos os ítens lá dentro e isso é tudo.

Claro que podemos levar em consideração as capacidades da gaveta: aguenta muito peso?, é espaçosa?, fácil de abrir?, o material é resistente?

Cérebro, gaveta de informações, eis do que estamos a falar aqui.

Ao sairmos para uma caminhada matinal, observamos os elementos à volta — os automóveis, as árvores, o voo rasante de um pintassilgo, o miúdo a chutar a bola. Estamos a preencher a nossa gaveta.

Gostava de acrescentar isto: nosso sistema encefálico não possui juízo de valor. Podemos assistir ao telejornal, escutar as sinfonias de Haydn, ler Rimbaud, acompanhar uma partida de curling. Para o cérebro-gaveta dá na mesma. Ele armazena.

Imagens: uma esponja que absorve o líquido que se acumulara na pia; o buraco negro a consumir matéria cósmica.

A pessoa que guarda para si informações trágicas, violentas, catastróficas, contraditórias, alarmantes — possivelmente deitar-se-á na cama com pavores. Tem sonhos intranquilos. Acorda com as angústias.

Abrimos novamente a gaveta desse ser humano afoito e dizemos: paletó já muito fora de moda, meias furadas, a bermuda não lhe cabe, o martelo está sem cabeça, etc.

— P. R. Cunha

Entropia

A pedra sente a água do rio passar-lhe pelo corpo. A pedra percebe que o momento, o breve instante em que o rio lhe acaricia é único, pois a correnteza possui uma só direção: ida. As águas jamais se repetem.

— P. R. Cunha

Sonhador

Para a Jéssica Fernandes Cunha

I
A rede branca
com tranças de algodão
oferece o átimo de repouso
linha do horizonte
percebem-se
aléns-fabulosos
onde todos os conflitos
estão resolvidos
mesmo que
momentaneamente

II
Um longe feito
de iras e acalmias
o brilho de uma borboleta
fugidio —
cimos de árvores
retorcidas pelas
estações imperfeitas

III
Acolhimentos futuros
a luz d’outro mundo
outra dimensão
fito o meu reflexo
na superfície ondular
da piscina
rosto estranho
como um cometa que
acabara de cair da lua
não é poeta
é ser humano.

— P. R. Cunha


Sala de espera

Os períodos de transição causam tormentas imprevisíveis. Pode-se falar de sociologia, filosofia, política, economia, mas não é preciso de ir tão ao longe. O próprio ser humano guarda dentro de si o microcosmo da transitoriedade. A passagem da meninice para a adolescência, da juventude à vida adulta, de aí vêm a velhice e a morte. Etapas. Não é imprópria a imagem do limbo. O sujeito que se encontra na sala de espera leva dentro do coração duas feridas abertas: a nostalgia do que costumava ser e já não é mais, e a incerteza daquilo que será, mas ainda não o é.

— P. R. Cunha

Volante ligeiro entre os dedos da mãe

6h47. A mãe está dentro do automóvel, ela tenta manobrar para sair da garagem da casa. O pai ao jardim segura a filha no colo, observa. Os vidros fechados e embaçados do automóvel. A mãe passa um pano laranja para desembaçá-los. A cena do pai a segurar a filha no colo parece comovê-la. O pai levanta os bracinhos da filha enquanto diz com voz de desenho animado: tchau, mamãe!, tchau, mamãe! A menina sorri e balbucia: mã-mã. A mãe respira fundo, pisa levemente no pedal do acelerador. O automóvel desaparece depois de virar à esquerda.

— P. R. Cunha