Cientista de Thüringen

Em janeiro de 1946, quatro meses depois do armistício, um cientista alemão de Thüringen desembarcou nos Estados Unidos para participar do novo programa de montagem de foguetes do governo Harry S. Truman. Aos poucos — afinal, estes dados são difíceis de esconder —, os colegas americanos do cientista descobriram que ele não só era membro honorário do partido Nazi como também escrevera diversos livros nos quais vociferava as próprias inclinações xenofóbicas, racistas, antissemitas, além de odes que enalteciam as conquistas de Hitler. Mas como o cientista de Thüringen sabia construir foguetes, e os fazia com impecável precisão, resolveram deixá-lo em paz, estava tudo bem.

— P. R. Cunha

Só não venha me dizer que Jean Baudrillard equivocara-se

Brandamente bêbado (mojito & dry martini) no banco de trás do Volkswagen; assisto a um vídeo de 2018 no YouTube versão telemóvel em que jovem palestrante — muito zangado — denuncia «o abusivo sistema capitalista no qual vivemos», «a agressividade de todos, absolutamente todos os meios de produção», «o trabalho escravo e desumano nas fábricas das grandes corporações», «o gigantesco abismo entre países desenvolvidos e países do terceiro mundo». Não pude deixar de notar também que o furioso argumentador usava camiseta Nike, par de tênis Adidas, e o relógio (imenso, por sinal) era um Rolex.

— P. R. Cunha

Mecânicas da natureza

Em física quântica, animal humano pode ser reduzido a um mero conjunto de átomos — isto se não o conhecemos de facto, durante aquela impessoal etapa corpo/manequim-à-distância. Acontece, no entanto, de animal humano conseguir se expressar: escreve, fala, dança, toca canções, pinta paisagens etc. De aí utilizam-se rótulos para adjetivá-lo, e o que era apenas um aglomerado ambulante de partículas subatômicas passa a ser um tipo raivoso, encantador, feminista, calmo, brucutu, carinhoso, machista, tenebroso, sutil, perverso, maltrapilho, galante, desengonçado, talentoso, medíocre… Até à altura em que a «entidade» morre, e os átomos dispersam-se novamente.

— P. R. Cunha

Efeito(s) óptico(s)

¶ Havia na cabana um escritor que, dizia-se, também conversava com Musa imaginária, e sempre que lhe surgia qualquer ideia de literatura ele gritava: tu és a minha galinha dos ovos de ouro! Como que por coincidência, certo dia passava perto dessa mesma cabana um ladrão de galinhas que escutara os gritos do escritor — e sem pensar duas vezes correu até ao galinheiro para tomar posse dos tais ovos de ouro. Escusado dizer que a empreitada do ladrão de galinhas não lograra êxito. 

¶ Falamos sobre «a luz tão característica da Lua» quando, em verdade, deveríamos tratá-la da maneira que lhe convém: um espelho, ou reflexo lunático. Mas nunca é romântico dizer que a bola noturna só se faz prateada por conta dos raios emitidos pela estrela solar. E que, assim, os poetas têm de lidar com miragens celestiais.

comet

¶ Até mesmo o melancólico notívago — cuja mente está sombreada pelas nuvens de anedonia — perde parte da própria amargura quando os pensamentos retornam à calda de um cometa, este fugidio visitante de pedra e gelo.

— P. R. Cunha

Abismos do inferno

Pequeno homem velho
descalço e curvado
caminha sobre as terras
d’um deserto escaldante
ele então encontra
esta mulher que cobre
o rosto para se proteger
do vento granulado
a mulher lhe diz:
para além desta
montanha de areia
há outra montanha de areia
e depois mais outra
montanha de areia
e mais outra
e mais outra
infinitamente
ao que homem velho
balança a cabeça grisalha
resignado
como quem entendesse
a mensagem
e segue a caminhar
sobre o solo de fogo
do deserto sem fim.

— P. R. Cunha

Vão encontrá-lo algures

A viagem elaborada durante certa inquietação/irritação ao lugar onde se está agora. Aquele que faz as malas para fugir (e o verbo não seria outro), que quer se ver livre dos vícios geográficos da própria morada. «Vou de viagem porque não aguento mais este prédio, estas ruas, este céu, ou mesmo a cara de Fulano(a)», diz-se. De aí a ojeriza que o viajante pode sentir por aqueles que não querem trocar de sítio, por aqueles que se sentem confortáveis no quarto de sempre. Viajante que não admite, ou melhor, que não aceita que o espaço que tanto lhe oprime possa ser um canto confortável para almas menos irascíveis etc.

— P. R. Cunha

Zoologia

Psiquiatra sugere poesia-totem para os momentos intranquilos — senta e escreve sobre os animais. Os princípios terapêuticos da escrita. Como nos velhos tempos:

[Letras A, B, C, D, E, F, G, H…]

A aranha
faz cócegas
na pele humana

O beija-flor
bate as asas —
incontáveis 

A coruja
dos olhos sábios
ou anjo noturno 

O dromedário
sente sede
prefere não reclamar

O escorpião
envenena o sapo
à travessia

A formiga
trabalha dia-e-noite
para a rainha-formiga

O galo
canta de manhã
a quinta acorda

A hiena
tem má reputação
entre os leões

— P. R. Cunha

História abreviada do absurdo

Acho que tudo começou numa dessas noites de Natal, ali por volta de 2006/2007, eu estava deitado na rede que fora estendida entre os pilares centrais da varanda, chovia um bocado, & já estava claro que alguns convidados não compareceriam à ceia, que começariam a ligar para as justificativas da praxe: que o temporal isso, que a chuva aquilo, que as ruas estavam alagadas, & eu folheava a biografia do Stálin (A corte do czar vermelho [Simon Sebag Montefiore {Companhia das Letras}]), & meu irmão, visivelmente entediado, veio me perguntar o que eu estava a fazer, daí eu mostrei o livro & disse-lhe que estava lendo a biografia do Stálin & não sei por que diabos acrescentei que também estava a pensar em escrever um livro, literatura, & disse isso sem ter nenhuma ideia concreta à cabeça, nenhum tema, nenhuma motivação, disse isso apenas para passar o tempo, descontrair, disse ao meu irmão: irei escrever um livro de literatura, um excelente livro de literatura; ao que meu irmão respondeu sem titubear: eu tenho a certeza disso, que irás escrever um grande livro de literatura — & foi bem essa confiança cega no meu suposto potencial, confiança sincera, esse fascínio sem ressalvas, essas palavras de incentivo do meu irmão que me fizeram querer escrever literatura de facto, mesmo sabendo que nenhum gesto que façamos justifica as nossas adesões (Cioran), que nada é valorizado por qualquer vestígio de substância, que a «realidade» é da alçada da insensatez, uma mentirinha despretensiosa para puxar conversa com o meu irmão numa noite de tempestades natalícias & toda a minha vida se modifica. É assim que as coisas costumam acontecer, não é mesmo?, não é mesmo?, não é mesmo?

— P. R. Cunha

Comida de micro-ondas

A época dos jantares populosos terminara (ou pelo menos começou a terminar) quando um novo membro juntou-se à família: a televisão.

O aparelho não sentava-se à mesa propriamente; mas ficava próximo o bastante para determinar as configurações do espetáculo. 

Queriam ficar perto do tubo iconoscópico.

Durante o noticiário o papai & a mamãe aumentavam o volume porque apetecia-lhes saber os detalhes do mundo. Se alguma criança ousava falar qualquer coisa, escutava-se logo um tirânico SHHHHH!

Aos poucos, o aparato luminoso tornou-se acessível e ocupara não somente a sala da família, mas todos os cômodos da casa.

Jovem Dênis não pretende descer para jantar na altura em que passa o programa desportivo. Milena se aborrece imenso ao escutar a voz da mãe: vem comer connosco, filha… (justo na hora do seriado favorito).

Comida congelada para uma pessoa. Prato ideal a ser consumido passivamente diante das telas de néon.

— P. R. Cunha

 

Corpo humano é muito mais resistente do que se imagina

O programa My 600-lb Life (Quilos Mortais) conta a história de pessoas com obesidade mórbida que querem/pretendem perder peso. Elas se dirigem à clínica do Dr. Nowzaradan na Bellaire Boulevard, Houston, Texas.

Como o título sugere, cada paciente chega ao consultório do Dr. Now pesando aproximadamente 600 libras — ou 272 quilos. 

Até hoje o participante mais pesado foi Sean Milliken: 454 quilos. 

À guisa de referência, motocicletas modelo scooter pesam duas vezes menos do que isso.

Perceber que humanos — amiúde considerados seres frágeis, quebradiços e vulneráveis — podem chegar a esse tamanho (e ainda sobreviver)… eis o que sempre me intrigou deveras.

— P. R. Cunha