Mãos à celulose: parte I

Passo a publicar neste blogue dicas, ou melhor, sugestões literárias que preparei inicialmente para um único e exclusivo escritor — no caso, eu mesmo. Agora, fazem parte de um curso que ofereço a três alunos de escrita criativa: foram eles (Sílvia, Guilherme e Jean) que me encorajaram a compartilhar estas ideias sem grandes rigores acadêmicos.


Motivação

Tenho a certeza de que não existe uma ordem específica para se começar um livro. Cada escritor cria as próprias rotinas, os próprios mandamentos, as próprias manias, tudo de acordo com as complexidades com as quais precisa de lidar em vida. À guisa de exemplo: um escritor solteiro, 25 anos, terá muito provavelmente uma agenda bem distinta da agenda de um escritor com quatro filhos, 35 anos. Há quem prefira trabalhar de dia, outros preferem a tranquilidade noturna. Uns acordam bem cedinho, outros não tão cedinho assim. Mas é preciso desenvolver e colocar em prática certas disciplinas. E aqui quebro o primeiro mito sobre os escritores: à primeira vista, podem parecer desleixados, preguiçosos, alguém pode querer se aproximar deles e sugerir «ei, vamos lá, procurem um emprego», ou de repente querer levá-los a um hospital, a um psiquiatra — porque, segundo a análise mundana (i.e.: trabalho significa suor, estresse, mãos e uniformes sujos, calvice, divórcios, tormentas, vontades de meter uma bala na têmpora [especificamente na têmpora direita] etc.), segundo a análise mundana, como estava eu a dizer, os escritores não fazem nada, vagabundeiam, a putear com o tempo. No entanto, a verdade é que escrever um livro, mesmo uma novela de aproximadamente 40 mil palavras, é tarefa que exigirá imenso de quem pretende colocá-la em prática. Pesquisas, cenas inúteis, personagens inúteis, o começo não está muito bom, o miolo está horrível, o protagonista parece um zumbi de tão vazio, as primeiras 50 páginas mostram-se péssimas, e centenas de outras decepções. Para enfrentá-las, o escritor precisará de motivação. Novamente, entro aqui num banco de areia movediça bem pessoal, pois as motivações também dependem de inúmeros fatores. De repente você escreve para conquistar o coração de alguém, ou para mostrar a um professor incrédulo que você consegue sim escrever o melhor romance de sempre, escreve porque sente raiva, escreve porque busca serenidades, escreve porque a escrita tornou-se um refúgio para si, escreve porque as palavras fazem-lhe esquecer-se, escreve porque quer ganhar dinheiro, porque quer deixar uma obra literária para os filhos lerem, escreve porque quer contar na próxima entrevista de emprego «faço isto, e aquilo, e isto, e ainda escrevi um livro»… Não importa. A ideia é cultivar motivações que possam ajudá-lo a seguir em frente quando a corda apertar-lhe no pescoço, motivações que impeçam-no de desistir.

— P. R. Cunha

Café-restaurante

Ele dirige, está a viajar numa carrinha; é uma carrinha de leite, claramente inapropriada para este tipo de viagem, uma viagem longa. Ele então está a viajar dentro dessa carrinha de leite, e há diversos estrondos dentro da carrinha de leite, uma peça do painel desencaixada, há algo dentro do porta-luvas, o rádio é antigo, não possui entradas para CD, MP3, iPhone, apenas as estações da praxe, AM/FM, e mesmo assim é difícil de sintonizar as emissoras. Quando ele consegue encontrar uma frequência audível, escuta as músicas com ruídos terríveis. Músicas de estrada. Músicas de cantores & cantoras decepcionados com a vida, com as promessas que a vida lhes dera, a vida a lhes virar as costas etc. etc. Um amor que não fora correspondido. Ele está a viajar numa carrinha de leite e observa agora a aproximação de um posto de gasolina. Ele costumava parar neste mesmo posto de gasolina quando viajava com o papai em criança. Quando podia, o papai o levava para todo o tipo de sítio. E quando passavam por ali, sempre paravam naquele posto de gasolina, cujo café-restaurante servia uma refeição deveras decente. Ele estaciona a carrinha de leite e é claro que o café-restaurante está muito mudado, não é mais o mesmo café-restaurante, nem poderia sê-lo, porque as coisas se modificam, as pessoas se modificam, os edifícios também se modificam. Estaciona a carrinha de leite. Alguns camionistas o observam a sair da carrinha de leite, mas não dizem nada, apenas observam. Talvez julguem-no por dentro, mas não dizem nada. Ele passa pelos camionistas e entra no café-restaurante. O interior do café-restaurante também está mudado. Ele pergunta se ainda vendem o pão com linguiça que ele costumava comer com o papai em criança. O empregado atrás do balcão não faz a ideia do que ele está falando, não vendem pão com linguiça. Aquilo mexe um bocado com ele: o facto de não venderem mais pão com linguiça, o facto de o empregado contemporâneo nem sequer saber que um dia aquele estabelecimento vendara o melhor pão com linguiça que ele já comera — talvez não por causa do sabor em si do pão com linguiça, mas por estar a passar um tempo com o papai, que sempre dirigia algures, numa estrada distante. Ele se senta ao balcão e pede um café. O café-restaurante tem umas janelas enormes e a luz azul, modorrenta, luz melancólica de um fim de tarde chuvoso entra dentro do café-restaurante e transforma a atmosfera do café-restaurante cujo chão está cheio de vestígios de pegadas das botas dos camionistas. Ele fica a observar essas marcas e chega à conclusão de que os camionistas têm botas muito parecidas. Um cheiro de torta de banana, ele sente um cheiro inconfundível de torta de banana. E o cheiro do café a ser preparado. O barulho da máquina de café. O frigorífico a trabalhar, alguém abrindo a porta do frigorífico. O barulho de latas que vem da máquina de refrigerantes. Primeiro o som metálico da moeda a cair no dispositivo de moedas, o som abafado de alguém a apertar o botão do refrigerante escolhido, a lata a cair no compartimento de latas. Um empregado do café-restaurante abre a caixa registradora. Conta o troco, entrega o troco para alguém. As pessoas murmuram, vão para as mesas, vão para a casa de banho, sentam-se, levantam-se. As pessoas conversam. Pratos, facas, colheres. Lá fora, os automóveis passam. Os pneus estão molhados de chuva.

— P. R. Cunha

Criatura de hábitos — uma (quase) sátira

Acordar (de preferência antes das seis / um bocadinho antes do próprio Sol), tomar um duche, pegar o matutino à porta, ler o matutino, fazer o pequeno-almoço — tostex, ou bauru, ou misto-quente, café (leite [opcional]), Pharmaton, suco de laranja, Benzedrina (muita moderação) —, caminhada, regar as plantas, sentar-se à escrivaninha e escrever, dedicar-se à pesquisa, fazer compras, ler o noticiário estrangeiro, aproveitar que o computador está aberto e: 1) responder aos e-correios; 2) publicar no blogue; 3) assistir a documentários diversos; 4) lembrar-se da lista de documentários diversos; ir aos Correios para enviar os livros àqueles que compraram os livros, ir ao crossfit, depois, à guisa de divertimento, uma qualquer leitura despretensiosa (sugere-se Mark Twain, Bill Bryson, O meu pipi [sermões], Ricardo Araújo Pereira, Mencken, etc.), comer uva, maçã, manga, abacaxi, jantar, preparar a bebida noturna (gosto pessoal), conversar com o cônjuge, fumar o tabaco (charuto e que tais), ouvir Beethoven, tomar os sedativos (Valdoxan, Seconal), ir para a cama, eventualmente dormir. No dia seguinte, a mesma rotina — com uma ou outra (pequena) variação.

— P. R. Cunha

O dia em que a Terra parou (parcialmente)

Ontem os servidores de Facebook e Instagram escangalharam. A pane afetou inúmeras contas em diversos países. Houve quem achasse que o mundo fosse acabar. Bom, pelo menos para aqueles que se agarram com mãos firmes nas bóias das redes sociais, foi uma espécie de ensaio geral do apocalipse.

Ironicamente, a vulnerabilidade dos produtos oferecidos pelo senhor Zuckerberg veio à tona pouco depois de o Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida — ISPA — divulgar dados de uma investigação portuguesa sobre a solitude online. O instituto lisboeta acredita que quem passa muito tempo conectado à Internet se sente mais só.

O sentimento de solidão entre os jovens mantém-se, diz o estudo, mesmo quando o tempo que passam online não interfere (tanto [grifo meu]) com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa, o ISPA acrescenta ainda, pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas mediadas pelos aplicativos eletrônicos.

Com a inoperância parcial de Facebook e Instagram, muitos tiveram de recorrer aos caracteres do Twitter para compartilhar a própria fúria, o desespero, o tédio, o abandono — a solidão¹. Tinham perdido, mesmo que momentaneamente, as plataformas (os palcos de areia da pós-modernidade, como diria Jean Serroy) para se sentirem conectados. Perderam o norte.

Aqueles que respiraram fundo e preferiram aproveitar o caos para dar uma voltinha algures — e notaram que lá fora é onde tudo realmente acontece —, aqueles que depois de alguns minutos de inquietação perceberam que não é assim tão mal conversar com a vovó sobre «os velhos tempos», brincar com o Rex no jardim, ligar para um conhecido de longa data, marcar um café com o conhecido de longa data, de repente até refletir se é realmente necessário ter tantas redes sociais, aqueles que, por fim, esqueceram-se da coisa toda, esses podem ficar sossegadinhos: conseguirão sobreviver caso a sociedade como a conhecemos seja obrigada a se desconectar da Internet².

Ontem, foram apenas algumas horas de abstinência. Mas o suficiente para perceber que muitos não ficarão assim tão sossegadinhos quando a coisa for realmente séria³.

— P. R. Cunha


¹Os próprios técnicos de Facebook e Instagram tiveram de se pronunciar formalmente no Twitter.

²Penso, «grosso modo», nas erupções solares — que podem destruir satélites, danificar a infraestrutura energética e causar um apagão sem prazo de validade.

³A Bárbara Reis de Público, por exemplo, fartara-se do Facebook e escrevera um Coffee break muito pertinente a respeito. Pode-se lê-lo aqui.

Temporários

A obsessão dos maias pelo tempo levou-os a construir sofisticados observatórios para determinar estruturas de continuidade — padrões que hoje em dia, não sem um automatismo distraído, podem ser artificialmente especificados pelas entranhas de um qualquer relógio de pulso. Esses nativos americanos observavam com destreza o ambiente que os rodeava e assim procuravam estabelecer marcos que permitiriam análises importantes do tempo, ao qual sentiam-se submetidos. O império que olha para o céu e pergunta-se o que há para além, o que está a preencher os espaços vazios entre as estrelas, qual o propósito da vida.

Eles não apenas registravam com minuciosidade os intricados ciclos de corpos celestes, como também acreditavam que tinham por obrigação auxiliar o Sol, criador do mundo, a manter a fábrica do tempo funcionando. De facto, as origens dos sacrifícios humanos realizados por essa antiga civilização, sobre os quais a historiografia muito já discutiu, vêm justamente da vital necessidade de alimentar com sangue o insaciável apetite dessa entidade cronológica, que, como sabemos, antes de desaparecer ao abismo do horizonte veste-se de vermelho. Dia e noite, luz e trevas, um presente que a qualquer momento poderia deixar de ser. Os maias encaravam constantemente a possível morte de tudo e um dos maiores símbolos dessa reverência é a Pirâmide de Kukulkán (El Castillo), construída em alguma altura entre os séculos VIII e XII na antiga cidade de Chichén Itzá. Tudo ali remete aos caprichos do tempo: 91 degraus, quatro lados (4 x 91 = 364), mais um último degrau que leva ao cimo — 365. Eficiente calendário arquitetônico a representar as passagens, as jornadas tirânicas que ao fim e ao cabo arrastam tudo pelo caminho.

Incertezas sobre a continuidade ou não do mundo modificaram-se à medida que a humanidade desenvolveu para si equipamentos mais precisos que auxiliaram astrônomos na tarefa de desvendar alguns dos mais estranhos mistérios do cosmos. No entanto, a era do controle absoluto, do total entendimento desse rio que corre adiante e é feito de acontecimentos, como dissera Marco Aurélio, parece longe de se concretizar. A ciência moderna orgulha-se de possuir relógios que funcionam baseados nas propriedades do átomo, e mesmo esses quase infalíveis mecanismos não são capazes de explicar o que está a acontecer quando dizemos o tempo passa. 

O tempo, coisa estranha que não se deixa apanhar facilmente nas malhas do nosso intelecto — o foi e não é mais, o será e ainda não é — continua a intrigar deveras. Essa abstração que atravessa os séculos, que desafia o bom senso daqueles que tentam elaborar discurso coerentes a respeito dos chamados deslocamentos para o futuro desconhecido.

De acordo com a mitologia grega, Cronos seria o deus primordial do tempo, que rege todos os destinos e a tudo devora. Nascido de Gaia (Terra) e de Urano (Céu) — a quem, ainda segundo a lenda, Cronos destronaria com um certeiro golpe de foice. O caráter destrutivo dessa perturbadora divindade que casara-se com a irmã Reia é intensificado depois de os progenitores terem-lhe garantido que o seu destino era mesmo ser superado por um dos filhos.

O poeta Hesíodo conta em La Théogonie que o poderoso Cronos devorava sem piedade as próprias crianças mal elas saíam do ventre da mãe, com o único propósito de impedir que qualquer outro brilhante descendente do Céu obtivesse o privilégio de reinar sobre os Imortais. Conta-se que conseguira engolir todos, exceto Zeus, «substituído por uma pedra enrolada num pano, amparado pela enorme Terra e mantido em segurança na vasta Creta», bem longe da voraz ira paterna. Hesíodo explica ainda que, mais tarde, Zeus, seguindo os conselhos de Prudência, levara a Cronos uma certa substância laxante que o fizera primeiro vomitar a pedra que tinha engolido e, depois, uma a uma, todos os filhos que jaziam dentro daquela gulosa barriga. Com a ajuda dos irmãos libertados, Zeus — figura invencível e a quem as preocupações jamais o atormentavam — supera Cronos e despoja o furioso pai de todos os privilégios divinos.

Parece significativo que nas antigas narrativas gregas pais e filhos se relacionem amiúde de forma tão tempestuosa, vingativa, cada um a querer destronar o outro, sem nem ao menos importar-se com a possibilidade de jogar o adversário familiar às profundezas do mundo subterrâneo, cujo símbolo mitológico é representado por Érebo, descendente direto do Caos. A crer no mito, Caos — personificação do vazio, do abismo insondável — gerara sozinho as trevas: Érebo e Nix (Noite), que juntos se opõem à luz. O primeiro, especificamente, designa as trevas infernais, o crepúsculo. A descendência desse deus das obscuridades é imprecisa, mas especula-se que da união entre Érebo e Nix tenham surgido os elementos que, não por acaso, a literatura da psicologia moderna costuma associar às condições melancólicas: Phobos (medo), Mors (morte), Invidentia (inveja), Keres (miséria), Deimos (terror), e por aí adiante.

Olhar para o céu e questionar-se, portanto, sobre esse fluir dentro da eternidade, o surgir e o desvanecer das estrelas, do Sol, o amanhecer e o anoitecer — movimentos que trazem vida, levam à morte. Quando a espécie humana compreende que, em matéria de tempo, temos apenas um bilhete de ida, e que esse tempo raramente passa como gostaríamos, volta então as atenções para o longe, foge para o infinito repleto de matéria escura. 

Em agosto de 1877, o astrônomo Asaph Hall apontou para Marte o telescópio de vinte e seis polegadas do Observatório Naval dos Estados Unidos e ao cabo de grande esforço encontrara os objetos que há muito procurava. Os satélites naturais do Planeta Vermelho não eram luas grandes como a da Terra; na verdade, nem ao menos chegavam a ser arredondados — tinham um formato exótico, achatado, pareciam batatas descascadas por algum cozinheiro distraído.

É possível, no entanto, imaginar a euforia desse obstinado explorador cósmico ao descrever os últimos detalhes da própria descoberta, ruminando a respeito de como deveria batizar as luas marcianas. No topo de um diagrama caprichosamente elaborado numa folha amarelada está a palavra «Marte» seguida por esta lacônica descrição com letras cursivas: deus romano da guerra, da carnificina, da impulsividade. Embaixo, dois objetos amorfos representam as luas recém-descobertas, e, em destaque, pode-se finalmente ler os nomes escolhidos pelo astrônomo norte-americano: FOBOS e DEIMOS  irmãos gêmeos, anota Hall, que instigavam em campos de batalha a covardia e o pavor no coração dos inimigos.

O planeta da guerra com os seus pequenos guardiões da perturbação — e o inevitável destino desta excêntrica família de astros. Estudos posteriores constatariam que Deimos, a lua menor, está a se afastar do campo gravitacional de Marte, enquanto Fobos se aproxima cada vez mais da superfície. Deimos fugirá para uma longa e solitária jornada pelo cosmos; Fobos em rota de colisão com o planeta que lhe deu abrigo durante milhares de anos. Terror do abandono. Medo de se desintegrar. 

Marte agora é o patriarca autoritário que observa, espera, indiferente, o fardo agonizante dos seus súditos condenados há tempos.

— P. R. Cunha


Moons – from Mars

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte II

A miragem da felicidade

Os matemáticos gostam de dizer que nossas vidas são reguladas pelo acaso, que aquilo a que muitos chamam de «destino» não passa de um amontoado de coincidências aleatórias. O Universo, em uma palavra, joga o pôquer enquanto cérebros humanos tentam analisar dados, fazer sentido, criar sentidos. Mas sequer compreendemos adequadamente de que material são feitas as cartas do jogo, ou como se abre a fechadura desse gigantesco cassino cósmico que não para de se expandir lá fora. Daí a imagem — adequada, por sinal — do pária em busca do saber: figura desengonçada a tatear no escuro, entregue à frustração de tarefas que, se não se mostram inatingíveis, andam ali bem perto. 

Diante do túmulo do meu pai, imaginando se estava sendo observado ou não, dediquei-me a esses absurdos com certo afinco. Por exemplo. A última vez em que conversamos, ele me disse: ficarei ausente por uns meses. Ausente. Então ele entrou na própria camioneta marca Mitsubishi e partiu para o Rio Grande do Sul. No município de São José dos Ausentes, meu pai perdeu o controle do automóvel e caiu da ponte sobre o rio Silveira — sobrenome do meu avô materno, cuja lápide, como disse, não consegui encontrar no cemitério Campo da Esperança por motivos tecnológicos. Rio Silveira, São José dos Ausentes, coincidências que já bastariam para inquietar coração inclinado ao ocultismo, o que, importante que isso seja esclarecido o quanto antes, não é o meu caso — embora eu tenha me surpreendido sobremaneira com o fato de o veículo do meu pai ter sido registrado com a placa JHU-2407, números que de modo particularmente assustador coincidem com a data exata do desastre fatal (24/07).

Enquanto refletia sobre essas ocorrências caóticas sentia uma espécie de abatimento profundo, perguntando-me se eu mesmo continuava a existir. Lembrei-me que, duas semanas após a cerimônia de sepultamento do meu pai, li na versão inglesa do periódico «Aftenbladet» — cortesia de uma colega que à época trabalhava no consulado da Noruega — reportagem que mostrava através de gráficos estatísticos que boa parte das catástrofes automobilísticas na capital Oslo seria em verdade ato suicida dos motoristas envolvidos. Algumas tentativas, destacava de forma soturna o repórter do «Aftenbladet», eram mais bem encenadas do que outras. 

O médico legista iluminou os pálidos olhos do meu pai com uma pequena lanterna. As pupilas não se contraíram. Depois, verificou a artéria carótida no pescoço. Não pulsava. Aproximou-se do tórax, colocou o estetoscópio sobre o peito do cadáver: o coração, definitivamente, deixara de bater — papai morreu. Ao longo de três décadas meu pai ocupara-se de evitar a morte alheia, e, até onde sei, jamais imaginou a si mesmo deitado em cima da maca gelada do necrotério. Parece ser próprio da condição do médico não pensar nessas coisas. Afinal, médico resgata, não quer ser resgatado.

Das dezenas, centenas de telefonemas que atendi à medida que as pessoas recebiam a notícia do acidente, um deles ainda hoje me desassossega. Minha tia a dizer que aquilo tudo era difícil de engolir. Meu pai, segundo ela, era invencível, imortal. De início, reconheço, estas manifestações de pesar e condolência trouxeram-me certo alívio, mas isso durou pouco. No dia seguinte já me sentia invadido, saturado, aborrecido, cansado, enraivecido, queria que parassem de ligar, de dizer o quanto estavam tristes, enlutados, alguns soluçavam copiosamente, e tive mesmo de consolá-los, explicar-lhes que ficaria tudo bem. Depois eu desligava, tremendo, desejando fugir para nenhures.

Lembro de querer apenas uma cama, dormir durante meses. 

A cerimônia fúnebre é apenas o cimo do icebergue de uma conjuntura infinitamente mais complexa, hoje posso demonstrar isso com propriedade: reconhecimento do cadáver, transferência do corpo, escrever obituário para os jornais, tipo/tamanho do caixão, coroas de flores, cemitério, lidar com os parentes mais sensíveis, inventário, pendências de toda a natureza, herança, dívidas deixadas pelo morto, contas bancárias, advogados etcétera etcétera. 

Há pouco compareci ao funeral do primo de um grande amigo meu e, enquanto observava a família aos prantos perto do defunto, confesso com certa perversidade que a mim aquele choro não era apenas por conta da morte em si, mas também por tudo o que eles ainda teriam de passar depois dessa estranha etapa em que colocamos embaixo da terra um ser humano de nosso mais profundo apreço.

— P. R. Cunha