Sibipirunas

Quando sentimos medo, semioticamente a falar, é sempre de algo e/ou alguém: do crocodilo, da escuridão, do assaltante, do brinquedo de olhos abertos dentro do armário. Dos substantivos.

Se gostamos de certo filme, não apenas nos identificamos com os personagens, como, de muitas formas, tentamos emulá-los. Falamos como eles, agimos como eles, até mexemos nos nossos cabelos como eles.

«Todos os períodos parecem sofrer um ‘momento moderno’, ou seja, momento de crise em que se tornam auto-conscientes, em que dão-se conta de que são um período. O abismo fita o abismo, enquanto as referências históricas e culturais se desfazem», disse Paul de Man.

McAllister enforcou-se na praça central. Poucas horas depois, os primeiros raios solares atravessavam as brechas dos galhos das sibipirunas (Caesalpinia peltophoroides) e crianças brincavam de balançar com o cadáver. Se há defesa para a barbaridade dos miúdos é que, à distância, o corpo do McAllister lembrava mesmo um boneco estendido, uma piñata mexicana.

— P. R. Cunha

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