Advertência literária (uma parábola)

Depois de ter passado por muitas desventuras ao emprestar meus livros para outros seres humanos — e nunca mais ter visto as cores dos mesmos —, comecei a adotar drásticas medidas preventivas, à moda mosteiros da Idade Média. 

Na folha de rosto de todos os exemplares (principalmente nos meus Bernhards e nos meus Sebalds [tanto nos originais quanto nas traduções]) anotei isto:

Para aquele que roube, ou empreste e não mais devolva este livro a seu proprietário (a saber: P. R. Cunha), que se mude em serpente venenosa e sua mão o destrua; que se veja vítima de paralisia e se percam seus membros ou coisa ainda pior; que sofra dor à maravilha pedindo toda a sorte de mercês em altas vozes diabólicas e que não haja cessar para a sua desastrosa agonia até que cante dissoluto; que vermes lhe roam as entranhas como lembrança do Grande Verme que não morre, e que quando vá a seu final castigo, que as chamas do Inferno dos Ladrões de Livros o consumam para sempre.

Coincidência ou não, após inseridas essas pragas monásticas o número de «furtos» caíra, digamos, consideravelmente.

E que o amor possessivo pela leitura esteja sempre convosco.

— P. R. Cunha

3 opiniões sobre “Advertência literária (uma parábola)

  1. Que ideia maravilhosa! Eu perdi alguns bons livros emprestando para amigos. Mas, pecadora me confesso, esqueci-me de devolver 2 ou 3… Agora empresto sempre a fundo perdido, e raramente peço emprestado.

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