Acidental

O afoito e desajustado Raul está à portaria do apartamento de Milena. Ele segura um buquê de flores que colhera sem grandes pretensões no meio do caminho: conjunto amorfo de alamandas (Allamanda cathartica) e cinerárias (Senecio cruentus). No jantar de ontem, Raul mastigou qualquer coisa pontuda que arrancara-lhe um pedaço considerável do segundo pré-molar esquerdo. Ele olha para os dois lados da rua, aperta o botão do interfone, e com a ponta da língua começa a pressionar a cratera afiada do dente quebrado. O interfone faz então barulho de rádio sem frequência e uma voz feminina diz: é quem? É Raul, ele responde. A porta estala e se abre. Raul sobe.

— P. R. Cunha

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