A obra evolui em direções estranhas e imprevistas

Cansado de ser interrompido durante a fazenda do livro para lidar com sociabilidades, o escritor sonhava em adestrar dromedário para enviá-lo aos eventos que fora convidado em vez de comparecer pessoalmente.

Lançamentos de antologias, almoços familiares, rendez-vous na casa de um ex-colega de escola, leituras poéticas, festas de aniversário, casamentos, bienais, exposições fotográficas a preto e branco — dromedário estaria lá com a elegante corcova representando o escritor.

No alongado pescoço, o mamífero levaria uma plaquinha a dizer que:

«Dromedário frequenta o evento com se fosse o próprio escritor — por gentileza, trocar o uísque da praxe pelo bom e velho copo d’água.»

(Alguém [e o escritor ainda não pensara nisto com a devida seriedade] de certeza estaria por perto para auxiliar dromedário durante os pormenores fisiológicos.)

Em casa e sentindo-se menos culpado, o escritor daria prosseguimento ao próprio livro sem grandes percalços.

— P. R. Cunha

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