Ode aos cinzeiros

Incapaz de — como diria Stevenson — laborar em alguma atividade lucrativa com um zelo próximo do entusiasmo (a obrigação do acúmulo, etc.), rapaz confessa ao avô que quer escrever literatura.

O avô acende o cigarro, esfrega os olhos, está ficando cego, tem diabetes mellitus.

Há o célebre caso daquele empresário da cidade que queria tanto ser rico que quando percebera o primeiro milhão de US dollar na própria conta bancária não aguentara de entusiasmo e tivera uma taquicardia ventricular. O dinheiro, ao que parece, foi mais que o suficiente para arcar com os custos da funerária. 

Tinha 34 anos, o póstumo milionário.

É sem dúvida doloroso esperar por determinadas conquistas, trabalhar, abdicar-se, anular-se, para ao fim e ao cabo encontrar indiferenças ao próprio êxito, ou pior: a capa escura e reluzente da senhorita Morte.

O avô tateia a mesa à procura de alguma coisa e pergunta ao rapaz: queres mesmo ser escritor? O rapaz balança a cabeça para-cima-e-para-baixo. O avô finalmente encontra o cinzeiro e levanta-o com a mão direita: então escreve um poema para isto aqui, e se a indiferença do cinzeiro, a frieza glaciar do cinzeiro, se a total mudez do cinzeiro não te enlouquecer, saberás que fizeste a escolha apropriada.

— P. R. Cunha

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