Preparação literária em hipóteses (parte II)

Ao simplificarmos a equação: (escritor = pessoa que escreve), percebemos as multiplicações de categorias relacionadas. Há quem escreva por hobby, para um desabafo terapêutico, há quem escreva ficção, outros preferem material biográfico, história, sociologia, antropologia etc. etc.

Há também os que, por motivos variados, não conseguem/podem escrever, e os que podem/conseguem escrever mas se sentem muito culpados por isso — eu cá tenho tempo, disposição, estabilidade para me dedicar à literatura, enquanto outros tantos não têm esse mesmo, digamos, «luxo».

O mundo do lado de fora pode ser perverso e hostil. Se a pessoa que escreve não conseguir desenvolver certos mecanismos de defesa, terá de lidar com crises paradoxais.

O escritor que para de escrever (primordialmente) para si mesmo e começa a trabalhar para os leitores, para abraçar o planeta inteiro, para resolver os defeitos sociais, desapontar-se-á. «Não era bem isso o que eu estava esperando», diz-se.

Acontece que todas as dificuldades internas e externas acompanham o nômade durante a viagem. A jornada por si só não é uma fuga ou um antídoto contra os transtornos de ninguém. No decorrer do percurso, novos desafios surgirão, coisas que nunca imaginávamos que pudessem acontecer irão acontecer. 

A vida não deixa de existir só porque viajamos.

E o escritor é uma espécie de viajante.

Alguns gostam de acreditar que o escritor leva a melhor existência possível. E se a pessoa que escreve deixar-se iludir pela miragem da bonança, ela dará entrevistas, ou apresentar-se-á num encontro literário com discursos românticos sobre como escrever é uma prática apenas prazerosa, edificante, sem efeitos colaterais.

Mas um médico que resolvera fazer medicina para salvar a vida das pessoas cedo ou tarde precisará de encarar a morte, o paciente que não vai se recuperar, o fracasso.

São acordos tácitos que assinamos enquanto temos os pulmões a respirar, o cérebro funcionando, o coração a bater.

— P. R. Cunha

2 opiniões sobre “Preparação literária em hipóteses (parte II)

  1. Yo escribo por afición, pero creo que la profesión de escritor debe ser muy complicada y sujeta a un montón de condicionantes. Por eso admiro a los escritores, no solo por sus letras sino por su dedicación también.
    Un abrazo.

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