Preparação literária em hipóteses (parte I)

Monólogo sem fins doutrinadores apresentado aos alunos de escrita criativa (turma do primeiro semestre de 2020).


A verdade é que, como já foi dito, não existe receita infalível para se começar a escrever literatura. Cada um terá de decidir por si mesmo quais ingredientes servem e quais precisam de ser descartados. 

Somos esponjas adiposas que absorvem (às vezes por osmose) uma variedade absurda de informações e numa altura devemos selecioná-las com esmero. 

Aqui o método tentativa-e-erro vem bem a calhar.

Estudos neurológicos demonstram que o cérebro humano tem certa predileção por repetições. Elas ajudam a economizar energia encefálica. Talvez seja por isso que pessoas criativas tenham hábitos de trabalho rotineiros. É uma forma de dizer aos neurônios: certo, sabemos do que se trata, vamos logo ao que interessa.

Alguns preferem chamar isso de «modo automático».

Antes de escrever, preparo o meu café e certifico-me se estou a usar a mesma chávena de sempre. A folha de papel precisa de estar posicionada mais ou menos no mesmo quadrante da mesa. As canetas (azul, vermelha, preta e verde) descansam por perto. Se estou relaxado, coloco o jazz e as palavras como que dançam sobre a superfície embranquecida da página.

Haruki Murakami gosta de se perder enquanto corredor de fundo. Caminha durante horas. Prepara o corpo, prepara o próximo romance.

O tabaco matinal era o gatilho de escritores como Clarice Lispector, Bowles, Patricia Highsmith, Onetti, Beckett, Beauvoir, Sontag.

O dramaturgo Tom Stoppard gosta de assistir a filmes de terror antes de trabalhar.

John Cheever gritava impropérios para toda a vizinhança ouvir.

Arthur Miller entregava-se à imagem de um homem andando com barra de ferro na mão durante tempestade com relâmpagos.

Benjamin Britten tomava banhos frios.

São caprichos curiosos, até um bocadinho extravagantes, mas absolutamente praticáveis. Importante manter a simplicidade nos hábitos, pois, como escrevera um antigo, «nunca se sabe o dia de amanhã». A nossa realidade é escrava da entropia, tudo se encaminha à desordem. Se adotamos rotinas complexas, algo de estranho pode (e vai) acontecer no meio do caminho e não conseguiremos mantê-las da maneira como imaginávamos.

Estabelecer contextos adequados às divagações — quando a mente se perde ao longe, e tudo parece fluir como mágica. Mas não é mágica, é treino. E sossego. E, sabemos, o maior inimigo do sossego são os meios de comunicação portáteis: telemóveis, computadores, relógios conectados à rede… a lista é enorme.

Sentamo-nos para escrever. O telefone toca. Tudo está perdido, acreditem. Quando percebemos a tolice que acabamos de cometer, lá se foram preciosas horas de trabalho contínuo.

— P. R. Cunha

2 opiniões sobre “Preparação literária em hipóteses (parte I)

  1. Gosto do método do Murakami (gostaria de ter a mesma disposição). Já leu Do que eu falo quando falo de corrida? é interessante. Mas eu adotei a rotina do café, como você, quando escrevia com regularidade. Hoje surge uma ideia de repente, então saio correndo atrás de papel e caneta ou computador ou celular (qualquer lugar para anotar; não confio muito em minha memória..). Chega a ser engraçado de ver. Hoje mesmo veio a frase, mas era muito cedo. Adormeci por mais meia hora, e despertei num pulo para escrever. Eis o medo de perder as palavras…!! Acho que preciso voltar ao café na mesma xícara de sempre, sentar com a mesa arrumada (não o caos em que se encontra agora), o caderno e as canetas.. Quem sabe amanhã…

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