Fases da Lua

Tu levantas, andas pelo quarto, o relógio analógico vermelho faz tic-tac-tic-tac, tu tiras alguns livros da prateleira, continuas a andar pelo quarto, com livros na mão, tu não sabes o que fazer com esses livros, os livros não poderiam te ajudar agora, não queres ler livro nenhum, não sabes mesmo por que diabos tiraste esses livros da prateleira, os livros naturalmente te pesam imenso enquanto perambulas inquieto pelo quarto, tic-tac-tic-tac, relógio analógico vermelho, relógio de corda, estilo retrô, com duas sinetinhas para o alarme, tu jogas os livros na cama, tu acendes mais um cigarro, caminhas até ao frigobar, abres outra garrafa, o barulho da cidade te incomoda, o ruído mecânico do frigobar também te incomoda, tu não tens para onde fugir, o cigarro não te causa mais efeito, a bebida não te causa mais efeito, a música de Max Richter não te causa mais efeito, a vista começa a embaçar, a vista se contrai, afunila-se, as cinzas do cigarro agora se esparramam pelo tapete, tu não dás a mínima para as cinzas do cigarro, nem para o tapete, nem para nada, tu estás com frio, abres a porta do armário, vestes o casaco, o casaco marrom te esquenta por alguns minutos, mas logo tu sentes frio de novo, um frio que penetra os teus ossos, outro cigarro, outra bebida, a angústia que ultrapassa as tuas fronteiras, a angústia a conquistar cada molécula do teu corpo, a angústia é megera, implacável, chega em ondas, outro cigarro, céus!, outro cigarro, mais cinzas para o tapete, a tua cabeça não te obedece, a tua cabeça rodopia, a tua cabeça é um enorme balão, balão com hélio, expande, retrai, cabeça, na rua dois gatos começam a brigar, tu consegues ver os gatos irascíveis pela moldura da tua janela, as garras dos felinos se ameaçam, territorialistas, um dos gatos parece ser mais agressivo do que o outro, um gato na defensiva, outro gato na ofensiva, alguém lá fora grita qualquer coisa incompreensível, os gatos também gritam, a vizinha também grita, os automóveis também gritam, Vênus brilha perto da Lua em quarto crescente, tu estás a ter um colapso.

— P. R. Cunha


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