Baile de máscaras

Quarentenas fazem lá os miolos humanos em frangalhos.

Túlio sente falta do cafezinho matinal com Letícia, Letícia sente falta do almoço com Mateus, Mateus sente falta das reuniões com Luana, que sente falta de caminhar no parque sem ser incomodada por polícia destemido ou por objetos voadores parcamente identificados.

Mas a coisa toda não fica assim tão insuportável se a pessoa porventura decidir utilizar determinadas adversidades como fontes/gatilhos de experimentos psicológicos.

(E antes de ser atormentado[a] pela culpa [ora!, humanos como amostras de laboratório], lembre-se que a ciência tem feito isso com a nossa espécie há séculos e poucos parecem se incomodar. De forma que, não hesite: siga em frente.)

Flávia casara-se com Fernando. O casamento teve as promessas da praxe: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza. Veio a quarentena e ambos tiveram de colocar essas construções narrativas em prática.

Flávia agora tem tempo o suficiente para analisar Fernando. Vice-versa.

Tudo se passava relativamente bem enquanto os dois podiam fugir para os próprios afazeres trabalhistas, e voltavam tarde para casa, e não precisavam de, como se diz, conviver.

Com a quarentena é outra coisa.

Flávia percebe que Fernando passa horas de mais diante do telemóvel, Fernando não suporta o tipo de música que Flávia escuta; Flávia odeia a maneira que Fernando assoa o nariz no banho, Fernando fica possesso quando Flávia joga a toalha molhada em cima da cama; Fernando quer assistir aos filmes, Flávia às séries; Fernando adora Big Brother, Flávia odeia Big Brother; a comida dele é sem sal, o bolo dela fica muito doce; a louça se acumula, o lixo se acumula, o fantasma do arrependimento se apresenta.

Flávia pergunta-se com cada vez mais frequência onde estava com a cabeça quando disse «sim» diante de todas aquelas testemunhas familiares. Fernando alivia-se por não ter feito nenhuma divisão de bens.

Eles agora entram no modo: precisamos de fazer esta coisa funcionar, do contrário, o que pensarão da gente? Afinal, não querem ser vistos como dois fracassados, como dois irresponsáveis que fizeram as promessas da praxe e não deram conta de cumpri-las.

«A quarentena logo passa e tudo voltará ao normal», enganam-se mutuamente.

Fernando hoje vai dormir no sofá.

— P. R. Cunha

2 opiniões sobre “Baile de máscaras

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