Por um distanciamento literário

Não há — ou pelo menos não deveria haver — receita de como se apreciar livros.

Alguns preferem a leitura inspecional, outros demoram meses em determinado capítulo, alguns tomam notas, outros só querem se distrair. Os estudiosos, os que estão à procura de lazer, os que leem para se descrever depois. Mistério, romance, suspense, ficção científica, filosofia, variedades, banda desenhada, biografia, história. Na praia, na aeronave, em casa, na biblioteca, no chacoalhar do autocarro, enquanto se espera o metropolitano na estação.

Numa saudável metamorfose esses hábitos se misturam e se multiplicam e se contradizem e se adequam a contextos específicos.

Neste processo adaptativo parece-me essencial o respeito pela inteligência do leitor. A leitura é lá uma atividade dinâmica, ativa. Quem lê participa, destrói, constrói, recria, nega, confirma. 

Ler como forma de entretenimento/aprendizagem que envolve o imaginário (i.e.: fantasia) de quem está diante das palavras.

Uma das grandes satisfações da leitura parece ser aquela sensação de posse que o leitor por vezes sente enquanto domina determinada obra. Certos trechos nos fazem pensar: céus!, gostava tanto de ter escrito isso.

E talvez essa posse seja mais provável se existir discrição durante o ato da leitura. O autor (e, principalmente, o tradutor) como que se retira do palco, o teatro de possibilidades pertence agora aos leitores, que adequarão as cenas a seu, como se diz, bel-prazer.

Em 2005, quando pela primeira vez me deparei com a obra de W. G. Sebald — o meu escritor favorito — ele já estava morto há quatro anos. As páginas com voz fantasmagórica ofereciam-me uma experiência paradoxalmente revigorante. 

Era mais do que um simples diálogo, era uma espécie de psicografia agnóstica.

Algo parecido me ocorre ao ler Carver, Maupassant, Lima Barreto, Orwell, Sérgio Porto, Calvino, Montaigne, Bernhard, Lovecraft, Burton, Sterne, Cervantes… São conversas secretas, fazemos parte de uma confraria metafísica, longe do escrutínio de toda a gente.

Nesta altura poderiam me perguntar se só consigo ler escritores que já morreram.

Minha maior dificuldade com a literatura contemporânea é o culto à exposição. Isto, aliás, valeria para qualquer outro tipo de atividade criativa.

Meu avô costumava dizer que gostava imenso de Pink Floyd porque não fazia a ideia de como era a vida íntima dos integrantes da banda. Havia qualquer coisa de misterioso nisso. Para o meu avô, as letras, os acordes, a atmosfera onírica dos Floyds eram elementos quase mágicos que surgiam após longos invernos introspectivos. Os álbuns eram o produto dessa fuga (vide Atom heart mother).

Diante das exigências mercadológicas, os escritores precisam de vender. Precisam de estar em toda a parte, fazer palestras, realizar aquelas enfadonhas e disparatadas leituras públicas, e, alas!, precisam de se manifestar em redes sociais.

As redes sociais cibernéticas são a ceifa da literatura, isso é certinho.

Observar escritores no Twitter, no Facebook, no Instagram, brigando, babando, xingando, discutindo, ignorando e sendo ignorados é como assistir a um freak show sem pé nem cabeça.

Restam os autores discretos que não atenderam ao imediatismo das participações digitais, os resistentes. Ou os mortos, que não têm Twitter.

Sim, não deveria haver receita de como se apreciar livros. Mas a privacidade, as idealizações fantásticas, a reserva, a ausência de ruídos externos, o distanciamento saudável são ingredientes dos quais muitos ainda sentem falta ao degustar um pedacinho da torta literária.

— P. R. Cunha

2 opiniões sobre “Por um distanciamento literário

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