Sr. Anselmo – parte 10

Em situações saturadas de paranoia muitas pessoas sentem medo e não suportam perceber que outros não sentem medo nenhum. Os que têm medo exigem que todos sigam as mesmas regras, que compartilhem o mesmo pânico, a mesma paralisia, o mesmo pavor de morte, como se os espelhos quebrados justificassem o próprio sofrimento. Os que têm medo parecem não conseguir compreender que alguns simplesmente aceitam o absurdo da situação, que alguns não lutam contra a insignificância humana — «se for assim o futuro, prefiro nem lá chegar», etc. —, que alguns não dão a mínima, indiferentes, continuam a própria vida sem grandes expectativas. Sim, a verdade é que as pessoas que sentem um medo patológico nutrem ojeriza insuportável por aqueles que não se importam tanto assim, por aqueles que preferem abraçar o absurdo e de uma maneira libertadora compreendem que tudo é caos, mudança, vazio — escreve o sr. Anselmo enquanto tenta acender o charuto.

— P. R. Cunha

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