A luz

O homem que mora dentro do farol marítimo a viver uma silenciosa, sedentária e solitária existência consigo mesmo, a ler vasta biblioteca de estudos oceânicos, a apontar a lente do monóculo aos barcos que vão-e-vêm, ou mesmo às estrelas, às crateras da Lua — que oferecem-lhe à noite uma pontada sutil no coração —, possui pouco, possui muito, possui o bastante, não deve nada a ninguém, não tem filhos para sustentar, esposa para agradecer, um mero espectador, como diria um antigo, sim, o homem que mora dentro do farol marítimo, um mero espectador dos infortúnios dos seres humanos, das aventuras, desventuras, de toda a gente, como agem, agiram, como devem agir, como devem seguir as ordens, como devem ler o noticiário, os rumores de guerras, de pragas, incêndios, inundações, assaltos, pandemias, bombas, assassinatos, massacres, meteoros, cometas, fantasmas, prodígios, cidades sitiadas, moradores trancafiados, gritos, denúncias, vigilâncias, tempos tempestuosos, tempos de vírus, piratarias, navios afundados, histeria, inimigos imaginários, prédios abandonados, alarmes falsos, ambulâncias, confusão, contradições, desejos, sirenes, ações, forças armadas, petições, processos, leis, proclamações, novas capas de jornais a cada manhã, novos panfletos, ataques, dores, lágrimas, mentiras, aproveitadores, manipulações, tropas de choque, opiniões, achismos, ódio, filosofias controvérsias, direitos, novos paradigmas, soluções, etc., casamentos cancelados, famílias enjauladas, parques vazios, praias vazias, funerais vazios, drones, bailes vazios, cremação, morte de príncipes, princesas, plebeus, traições, vacinas, roubalheiras, troféus, mentiras, bandidos, medalhas, retrospectivas, novas descobertas, velhas curas, outras doenças, futuros presidentes, outros governos, homens depostos, mulheres depostas, as devidas honrarias, o dinheiro, os bancos, o robô, os créditos, as empresas, os hospitais, a inteligência artificial, os interesses, e, de novo, as mortes, os números, as mortes, os gráficos, os casos, as causas, as mortes, as simulações, os famintos, os dados, as mortes, os ricos, os que precisam, os que nunca precisaram, as risadas, as brincadeiras, o choro, o tédio, o nada.

— P. R. Cunha

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